Deseducação

Milton Gaspar Domingues: ‘Deseducação’

Logo da seção O Leitor Participa
Logo da seção O Leitor Participa
https://gemini.google.com/app/8fa3d6bebc705014?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Espero ver a Educação dos tempos idos.
Dos tempos de Sócrates, Aristóteles e Pitágoras,
utilitária, integral e sem partidos
consistente e bela, embora nas ágoras
Aquela que não fazia dos seus educando reprimidos
Charlatões, intrujões, mas pessoas promissoras
Aquela que agregava valores nada enrustidos
Ontem, a Educação foi das promissoras

Desgosto e ressentimento são sentimentos embutidos
Algures, hoje, no peito de pessoas comprometedoras.

Perversão e descompromisso estão garantidos,
opressão e escravidão são as progenitoras
reais dessa Educação caraterizada pelos punidos.
Creio, no entanto, em pessoas debravadoras,
as que tanto querem ver refletidos
risos no rosto de uma Nação mais humanizadora,
imaculada e com punhos bem reinvestidos
a procura de uma Educação rica e promissora.

Milton Gaspar Domingues

Foto do poeta Milton Gaspar Domingues
Milton Gaspar Domingues

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

Voltar




Escritura pública do infinito

Clayton Alexandre Zocarato: ‘Escritura pública do infinito’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/4666255120514742?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

No princípio não havia o Verbo. Havia uma rasura. O universo começou como uma correção malfeita de um escriba que nunca existiu.

Toda cosmogonia é um processo administrativo do desespero; toda metafísica é um cartório onde o Nada registra imóveis que jamais possuirá. Chamaram aquilo de criação porque ninguém suporta a hipótese de que o primeiro gesto da existência tenha sido um erro de caligrafia.

Encontrei a Escritura Pública do Infinito numa repartição abandonada entre duas madrugadas. 

Não havia paredes, embora houvesse limites. 

Não havia teto, embora pingassem silêncios sobre a cabeça dos ausentes. O funcionário que me atendeu usava um rosto dobrável. 

Toda vez que sorria, sua face mudava de geometria, como se a carne estivesse cansada de representar a mesma pessoa.

— Nome?

A pergunta caiu sobre mim como um tijolo lançado por uma biblioteca.

Procurei meu nome nos bolsos. Não estava. Revirei minhas lembranças. 

Apenas encontrei fotografias de alguém que talvez tivesse morado dentro de mim muitos anos antes. Meu nome havia emigrado para alguma língua que ainda não inventara seus substantivos.

O funcionário esperava.

Então respondi:

— Sou aquilo que resta quando a linguagem desiste de respirar.

Ele anotou sem levantar os olhos.

Descobri, naquele instante, que todo cartório é um cemitério de metáforas que conseguiram emprego.

Sobre a mesa repousava um livro tão espesso que parecia sustentar o peso da gravidade. 

Sua capa era feita de um material impossível, semelhante à pele do tempo quando este adoece de eternidade. Ao tocá-lo, ouvi o ruído de milhões de relógios desaprendendo as horas.

Abri a primeira página.

Ela estava completamente em branco.

Na segunda também.

Na terceira.

Na centésima.

Na milésima.

O funcionário explicou, com absoluta serenidade:

— Este é o registro oficial de tudo aquilo que nunca aconteceu.

Compreendi, então, que os acontecimentos são apenas acidentes burocráticos da inexistência.

Desde criança ensinaram-me que o infinito era uma linha sem fim. 

Mentiram. O infinito não possui extensão; possui fadiga. É o cansaço daquilo que jamais consegue terminar de ser impossível.

A filosofia gastou séculos tentando localizar o absoluto. Procurou-o nas estrelas, nos deuses, nas ideias puras, na razão, na matéria, na consciência. 

Nunca percebeu que o absoluto talvez fosse apenas o hábito infantil de exigir sentido onde existe apenas continuidade.

A metafísica não construiu catedrais.

Construiu espelhos.

E passou milênios ajoelhada diante do próprio reflexo.

Inventamos Deus para explicar o céu.

Depois inventamos o Universo para substituir Deus.

Depois inventamos equações para substituir o Universo.

Agora inventamos algoritmos para substituir as equações.

Mudam-se os nomes.

Permanece intacta a velha superstição de que alguma palavra será suficientemente grande para conter o abismo.

Mas o abismo não cabe.

O abismo transborda até das próprias ausências.

Percebi que minha sombra havia desaparecido.

Olhei em volta.

Todas as sombras daquele lugar caminhavam sozinhas.

Conversavam entre si.

Ignoravam completamente seus antigos proprietários.

Talvez as sombras fossem os verdadeiros seres, e nós apenas acidentes luminosos projetados por sua paciência.

A ideia me provocou um tipo inédito de vertigem.

Não era medo.

Nem espanto.

Era uma espécie de ontofratura.

Uma ruptura mineral na arquitetura do ser.

Algo dentro de mim começava a desexistir.

Sim.

Desexistir.

Porque deixar de existir ainda pressupõe que a existência tenha acontecido.

Desexistir é mais antigo.

É regressar ao estágio anterior à possibilidade.

É ser apagado antes da tinta.

É morrer antes da hipótese.

Descobri, nesse instante, que a língua portuguesa ainda sofre de excesso de realidade. Existem verbos demais comprometidos com o mundo. Poucos aceitam trabalhar para o impossível.

Passei a inventá-los.

Infinitar.

Abismar.

Silencificar.

Nadear.

Desmemoriar.

Metafisicar.

Vazionomar.

Cada palavra nova arrancava um tijolo invisível da prisão gramatical que chamamos de realidade.

A linguagem começou a ranger.

Os substantivos perderam peso.

Os adjetivos envelheceram de repente.

Os verbos recusaram-se a obedecer ao tempo.

A sintaxe sofreu uma pequena hemorragia ontológica.

O funcionário sorriu.

— Está funcionando.

— O quê?

— O processo de desapessoar.

Perguntei-lhe quanto tempo demoraria.

