O sexto sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O sexto sinal’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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Após a confusão instalada no momento da acção de graças, que culminara na fuga do santuário, embora com a mochila desprovida de sentido, pois o livro Cândido ficara esquecido dentro do recinto sagrado, o miúdo cruzou caminhos estreitos, noites escuras e dias sem comida. Servia-se de água suja partilhada com os animais não humanos, temendo passar por estradas comuns e encontrar gente perversa que lhe pudesse fazer mal. Afinal, depois das sucessivas tragédias que marcavam a sua existência: a morte do pai, a fuga da mãe da quinta, a transformação da mãe em prostituta ressuscitada, a vida de catador de lixo, o acolhimento e posterior fuga do santuário, o miúdo já possuía consciência suficiente para discernir o bem do mal.

Porém, embora consciente do mundo e dos seus devaneios, o miúdo ignorava que, para além do passado repleto de nuances, outra nódoa o perseguia: o fumo do incenso do santuário. E o pior de tudo era que o fumo o seguia inocentemente por onde passasse.

Depois de sucessivos devaneios que o transformaram num peregrino solitário, eis que o miúdo chegou a uma aldeia de gente desconhecida. Desejava que a sua presença ali não fosse notada, como quem acredita que a ausência pesa mais do que a presença. Não se apresentou às estruturas da aldeia, tentando evitar chamar atenção, sem saber que não chamar atenção é, muitas vezes, a melhor forma de chamá-la.

Entretanto, apesar da discrição da sua chegada em terra alheia, as lideranças logo pressentiram a entrada de um ente novo na aldeia. E o fumo do incenso que perseguia o miúdo foi o grande denunciante.

Enquanto isso, no santuário espalhava-se a notícia da fuga do miúdo, pois ele jamais voltara a apresentar-se desde o domingo de ramos. Os sinos foram accionados. Os diáconos começaram a culpar-se mutuamente, acreditando que a fuga estivesse relacionada às atitudes que desagradaram o miúdo. O padre, porém, acreditava na inocência do rapaz e esperava pelo seu regresso. Já os outros miúdos acolhidos no santuário combinavam entre si que, caso o companheiro não regressasse, rebelar-se-iam contra as treze regras do santuário ou seguiriam o mesmo destino: a fuga.

Quem não demonstrava preocupação alguma era o vigário que presidira à missa do domingo de ramos. Estivera atento apenas ao ofertório recebido durante a celebração.

Os ímpios, a mãe do miúdo junto da amiga, o monge e os cães fardados regressaram sem sucesso às suas zonas de proveniência. Como se viu na missa, ninguém reconheceu ninguém, embora o instinto de cada um sentisse o cheiro do seu alvo.

O vigário despediu-se do santuário. Carregou a sua oferenda e pôs-se a conduzir a viatura luxuosa em estradas de lixo.

Ao passar pela aldeia circunvizinha, a mesma que acolhera o miúdo, a viatura atolou e capotou, pois a estrada, além de esburacada, não passava de um lamaçal.

E, como é habitual nas aldeias de bons selvagens, sempre que há tragédia social não se clama por ajuda: ela vem sozinha. Naquela aldeia não foi diferente. De repente, surgiu um grupo de jovens munidos do material necessário para pronta intervenção. Entre eles estava o miúdo, que se aproximou atentamente da viatura e descobriu tratar-se da do vigário-geral da diocese. Decidiu afastar-se para não ser reconhecido, porém uma voz interior dizia-lhe para permanecer e intervir.

De repente, o cheiro do fumo do incenso que permanecera no miúdo atingiu o vigário, embora não tão fortemente quanto a preocupação que tinha em ver a viatura livre daquela situação.

Várias tentativas foram levadas a cabo, mas sem sucesso. Até que o miúdo decidiu apresentar a sua visão. Sugeriu que levantassem a viatura com força, em vez de escavar o lado onde o pneu capotara. Alguns jovens resistiram à ideia, mas outros decidiram ouvi-lo. Ergueram a viatura de um lado e, depois de sucessivas tentativas frustradas, conseguiram finalmente libertá-la.

Felizardo, o vigário quis agradecer aos jovens. Fe-lo distribuindo algumas moedas arrecadadas do ofertório solene da missa do domingo de ramos. Porém, o miúdo recusou aceitar a recompensa, acreditando ter agido apenas por humanidade. Enquanto isso, os outros alegravam-se com o gesto e rogavam para que mais viaturas capotassem naquele trajecto, para fins de arrecadação de fundos.

