Uma fuga austera
Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi: quando a sombra se liberta do peso do ‘Eu’


Minha sombra me deixa na calçada
e caminha sozinha
pela rua em frente a mim.
Ela escapa de dentro de mim,
dos recônditos ocultos da alma,
onde o não dito encontra uma voz
sobre minha língua.
Ela não precisa de sapatos,
nem de guarda-chuva,
nem de cigarros…
Nunca verifica os bolsos
como eu faço.
Atravessa no sinal vermelho,
indiferente aos carros que passam
ou às vitrines das lojas.
Cumprimenta as lojas
pelas quais já não ouso passar,
e sorri para os transeuntes
que conheço pelo nome.
Quando vê um rosto desconhecido
vestindo exatamente as roupas que eu visto,
desaparece atrás
de uma placa abandonada.
Retoma sua caminhada
ao perceber que
não fui eu quem a viu,
como se para sempre
estivesse fugindo do meu corpo,
cujos passos se tornaram pesados,
e somente ela conseguisse libertar-se
de um nome chamado “Eu”.