Ele respondeu:

— Tempo?

Sorriu novamente.

Naquele edifício ninguém utilizava relógios.

Utilizavam erosões.

Cada pensamento retirava uma camada do mundo.

Cada lembrança demolia um corredor do passado.

Cada esperança acrescentava uma janela ao vazio.

Comecei a perceber que as paredes respiravam conceitos.

A palavra “substância” exalava mofo.

“Causalidade” cheirava a papel queimado.

“Essência” tinha gosto de ferrugem molhada.

Quanto ao “eu”, era apenas um casaco esquecido sobre uma cadeira metafísica.

Sempre imaginei que a identidade fosse uma casa.

Descobri que era um contrato de aluguel vencido.

Passei então a caminhar pelos corredores daquele cartório.

Havia gavetas catalogadas sob títulos incompreensíveis:

“Objetos Perdidos Antes de Existirem.”

“Memórias de Pessoas Nunca Nascidas.”

“Silêncios Produzidos por Pedras.”

“Últimos Pensamentos de Deuses Cancelados.”

Abri uma delas.

Dentro havia apenas um vento dobrado cuidadosamente em quatro partes.

Ao tocá-lo, ouvi minha própria voz dizendo uma frase que jamais pronunciara:

“Todo infinito necessita de testemunhas porque, sozinho, ele não consegue acreditar em si mesmo.”

Fechei imediatamente a gaveta.

Não por medo.

Mas porque compreendi que talvez aquela frase estivesse me escrevendo.

Não era eu quem lia a Escritura Pública do Infinito.

Era ela que começava, lenta e impiedosamente, a registrar o desaparecimento daquele que acreditava ser seu leitor.

Depois daquela gaveta, compreendi que toda leitura é uma forma lenta de ser devorado. 

Os livros nunca precisaram de leitores; precisaram apenas de organismos suficientemente ingênuos para acreditar que permaneciam os mesmos depois da última página. Eu já não era o homem que atravessara a porta daquele cartório. Talvez nunca o tivesse sido. 

Talvez aquela recordação fosse um documento falsificado pela nostalgia, essa repartição clandestina onde o passado aprende a mentir com elegância.

Continuei caminhando.

Os corredores já não obedeciam à geometria.

Curvavam-se para dentro de si mesmos como serpentes tentando engolir o próprio conceito. 

As portas davam acesso a salas que continham apenas outras portas.

As escadas terminavam antes do primeiro degrau. 

As janelas olhavam para interiores mais profundos do que qualquer exterior poderia suportar.

Foi então que encontrei o Arquivo das Hipóteses Abortadas.

Ali repousavam todas as possibilidades que o universo recusou antes de fabricar esta realidade provisória.

Havia um mundo onde as pedras sonhavam os homens. Outro em que a morte precisava pedir licença para existir. 

Um terceiro onde a linguagem envelhecia mais rapidamente que seus falantes, obrigando cada geração a inventar uma gramática inteiramente nova para dizer a mesma solidão.

Pensei que fossem fantasias.

Mas imediatamente compreendi que fantasia é apenas o nome que a realidade dá aos mundos que teve medo de experimentar.

Foi quando ouvi um ruído.

Não vinha das paredes.

Nem do teto.

Vinha das palavras.

As palavras estavam rachando.

Cada substantivo começava a perder seus contornos. “Árvore” já não apontava para nenhuma árvore. “Corpo” tornava-se um recipiente vazio. “Memória” dissolvia-se como sal lançado sobre um rio de espelhos.

A linguagem sofria uma ontorragia.

Não havia mais correspondência entre os nomes e as coisas.

Talvez nunca tivesse havido.

Talvez a filosofia inteira tivesse sido construída sobre uma coincidência fonética.

Recordei todos os tratados que buscavam definir essência, substância, verdade, ser.

Sorri.

Que extraordinária ingenuidade.

Durante séculos discutimos o conteúdo das palavras sem perceber que eram as palavras que discutiam secretamente o conteúdo de nós mesmos.

Comecei a sentir pequenas fissuras atravessando minha consciência.

Não era dor.

Era uma espécie de deseu.

O eu descolava lentamente de mim.

Como tinta antiga abandonando uma parede úmida.

Vi minha infância caminhando alguns metros adiante.

Ela não me reconheceu.

Vi meu futuro sentado num banco, alimentando pombos invisíveis.

Também desviou o olhar.

Então compreendi que passado e futuro jamais pertencem ao presente; são apenas vizinhos mal-educados que ocupam terrenos imaginários dentro da cabeça.

Continuei andando.

Mas quem continuava?

A pergunta já não possuía sujeito.

Descobri que a identidade é um vício gramatical.

A primeira pessoa talvez tenha sido o maior erro da linguagem.

O “eu” é apenas um pronome excessivamente otimista.

Inventei outro.

Ø.

Nem eu.

Nem tu.

Nem ele.

Ø.

O pronome do intervalo.

Daquilo que ainda não aconteceu suficiente para existir.

Passei a conjugar o impossível.

Ø desvive.

Ø deslembra.

Ø infinita.

Ø desaparece para dentro.

Os corredores aprovaram.

As paredes tornaram-se líquidas.

O chão começou a escrever pegadas antes que meus pés decidissem caminhar.

Tudo acontecia alguns segundos antes da própria possibilidade.

Era uma realidade premeditada pelo vazio.

No centro do edifício encontrei uma mesa circular.

Sobre ela repousava um espelho coberto por um tecido negro.

Retirei cuidadosamente o pano.

O espelho estava vazio.

Nenhum reflexo.

Nenhuma imagem.

Nenhuma luz.

Olhei demoradamente.

Depois de algum tempo surgiu uma frase escrita do lado de dentro do vidro.

“Quem procura a si mesmo já começou a fabricar o próprio cárcere.”

Afastei-me.

Mas a frase continuou olhando para mim.

Percebi que certas ideias possuem pupilas.

E observam seus autores até depois da morte.

Sentei-me.

