A confissão da prostituta I
Ramos António Amine
Poema ‘A confissão da prostituta’ I


Ela ajoelhou-se não por fé,
mas por cansaço.
Por ser usada e depois descartada.
Por ser julgada em voz alta
e desejada em silêncio.
O confessionário estava vazio,
mas ainda cheirava a incenso velho
e a promessas repetidas da segunda vinda.
Do outro lado da madeira
havia silêncios e o olhar D’quele
que foi pendurado há séculos
em nome da redenção
da hipocrisia.
Ela falou mesmo assim.
Falou dos nomes dos seus clientes,
dos que a rejeitam ao amanhecer,
mas a procuram ao entardecer;
das mãos que a desejam
e depois fingem não conhecê-la.
Confessou os silêncios.
Confessou as posições.
Confessou a impotência.
Confessou os estimulantes.
Confessou os tamanhos.
Confessou quando os viu
e escolheu não reclamar;
quando reclamou
e se lembrou dos filhos;
quando poderia ter gritado
e preferiu o gemido;
e quando podia partir,
mas escolheu ficar.
Esperou a absolvição
como quem espera um eco.
Nada voltou.
Afinal,
o confessionário
estava órfão de ouvidos.
Nenhuma penitência.
Nenhuma palavra.
Nenhuma mentira reconfortante.
Foi então que entendeu:
Deus não estava ausente;
o mundo é que aprendeu
a replicar esse silêncio
e já não escuta
o ruído das almas caídas.
Levantou-se sem perdão,
carregando a culpa inteira
e a promessa
de nunca mais voltar
ao prostíbulo.
E saiu.
Ainda pecadora.
Mas desperta
dos silêncios amargos.