Sergio DinizImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/56a790448c55896b?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
Quando o tempo tatuar meu corpo Com as rugas da idade E o espelho refletir minha imagem Tão estranha aos ares da mocidade O que verão meus olhos cansados? Uma vítrea personagem sem alma Dublando um resto de vida? Uma alma esculpida em bronze Afrontando, sobranceira, O inevitável Mistério?
As linhas tão profundas Sulcando minha matéria frágil Aumentarão a luz De minha candeia íntima Transformando minh’alma Prenhe de liberdade Num candeeiro sem fim?
Ó Tempo, eterno coletor de débitos! Que me cobrará teu aguçado desígnio?
Quando o Tempo tatuar meu corpo Com as rugas da idade E minha imagem diluída no espelho Perder o alento de quem se mira Indagarei aos anos idos: Que espectro me reveste o presente: Anjo ou demônio?
Quando o Tempo tatuar meu corpo Com as rugas da idade E no espelho não houver imagem Que me cobrará a Vida? Com que peso ou leveza A Pena da Eternidade Lavrará minha sentença?
Clayton Alexandre Zocarato: Ensaio Filosófico ‘Topografia da ausência’
Clayton A. ZocaratoImagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6a232688-09f4-83e9-b53a-47267274d998
A primeira coisa que desapareceu não foi uma pessoa, nem um objeto, nem uma lembrança. Foi uma certeza.
Talvez você conheça essa sensação. Talvez não. Talvez esteja lendo estas linhas acreditando que ainda habita um mundo sólido, composto de fatos, identidades e significados estáveis. Mas responda com sinceridade: quantas das coisas que você chama de suas realmente permanecem? Quantas sobreviveram intactas à passagem dos anos? Quantas resistiram à lenta erosão do tempo?
A ausência começa assim.
Não como um acontecimento.
Como uma infiltração.
Ela entra pelos cantos invisíveis da existência e, pouco a pouco, corrói aquilo que parecia definitivo. Primeiro leva os rostos. Depois as vozes. Mais tarde os motivos. Por fim, quando já não resta quase nada, leva também as perguntas.
Foi numa dessas regiões silenciosas da vida que alguém despertou certa manhã e percebeu que havia esquecido uma coisa fundamental. Não sabia exatamente o quê. Talvez um acontecimento. Talvez um sentimento. Talvez a si mesmo.
Levantou-se e caminhou pela casa.
As paredes estavam onde sempre estiveram. As janelas continuavam abertas para a mesma rua.
Os móveis guardavam a mesma disposição de décadas. Entretanto, tudo parecia deslocado por uma distância impossível de medir. Como se os objetos tivessem emigrado para dentro de si próprios.
Já aconteceu com você?
Olhar para uma fotografia antiga e sentir que a pessoa retratada é uma desconhecida?
Entrar no quarto onde passou a infância e perceber que as memórias não moram mais ali?
Ou pior: perceber que talvez nunca tenham morado.
Existe uma diferença profunda entre recordar e inventar. Contudo, quem é capaz de determinar onde termina uma coisa e começa a outra?
A memória é uma ficção escrita pelo sobrevivente.
E o sobrevivente é sempre suspeito.
Ao longo daquele dia, a sensação cresceu.
Havia uma ausência espalhada pelos cômodos.
Não a ausência de alguém específico.
A ausência daquilo que tornava todas as presenças possíveis.
Sentou-se diante da janela.
Lá fora, as pessoas atravessavam a rua carregando sacolas, compromissos, preocupações, destinos. Pareciam saber para onde iam. Pareciam compreender a lógica secreta que organiza a realidade.
Mas será que compreendiam?
Ou apenas repetiam movimentos herdados?
Quantas vidas são realmente vividas?
Quantas são apenas administradas?
Você já se perguntou isso?
Ou prefere continuar acreditando que existir e viver são sinônimos?
A tarde avançou lentamente.
O sol deslizava pelos telhados como uma moeda gasta rolando sobre uma mesa infinita.
Talvez a ausência não fosse uma falha da existência.
Talvez fosse sua arquitetura.
Talvez tudo o que existe estivesse construído sobre aquilo que falta.
O desejo nasce da ausência.
