Cosmos

Ismaél Wandalika: Poema ‘Cosmos’

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika
Ilustração digital com a palavra “COSMOS” sobre um céu estrelado, uma galáxia e o planeta Terra. A composição reúne cenas de guerra, destruição e desigualdade: líderes diante de dinheiro e da balança da justiça, cidade em ruínas, famílias afetadas pelo conflito, uma criança em oração, refugiados caminhando, um capacete com o mapa da África, munições e uma urna de votação danificada. No rodapé, aparece a identificação do poeta angolano Soldado Wandalika, fundador do projeto Poetas da Ilusão. A obra contrapõe a imensidão do universo às consequências dos conflitos e das injustiças humanas.
https://jornalrol.com.br/wp-admin/post.php?post=83193&action=edit

‎Fechados no egocentrismo humano
‎Seguem na órbita  do abismo
‎Rasgada alma sem escrúpulos
‎Observa-se o sangue dos fumos no dissolver dos corpos

‎COSMOS
‎Oh!
‎Mundo, oh Mundo!
‎Correm TODOS pro manto
‎Crueldade a visita o espetáculo dos magistrados
‎Orçamento a mesa restringe a respiração dos versos indefesos…
‎A cada dia novos tratados deixam  vazios nos vilarejos…
‎E preenchem as urnas com os pensamentos rotos…

‎O prisma alcança dança da família
‎Num panorama místico onde o álcool acalenta a dor da alma…

‎COSMOS

‎Munições espalham vidas
‎Urnas abrem feridas eternas
‎A terra fecha-se entre os aplausos que escorrem das lamúrias…!
‎Aqui, todos estão propenso à morte
‎Mas o trono engana a corte…
‎Na África, a luta luta contra as lutas que existem no meio de suas lutas…
‎Las guerras obligan países hermanos a dajas su destino a la intemperie.

‎COSMOS!

Soldado Wandalika

Poeta e escritor angolano fundador do projeto Luso internacional POETAS DA ILUSÃO

Voltar

Facebook




Um par de meias pretas

Marli Freitas: ‘Um par de meias pretas’

Marli Freitas
Marli Freitas
imagem criada por IA do Gemini
Imagem criada por IA do Gemini

Hoje acordei sentindo um desassossego. Preciso deixar que as palavras fluam como torrentes que desaguam, lavando um mundo particular. Porém, o que se faz represado em mim clamando atenção, são águas dormentes que já fizeram sangrar o meu coração frágil e o meu corpo indefeso. Consequência de uma mente inquieta que desafiou a lógica, fazendo perguntas intrigantes onde não podia obter nenhuma resposta.

Diante dos conflitos que envolviam a minha infância, sobravam perguntas e uma reação febril causada pelo desespero de não compreender um mundo sombrio, onde ou se era isto ou aquilo. Sem alternativas, amei o mundo da imaginação, que, na minha santa inocência, era um caminho de fuga. Ainda não conhecia Machado de Assis, mas já desenvolvia a sua máxima de tirar o maior bem do pior mal. Por mais que tentasse desviar o olhar, sabia muito bem separar o joio do trigo e posso dizer que extrair o bem, muitas vezes, é como tentar extrair leite de pedra.

Na observação da natureza, encontrei ‘Aquele’ que me criou e ‘O’ amei. ‘Ele’ foi crescendo dentro de mim e quanto mais crescia, mais resiliente me tornava. Sempre fui um misto de docilidade e teimosia, e usei estas características a meu favor. Contestei o mal e amei o bem. Nasci dor, cresci resiliência e extrapolei todas as expectativas.

Vi e vivi entre a guerra e a paz. Em um mundo de verdades nuas me vi à deriva. Nos momentos de paz, viajei nas histórias encenadas pelo meu paizinho querido. Nos momentos de guerra, via o mundo de ponta cabeça diante da embriaguez daquele que tanto amava. Ele era alguém especial e, como tal, o mundo girava em torno da sua sobriedade ou embriaguez, que norteava a abundância e a escassez, o amor e o ódio, a alegria e a dor. Diante dessas polaridades, inconscientemente, trabalhava o caminho do meio.

Com o tempo comecei a viajar nos livros da Biblioteca Pública Municipal. Encontrei um refúgio nos mundos encantados, pois as responsabilidades impostas, prematuramente, sempre pesavam sobre mim. Cada dia ficava um pouco mais sabida e comecei a sonhar. Parecia algo natural. Só dependia de mim e isto era, simplesmente, fantástico! Amei o saber e não pretendia me separar do desejo de buscar respostas às minhas perguntas.

Quão inocente fui! Eu precisava de tantas coisas para ingressar no Ginasial (Anos Finais do Ensino Fundamental)! Ia precisar de dois uniformes completos (um para frequentar as aulas normais e outro para as atividades de Educação Física), cadernos, lápis, borracha, caneta, livros (que eram comprados para cada matéria) e outros materiais escolares. Eu só consegui comprar (com o agrado de uma madrinha) um mísero par de meias pretas.

Foi com aquelas meias pretas nas mãos que o meu mundo acabou e, neste instante em que deixo estas palavras doídas escorrerem da minha alma, ainda debulho em lágrimas como naquele dia, em que, com as meias pretas nas mãos, ouvi as palavras mais duras da minha vida “você já sabe demais, não precisa e não vai estudar”. Era espantoso demais e aquele instante não cabia no meu pior pesadelo.

Durante alguns dias o dilúvio desceu sobre mim. Não havia nada e nenhum lugar que pudesse conter as minhas lágrimas. Quando falo de invisibilidade, é sobre os piores dias da minha vida, onde fui lançada ao trabalho infantil doméstico, aos onze anos de idade, e obrigada a me virar sozinha no mundo. E, por dois longos anos, ninguém percebeu que eu estava fora da escola.

Marli Freitas

Voltar

Facebook