Mustafa Al-SumaidiImagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/3381a3849e08a70d?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
“Why strike against me, food?” Such was my stunned question, as it whispered to me not to eat it.
All of a sudden, I swallowed hard, my throat dry, from the sting of a mere half-day’s hunger, while in a silent soliloquy: “Ah, I understand you now.”
A crowd of hollow-faced shadows, bellies bound with stones, and the long-starved, rose before my tear-filled eyes.
A hunger strike neither nourishes nor satisfies. It will not save a starving soul that has endured for months.
I finished my meal absentmindedly, as if to breathe a prayer: If only it could be digested in someone else’s stomach.
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Dizem que a história aconteceu numa daquelas noites em que a fome não pede licença.
Ela entra. Senta. E ainda pergunta se tem mais.
A jovem passou a madrugada inteira tentando resolver o problema mais antigo da humanidade: o que comer. Abriu panela vazia, fechou panela vazia, olhou dentro da geladeira como quem espera que apareça um milagre entre a luz e o vento frio.
Nada.
Já estava quase considerando fritar o próprio pensamento quando alguém apareceu trazendo um frango, com aquela generosidade prática de quem resolve a vida sem muita filosofia, .
E que frango!
Dourado, cheiroso, daqueles que parecem ter passado a vida inteira se preparando exatamente para aquele momento.
A jovem, já meio fraca de tanto pensar e pouco mastigar, não fez muitas perguntas. Quando a fome aperta, a curiosidade costuma tirar férias.
Só depois — porque sempre existe um depois — alguém comentou, com aquele ar de quem gosta de estragar prato pronto, que ali estava um ovo disfarçado de galinha. Um futuro poleiro que não chegou a conhecer o próprio quintal.
Mas, a essa altura, o destino já estava decidido.
Existe uma lei antiga que nunca passou pelo Congresso: comida costuma nascer para encontrar a fome.
Claro que há quem pense diferente — e com razão. Tem gente que olha para uma cenoura e vê jantar. Olha para um frango e já imagina até o nome dele.
Tudo bem também.
O curioso é que, quando o assunto é comida, sempre aparecem especialistas em prato alheio. Surge logo um Seu Galo, juiz de panela e galinhada, um fiscal de frigideira e até um perito em panela queimada de brigadeiro.
Todo mundo pronto para dar sentença.
Enquanto isso, no silêncio respeitável do prato, o frango cumpre seu destino sem reclamar — o que, convenhamos, já demonstra mais educação que muita gente.
Porque, no fim das contas, a fome raramente julga. Quem julga mesmo costuma estar de barriga ‘forrada’.
E, pensando bem, se o frango pudesse dar opinião sobre tudo isso…
Provavelmente pediria menos debate…
E mais tempero.
Karla Dornelas
Karla Dornelas
Karla Dornelas, natural de Caratinga (MG), é escritora e poetisa. Membro da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA e da Academia Brasileira de História e Literatura -ABHL, com projetos literários em desenvolvimento, incluindo a reedição de seu primeiro livro de poesias, ‘Simplesmente Você’.
Ao longo de sua trajetória, foi contemplada com menções honrosas por sua dedicação à arte e à literatura.
Sua escrita nasce do olhar sensível sobre o cotidiano, transformando o mundo em experiências poéticas e afetivas.
Com linguagem marcada pela delicadeza, musicalidade e criação de vocabulário próprio, busca dar voz ao invisível e valorizar o que é essencialmente humano, dedicando-se à construção de uma trajetória literária voltada à arte de tocar e transformar o leitor por meio da palavra.
O cheiro do lixo misturava-se com o da roupa húmida, do peixe podre e da lenha mal queimada, um caldo de miséria que o ar se recusava a dispersar, talvez por pena, talvez por costume, e o bairro inteiro respirava aquilo como quem já não sabe distinguir o que é fora e o que é dentro, porque há muito o ar das pessoas se parece com o ar das ruas.
As moscas faziam carreira entre os sacos plásticos rasgados, pousavam no tomate esmagado, na xima fria, na pele dos que dormem de barriga vazia, e voltavam a voar, incansáveis, como se também tivessem fome e destino.
O chão, esse, era barro vermelho, cacos, e cada passo nu deixava atrás de si um rasto de lama e sobrevivência, que é o mesmo que dizer: vida teimosa.
Mano Gito, doze anos contados com má vontade do tempo, parecia ter oito, e talvez fosse o tempo, mais do que a fome, quem o roía por dentro. Era só osso e olho, o peito seco de quem já chorou tanto que desaprendeu o gesto, e no estômago, um batuque fundo, que não era fome, era protesto, era grito que não encontrou boca.
