Ella DominiciImagem criada pela IA do Bing – 08 de maio de 2026, às 9h15
A carne não é triste; é translúcida demais. Leu-se o mundo até que as páginas perderam peso e restou apenas o brilho nu entre uma palavra e outra, como se o sentido tivesse migrado para o intervalo. Algo chama — não o mar visível, mas o rumor que antecede a onda, a vibração que percorre o vidro antes da fratura.
Há um cristal no centro do peito: não é pedra, é memória suspensa, luz coagida em forma. Quando a brisa o atravessa, não sopra — fende. E os fragmentos não caem; flutuam, cada estilhaço guardando um rosto incompleto, um gesto repetido, uma infância que ainda não terminou de acordar.
Não se foge da transparência; ela persegue. O navio é interno, feito de nervuras frágeis, e suas velas são silêncios estendidos sobre o abismo. Parte-se sem mover-se. O cristal, perplexo, não sabe se é ferida ou revelação. Mas quando a luz insiste — branca, impiedosa — compreende que não é o golpe que o quebra, e sim o excesso de claridade.
Então canta. Não som: refração. E no canto invisível do vidro algo se recompõe sem retornar ao que era. O mar não aparece; apenas pulsa dentro da transparência. E o coração, entre um estilhaço e outro, aprende a permanecer.
Paulo Siuves“…Pois sabemos que, ao fim, nos teus braços, seremos todos iguais, todos silenciosos, todos eternos na tua fúria serena.” Imagem criada pela IA do Bing
Ah, Morte, és tu a eterna sombra que percorre as trilhas da vida! Na imensidão do viver, és o ponto final que a todos iguala. És a grande fúria do mundo, a inevitável tempestade que varre os sonhos e as esperanças, deixando atrás de ti o silêncio frio do vazio.
Tu, que decides o fim de todas as jornadas, vens com teu manto negro e teus olhos sem vida, apagando a chama da existência. Teu toque é gelado, arrepiando os vivos, teu abraço é a morada derradeira que a todos acolhe sem distinção. És a irmã sombria da vida, a companheira inseparável do tempo, que caminha ao lado dos mortais, lembrando-lhes constantemente da finitude de seus dias.
Em cada pôr do sol, no declínio das horas, vejo teu reflexo, Morte, na agonia dos últimos raios de luz. És a consumação de todos os momentos, o suspiro final que nos arranca da carne e nos devolve ao pó. Nos teus braços, acabam as dores e as delícias, acabam as lutas e as conquistas, e resta apenas o silêncio impenetrável do nada.
Oh, grande fúria do mundo, tua presença é um paradoxo cruel. És temida e desejada, repudiada e acolhida. No teu seio os cansados descansam, os atormentados encontram paz. Mas, ao mesmo tempo, és o terror dos corações, o fantasma que assombra os sonhos, a certeza que corrói a alma.
Tu, Morte, és a revelação do efêmero. Em teu nome, o homem constrói monumentos e cria memórias, na vã tentativa de se perpetuar além de ti. És o espelho em que se refletem todas as vaidades, a prova de que, diante de ti, somos todos frágeis, todos perecíveis.
No entanto, há quem te veja como a libertação suprema, o fim das amarras da existência. És a porta para o desconhecido, o portal para o infinito. Na tua escuridão, há quem encontre a luz, na tua ausência, há quem encontre a plenitude.
Ah, Morte, grande fúria do mundo, és o dilema insolúvel da vida. Na tua sombra, somos chamados a viver intensamente, a amar com urgência, a sonhar sem limites. És a adversária que nos impulsiona, a força que nos desafia a encontrar significado no breve lampejo de nossa existência.
E assim, enquanto caminhamos na tua direção inevitável, tentamos, em cada passo, fazer valer a jornada. Pois sabemos que, ao fim, nos teus braços, seremos todos iguais, todos silenciosos, todos eternos na tua fúria serena.