A atitude do miúdo surpreendeu o vigário, mas não os jovens, que cochichavam entre si que fora melhor o rapaz recusar as moedas, pois assim evitava-se dificuldade na partilha.

Antes de partir daquela aldeia, o vigário decidiu testar a instrução dos jovens. Prometeu que quem respondesse correctamente à sua pergunta receberia uma oportunidade de estudo.

Concentrou-os e lançou apenas uma questão:

– Qual é o ser que, no começo da vida, anda sobre quatro pés; a meio da vida, sobre dois; e, no fim, sobre três?

Os jovens ficaram encurralados, pois jamais haviam estado diante de questão daquela natureza. O miúdo, porém, não se surpreendeu com o enigma, pois a sua própria vida não passava de uma sucessão de enigmas.

Permaneceu em silêncio por alguns instantes. Embora soubesse a resposta, não desejava tornar-se beneficiário da recompensa prometida pelo vigário. Ainda assim, decidiu responder por coerência consigo mesmo, afinal, reza a lenda que quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Quando o vigário já parecia cansado de esperar, o miúdo respondeu prontamente:

– É o homem. Na infância desloca-se sobre duas mãos e dois pés; durante a vida caminha sobre dois pés; e, no fim da existência, serve-se de um bastão como terceiro apoio.

Satisfeito com a resposta, o vigário viu-se no dever de cumprir a promessa de conceder ao rapaz uma oportunidade de estudo. Pediu apenas algum tempo para regressar à diocese e formalizar o gesto.

Enquanto isso, na aldeia, o miúdo agora já em fase juvenil, tornara-se famoso. Por onde passasse, todos clamavam por ele. A notícia espalhou-se até ao santuário, à quinta dos ímpios, ao prostíbulo onde residia a mãe e à casa do monge. Porém, cada qual permanecia ocupado com a própria vida. Até porque ninguém fazia a menor ideia sobre tal jovem.

A fama entristecia cada vez mais o jovem, pois jurara viver discretamente, longe dos alardes. Passou a viver numa cabana abandonada por uma anciã da aldeia que fora morta sob acusações de feitiçaria. Houve até quem associasse a chegada do jovem a um sinal de vingança pela morte da velha, considerando-o fruto da mesma árvore genealógica.

Num desses dias, enquanto deambulava pelas lixeiras da aldeia, o jovem encontrou o bibliotecário do santuário, o mesmo que sob o comando do diácono, retirara das estantes o livro A Rebelião das Massas. O homem não reconheceu o rapaz, pois ele crescera e a aparência mudara com os devaneios da existência. O jovem, contudo, reconheceu-o imediatamente.

Ainda assim, jamais guardara rancor daquele senhor. E a forma respeitosa como o tratou sensibilizou o bibliotecário, que, em gesto de correspondência, prometeu-lhe um presente.

O jovem, sereno, considerou a atitude algo natural. Mesmo assim, agradeceu e pediu que o homem não se preocupasse.

Sucedeu que, no regresso do santuário, o bibliotecário procurou o aposento do jovem. Sem encontrá-lo, acabou por cruzar-se com ele numa ruela da aldeia. Retirou então de um saco velho o presente prometido e entregou-lho.

O jovem regressou calmamente à cabana. Ao abrir o saco, deparou-se com uma realidade inesperada: o livro A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, o mesmo que lhe fora implicitamente proibido na biblioteca do santuário, por orientação de um dos diáconos.

Agradeceu aos céus pelo gesto do bibliotecário, mas decidiu devolvê-lo, pois sabia que o livro fora retirado do santuário em condições duvidosas. Dizia para si mesmo que, se fosse para alcançar o saber, que assim fosse não por meio do desvio moral, mas pelo esforço individual.

Na manhã seguinte, o jovem colocou-se novamente nas andanças das lixeiras, desta vez com o propósito de encontrar o bibliotecário para devolver-lhe o presente proibido e agradecer-lhe pela intenção.

Assim aconteceu. O bibliotecário passou. O jovem interpelou-o, devolveu-lhe o livro e ambos dispersaram-se sem despertar suspeitas. Afinal, apesar de movimentada, a aldeia tinha olhos atentos para tudo.

Dias depois, o vigário regressou. Não vinha sozinho, mas acompanhado por uma brigada provincial responsável pela área da criança e acção social.

A aldeia agitou-se. Os idosos esperavam o anúncio do subsídio de velhice. Os jovens imaginavam novas viaturas atoladas para arrecadação de moedas.