Na mão levava um naco de pão duro, herança da generosidade involuntária da padaria do tio Balta, onde os miúdos aprendem cedo que a esperança é paciente, mas não eterna.
Levou o pão à boca com olhos de quem rouba o próprio destino, rápido, quase pedindo desculpa, como se o mundo o observasse e esperasse o momento certo para lhe tirar o pouco que tem, e tirou.
Um cão saltou das sombras, e o que dizer dele, senão que era um cão como tantos, sem nome, sem dono, com mais cicatriz do que pelo, com olhos fundos, secos, dois caroços de manga deixados ao sol, e o focinho coberto de terra e baba. Agarrou o pão com a fúria de quem já não acredita em justiça, e o Gito, primeiro espanto, depois raiva, depois lágrimas, gritou o que gritam os que não têm mais nada, um simples não, palavra pequena demais para conter tanta miséria.
Atirou-se ao cão. Rolaram na lama, o cão rosnava, o rapaz empurrava, arranhava, tentava abrir com as mãos pequenas a boca que o destino fechara. O cão lutava, mas não mordeu, e talvez soubesse, nas profundezas da sua fome, que aquele miúdo era mais bicho do que ele.
Então o Gito fez o que ninguém, nem Deus, esperava: mordeu o cão. Sim, cravou os dentes no pescoço do animal, como quem decide ser fera para não morrer homem. Sentiu o pelo, o sangue, o sal e o amargo, e por um instante quis cuspir, mas não cuspiu, porque o que é que se cospe quando o mundo inteiro está dentro da boca? O cão uivou, não apenas de dor, mas de espanto, porque até os animais têm o seu código, e naquele código estava escrito que só os homens mordem com vergonha.
O pão caiu, ficou entre os dois, sujo de lama, a tremer como se tivesse medo de ser escolhido.
O cão recuou, lambeu a ferida e desapareceu, sem ódio, sem ruído, talvez com respeito, talvez com cansaço, e o silêncio que ficou pesava mais do que qualquer fome.
Gito ficou parado, trémulo, os lábios vermelhos, as mãos suspensas, e o pão ali, tão perto e tão distante, porque há coisas que, depois de feitas, já não se tocam. Não sabia se o pão estava sujo demais ou sagrado demais, e talvez fosse as duas coisas, porque naquele instante aprendeu o que ninguém lhe ensinara, que há fomes que nem Deus se atreve a contrariar, e que, às vezes, sobreviver é o pecado mais puro que um homem pode cometer.
Osvaldo Manuel AlbertoImagem gerada por IA do Bing – 18 de novembro de 2024 às 3:05 PM
De tanta fome confundimos o prato com o parto. Até o mais velho que sempre diz: parto os cornos, fica sem forças para demonstrar a sua arte.
Não se trata apenas da alteração de algumas letras, é o mais profundo que um ser humano pode sentir.
Tenho tanta fome que a esta hora preferiria dar tantos partos simultâneos, a faltar ou ver flutuar um prato.
Nem que fosse um prato de arroz com cheiro de nada. Está difícil ter um prato à mesa.
Dê-me um pão, por favor! Ainda que não queiras colocar no prato, ponha-o no chão.
Na ausência de pão, permitam-me partilhar o osso com o vosso cão.
Já vi partir para eternidade filhos meus, pela ausência de comida. Já não me interessa o valor nutricional, pouco me importo se me alimento, desde que consiga comer.
Não tenho culpa de ser tão fértil. Aos meus filhos apelidam de cassua, quando na verdade é má nutrição.
Em nossa cubata não há conta que bata certo. Os meus filhos não usam bata, nem comem batata. Não é por desgosto, mas pela ausência.
Não posso rir, prefiro parir a ver meu filho partir. A dor de perder alguém por fome é maior do que parir 10 vezes no mesmo dia.
Aos prantos eu te peço: Permita-me lavar todos os pratos de sua casa, até aqueles que servem de esconderijos dos ratos.
Os ratos, há muito que fugiram do meu casebre, pois não há pão para repartir. É desta forma que vejo os meus sonhos partirem para lugar incerto, tal como os ratos que nos abandonam mesmo sem insecticida.
O brilho das panelas incomodam, parece bate chapa em bairros novos.
Ouvi falar em branqueamento e repatriamento de capitais, podem aldrabar-nos mais, Mas não falte o pão, porque o nzala yeya.
Não sou mulher do Mingo, mas a cada dia que passa eu mínguo de víveres.