Ou talvez tenha sido a cadeira que resolveu acomodar minha ausência.

Já não fazia diferença.

Foi então que compreendi a verdadeira natureza daquele cartório.

Não registrava propriedades.

Nem nascimentos.

Nem casamentos.

Nem óbitos.

Registrava desistências.

Cada documento ali arquivado correspondia ao instante exato em que alguém desistira de compreender o infinito e passara apenas a descrevê-lo.

Toda metafísica era isso.

Uma escritura pública lavrada por testemunhas incapazes de aceitar o silêncio.

Sorri novamente.

Não por felicidade.

Mas porque a ironia é a última articulação que permanece funcionando quando o pensamento sofre falência múltipla dos órgãos.

Olhei minhas mãos.

Os dedos haviam adquirido transparência mineral.

Dentro deles circulavam pequenas letras.

Consoantes caminhavam pelas veias.

Vogais respiravam nos ossos.

Meu sangue transformara-se em sintaxe.

Cada batimento reorganizava um parágrafo invisível.

Meu coração já não bombeava vida.

Bombeava linguagem.

Assustei-me.

Logo depois percebi que sempre fora assim.

Não pensamos porque existimos.

Existimos apenas enquanto alguma frase continua nos escrevendo.

Quando a última palavra termina de pronunciar nosso nome, chamamos esse acontecimento de morte.

Mas talvez seja apenas pontuação.

Talvez Deus nunca tenha criado homens.

Talvez tenha criado apenas vírgulas.

E o universo inteiro não passe de uma oração subordinada cujo verbo principal foi perdido antes da invenção do tempo.

Levantei-me.

Ou fui levantado pela própria ausência.

Ao fundo do corredor surgiu uma porta que não existia alguns instantes antes.

Sobre ela havia apenas uma inscrição.

“Setor de Retificação Ontológica.”

Empurrei lentamente a maçaneta.

Do outro lado não encontrei um quarto.

Encontrei uma página.

Branca.

Infinita.

Esperando.

E pela primeira vez suspeitei que o mundo inteiro talvez fosse apenas a margem de um livro que ainda não começou a ser escrito.

Quando atravessei a página, não fui eu quem entrou.

Foi o branco.

Durante séculos imaginei que o branco fosse uma ausência de escrita.

Descobri, tarde demais, que a escrita é apenas uma doença passageira do branco.

O branco não espera.

O branco mastiga.

Cada passo que eu dava era imediatamente apagado antes de acontecer. 

Não havia pegadas. Havia pré-esquecimentos.

O chão possuía a delicadeza cruel de quem nunca permitiu que nenhuma memória criasse raízes.

Olhei para trás.

O corredor desaparecera.

Olhei para frente.

Também.

Pela primeira vez compreendi que direção é uma superstição espacial.

Os homens inventaram o “adiante” porque tinham medo de admitir que toda caminhada é um círculo desenhado por uma reta delirante.

Não aquele silêncio que sucede um ruído.

Mas outro.

Mais antigo.

O silêncio anterior ao primeiro átomo.

O silêncio que existia antes mesmo da possibilidade da ausência.

Ele aproximou-se lentamente.

Sentou-se diante de mim.

Tinha mãos.

Não possuía rosto.

Nem precisava.

Os rostos são apenas máscaras que o vazio utiliza para conversar consigo mesmo.

— És o infinito? — perguntei.

Ele permaneceu calado.

Compreendi.

Responder seria limitar-se.

Todo nome é uma cerca construída ao redor do indizível.

Durante toda a história da filosofia confundimos definição com aproximação.

Quanto mais precisamente descrevíamos uma coisa, mais distante dela permanecíamos.

As palavras não alcançam.

Circundam.

Toda linguagem é uma órbita.

Jamais um pouso.

Sentei-me diante do silêncio.

Passamos um tempo conversando sem utilizar nenhuma existência.

Foi a conversa mais honesta que já tive.

Depois disso minha respiração começou a desaprender o ar.

Inspirava vazio.

Expirava distância.

Meu corpo tornou-se cada vez mais leve.

Não porque estivesse desaparecendo.

Mas porque finalmente abandonava o peso de acreditar em si mesmo.

Toda identidade é gravidade.

Toda consciência é um excesso de massa.

Todo nome é uma pedra amarrada ao tornozelo daquilo que gostaria de evaporar.

Comecei a perder substância.

Primeiro os ossos.

Depois a memória.

Mais tarde o tempo.

Por último o verbo.

O verbo foi o mais resistente.

Agarrava-se desesperadamente às minhas frases.

Recusava-se a morrer.

Era compreensível.

Os verbos vivem da ilusão de que existe movimento.

Mas o movimento nunca existiu.

Existiu apenas uma lentíssima mudança de perspectiva do imóvel.

Então aconteceu.

□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□

□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□

□□□□□□□□ser□□□□□□□□□□□□□□□

□□□□□□□□□□□□□□□não□□□□□□□□□□

□□□□□□□□□□□□□□ser□□□□□□□□□□□□

□□□□□□□□□□□□□□□era□□□□□□□□□□□□

□□□□□□□□□□□□□□□□□outro□□□□□□□□

□□□□□□□□□□□□□□erro□□□□□□□□□□□□

□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□

□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□□

As palavras começaram a abandonar suas funções.

Os substantivos transformaram-se em ventos.

Os adjetivos criaram ferrugem.

Os pronomes emigraram para um idioma mineral.

As vírgulas recusaram-se a separar o que jamais estivera unido.

Os pontos finais fugiram.

Ninguém mais conseguia terminar nenhuma frase.

Nem a realidade.

Observei o universo inteiro sofrer uma gramaticlise.

Era semelhante a uma avalanche.

Mas de sintaxe.

As montanhas perderam seus nomes.

Os oceanos esqueceram a profundidade.

Os relógios começaram a marcar apenas “talvez”.

As árvores floresciam perguntas.

As pedras produziam infância.

Os espelhos refletiam futuros extintos.

Os cadáveres envelheciam para dentro.

