Data de um mês desconhecido

Bahtiyar Hidayet escreve sobre a jornada de uma faca na árvore à mentira dos jornais: a perda da pureza e a ruína do amor

Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Fotografia em orientação paisagem que retrata um homem mais velho com uma boina escura, casaco bege e calças escuras, sentado num banco de madeira ao ar livre, concentrado a ler um jornal chamado "Yeni Gün". O banco de madeira tem entalhes de corações e flechas cruzadas na superfície. Ao lado, à direita, ergue-se o tronco de uma árvore grossa com a inscrição gravada "BAHTİYAR + FULANA = AMOR". No fundo, a paisagem rural mostra uma área arborizada e desmatada com troncos cortados, uma estrutura industrial com fumo a sair da chaminé e um pequeno acampamento com fogueira à distância.
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Lembro-me bem,
escrevi meu primeiro poema com uma faca:
na pistacheira,
meu nome junto ao nome daquela garota:
Bahtiyar + fulana = amor.
Naquela época, não era difícil imprimir:
faca, floresta
e “guarda florestal — editor”.

Depois escrevi meu poema com carvão.
Desenhei corações nas paredes,
e flechas cruzadas atravessavam aquele coração.
Depois, trocaram a faca por uma caneta.
Naquela época, o guarda florestal não dizia nada,
mas os editores encontravam cem desculpas.
Aqueles editores
que não conseguiam ser poetas
tornaram-se editores por necessidade.

… O pastor disse: “Suas ovelhas deram cria!”
Como eu tinha pressa
de ver o cordeiro recém-nascido!
Agora, não tenho pressa
de comprar na banca o jornal
em que meu poema foi publicado.
Sei que o editor mudou alguma coisa.

Eu cresci.
Os canalhas escreveram “poemas” com uma faca nas minhas costas.
De fato, acertaram meu coração com uma flecha.
Aquele guarda florestal já não existe,
nem aquele pastor,
nem aquele tempo, nem aquela amada, nem aquele amor, nem aquela pureza.
Nem aquela floresta…
Derrubaram aquela floresta e fizeram jornais.
Mentiras são escritas nesses jornais,
e são publicados os poemas daqueles que não conseguem ser poetas.
Nesses jornais, somente o dia do mês está correto.
Derrubaram aquela floresta e extraíram carvão.
Devora​m meus sonhos como se fossem espetinhos de carne.

Agora, a situação é esta:
Bahtiyar + tristeza = tristeza ainda maior.
Em suma,
como um cordeiro órfão, sou um anjo.
Esta ainda é uma boa situação —
ninguém apontou uma faca para minha garganta.
Meu primeiro amor permaneceu
como uma ferida
no tronco daquela árvore.
Os opressores também a destruíram.
Os muros que eu havia construído ao redor daquele coração desmoronaram;
aqueles muros caíram sobre as lembranças.

… Devora​m meus sonhos como se fossem espetinhos de carne.
A fumaça deles me cegou.
Não consigo encontrar um muro em que me apoiar para caminhar,
mas, para mim,
o mundo se tornou quatro paredes.
E esqueci o tempo —
graças a Deus, existem aqueles jornais.
Olho para o dia do mês —
o dia de um mês desconhecido,
o dia de um mês desconhecido.

Bakhtiyar Hasanov

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Ouro da Floresta

O chamado da floresta: quando a arte se torna voz da Terra

Ouro da Floresta
Ouro da Floresta

Algumas histórias nascem do silêncio e outras, de um grito.

Foi assim que a escritora Niara Su, natural de São Bernardo do Campo (SP), encontrou sua voz.

Depois de uma trajetória pessoal marcada por desafios e superação, ela transformou sua sensibilidade em um instrumento de denúncia e esperança.

Niara Su
Niara Su

O resultado é Ouro da Floresta, seu primeiro livro, um grito de alerta em forma de arte.

Formada em Direito, Niara sempre foi movida por um olhar crítico e empático sobre o mundo.

Ao se deparar com reportagens sobre o avanço do garimpo ilegal na Amazônia, a violência contra povos indígenas e o colapso ambiental provocado pela exploração desenfreada, sentiu nascer o impulso de escrever.

Unindo o raciocínio jurídico à sensibilidade artística, ela encontrou um caminho para traduzir a dor da floresta em palavras.