A esperança nasce da ausência.
A linguagem nasce da ausência.
Até o amor talvez seja apenas uma tentativa desesperada de preencher um espaço que jamais poderá ser preenchido.
Pense nisso.
Se fôssemos completos, amaríamos?
Se nada nos faltasse, desejaríamos?
Se estivéssemos inteiros, procuraríamos alguém?
Talvez não.
Talvez o ser humano seja apenas uma ferida que aprendeu a falar.
A noite chegou.
E com ela vieram os corredores.
Não os corredores da casa.
Os corredores da consciência.
Aqueles lugares escuros onde pensamentos esquecidos continuam andando de um lado para o outro como prisioneiros que perderam a memória do crime.
Lá dentro existiam portas.
Milhares delas.
Atrás de algumas havia lembranças.
Atrás de outras havia arrependimentos.
Muitas escondiam futuros que nunca aconteceram.
Você guarda quantos futuros mortos dentro de si?
Quantas versões da sua vida foram abandonadas pelo caminho?
Quantas cidades você não conheceu?
Quantas palavras não disse?
Quantos amores não viveu?
Há cemitérios inteiros dentro de cada pessoa.
Mas ninguém fala deles.
Porque o mundo prefere celebrar as realizações.
A ausência não vende livros de autoajuda.
A ausência não produz heróis.
A ausência não cabe nos discursos motivacionais.
Entretanto, ela está em toda parte.
Ela mora atrás dos olhos.
Respira entre duas frases.
Habita os espaços vazios das fotografias.
Talvez esteja lendo este texto junto com você.
Talvez seja ela quem move seus olhos neste exato instante.
A madrugada avançava.
O silêncio tornava-se cada vez mais espesso.
Então aconteceu algo estranho.
As paredes começaram a desaparecer.
Não fisicamente.
Metafisicamente.
Como se perdessem sua função.
Como se deixassem de separar dentro e fora.
Eu e mundo.
Sujeito e objeto.
Tudo parecia dissolver-se numa espécie de névoa ontológica.
Quem observava?
Quem era observado?
Onde terminava a consciência?
Onde começava a realidade?
As perguntas se multiplicavam.
Mas nenhuma resposta surgia.
E talvez fosse melhor assim.
As respostas costumam ser túmulos prematuros para perguntas importantes.
A humanidade construiu religiões para responder.
Construiu filosofias para responder.
Construiu ideologias para responder.
Entretanto, séculos depois, continua sentada diante do mesmo abismo.
Mudaram apenas os nomes.
O vazio permaneceu.
Você consegue suportar essa ideia?
A possibilidade de que não exista uma explicação final?
De que o universo não esconda uma mensagem secreta?
De que talvez o sentido não esteja esperando para ser encontrado?
Talvez precise ser inventado.
Ou talvez nem isso.
Talvez a obsessão pelo sentido seja apenas mais uma forma de medo.
Medo da ausência.
Medo do silêncio.
Medo daquilo que permanece quando todas as narrativas desmoronam.
Perto do amanhecer, surgiu uma visão.
Uma paisagem imensa.
Sem árvores.
Sem rios.
Sem montanhas.
Uma extensão infinita composta exclusivamente de vazios.
Como um mapa.
Uma cartografia do que não existe.
Uma topografia da ausência.
E então tornou-se evidente.
A vida inteira havia sido passada tentando preencher aqueles espaços.
Com trabalho.
Com dinheiro.
Com relacionamentos.
Com crenças.
Com memórias.
Com distrações.
Mas os espaços permaneciam.
Porque não haviam sido feitos para ser preenchidos.
E sim habitados.
Há uma diferença enorme entre eliminar o vazio e aprender a viver dentro dele.
A maioria das pessoas passa a existência inteira fugindo.
Correndo de compromisso em compromisso.
De tela em tela.
De ruído em ruído.
Como se o silêncio fosse um predador.
Como se a solidão fosse uma doença.
Como se a ausência fosse um erro.
Mas e se ela não for?
E se a ausência for justamente aquilo que nos torna humanos?
E se ela for o espaço onde nasce a liberdade?
Porque somente quem não está completo pode escolher.
Somente quem não está terminado pode transformar-se.
