Inshallah (se Deus quiser) um menino

Taghrid Bou Merhi

‘Inshallah (se Deus quiser) um menino: o impacto das pressões sociais no desejo pelo nascimento de um filho homem’

Taghrid Bou Merhi
Taghrid Bou Merhi
Card do filme Inshallah (se Deus Quiser) um Menino

O filme jordaniano ‘INSHALLAH (SE DEUS QUISER) UM MENINO’, que conquistou dois prêmios no Festival de Cannes, é uma obra cinematográfica marcante que aborda um tema sensível, ainda presente em muitas sociedades até hoje: as crescentes pressões sociais para o nascimento de filhos homens, especialmente nas sociedades árabes. O filme levanta questionamentos essenciais sobre a herança e as tradições sociais relacionadas ao nascimento de meninos e como essas pressões contribuem para a criação de problemas familiares e conjugais, que por vezes chegam à desintegração da família.

O desejo de ter um filho homem é uma ideia profundamente enraizada em muitas culturas ao redor do mundo, sobretudo nas sociedades árabes, que consideram o menino como a continuidade da família, o portador de seu nome e o herdeiro de seus bens. Daí surge a noção da ‘necessidade’ de ter um filho homem para garantir a preservação do nome da família e sua continuidade ao longo das gerações. Essas ideias estão ligadas a costumes e tradições antigas, que viam no homem a proteção da família e seu suporte econômico e moral.

Nas sociedades tradicionais, o homem era o principal provedor da família, responsável pelas terras, pelo comércio e pelos ofícios. A partir dessa lógica, o nascimento de um menino tornou-se uma questão vital para a sobrevivência e continuidade da família, enquanto o nascimento de meninas, em alguns casos, era considerado um fardo. Essa visão contribuiu para aprofundar a desigualdade entre os gêneros e para a preferência pelos homens em muitas sociedades.

Com o passar do tempo, essas tradições transformaram-se em pressões sociais que afetam profundamente a vida dos indivíduos e das famílias. Ter um filho homem passou a ser visto como uma ‘conquista’ ou ‘sucesso’ em certos meios, aumentando assim a pressão sobre os casais, especialmente sobre a esposa. Quando a mulher não consegue ter um filho homem, as pressões familiares e sociais se intensificam, podendo levar a conflitos conjugais e tensões familiares.

A equipe de trabalho, composta por atores, profissionais de montagem, iluminação, direção e equipe dos bastidores. 
Foto divulgação
A equipe de trabalho, composta por atores, profissionais de montagem, iluminação, direção e equipe dos bastidores.
Foto divulgação

Em alguns casos, a esposa enfrenta críticas e cobranças da família do marido e até mesmo da sociedade ao seu redor por não conseguir gerar um menino. Isso pode levá-la a sentimentos de frustração e culpa, intensificando o desgaste na relação conjugal. Por vezes, a situação pode chegar ao divórcio ou ao casamento com uma segunda esposa em algumas culturas, como retratado claramente no filme ‘INSHALLAH (SE DEUS QUISER)UM MENINO’, que destaca as duras pressões sociais enfrentadas pelas mulheres quando não conseguem ter filhos homens.

Esse pensamento que impõe aos indivíduos a obrigação de ter um filho homem constitui um problema social e psicológico que afeta profundamente as pessoas. Os casais, especialmente as mulheres, sofrem enormes pressões psicológicas relacionadas à sensação de não atender às expectativas sociais. A mulher carrega o maior peso dessa carga, assumindo injustamente a responsabilidade pelo sexo do bebê, embora biologicamente essa determinação dependa do homem.

Essas pressões psicológicas e sociais podem acarretar consequências graves para a saúde mental e física da mulher. Muitas sofrem de ansiedade, depressão e isolamento, e em alguns casos são submetidas à violência verbal ou física por não conseguirem gerar um menino. Por outro lado, os homens também podem sofrer pressões sociais por não cumprirem o papel “esperado” como chefes de família.

