Cartografia da lucidez feminina em primeira pessoa
Ella Dominici
“Cartografia da lucidez feminina em primeira pessoa
– Eu, mulher — consciência que resiste à violência invisível‘


Eu não fui ensinada a desaparecer, mas fui conduzida a isso, como quem aprende a reduzir a própria presença para não perturbar a ordem estabelecida.
Não é uma violência que se anuncia é um deslocamento contínuo, onde a palavra que penso encontra escuta apenas para ser esvaziada.
Há uma agressão que não deixa marcas visíveis, mas instala dúvida. Não se combate o que digo; desqualifica-se o tom, ridiculariza-se a intenção.
E assim, pouco a pouco, a mulher que pensa é levada a suspeitar de si mesma — não por falta de lucidez, mas porque sua lucidez desestabiliza.
Minha voz não é interrompida, é dissolvida. E, nesse gesto, tenta-se reposicionar-me: não como sujeito que interpreta, mas como presença que deve ajustar-se.
Nos espaços sociais, familiares, religiosos e profissionais, repete-se uma pedagogia silenciosa: posso falar, mas não deslocar. Quando ultrapasso esse limite invisível, não sou confrontada, sou excluída sem ruído.
Essa experiência não me paralisa, mas me atravessa. Continuo, produzo, existo, mas há uma dimensão silenciosa que sofre, não pela incapacidade de ser, mas pela dificuldade de ser reconhecida sem distorção.
E, ainda assim, há algo que não cede.
Não sou invisível. Não sou excesso. Não sou inadequada.
Sou.
E ao sustentar esse “sou”, mesmo sem eco, algo se inaugura.
E o que se inaugura não é apenas para mim.
É para todas.