Somente quem não possui todas as respostas pode continuar procurando.
O sol começou a nascer.
Uma luz pálida atravessou a janela.
Nada havia mudado.
A casa continuava a mesma.
A rua permanecia igual.
Os objetos estavam onde sempre estiveram.
Entretanto, alguma coisa havia se deslocado.
Talvez a compreensão.
Talvez a ilusão.
Talvez apenas a forma de olhar.
A ausência continuava ali.
Mas agora possuía relevo.
Possuía profundidade.
Possuía geografia.
Já não era um inimigo.
Era uma paisagem.
E toda paisagem exige contemplação.
Você também carrega a sua.
Talvez a esconda atrás das tarefas diárias.
Talvez a disfarce com palavras bonitas.
Talvez a cubra com sucessos, projetos e promessas.
Mas ela está aí.
Esperando.
Não para ser vencida.
Não para ser curada.
Não para ser preenchida.
Esperando para ser reconhecida.
Porque, no final de todas as jornadas, depois que os amores partem, depois que os sonhos envelhecem, depois que os nomes desaparecem das lápides e as fotografias perdem suas cores, resta uma pergunta simples e terrível.
Quem somos quando tudo aquilo que nos definia se ausenta?
Talvez você passe a vida inteira procurando a resposta.
Talvez nunca a encontre.
Mas talvez a verdadeira questão não seja encontrar.
Talvez seja aprender a caminhar.
Atravessar os desertos interiores.
Escutar os ecos.
Habitar os vazios.
Ler os contornos invisíveis daquilo que falta.
E reconhecer, enfim, que a existência não é um território de presenças.
E, ainda assim, a travessia não termina quando se reconhece a paisagem.
Este é o engano mais antigo da consciência.
Acreditar que compreender uma ferida equivale a cicatrizá-la.
Não equivale.
Há conhecimentos que não libertam. Há revelações que apenas ampliam a extensão do horizonte. E todo horizonte ampliado carrega consigo uma quantidade ainda maior de desconhecido.
Foi isso que se descobriu depois.
A ausência não era apenas uma região da existência.
Era também um método.
Uma linguagem.
Uma forma pela qual o próprio real se manifestava.
Observe uma árvore.
Você dirá que ela existe porque vê seu tronco, seus galhos, suas folhas. Mas o que permite à árvore ser árvore não é apenas aquilo que aparece. São também os espaços invisíveis entre as raízes e a terra, entre as folhas e o vento, entre a matéria e o tempo.
Observe uma casa.
O que a torna habitável não são os tijolos.
São os vazios entre os tijolos.
Os corredores.
As portas.
As janelas.
Os espaços que podem ser atravessados.
Talvez o mesmo aconteça com a vida.
Talvez aquilo que somos não esteja contido apenas nas presenças que acumulamos, mas nos vazios que conseguimos sustentar sem desmoronar.
Você já pensou nisso?
Talvez sua identidade não seja formada pelas certezas que possui.
Talvez seja formada pelas ausências que aprendeu a carregar.
Há pessoas que nunca se recuperam de uma perda.
Não porque a perda seja insuportável.
Mas porque construíram a própria existência sobre a ilusão da permanência.
E nada permanece.
Nem mesmo esta frase.
No instante em que você a lê, ela já pertence ao passado.
No instante em que compreende seu significado, ela já começou a desaparecer.
Tudo escapa.
Tudo flui.
Tudo abandona silenciosamente aquilo que foi.
Talvez seja por isso que o ser humano inventou monumentos.
Livros.
Arquivos.
Museus.
Fotografias.
Não para preservar o passado.
Mas para negociar com o desaparecimento.
Toda memória é um tratado diplomático assinado com o esquecimento.
Toda lembrança é uma tentativa de retardar o inevitável.
Mas o inevitável possui uma paciência infinita.
Ele espera.
Sempre espera.
Há algo profundamente perturbador nisso.
O fato de que o universo não precisa nos destruir.
Basta aguardar.
O tempo faz o restante.
As cidades afundam.
Os idiomas morrem.
As civilizações tornam-se notas de rodapé.
Os amores transformam-se em nomes que ninguém mais pronuncia.
