Autópsia da balança
Pietro Costa: Poema ‘Autópsia da balança’

Têmis acorda: olhos vendados,
mas quem saberia dizer, quem,
se por pudor, medo ou desdém,
ou para não ver quem paga
o peso a oscilar nos pratos?
Desde Antígona, o corpo que padece
interroga o decreto no deserto:
a lei tardia, que no leito adormece,
quando o justo já não está desperto.
“A cada um o que é seu”, sábia assertiva.
Esculpiram a máxima no mármore duro,
mas deixaram uma questão atrás do muro:
quem empunhava a régua da partilha?
Ihering cedeu a voz ao direito em luta;
Beccaria ouviu, sob a toga, o arbítrio voraz.
E nós, sob tantos códigos, sem escuta,
confundimos o silêncio com a paz.
E o processo celebra aniversário,
enquanto o direito envelhece na sentença;
vidas repousam no arquivo cartorário,
à espera de um despacho de sobrevivência.
Outros descobrem o desejável atalho:
no cheque, a pressa; em xeque, a balança.
Kafka, no saguão, contempla o embaralho:
cada porta é promessa — e outra tranca.
Enquanto o café esfria na antessala,
o tempo, escrivão, protocola a espera;
a Justiça promete, sentencia, fala —
mas há quem envelheça enquanto espera.
Silogismos perfeitos destilam virulência:
premissa maior,
premissa menor,
conclusão.
E a barbárie aprende latim,
veste a toga da razão
e se proclama jurisprudência.
Rui advertiu do relógio que cega,
mas não é só o tempo que pune:
há venda que vê quando lhe interessa,
e balança que vacila ante um sobrenome.
Não se quebre a balança:
desconfie-se do fiel.
Raspe-se a ferrugem dos pratos,
interrogue-se o chumbo,
refaça-se o pano da venda
e ensine-se à espada a dor do corte.
A Justiça não quer incenso.
Exige vigília ao pesar o senso.
No dia que lhe reserva o calendário,
no lugar das estátuas imponentes,
ergamos espelhos sem indulgência,
ainda que se estilhacem à nossa frente.