2026 – Parte 1 e 2

Uma leitura sensível do poema ‘2026 – Parte 1 e 2’, que celebra a passagem do tempo, a lealdade dos animais e a força da esperança

Jane Nash
Jane Nash
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Janeiro, com seu frio amargo, anuncia despedidas sem arrependimentos
Fevereiro inunda você e a mim de sensações
Março, reparando os estragos deixados pelos ciclones
Abril, enviarei mais histórias, boas histórias
Maio, o velho cão completa 13 anos, mais um ano juntos
Junho, meus amigos chegam do sul para me alimentar
Julho, um retiro frugal de uma artista, em antecipação a
Agosto, um reencontro tão doce, tão profundo
Setembro, na esperança de publicação
Outubro, escapamos para festivais e canções
Novembro, o velho cão ainda late
Dezembro, diferente do ano passado, passaremos juntos

2026 — PARTE 2

Quando me perguntaram o que eu esperava,
ocorreu-me que as cacatuas-negras estavam diminuindo em número.
Embora desfolhem as árvores, estão desaparecendo.
Espero uma aquarela de sua magnificência,
de sua natureza e de seu porte.

Quando me perguntaram o que eu esperava,
percebi que a blue heeler completará treze anos,
aposentada de seu trabalho de assistência,
com a visão enfraquecendo.
Será que ela ainda conseguirá me ver?

Quando me perguntaram o que eu esperava,
notei o quanto as crianças haviam crescido rapidamente.
Os aniversários voltam a chegar.
A música mudou do meu tempo para este tempo.
Olho-me no espelho e vejo mais linhas surgindo.

Quando me perguntaram o que eu esperava,
a esperança saltou à vista.
O câncer foi mantido afastado, o sucesso floresceu,
os entes queridos jamais serão esquecidos,
e eu e você, ainda juntos.

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O velho e a mitral

Eduardo Cesario-Martínez: Conto

‘O velho e a mitral’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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 Apesar de não me sentir tão velho, a maioria das pessoas costuma colocar um senhor logo antes do meu nome. E não pense você que possuo posição social de destaque. É verdade que também não preciso contar os vinténs no final do mês, isto é, desde que não surja algum imprevisto ou, porventura, eu resolva extrapolar o orçamento por conta de certas extravagâncias. Por sorte, gente da minha idade geralmente as usufruiu quase todas há tempos. 

    Como deve ter percebido, já passei dos 60. Para ser preciso, completei 67 no último julho. Devo confessar que, há muito, abomino meus aniversários. Não por conta do avançar da idade, mas porque todos, invariavelmente, acontecem no mesmo dia do mês mais frio do ano por aqui onde moro. Minhas carnes, antes firmes, agora não suportam mais os rigorosos invernos que cismam em chegar praticamente na mesma época.

    Além do clima, outro desconforto me tomou nos últimos dias. Não sei se essa é a palavra adequada, mesmo porque, até aquele exato momento, havia suportado, certamente a contragosto, todos os invernos, por mais rigorosos que fossem. Todavia, desde então, algo tem me tirado o sono e me enchido de pesadelos. É que tive meu primeiro encontro com a morte.

    Calma, que explico antes que você se aborreça e me deixe aqui falando sozinho. Isso é até compreensível, já que não seria o primeiro a fazê-lo. Entretanto, peço-lhe um pouco de paciência com este velho. Prometo ser breve, como breves foram os anos que passaram diante dos meus olhos. Como deveria tê-los aproveitado melhor!

    Fui ao médico no início da semana. Exames de rotina, nada mais. Faço-os quase anualmente. Não porque seja tão preocupado com a saúde, que, é certo, me fez companhia durante décadas. Eu, que pensava que tínhamos uma relação harmoniosa, fui pego de surpresa quando o cardiologista me abriu os olhos para um problema em uma das válvulas do coração. Mitral. Pois é esse o nome da dita cuja, que, a essa altura da vida, resolveu me trair. E eu, ingênuo até aquele momento, nunca havia desconfiado. Ela agiu sorrateiramente.

    — Doutor, é grave?

    — Não muito, mas requer cirurgia o mais breve possível.

    — É arriscado?

    — Não se preocupe com isso. Já operei diversos casos até piores do que o seu.

    — Então, posso ficar tranquilo?

   — Certamente, mas, como diz aquele ditado, o seguro morreu de velho. Melhor apressar o testamento.

    Que todos vamos morrer um dia, sempre soube.  No entanto, quando a morte se aproxima de maneira tão sutil, nos pega desprevenidos. Seja como for, já decidi que não farei testamento. Que os herdeiros se engalfinhem pelas migalhas!

Eduardo Cesario-Martínez

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Espelho

Sergio Diniz da Costa: Poema ‘Espelho’

Sergio Diniz
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Quando o tempo tatuar meu corpo
Com as rugas da idade
E o espelho refletir minha imagem
Tão estranha aos ares da mocidade
O que verão meus olhos cansados?
Uma vítrea personagem sem alma
Dublando um resto de vida?
Uma alma esculpida em bronze
Afrontando, sobranceira,
O inevitável Mistério?

As linhas tão profundas
Sulcando minha matéria frágil
Aumentarão a luz
De minha candeia íntima
Transformando minh’alma
Prenhe de liberdade
Num candeeiro sem fim?

Ó Tempo, eterno coletor de débitos!
Que me cobrará teu aguçado desígnio?

Quando o Tempo tatuar meu corpo
Com as rugas da idade
E minha imagem diluída no espelho
Perder o alento de quem se mira
Indagarei aos anos idos:
Que espectro me reveste o presente:
Anjo ou demônio?

Quando o Tempo tatuar meu corpo
Com as rugas da idade
E no espelho não houver imagem
Que me cobrará a Vida?
Com que peso ou leveza
A Pena da Eternidade
Lavrará minha sentença?

Sergio Diniz da Costa

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