As crianças nasciam já saudosas de alguma coisa que nunca aconteceria.

Compreendi, finalmente, que o cosmos inteiro era apenas uma tentativa mal resolvida de conjugar um verbo impossível.

Exister.

Não existir.

Nem deixar de existir.

Exister.

Habitar o intervalo entre duas impossibilidades.

O universo era apenas isso.

Um intervalo pronunciando-se.

Passei a caminhar sobre conceitos.

Pisei na causalidade.

Ela quebrou.

Atravessei a essência.

Era oca.

Toquei a verdade.

Produziu eco.

Encontrei a identidade.

Dormia dentro de um armário cheio de máscaras descartadas.

Nenhuma servia.

Todas eram minhas.

Nenhuma me pertencia.

Foi quando descobri o último departamento daquele cartório.

A sala não possuía paredes.

Nem teto.

Nem chão.

Apenas uma inscrição suspensa.

“Setor de Cancelamento dos Absolutos.”

Entrei.

Sobre uma mesa havia um único documento.

Meu nome aparecia no alto.

Ou aquilo que um dia respondera por mim.

Logo abaixo lia-se:

Objeto do processo:

Revogação definitiva da necessidade de existir.

Assinatura do interessado: ___________

Não havia caneta.

Nem tinta.

Nem testemunhas.

Assinei com o desaparecimento.

No instante seguinte o universo inteiro respirou aliviado.

Como se minha identidade fosse um erro administrativo mantido durante bilhões de anos.

Então tudo começou a apagar-se.

Não em direção ao escuro.

Mas em direção ao impensável.

As estrelas esqueceram como iluminar.

A matemática desaprendeu o número.

O tempo arquivou sua última tarde.

O espaço dobrou cuidadosamente suas distâncias e guardou-as numa gaveta sem interior.

Restou apenas a página.

A primeira.

A mesma.

Ainda em branco.

Percebi, enfim, o segredo da Escritura Pública do Infinito.

Ela jamais registrou aquilo que existe.

Registrava apenas todos os fracassos da linguagem em tentar justificar o fato inexplicável de haver alguma coisa onde talvez bastasse o silêncio.

Fechei o livro.

Ou talvez tenha sido ele quem me fechou.

Desde então ninguém mais encontrou aquele cartório.

Alguns afirmam que nunca existiu.

Outros dizem que continua funcionando em algum lugar entre uma pergunta e outra.

Quanto a mim, já não posso oferecer testemunho.

Porque aquilo que um dia respondeu pelo meu nome foi definitivamente cancelado no registro das possibilidades.

Se estas palavras ainda chegaram até alguém, desconfie.

Talvez você não esteja lendo este conto.

Talvez seja este conto que acaba de protocolar, silenciosamente, a escritura pública do seu próprio infinito.

Clayton Alexandre Zocarato

Voltar




Nature within

Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi

Poem ‘Nature within’

Mustafa Al-Sumaidi
Mustafa Al-Sumaidi
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/46758d3c7fac5f17?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Nature an absolute whole
It lingers in all things
The visible breathes
so does the invisible

Stones hold pre-sound hymns
held in stillness
Winds break as lost language
half-shaped, half-gone

We do not only watch
Something watches through us

Roots reach into the hidden
stars pulse at the distant edge
No clear looking—
only the folding of space
between what is
and what we might be

Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi

Voltar

Facebook




Manual de propriedade do nada

Clayton Alexandre Zocarato

‘Manual de propriedade do nada’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
magem criada pela IA do Gemini - https://gemini.google.com/app/fd1936f6bfb1c2ae?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/fd1936f6bfb1c2ae?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

O primeiro artigo deste manual estabelece que o nada não pode ser possuído

O segundo corrige o primeiro e informa que tudo aquilo que não pode ser possuído desperta imediatamente o desejo de posse. 

O terceiro artigo revoga os anteriores e declara que a propriedade é apenas uma ficção criada pelo medo de desaparecer. O restante deste documento consiste na lenta assinatura de um contrato invisível entre o ser e o vazio.

No início havia apenas uma pequena rachadura.

Nada dramático.

Uma fissura discreta atravessando o pensamento como uma linha de ferrugem sobre uma lâmina antiga. 

Não era tristeza. 

Não era desespero. Era apenas a sensação de que todas as coisas estavam ligeiramente deslocadas de si mesmas. 

As palavras já não coincidiam com os objetos. 

Os espelhos refletiam superfícies, mas não devolviam identidades. 

Os dias surgiam iguais uns aos outros como páginas impressas por uma máquina cansada.

Foi então que apareceu a escritura.

Nenhuma assinatura era exigida.

Nenhuma testemunha.

Nenhum cartório.

O documento já estava assinado desde sempre.

O ser apenas descobria, tarde demais, que seu nome habitava aquelas cláusulas.

A primeira delas era simples:

“Concede-se ao proprietário o direito irrestrito de cultivar ausências.”

E as ausências começaram a crescer.

Primeiro como ervas daninhas entre os pensamentos.

Depois como árvores.

Depois como florestas inteiras.

A paisagem interior tornou-se um território de corredores vazios. As ideias passaram a ecoar sem encontrar paredes.

As perguntas reproduziam-se em velocidade assustadora, enquanto as respostas desapareciam como pássaros migratórios que jamais regressam.

O vazio intelectual não chegou como ignorância.

Chegou como excesso.

Excesso de informação.

Excesso de ruído.

Excesso de opiniões.

Uma avalanche de palavras cobrindo lentamente o significado das coisas.

Bibliotecas inteiras foram transformadas em desertos.

Os livros permaneciam sobre as estantes, mas já não eram lidos.

As frases permaneciam sobre as páginas, mas já não eram compreendidas.

O pensamento converteu-se numa fábrica de repetições.

Produzia reflexões em série.

Embalava conceitos.

Vendia certezas.

Distribuía convicções prontas para consumo.

E, ao final de cada expediente, recolhia cuidadosamente qualquer vestígio de dúvida.

O nada sorria.

