Na Terra da Asa Branca

Virgínia assunção:

‘Na Terra da Asa Branca- Uma bricolagem literária com Luiz Gonzaga’

Virgínia Assunção
Virgínia Assunção
Imagem criada por IA do Bing - 16 de junho de 2025,  às 18:20 PM
Imagem criada por IA do Bing – 16 de junho de 2025,
às 18:20 PM

Naquela tarde, quando “a asa branca bateu asas do sertão”, seu Luiz já sabia: era dia de arrastar o pé. A sanfona gemia no canto da sala, chamando feito menino pidão. E lá vinha ele, chapéu de couro, olhar matuto e um sorriso que dizia mais que mil palavras: “Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo…”

A vizinhança já se ajuntava na frente da casa. Dona Maria vinha rindo com o vestido de chita novo, florido, toda faceira:
— Hoje tem forró, seu Luiz?
— Tem sim, sinhá! “Simbora, sanfoneiro, bota o fole pra chiar!” Vem cá cintura fina, cintura de pilão, porque tá é danado de bom.“

E assim começava a festança. No terreiro, o pó da estrada dançava com o povo. “Qui nem giló” era só no prato, porque tristeza ali não entrava. Até a moça mais enfezadinha, aquela da cidade grande, soltou um “eu só quero um xodó, que alegre o meu viver”, e foi logo rodando com Zé da Cacimba.

“Respeita Januário!” — gritou alguém, quando o sanfoneiro tentou improvisar demais. O velho Januário, pai de Luiz, só olhou e sorriu de canto, como quem diz:
“Esse menino vai longe…”

E foi.

No meio da dança, Luiz contava causos, misturando histórias com versos:
“Seu doutor, uma esmola pra um homem que é são…”
“Mas seu Luiz, isso é música ou apelo?”
— “É só verdade, compade.”

O sanfoneiro mudou o tom e puxou um baião:
— “Eu vou mostrar pra vocês como se dança o baião… meu amor não vá simbora,
fique mais um bucadinho, vamo dançar mais um tiquinho?
E não é que até o padre entrou na roda, de batina e tudo?

A Lua subia no céu de festa, e o povo cantava junto: — “A vida do viajante é andar por esse mundo de meu Deus…” Mas ali ninguém queria partir. Cada música era um abraço. Cada riso, um retrato de um
Brasil que dança mesmo com a dor no coração, ao som do rei do baião… tem pena d’eu…

Teve menino cantando “Xote das meninas”, teve vó que se lembrou do tempo em que dançava “Assum Preto” agarradinha.
— “Lá vai a marruá…” — gritou um dos netos, correndo com o cachorro atrás.

O forró seguia firme, sem hora pra acabar. “O que me enche o coração é o olhar
dessa moreninha, meus amô!“
Até que seu Luiz, cansado de tanto fole e suor, sentou
na cadeira de palha e disse:
“Oia eu aqui de novo…”
— “Vai embora não, seu Luiz!”
— “Mas já? Ainda tem “Pau de Arara”
pra cantar!

E assim, entre um xote e um chamego, “um se deita em meu cangote”, um “pedi pra São João antigo trazer mais alegria, tinha tanta poesia, amor e animação”, no São João do passado, a noite virou poesia viva. Seu Luiz sorria, e no seu sorriso cabia o sertão inteiro — com seca, com festa, com fé.

Na despedida, ele ainda cantou baixinho:
— “Se a gente lembra só por lembrar do amor que a gente um dia perdeu…”
E o povo respondeu em coro:
— “Saudade inté que assim é bom, pro cabra se convencer que é feliz sem saber…”

Foi-se a festa, mas ficou no ar o cheiro do baião, o som do fole e a certeza de que, enquanto houver sanfona e o coração de um nordestino batendo, Luiz Gonzaga nunca vai embora de verdade.

Virgínia Assunção




O ‘São João’ de minha infância

Evani Rocha: ‘O ‘São João’ de minha infância

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada pela IA do Gencraft
Imagem criada pela IA do Gencraft

Hoje é dia vinte e quatro. Nuvens passam espalhadas no céu, como fiapos brancos de algodão, num fundo, azul profundo, me dizendo que é céu de junho.

Meu coração bate calmo e leva-me a um tempo distante, sinto saudades da infância na época de São João. Posso até me ver menina: magrinha e serelepe, correndo descalça pelo terreiro; e os adultos batendo papo, em volta da fogueira.

Criança não quer saber de conversa de gente grande. Nós queríamos mesmo era acender gravetos e sair iluminando os trieiros no meio do campo, atrás das casas, nos quintais…

Recordo-me das batatas-doces assadas na brasa da fogueira e dos foguetes que animavam o São João. O frio de Chapada e o nevoeiro do inverno eram sempre presença certa.

Hoje eu sinto o frio por aqui, mas tem uma intensidade e uma luz diferente. O que será que muda quando a gente cresce? As coisas se transformam ou somos nós que mudamos demais? As mesmas comidas já não têm o mesmo sabor, não há mais fogueira, nem rojões, muito menos cantoria.

Caio na real que são novos tempos. Tempo da tecnologia, do mundo digital. Podemos compartilhar qualquer coisa: abraços, beijos, bate-papo e até uma vela acesa, virtualmente, é claro. Olho em volta à procura do terreiro de chão batido, das crianças correndo, da fogueira acesa, com as madeiras bem arrumadas e as labaredas vermelhas.  Ainda os encontro: Posso compartilhar comigo essas lembranças, e nem precisei usar ‘meio tecnológico’. Apenas abri uma caixinha bem guardada no fundo da memória…

Como é gratificante ter boas recordações. Eu mudei de tempo e de lugar, nós mudamos. As coisas, os sabores, os cheiros também se diferenciaram.

Cada fase da vida tem um gosto especial. Essa luz e esse sabor de hoje, há pouco, também será saudade.

Evani Rocha

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