A brigada desceu juntamente com o vigário e iniciou conversa com os populares. Após alguns minutos, o vigário anunciou o verdadeiro motivo da visita. Pediu então que comparecesse o jovem que decifrara o enigma durante a sua passagem pela aldeia.

O jovem não estava presente. Desejava viver distante da mídia populista. Apesar da irritação de alguns, houve quem fosse procurá-lo. Encontraram-no na lixeira, a tentar compreender o sentido da existência. Resistiu, mas como a maioria vence, acabou por seguir até ao encontro do vigário e da brigada.

As lideranças da aldeia não aceitaram o que presenciavam. Para demonstrar repulsa, decidiram boicotar o evento e erguer barricadas na estrada principal, a mesma enlameada e esburacada.

Ainda assim, nada impediu a cerimónia.

O vigário apresentou o jovem à brigada provincial, que anunciou oficialmente que, a partir daquele momento, ele receberia uma oportunidade de estudo no curso de Geologia, numa das universidades reconhecidas da capital do país.

Quando lhe perguntaram se possuía o ensino médio concluído, respondeu que sim, e que os certificados provavelmente permaneciam na quinta dos ímpios, local onde estudara.

A brigada comprometeu-se a tratar dos documentos necessários. Depois disso, o vigário despediu-se e regressou ao santuário para coordenar sobre a peregrinação das famílias cristãs da diocese.

Os populares, enfurecidos por nenhum dos seus filhos ter sido distinguido, decidiram sacrificar o jovem. Planeavam incendiar o casebre enquanto ele dormisse, como forma de inviabilizar o destino que consideravam repugnante.

O jovem percebeu os olhares desavindos das lideranças. Descobriu o plano. Segredou-o à brigada, que resolveu partir com ele imediatamente após o término do encontro, sem anunciar nada a ninguém.

Assim sucedeu.

Enquanto a aldeia se preparava para consumar o incêndio, a viatura da brigada arrancou em alta velocidade levando o jovem consigo. Apesar das pedradas lançadas pelos populares e das barricadas tardias, o veículo conseguiu escapar da fúria colectiva.

Enquanto a viatura desaparecia na estrada enlameada, o jovem olhou pela última vez para a aldeia. 

Ao longe, já se via o fogo consumir o casebre onde pretendiam queimá-lo vivo. 

O jovem nada disse.

Apenas apertou contra o peito o vazio deixado pela mochila perdida.

E assim se consumou o sexto sinal.

Ramos António Amine

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O terceiro sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O terceiro sinal’

Ramos António Amine
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Decidida, sem retorno possível, a fuga da quinta, a mãe do miúdo guardou o plano em silêncio, como faz a guardiã dos avisos ignorados quando decide abrigar-se no espaço diário do pé.

Mas, na quinta, o silêncio também é vigiado.

Os filhos da quinta, zeladores da ordem e da aparência, já haviam disposto cães fardados junto da casa. Não vigiavam apenas corpos, vigiavam intenções. Queriam saber se a mãe conhecia o segredo enterrado: a morte do pai do miúdo.

E havia algo mais.

O nome do miúdo começara a circular entre eles. Não como futuro, mas como destino já decidido, uma oferenda para a próxima comunhão dos ímpios. Na quinta, até a inocência tinha função.

O miúdo, porém, crescia alheio ao desenho do seu próprio fim. Nada lhe faltava, excepto a imagem do pai, cuja ausência o consumia em silêncio.

Um dia, perguntou pelo pai.

A mãe não respondeu. Desviou o olhar e saiu. Ainda não era o momento da verdade, porque ali, a verdade podia matar antes da fuga.

Sem compreender, o miúdo voltou ao seu livro de Cândido, como se a quinta ainda pudesse ser explicada pelo otimismo de Pangloss.

Foi então que a mãe entendeu: já não havia tempo a perder.

Começou, cuidadosamente, a observar a quinta, como quem aprende o mapa de uma prisão: os turnos dos guardas, os passos dos informantes, o comportamento dos cães, a eletricidade dos arames.

A quinta, que antes era abrigo, tornara-se ameaça.

Durante dias, nada aconteceu. Mas, por dentro, tudo já tinha começado a ruir.

Até que veio a festa.

Era uma celebração dos filhos da quinta, do luxo construído sobre trabalho invisível. Montou-se uma tenda gigante. Um grande alpendre foi erguido no centro e, ao fundo, um altar com um cálice rachado. Um ritual sem fé, mas cheio de poder.