Era um proprietário paciente.

Nunca exigia pagamento imediato.

Preferia os juros.

Acumulava pequenas parcelas de desistência.

Uma renúncia hoje.

Outra amanhã.

Uma reflexão abandonada.

Uma pergunta esquecida.

Uma inquietação silenciada.

Até que o território inteiro passasse para seu domínio.

Então veio a segunda cláusula.

“Concede-se ao proprietário o direito de transformar relações em superfícies.”

E o vazio social iniciou sua expansão.

As vozes multiplicaram-se.

As conversas desapareceram.

As multidões aumentaram.

Os encontros tornaram-se raros.

Jamais houvera tantas janelas abertas para o mundo.

Jamais houvera tantos quartos fechados por dentro.

A comunicação tornou-se uma ponte construída apenas até a metade do rio.

Os gestos perderam profundidade.

Os abraços passaram a tocar apenas tecidos.

Os olhares atravessavam rostos sem encontrar presença.

Todos pareciam próximos.

Ninguém realmente chegava.

O ser começou a colecionar contatos como quem coleciona sombras.

Milhares de nomes.

Milhares de imagens.

Milhares de ecos.

Nenhuma companhia.

A solidão já não era ausência de pessoas.

Era ausência de significado.

Era uma praça lotada de estátuas.

Um mercado repleto de fantasmas.

Uma festa onde cada convidado conversava exclusivamente com seu próprio reflexo.

O nada ampliava seus domínios.

Silenciosamente.

Metodicamente.

Sem violência.

Como a ferrugem.

Como a poeira.

Como a noite.

Depois surgiu a terceira cláusula.

A mais extensa.

A mais perigosa.

“Concede-se ao proprietário o direito de substituir valores por conveniências.”

E o vazio moral encontrou terreno fértil.

As palavras virtude, honra, compromisso e responsabilidade tornaram-se objetos arqueológicos.

Peças de museu.

Relíquias de uma civilização esquecida.

Tudo passou a ser medido por utilidade.

Tudo passou a ser calculado por vantagem.

Tudo passou a ser avaliado por rentabilidade.

O bem deixou de ser uma direção.

Transformou-se numa estratégia.

A verdade deixou de ser uma busca.

Transformou-se numa ferramenta.

A consciência deixou de ser uma voz.

Transformou-se num ruído de fundo facilmente ajustável.

O ser observava tudo isso sem perceber que assinava novas páginas do contrato.

Cada concessão parecia insignificante.

Cada renúncia parecia temporária.

Cada acomodação parecia razoável.

Mas o nada era um colecionador de fragmentos.

Sabia que montanhas são feitas de grãos.

Sabia que abismos começam como rachaduras.

Sabia que desertos nascem da morte lenta de pequenas fontes.

O contrato crescia.

As páginas multiplicavam-se.

As cláusulas estendiam-se para além do horizonte.

E o proprietário do nada tornava-se cada vez mais rico.

Até que chegou o momento inevitável.

A vistoria.

O ser caminhou pelos corredores da própria existência.

Abriu portas.

Examinou gavetas.

Percorreu arquivos.

Investigou memórias.

Procurou algo que ainda lhe pertencesse.

Encontrou apenas espaços vazios.

As estantes estavam intactas.

Mas os livros haviam desaparecido.

As molduras permaneciam nas paredes.

Mas as imagens haviam evaporado.

Os relógios continuavam funcionando.

Mas o tempo já não acontecia.

Tudo estava presente.

Nada existia.

Foi então que compreendeu a natureza da propriedade.

Jamais possuíra o nada.

Era o nada quem o possuía.

A escritura sempre estivera invertida.

O proprietário era a propriedade.

O senhor era o terreno.

O dono era a mercadoria.

A assinatura no final do contrato não representava uma conquista.

Representava uma rendição.

E naquele instante surgiu uma pergunta.

Talvez a última pergunta.

Talvez a única pergunta verdadeira.

Se o nada podia ser proprietário de tudo, o que existiria além dele?

Nenhuma resposta apareceu.

Apenas silêncio.

Um silêncio vasto.

Profundo.

Antigo.

Mas pela primeira vez esse silêncio não parecia vazio.

Parecia possibilidade.

Como um campo antes da semeadura.

Como uma página antes da escrita.

Como uma madrugada antes do primeiro pássaro.

Talvez o nada não fosse apenas destruição.

Talvez fosse também um espelho.

Um lugar onde todas as ilusões de posse terminam.

Um tribunal onde todas as propriedades são revogadas.

Uma fronteira onde o ser descobre que jamais possuiu coisa alguma.

Nem riquezas.

Nem ideias.

Nem pessoas.

Nem tempo.

Nem a si mesmo.

E ao compreender isso, algo inesperado aconteceu.

O contrato começou a desaparecer.

As cláusulas dissolveram-se.

As assinaturas tornaram-se poeira.

Os selos evaporaram.

As páginas transformaram-se em vento.

Restou apenas a existência.

Nua.

Sem títulos.

Sem escrituras.

Sem garantias.

Sem proprietários.

Sem propriedade.

Diante da imensidão silenciosa do universo, o ser finalmente compreendeu que a liberdade talvez começasse exatamente onde terminava a posse.

E que o verdadeiro Manual de Propriedade do Nada continha apenas uma frase escrita em letras invisíveis:

“Aquilo que tenta possuir o vazio acaba descobrindo que era o vazio quem o possuía desde o princípio.

Mas a revelação não trouxe conforto.

A liberdade, quando surge depois de uma vida inteira de servidão invisível, possui a textura do abismo. 

Não há celebração na descoberta de que todas as muralhas eram imaginárias. Não há júbilo imediato quando se percebe que os alicerces sobre os quais se ergueu uma existência inteira foram construídos sobre névoa.

O ser permaneceu diante daquele horizonte sem nome.

Já não havia contratos.

Já não havia cláusulas.

Já não havia o nada como proprietário.

Mas também não existiam as antigas referências.

Era como despertar em uma cidade cujos mapas haviam sido queimados durante a noite.