E até os deuses, quando esquecidos, acabam desaparecendo.
Você percebe a dimensão desse silêncio?
Pense em todas as pessoas que viveram antes de você.
Bilhões.
Respiraram.
Amaram.
Sofreram.
Planejaram futuros.
Temeram a morte.
Contemplaram o céu.
E agora?
Onde estão?
Talvez em lugar algum.
Talvez apenas nesta pergunta.
Talvez a verdadeira morada dos mortos não seja a terra.
Mas a ausência.
E talvez seja exatamente por isso que a ausência provoque tanto medo.
Porque ela nos lembra de nossa condição transitória.
Ela desmonta a fantasia da centralidade.
Mostra que não somos o centro da história.
Nem mesmo da nossa própria história.
Quantas decisões que moldaram sua vida foram realmente suas?
Quantos desejos nasceram em você?
Quantos foram herdados?
Quantos medos pertencem verdadeiramente à sua experiência?
Quantos foram transmitidos como uma herança invisível?
Existe uma estranha arrogância em acreditar que somos inteiramente autores de nós mesmos.
Talvez sejamos mais parecidos com ruínas em construção.
Fragmentos sobre fragmentos.
Vestígios sobre vestígios.
Ausências empilhadas umas sobre as outras.
E, mesmo assim, continuamos procurando uma essência.
Uma verdade definitiva.
Um núcleo imóvel.
Como arqueólogos procurando um centro que talvez nunca tenha existido.
Mas imagine, por um momento, que não exista centro algum.
Imagine que a identidade seja apenas movimento.
Imagine que o eu não passe de uma narrativa provisória que contamos para suportar a vertigem.
O que aconteceria?
Você se sentiria livre?
Ou aterrorizado?
Porque a liberdade absoluta possui algo em comum com o abismo.
Ambos eliminam os corrimãos.
Ambos exigem responsabilidade.
Ambos retiram os mapas.
Talvez seja por isso que tantas pessoas preferem as prisões invisíveis.
Elas oferecem conforto.
Oferecem direção.
Oferecem a ilusão de estabilidade.
É mais fácil viver dentro de uma resposta equivocada do que atravessar uma pergunta verdadeira.
No entanto, a ausência continua trabalhando.
Pacientemente.
Ela remove máscaras.
Desgasta convicções.
Enfraquece dogmas.
Até que um dia o indivíduo se encontre diante de si mesmo sem os adornos habituais.
Sem títulos.
Sem funções.
Sem aplausos.
Sem testemunhas.
Apenas consciência.
Apenas silêncio.
Apenas o eco da própria finitude.
E então surge a questão que ninguém consegue evitar para sempre.
O que fazer com o tempo que resta?
Não o tempo abstrato.
Não o tempo filosófico.
Mas o tempo concreto.
Os dias limitados.
As manhãs numeradas.
As noites contáveis.
O estoque invisível de horas que diminui enquanto você lê estas palavras.
O que fazer com isso?
Acumular?
Competir?
Consumir?
Esquecer?
Esperar?
Ou viver?
Mas o que significa viver?
Porque viver não parece ser apenas existir.
As pedras existem.
Os planetas existem.
As máquinas existem.
Viver talvez seja outra coisa.
Talvez seja a capacidade de olhar para o vazio sem fugir imediatamente dele.
Talvez seja suportar a consciência da perda sem transformar a vida em ressentimento.
Talvez seja aprender que o sentido não está escondido em algum lugar distante, aguardando descoberta, mas emerge brevemente nos encontros, nos gestos, nas contemplações e nos instantes que se recusam a durar.
Instantes.
Apenas isso.
Talvez toda a eternidade humana esteja contida em alguns instantes.
Um olhar.
Uma palavra.
Um silêncio compartilhado.
Uma tarde esquecida.
Um céu observado sem motivo.
E então a ausência ganha um significado inesperado.
Porque sem ela nada teria valor.
Se tudo permanecesse para sempre, nada seria precioso.
Se nada pudesse ser perdido, nada mereceria ser amado.
A finitude não é apenas uma condenação.
É também aquilo que confere intensidade à experiência.
Aquilo que transforma um momento comum em algo irrepetível.