Vieram ímpios de outras quintas. E, com eles, as suas prostitutas. Não vieram os lavradores, nem os garimpeiros, nem aqueles que sustentavam tudo.

O miúdo foi designado para o incenso.

A mãe, para o portão.

E, nesse instante, ela soube: não era apenas um ritual, era uma preparação. O miúdo já não era apenas uma criança. Era escolha.

Tocou no portão.

O portão respondeu com um choque elétrico. Não era apenas uma barreira, era prisão.

A cerimónia começou sob a direção de um monge cego e mudo. E ninguém pareceu estranhar. Na quinta, já ninguém esperava ver ou ouvir a verdade.

O miúdo saiu da tenda com o incensário.

E então, tudo se desfez.

Um convidado embriagado deixou cair o cálice. Aquele que pousava no fundo do altar. E pior, rachado. O som seco abriu o caos.

Gritos. Empurrões. Acusações.

Os cães fardados foram soltos. Os informantes da bófia dispersaram-se. Por instantes, a ordem na tenda falhou.

A mãe não correu de imediato.

Esperou pelo momento exato da brecha.

Depois chamou o filho com um gesto urgente.

Ele veio sem hesitar, trazendo consigo O Cândido e A Rebelião das Massas nas mãos.

Segurou-o com força.

E fugiram.

Não pelo portão, mas por uma falha, um espaço esquecido pela vigilância.

O alarme soou, mas já era tarde.

Dentro da tenda, a confusão ainda engolia tudo.

E, pela terceira vez, a quinta falhou.

Do lado de fora, não havia liberdade.

Havia poeira, fome e um mundo sustentado por aquilo que a quinta escondia.

A mãe chorou, não por medo, mas por confirmação.

A quinta não era um lugar.

Era um sistema.

E estava em todo lado.

Os primeiros dias foram duros. O miúdo pediu para voltar.

Ela recusou:

– Melhor livre a procura de lixo na rua ao luxo na gaiola de ouro.

E não voltou.

Quando lhe perguntavam o nome, respondia:

– Chamem-me prostituta ressuscitada.

Porque, naquele mundo, sobreviver já era resistência.

E ela já não pretendia apenas sobreviver.

Pretendia voltar, não para viver na quinta,

mas para a fazer cair.

Passou a ocupar um lugar tão insignificante quanto contraditório na ordem social: visível, mas não reconhecida; usada e depois descartada; tolerada no discurso, mas rejeitada na práctica.

Passou a denunciar aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e pune quem neles cai.

Ninguém ousou questionar como ela chegou ali. A pergunta que sempre surge é outra: por que não sai da prostituição?

Como se sair fosse apenas uma questão de vontade, e não de oportunidade. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a injustiça não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram.

No fundo, ela não pede absolvição aos ímpios. Reclama a humanidade que há de fazer cair a quinta.

Ramos António Amine

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A droga e a fuga

PSICANÁLISE E COTIDIANO

Bruna Rosalem: Artigo ‘A droga e a fuga’

Bruna Rosalem
Bruna Rosalem
Imagem criada pór IA no Bing – 31 de março de 2025, às 14:09 PM

É verdade: fugir é o maior dos prazeres.”
(Virgínia Woolf)

Desde os primórdios do surgimento da humanidade, o sujeito se interessa por substâncias que alteram a capacidade de raciocínio, humor, visão das coisas, adentrando numa espécie de mundo fictício, repleto de imagens distorcidas da realidade, seres fantasmagóricos, monstros, cenários absurdos ora acalentadores, ora amedrontadores que entorpece o sujeito seja mediante rituais ou pela mística que envolve o uso de tais substâncias. Drogas, diria.

Ou seja, parece que desde sempre na história conhecida e compartilhada, temos a capacidade de provocar situações ao ingerir substâncias psicoativas que buscam nos retirar da bruta e seca realidade com todas as suas dificuldades, limites e burocracias para alcançar outro estado espiritual ou carnal mesmo, que nos leve a outro lugar com novas sensações e sentimentos. Mesmo que isso dure pouco tempo, a experiência continua sendo bastante atrativa até hoje. Inclusive acompanhamos a criação de novas substâncias ainda mais poderosas que proporcionam um estado de êxtase cada vez mais prolongado e prazeroso.