“Percebi que poderia unir meu olhar jurídico à escrita criativa para chamar a atenção do público sobre o que acontece na Amazônia”
Niara Su


Inicialmente concebido como um roteiro de longa-metragem, Ouro da Floresta chegou às quartas de final do prestigiado BlueCat Screenplay Competition, nos Estados Unidos, antes de se transformar em livro.

A mudança de formato, porém, ampliou seu alcance e deu nova força à mensagem, uma fusão entre ficção, denúncia e espiritualidade, onde os próprios espíritos da floresta parecem sussurrar suas dores e sabedorias.

Na obra, Niara aborda a engrenagem humana por trás da destruição ambiental, revelando a complexa rede que sustenta o garimpo ilegal, dos pilotos que sobrevoam pistas clandestinas ao impacto devastador sobre comunidades tradicionais e povos originários.

Tudo isso sem abrir mão da beleza poética que envolve a narrativa.

Mais do que um livro, Ouro da Floresta é um chamado à consciência.

É a lembrança de que o ouro que brilha nos mercados pode custar o silêncio das árvores, o envenenamento dos rios e o desaparecimento de culturas inteiras.

Hoje, Niara entende que seu caminho de transformação social se faz pela arte.

E é exatamente isso que ela entrega em cada página: um manifesto literário pela vida, da floresta, das pessoas e do planeta.

REDES SOCIAIS DA AUTORA

OURO DA FLORESTA

SINOPSE

Jonas é um piloto ambicioso que se envolve em um perigoso esquema de garimpo ilegal na Bacia do Tapajós, no Pará.

Seduzido pela promessa de riqueza fácil, ele intercepta informações privilegiadas sobre a maior jazida de ouro do país, localizada em território indígena.

Tais informações eram destinadas a Rocha, um temido líder do crime organizado na região, que fará de tudo para recuperar o que lhe foi subtraído.

Consumido pela própria ganância, Jonas verá suas escolhas causarem efeitos devastadores sobre a floresta e os povos que nela habitam.

Para se libertar, precisará enfrentar as consequências e responder a um chamado interior de redenção.

Sua jornada o conduzirá a uma missão sagrada ao lado de Kayãn, Ayana, Niara, do Pajé e de toda a comunidade indígena: transmitir ao mundo uma mensagem vital dos espíritos da floresta.

Mas antes que essa aliança se forme, eles pagarão um alto preço pelas decisões imprudentes do piloto.

Assista à resenha do canal @oqueli no YouTube

OBRA DA AUTORA

Ouro da Floresta
Ouro da Floresta

ONDE ENCONTRAR


Página Inicial

Resenhas da colunista Lee Oliveira




Canto do passaredo

Ella Dominici: Poema ‘Canto do passaredo’

Ella Dominici
Ella Dominici
"Da floresta ou da janela ouvem-se vozes que ecoam fortes ou de levinho… são amigos belos passarinhos"
“Da floresta ou da janela ouvem-se vozes que ecoam fortes ou de levinho… são amigos belos passarinhos”
Microsoft Bing – Imagem criada pelo Designer

O que canta o canto
da Santa natureza
do observatório do nosso âmago
voam dúvidas ou certezas
marsupiais ou singelezas?

Da floresta ou da janela
ouvem-se vozes que ecoam fortes
ou de levinho…
são amigos belos passarinhos

São desilusões de pássaros em gritos
ou desavenças formosas dos conflitos
queixas dos mais desavisados
frustrações juvenis dos mais infantos

Mistérios do canto
tem nele acalanto e paz infinita
ou roubam o encanto e desdita
na drástica sinfonia
que os ouvidos ouvem
e instigados se comovem
tal violência e tempestade
do impetuoso Bethoven.

O que cantam os pássaros
perderam na dança da conquista
no amoroso amatório?
sentem-se fogosos no canto aleatório
em nossas intuições
ouvimos bloqueadas sensações
desejos e paixões dos passarinhos
dor de saudades, falta nos ninhos

Mas seria …
quando um pássaros canta
vivente nele a alegria de Mozart
conta a sua glória de existir
nas tempestades resistir?
chama a fêmea que lhe falta
no seu tilintar e olente elixir?

Quando um pássaro canta
seriam suaves preces
deixadas no oratório
dos pássaros celestes?
perpetua-se o canto da realeza
simples pássaros…
da Santa Natureza

Ella Dominici

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