As ruas continuavam lá.

As construções permaneciam de pé.

Entretanto, nenhum caminho conduzia a lugar algum conhecido.

E foi nesse instante que surgiu o mais profundo dos vazios.

Não o vazio da ausência.

Mas o vazio da possibilidade.

Não o vazio da perda.

O espaço aberto.

A página em branco.

A vertigem de quem descobre que não existe um destino previamente desenhado.

Durante muito tempo o ser acreditara que sua angústia vinha da falta de sentido.

Agora compreendia algo mais inquietante.

O sentido nunca estivera ausente.

Apenas jamais fora entregue pronto.

Era necessário construí-lo.

Pedra por pedra.

Pergunta por pergunta.

Fracasso por fracasso.

E essa tarefa parecia mais pesada do que carregar qualquer corrente.

Ao redor, o mundo continuava funcionando com sua habitual maquinaria de distrações.

Mercados vendiam felicidade embalada.

Discursos prometiam respostas definitivas.

Doutrinas ofereciam atalhos para a eternidade.

Ideologias distribuíam identidades prontas.

Tudo parecia convidar novamente para a velha assinatura.

Tudo parecia dizer:

“Retorne ao contrato.”

“Entregue outra vez sua inquietação.”

“Troque sua liberdade por uma explicação confortável.”

Mas o ser já conhecia o preço.

Sabia que toda certeza absoluta escondia uma pequena cláusula escrita em letras microscópicas.

Sabia que todo dogma carregava consigo uma cerca.

Sabia que toda prisão começa oferecendo proteção.

Então permaneceu imóvel.

Escutando.

Observando.

Esperando.

E no centro daquele silêncio começou a perceber algo estranho.

Muito estranho.

O nada não havia desaparecido completamente.

Continuava ali.

Mas sua forma era diferente.

Antes era um proprietário.

Agora era apenas espaço.

Antes era cárcere.

Agora era horizonte.

Antes era ausência de significado.

Agora era possibilidade de criação.

A diferença parecia mínima.

Entretanto continha universos inteiros.

Uma folha em branco pode ser uma condenação para quem espera respostas.

Mas pode ser também uma promessa para quem deseja escrever.

O mesmo vazio.

Dois destinos.

Dois olhares.

Duas interpretações.

Foi então que o ser compreendeu a natureza secreta do abismo.

Durante toda a existência acreditara que estava olhando para dentro dele.

Na verdade, era o abismo que olhava para dentro dele.

E tudo o que enxergava refletido em suas profundezas eram as próprias renúncias.

As desistências.

Os medos.

As acomodações.

As máscaras cuidadosamente colecionadas ao longo dos anos.

O vazio jamais fora um inimigo.

Apenas um espelho radical.

Um espelho incapaz de mentir.

Um espelho que removia todos os adornos.

Todas as justificativas.

Todas as ficções.

Diante dele, restava apenas aquilo que realmente existia.

Ou aquilo que realmente não existia.

O ser então caminhou.

Sem direção definida.

Sem roteiro.

Sem garantias.

Cada passo parecia inaugurar o mundo pela primeira vez.

As coisas tornaram-se novamente estranhas.

Eram familiares e desconhecidas ao mesmo tempo.

Uma árvore já não era apenas uma árvore.

Era um milagre biológico flutuando entre a terra e o céu.

Uma pedra já não era apenas uma pedra.

Era uma memória mineral atravessando milênios.

Uma respiração já não era apenas um reflexo.

Era uma negociação permanente entre o corpo e o infinito.

Tudo adquiria uma intensidade esquecida.

Como se a realidade estivesse sendo devolvida ao seu estado original.

Como se o excesso de explicações tivesse finalmente saído do caminho.

O ser percebeu que o vazio intelectual havia nascido quando deixou de admirar.

O vazio social havia crescido quando deixou de escutar.

O vazio moral havia prosperado quando deixou de responsabilizar-se por suas escolhas.

Nenhum deles surgiu de uma única vez.

Foram sedimentações lentas.

Camadas.

Poeira acumulada sobre a consciência.

E talvez a reconstrução também precisasse ocorrer lentamente.

Sem milagres.

Sem revelações grandiosas.

Sem promessas de redenção.

Apenas através de pequenos gestos.

Uma pergunta verdadeira.

Uma conversa sincera.

Uma leitura realizada sem pressa.

Um pensamento levado até suas últimas consequências.

Uma recusa em aceitar respostas fáceis.

Uma coragem silenciosa para permanecer humano em um mundo que frequentemente recompensa a superficialidade.

O nada continuava existindo.

Sempre continuaria.

Porque o nada é a sombra inevitável de toda existência.

Onde há ser, há possibilidade de não-ser.

Onde há significado, há possibilidade de vazio.

Onde há construção, há possibilidade de ruína.

Mas essa descoberta já não provocava terror.

Produzia humildade.

O ser percebeu que viver talvez não consistisse em derrotar o nada.

Ninguém derrota o nada.

Nenhuma filosofia.

Nenhuma religião.

Nenhuma ciência.

Nenhum império.

Todos terminam encontrando-o em alguma esquina do tempo.

Talvez viver significasse apenas atravessá-lo.

Reconhecê-lo.

Dialogar com ele.

Sem entregar-lhe a escritura da própria alma.

Sem permitir que se tornasse proprietário daquilo que ainda pulsa.

E assim, diante de uma existência que permanecia sem garantias, sem explicações finais e sem manuais definitivos, o ser compreendeu a última ironia.

O verdadeiro proprietário do nada não era aquele que o possuía.

Era aquele que aceitava sua presença sem tornar-se seu escravo.

Porque somente quem aprende a caminhar ao lado do vazio consegue impedir que ele ocupe todos os cômodos da casa.

E enquanto o universo prosseguia expandindo-se em silêncio entre galáxias indiferentes, estrelas moribundas e futuros inimagináveis, uma pequena centelha persistia.

Frágil.

Quase invisível.

Mas real.