Na mitologia, encontramos Baco, o deus do vinho, ou ainda, o néctar, a bebida dos deuses que exercia um poder embriagador. Apesar dos atos compulsivos relacionados às drogas já se manifestarem, e os que a estes atos se entregavam serem considerados errantes, sem rumo, loucos ou degenerados, o seu uso ponderado visava o gozo, a realização de algo desejado, mas impedido por alguma razão, deleite, satisfação, torpor, felicidade.

O fato de introduzir, injetar ou inalar substâncias com características que provocam no sujeito alterações que o retire de um estado normal e o coloque num estado ‘fantasístico’, nos remete a ideia de que dificilmente é possível suportar o mundo como ele é e os laços sociais que nós mesmos construímos. Baudelaire (1821-1867), ensaísta, tradutor, poeta e crítico de arte francês, dedica um livro a falar de substâncias tóxicas e seus efeitos ‘mágicos’ e riscos. Intitulado ‘Paraísos Artificiais’ de 1860, o escritor francês aborda o haxixe, o ópio e o vinho como produtores de verdadeiros prazeres ou infernos artificiais, além de denunciar os encantos e desencantos das substâncias na vida das pessoas que as consomem.

A prática de consumir produtos que alteram nossa percepção e humor nos deixando relaxados, quase que sedados para a realidade, surge na contemporaneidade de forma exponencial e passa a ser a causa de inúmeros adoecimentos que impactam sobremaneira na qualidade de vida, nos afazeres cotidianos, nos projetos pessoais a médio e longo prazo e nas relações sociais. Além de deixar o sujeito, em quadros mais graves, mergulhado num mundo alheio completamente diferente do compartilhado, deixando-o à margem dos laços sociais sem possibilidades reais de volta. Um vagar sem destino, controle e noção do tempo e do espaço.

A ‘substância prometida’ que outrora trazia uma sensação única e abrupta de bem-estar e felicidade, também carrega consigo uma consequência reversa daquilo que prometera: de um estado anestésico contemplativo e maroto para uma avassaladora sensação de ‘fundo do poço’, onde não há alegrias, esperança, prazer. O efeito da droga leva rapidamente o sujeito às alturas na mesma proporção que o enterra de vez. Paga-se caro por tão pouco. Mesmo assim, conquistar alguns minutos de ‘viagem’ para bem longe deste mundo parece ser um grande motivo que ainda faz o humano desejar tão fortemente este produto, chegando a matar ou ser morto por ele.

É uma guerra sem fim. Interesses por todos os lados, seja para uso pessoal, pequenos ou grandes grupos, até cidades, estados e países. Conflitos armados, disputas pelas melhores fronteiras, embates por controle de territórios, estratégias, recursos e planejamento para que a droga alcance diversos lugares de modo mais acessível possível. A substância traça seu caminho e até chegar ao seu destino vai deixando rastros de morte e destruição.

A droga parece ser uma fuga do sofrimento humano que, querendo ou não, faz parte do percurso da vida. Foge-se para buscar satisfação e um intenso prazer que a realidade crua não pode dar. O sujeito busca algo mágico para que a felicidade o possua, porém, ele vive em sociedade e está imerso na cultura que dele exige renúncias, acordos, cumprimento das leis e dos limites impostos. Isso tudo gera tristeza e infelicidade. A má notícia é: não há como estar em outro mundo que não seja este. Então, o que fazer? Refletir sobre este paradoxo pode ser um bom começo.

A possibilidade de existir como sujeito só é possível justamente adentrando e fazendo parte ativamente deste mundo tão espetacularmente diverso e misterioso com os elementos que ele oferece, nas possibilidades e impossibilidades, nas experiências transitórias que nos marcam e nos fazem aprender. Afinal, o mal-estar é inerente à vida. Cabe a cada um criar algo a partir disso.

E você, foge do quê?

Bruna Rosalem

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Reza

Loide Afonso: Poema ‘Reza’

Loide Portugal
Loid Portugal
Imagem gerada por IA do Bing - 31 de outubro de 2024 às 12:10 PM
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Oi
Pai
Buda
Alá
Jeová

Sei que
Não tenho sido
Uma boa filha

Que tenho esquecido
Fugido
Fingido

Eu sei bem, o que não sido também

Muitas vezes
Perdi a cabeça
Fui lá
E fiz
como uma eterna aprendiz

E nessa hora
Agora
Caí na minha
Própria armadilha

Buda
Eu peço perdão

Alá, obrigada

Jeová, sinto muito

Pai, te amo.

Loid Portugal

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