Aquilo que faz do amor mais do que hábito.
Aquilo que faz da despedida mais do que distância.
Aquilo que faz da existência mais do que mera permanência.
Talvez seja este o último relevo da topografia da ausência.
A descoberta de que o vazio não está diante de nós.
Está dentro de tudo.
Dentro da beleza.
Dentro da memória.
Dentro do desejo.
Dentro da esperança.
E talvez até dentro da felicidade.
Não como uma falha.
Mas como sua condição de possibilidade.
Porque tudo aquilo que amamos carrega em si a promessa do desaparecimento.
E exatamente por isso amamos.
No fim, quando todas as explicações se recolhem e as teorias perdem a voz, resta apenas a paisagem.
Uma vasta paisagem de presenças transitórias atravessando ausências infinitas.
E você continua caminhando.
Sem respostas definitivas.
Sem garantias.
Sem mapas confiáveis.
Mas caminhando.
Talvez seja isso o que significa existir.
Não conquistar o território.
Não decifrar o mistério.
Não preencher o vazio.
Mas seguir adiante, consciente de que cada passo é desenhado sobre o solo instável daquilo que falta.
E aceitar que, entre o nascimento e o esquecimento, toda vida humana não passa de uma breve inscrição traçada sobre a superfície móvel da ausência — uma escrita frágil que o tempo lentamente apaga, mas que, enquanto existe, ilumina por um instante a escuridão insondável do ser.
Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Entre vinhos e livros’
Eduardo Cesario-MartínezImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/share/fd959b310406
Desde muito antes de se perceber velho, Augusto gostava de ler sentado em um dos bancos protegidos pelas copas das amendoeiras que circundavam o parquinho, onde crianças pareciam se divertir. Os gritos da garotada não incomodavam a leitura, mas a tornavam mais interessante. Eram como fagulhas que despertavam sentimentos esquecidos, que se misturavam sem cerimônia aos parágrafos que eram consumidos como iguarias fossem.
Casado e descasado por vezes, sentia-se viúvo desde que a derradeira ex-esposa sucumbiu à dor do enfrentamento de câncer de mama. E, apesar das inevitáveis rusgas diante do rompimento, reencontraram o caminho da amizade e, assim, trocaram confidências até o quase último suspiro da acamada.
No exato momento em que virava mais uma página, perguntou-se por que ele e Olívia nunca tiveram uma recaída. Quer dizer, ainda trocaram alguns afagos após o desenlace, mas nada além de duas ou três noites depois de esvaziar uma garrafa de Malbec. Ou teria sido Merlot? Não importa, mesmo porque Augusto nunca fora um especialista no assunto, ao contrário da falecida.
Olívia era bonita. Sim, bonita. Não obstante, tal beleza não chegava a ofuscar as mazelas do relacionamento, que eram óbvias até mesmo quando os dois ainda viviam a paixão inicial, momento em que os corpos gritam diante da razão.
Por que não tiveram filhos? Essa era uma questão que ainda o intrigava. Era notória a relação de Olívia com os pequenos, que sempre corriam para os seus braços. Quanto a ele, talvez fosse deveras egoísta para se ater aos cuidados de outrem. Gostava dos sobrinhos. Quer dizer, suportava-os por alguns instantes, nada além disso. Talvez Olívia, perceptiva, já havia notado essa característica indesejável no companheiro e, então, se abstivera da ideia da concepção.
O casamento, entre idas e vindas, durou além da conta. Gênios tão díspares, definitivamente, não se atraem ou, caso o façam, qualquer coisinha é motivo de separação. E deve ter sido mesmo por bobagem qualquer, dessas que, logo após o desfecho, são levadas pela ventania da insignificância.
Entre taças de vinho e afastamentos, nunca deixaram de se falar. E, após quase seis meses do velório de Olívia, o velho continuava a ler os livros recomendados por ela.
— Nada de clássicos, Augusto. Na nossa idade, precisamos olhar para o presente antes que o futuro nos alcance implacavelmente.
As palavras de Olívia ainda ecoavam nos ouvidos do velho quando um menino, não mais de cinco anos, reclamava aos berros.
— Não, mamãe! Não quero ir!