A centelha da consciência.

A capacidade de perguntar.

De criar.

De negar.

De escolher.

De resistir.

E talvez fosse exatamente isso que nenhuma escritura do nada jamais conseguiria confiscar por completo.

Pois enquanto houver uma única pergunta atravessando a escuridão, uma única inquietação recusando o conforto das respostas prontas, uma única consciência disposta a contemplar o abismo sem entregar-se a ele, o contrato permanecerá incompleto.

E o nada, por mais vasto que seja, continuará encontrando diante de si a única propriedade que jamais poderá registrar em cartório algum: a liberdade inquieta de existir.

Clayton Alexandre Zocarato

Voltar




10 horas em Angola

Osvaldo Manuel Alberto

’10 horas em Angola: quando o táxi chega, a conversa morre!’

Osvaldo Manuel Alberto
Osvaldo Manuel Alberto
Imagem gerada pela IA do Grok
Imagem gerada pela IA do Grok

Na paragem de táxi, temos consciência de que quando o nosso táxi chegar, independentemente de a conversa ser fluída ou não, temos de partir. Enquanto o táxi não chega, aproveitamos o tempo da melhor maneira possível, puxamos e desenvolvemos diálogo com quem estiver próximo, mesmo sem saber o seu destino.

Este texto não é sobre viagem de táxi. É sobre a vida.

Mas então, o que é a vida?

Esta é uma daquelas perguntas que admite uma infinidade de respostas. E estas atendem princípios e contextos.

Há quem defina a vida como “o bem mais precioso que Deus nos deu”. Normalmente, esta definição surge quando estamos cônscios da nossa necessidade espiritual.

Quando a frustração e a depressão se apossam de nós, a vida é definida como “uma merda”.

Nos momentos de tristeza, luto e dor, a vida é definida como “um sopro”, “uma bruma”.

Mesmo sem consciência, a quem defina a vida sem sequer mencionar o termo vida. Em ambientes eufórico, de desbunda profunda, para se referir ao conceito vida uns recorrem ao seu antónimo “quem morre é burro, caixão faz calor”. Tudo isso, para se referir que a vida é aquele momento de éxtase.

Depois de algumas cucamicinas, a vida é definida como “isso”, ou seja, “isso é que é vida, páh!” (Lombadas). Para manifestar que a vida é o momento de alegria. Uma definição redutora e excludente, porque tudo fora disto, não é vida.

Há quem prefira definir a vida como “o contrário da morte”.

Graciano (2026) citando um velho amigo definiu a vida como sendo “esse bocado”. Repito, “a vida é esse bocado”. Sim, os poucos momentos que nos proporcionamos estar com alguém, conversar, ouvir com atenção, desejar o bem a outrem. Esse bocado de convívio em que por instantes chegas a pensar que não adoencerás porque atingiste a imortalidade. A vida é esse bocado que não temos consciência do quão poucochinho é, e de tão curta que é ou do quão efémera é.
Enquanto se define a vida como sendo esse bocado, o braço e o antebraço devem fazer um ângulo de noventa graus, enquanto o indicador voltado para baixo circunscreve sinalizando o bocado que a vida é.

A vida é a liberdade limitada pela morte.

A vida é uma sequência de episódios positivos e negativos num determinado tempo.

Na realidade angolana, 10 horas é a hora marcada. Para dizer não o que é, mas o que foi feito com a vida! Nesta hora, o táxi já terá chegado e as conversas interrompidas.

E para ti, o que é a vida? (Responda em uma palavra).

Osvaldo Manoel Alberto

Voltar

Facebook




A Filosofia deve apoiar todos os projetos de paz

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘A Filosofia deve apoiar todos os projetos de paz’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
Imagem gerada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69d68f47-5980-83e9-a422-7fbcdbca6d35

Por mais estratégias, metodologias, técnicas e recursos que se utilizem, a educação-formação de novas gerações, sensibilizadas para modernas práticas de convivência pacífica, e para os valores do humanismo e da afetividade, é o caminho que se apresenta como o mais adequado, para se atingirem os objetivos da pacificação do Mundo, porque, de contrário, os problemas, os conflitos, as situações degradantes, jamais se resolverão.

A escola, logo nos primeiros anos de vida da pessoa, deverá ter um papel interventivo primordial, no sentido de formar a consciência destes novos cidadãos, que terão por missão suprema, e altruísta, a pacificação do mundo: «Diante deste quadro, a escola, especialmente do ensino fundamental e médio se apresenta como a instituição carregada e única capaz de dar um encaminhamento a este verdadeiro drama humano que a sociedade contemporânea vive, e que se manifesta através da proliferação da violência, do alcoolismo, do consumo de drogas, das doenças endémicas e atípicas, dos acidentes mutilantes e responsáveis por mortes prematuras e desnecessárias, do desemprego, da corrupção, fome, miséria e tantos outros males que, num crescimento desenfreado ameaça a própria estabilidade do estado, democrático ou autoritário.» (COLETA, 2005:19).

As gerações que, atualmente, ainda se encontram na sua fase de vida de crianças, devem ser, de imediato, preparadas para um futuro que, elas próprias, vão usufruir e, simultaneamente, todas as restantes pessoas, incluindo aquelas que já se aproximam do fim do seu percurso biológico normal. 

Na família, na Igreja, na escola, na empresa, na comunidade, na sociedade mais alargada, no país, enfim, em todos os locais e circunstâncias em que se encontre uma pessoa, deve-se intervir, porque cada dia que passa, neste pré-caos humano, poderá representar anos na recuperação das pessoas e do mundo. 

Impõe-se uma pedagogia para a paz, se possível já, para hoje, porque amanhã poderá ser demasiado tarde. Uma pedagogia para democratizar a política, os políticos, os educadores e a humanidade em geral. Uma pedagogia que ensine toda a pessoa, qualquer que seja o seu estatuto ou condição, como pode e deve participar nas soluções dos problemas: «Todos os homens ao longo da sua existência, terão de resolver problemas que lhes serão apresentados, semelhantes aos de ontem ou marcados pela mudança; (…). Isso leva a considerar as questões ligadas ao cuidado com a educação de todos e de cada um…» (BONBOIR, 1977:189)

Igualmente, uma filosofia para analisar, reflexivamente, a situação em que o mundo se encontra, que aponte caminhos possíveis para rumos compatíveis com a dignidade humana. As disciplinas da área das ciências sociais e humanas, têm um grande contributo a dar para a pacificação da humanidade, a Filosofia não pode ser excluída deste projeto, aliás, sem ela e seus ramos específicos, muito dificilmente se atingirão resultados que atenuem o sofrimento em que a humanidade vive, neste primeiro quarto de século.

Uma parceria entre Ciência, Técnica, Filosofia, Pedagogia, Antropologia, Ética e Axiologia, enfim com as Ciências Sociais e Humanas, pode fazer parte da fórmula que conduza aos primeiros e bons resultados do processo de pacificação: «Sem dúvida, a filosofia tem uma importante tarefa epistemológica, mas ela não pode ser desenvolvida sem a referência a uma antropologia fundante bem como a uma axiologia geral. A questão do agir humano, tanto no plano ético, como no plano político, não pode ser posta de lado numa reflexão filosófica sistematizada. E o pedagógico, como contexto da existência humana, constitui a mediação articuladora do ético com o político.» (SEVERINO, 1997:242).

BIBLIOGRAFIA

BONBOIR, Anna, (Dir.). (1977). Uma Pedagogia para Amanhã. Trad. Frederico Pessoa de Barros. São Paulo: Cultrix.

SEVERINO, António Joaquin, (1999). A Filosofia Contemporânea do Brasil. Petropolis RJ: Vozes. Venade/Caminha, Portugal, 2015

BENEVIDES, 1991 e AVRITZER, 1994 apud MIOTTO, 2006:65).

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

Voltar

Facebook




Ciência, Técnica e Filosofia, um trinómio inseparável

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘Ciência, Técnica e Filosofia, um trinómio inseparável’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
Imagem gerada por IA do ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69b33473-fc24-83e9-9865-4289bd39a142

Há quem defenda que: «A Filosofia estuda-se como outra matéria qualquer, com algum esforço, algum prazer, alguma disciplina. A organização do estudo é fundamental para que os conhecimentos não apareçam dispersos, desligados uns dos outros e, sobretudo, de nós próprios. Só uma boa organização do estudo permite uma boa compreensão e assimilação do que pretendemos. (…) A Filosofia não tem o monopólio destas ou daquelas ideias, embora exista um modo filosófico de as expressar. » (TAVARES & FERRO, 1983:25).

Temos visto, quão complexa é a Filosofia, face a outras áreas disciplinares, nomeadamente, se compararmos com as ciências exatas. De facto, a “máquina humana” é, ainda hoje, um labirinto de incógnitas, pese, embora, o esforço das várias ciências humanas, cada uma com o (s) seu (s) objeto (s) de estudo, metodologias e estratégias, mas, à Filosofia, contudo, não é fácil determinar tal objeto, pelas seguintes causas:

«a) O seu objecto especial nas actividades humanas, entre as que são resultado tanto da arte como das da ciência, ou se se prefere, entre as artes e as ciências; b) A sua própria evolução histórica que a levou, e ainda continua a levar, algumas vezes a procurar a sua definição eliminando quanto não é ela, evolução que provoca periodicamente uma crise (real ou artificial, segundo o mal do tempo) da sua consciência autónoma; c) Uma discussão que já vem de longo tempo entre os filósofos no seu conjunto, e os especialistas das regras da acção humana, quer estes sejam filósofos ou não, mas em nome da moral (religiosa ou não) da política, ou de qualquer Teoria do Comportamento.» (LEGRAND, 1983:176).

Por tudo o que fica analisado, não será difícil aceitar que o filósofo, ao contrário de outros intervenientes no processo humano, tem, e terá sempre, o seu trabalho dificultado e inacabado. Tradicionalmente, aliamos à noção de ciência, o conceito de conhecimento e, nesta perspectiva, analisamos, também, as diversas maneiras de compreender o mundo destacando-se aqui os níveis clássicos: conhecimento espontâneo ou senso comum, e o conhecimento científico, entendendo-se que este é uma vitória recente da humanidade, tendo surgido no século XVII, com as Revoluções “Copernicana” e “Galeliana”. 

Se é certo que: no pensamento grego, a Filosofia e a ciência integravam uma única árvore do saber; igualmente é verdade que já na idade Moderna, a separação também se consumaria, buscando cada uma delas – Filosofia e Ciência – o seu percurso concreto, o seu método, o seu objeto, aliás, a ciência moderna surge ao determinar um objetivo específico de investigação, e ao adotar um método, através do qual se controlará o conhecimento. 

O recurso a métodos rigorosos, possibilita que a ciência atinja um tipo de conhecimento sistemático, metodológico, preciso, objetivo e reversível, pelo qual se descobrem relações universais e necessárias entre os fenómenos, permitindo prever acontecimentos, e atuar da forma mais eficaz.

Ciência, Técnica e Filosofia, constituem, portanto, um trinómio que deve ser inseparável, não se devendo tentar sobrevalorizar um, em detrimento dos outros, porque eles constituem, apenas, uma parte dos conhecimentos e práticas que caracterizam a Humanidade, sendo certo que: enquanto assim não se proceder, o mundo não terá paz; as desigualdades entre as pessoas aumentarão; até ao dia em que uma esmagadora maioria de excluídos, se revoltará e tomará conta dos destinos de todos. 

BIBLIOGRAFIA

LEGRAND, Gerard (Dir.), (1983). Dicionário de Filosofia, Tradução, Armando J. Rodrigues e João Gama, Lisboa: Edições 70.

TAVARES, Manuel & FERRO, Mário, (1983). Guia do Estudante de Filosofia. 4a Ed. Lisboa: Editorial Presença.

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

Voltar

Facebook