— Meu filho, vamos, que amanhã a gente vem de novo.
— Não!!!
— Augusto! Pare com isso! A vida não é um morango!
Enquanto a mulher puxava a criança pelo braço, que esperneava, Augusto sorriu pela coincidência e voltou os olhos para a capa do livro A verdade nos seres, de Daniel Marchi.
Lina VeiraImagem do Canva, com texto de Lina Veira
A enfermeira se aproximou com o aparelho de pressão e uma lista de sequência de remédios para medicar a paciente e moradora da casa de idosas. Eu fiquei ali, observando aquele tratamento com alguém já tão frágil e dependente. Uma senhora de idade avançada, com sua pele marcada pelo peso dos anos, sentada numa cadeira de rodas, toda encolhidinha e bem arrumada como se o inverno fosse à única estação de sua vida. Era como um bebê, e olhava para o chão já sem muita sustentação na sua coluna para olhar para cima, para ver as pessoas ao redor, para olhar para mim. Mas eu estava ali. Apreciando seus cabelos branquinhos, admirando sua senilidade. A poesia de seus calmos movimentos. Onde estariam seus filhos? Seu marido? Seus irmãos? Será que não tinha netos? Deveria estar à espera de alguém. Pensava tanto… Não teria coragem de deixar minha mãe num asilo ou numa casa de idosos. Você teria? Com certeza, aquela senhora precisava de todos aqueles remedinhos para ainda estar entre nós. E quantos jovens e adultos sem necessidades são viciados em remédios?
Brasil – a geração mais medicada e viciada em drogas do mundo. Uma estatística que incomoda. É remédio para animar, para acalmar, para transar, para sofrer menos, para não sofrer. É remédio para não pensar, para dormir, para não se deprimir, para não sentir, para ser sereno. É remédio para emagrecer, para esquecer, para não sentir fome; para olhar o mundo sem ver. É remédio deixando morrer nosso instinto de sobrevivência, todo nosso desejo de ser, como um analgésico viciante e mortal, quebrando toda nossa energia armazenada. Só não existe remédio para amar, para ser feliz, para saber viver. Abrir as janelas da casa como se fossem abrir as janelas do seu coração. Para muitos, sua felicidade está em ver seus filhos crescidos e formados, com seus netinhos correndo pela casa ou ainda com a chegada dos fios de cabelo brancos, sugerindo mais serenidade e paciência com as mudanças, com nosso corpo, e outros.
– Olá Augusta, como passou a semana?
Minha aluna mais dedicada se aproxima com um simpático sorriso e todo material da aula em mãos. Ela não gosta que eu a chame de senhora. Outro dia, lhe perguntei por que estava morando ali. E como tantas outras histórias que já conheci: a sua também não foi feliz. Mas ela estava sempre alegre e disposta e me respondeu com um sorriso incrível:
– Olá, professora Lina! Que bom lhe ver! Está tudo bem…
E continuei contemplando cada mulher naquele abrigo a minha frente. A felicidade por eu chegar, a expressão de cada rosto. Onde estavam seus parentes e laços familiares. Sua memória ainda viva, seus segredos. vida é tão breve. Não precisamos ficar de cabelos branquinhos para decidir ser feliz. Não é justo chegar aos cinquenta e ainda nos cobrar por não ter sido mãe. Nosso destino está alinhado ao propósito de Deus. Até tentamos desenhar, rabiscamos muito. Mas não dominamos o fim. Como canta Arnaldo Antunes: “A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”.
Que nosso analgésico seja o sorriso mais lindo e uma boa ação. Que nossa velhice chegue risonha e sem tantos remédios, mas que, principalmente, nosso lar seja nossa casa, fruto de nossa luta, fruto de nosso sangue, com nossos filhos, netos, parentes, familiares e amigos que acolhemos e ganhamos durante a vida. Porque assim, todo final será mais feliz, mesmo que a gente não consiga ficar de pé com tanto equilíbrio, mesmo se todas as estações parecerem inverno com seus dias cinzas, que possamos estar com quem nos quer bem de verdade, só isso.
Lina VEIRA
Lina Veira, em 2014, trabalhou voluntariamente como autora em seu bairro, estimulando a memória e atenção das idosas.