O filme reflete com clareza esses desafios psicológicos e sociais por meio de uma narrativa dramática e comovente, que acompanha a vida de uma mulher jordaniana submetida a intensas pressões sociais e familiares por não ter um filho homem. O filme retrata com sensibilidade as tensões que surgem dentro da família quando a questão da procriação se torna central. Em vez de o casamento se basear no amor e na compreensão, transforma-se em um campo de conflitos e disputas devido às expectativas sociais.

Por meio de seus personagens, o filme consegue demonstrar o impacto dessas ideias tradicionais nas relações familiares e conjugais. Observamos o aumento da pressão sobre a mulher e o agravamento das tensões dentro da família, à medida que o marido e os que a cercam passam a exercer uma pressão psicológica cada vez maior, fazendo-a sentir-se impotente e culpada.

Os desafios abordados pelo filme são um problema global, não restrito apenas à Jordânia ou ao mundo árabe. No entanto, é importante reconhecer que essas pressões variam de uma sociedade para outra. A grande questão que o filme levanta é: como podemos mudar esses conceitos tradicionais?

Como indivíduos e sociedades podem se libertar das amarras de ideias antigas que fazem do nascimento de um menino uma necessidade urgente?

Uma das possíveis soluções é conscientizar as comunidades sobre a importância da igualdade de gênero e reduzir as pressões relacionadas à procriação. É fundamental reforçar a ideia de que o valor do ser humano não é determinado por seu sexo, mas por suas realizações e por seu papel como indivíduo na sociedade. Também é essencial difundir a consciência de que a capacidade reprodutiva da mulher não deve estar subordinada às exigências sociais e que essas pressões podem destruir relações familiares.
Além disso, as instituições educacionais e religiosas podem desempenhar um papel importante na transformação desses conceitos, por meio de programas de conscientização voltados às famílias e que promovam a igualdade entre homens e mulheres.

Da mesma forma, a mídia e as artes, como o cinema, devem continuar a lançar luz sobre essas questões, tornando o debate social mais aberto e transparente.
O filme ‘INSHALLAH (SE DEUS QUISER) UM MENINO’ constitui uma mensagem poderosa contra as pressões sociais relacionadas ao nascimento de filhos homens e revela claramente o impacto dessas ideias tradicionais nas relações familiares e sociais. Ao abordar esse tema sensível, o filme destaca a importância de repensar o papel do gênero na sociedade e de avançar rumo a um futuro mais justo e igualitário.

Taghrid Bou Merhi

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Minha herança

Verônica Moreira: Crônica ‘Minha herança’

Verônica Moreira
Verônica Moreira
"Minha herança"
“Minha herança”
Imagem criada pela IA

Neste momento, não há lugar para poesia nas palavras que estou escrevendo; talvez isso seja um tipo de legado, pois reúne tudo o que possuo… No entanto, é possível que meus herdeiros não venham a existir… Quem poderia se interessar por palavras e sentimentos que, à primeira vista, não parecem ter significado? Em um tempo como o nosso, quem teria a sensibilidade de preservar minhas escritas como verdadeiros tesouros?

Ah, meus caros amigos, será que ainda vale a pena deixar mais preciosidades dispersas pelo ar, em lugares gelados ou mornos? Neste instante, o que me rodeia são incertezas e uma esperança que, atualmente, mantenho em banho-maria. Sinto que não estou me cabendo dentro de mim mesma… E, quem se preocupa com isso? Aqueles que herdaram a essência da mulher poetisa, que transforma a poesia em sua riqueza. A quem caberá encontrar a chave do meu baú de tesouros?

Refletindo sobre minhas crenças, imagino como seria a disputa entre meus possíveis herdeiros. Acredito que alguns deles tentarão se apropriar dos meus versos carregados de melancolia e solidão.
Alguns poderão sentir-se mais atraídos pelos meus poemas fervorosos, repletos de paixão, enquanto outros poderão ansiar por reviver a infância em que o doce de coco era infinitamente mais tentador do que os de hoje. Contudo, ninguém será capaz de vivenciar as emoções que eu experimentei, desde a angústia mais intensa até aquelas paixões torcidas que me levaram à loucura.

Ah, meus descendentes! Lembrem-se de compartilhar minha herança com os necessitados de sabedoria, pois tudo o que deixo a vocês, apesar de parecer pouco, foi um presente que recebi um dia, sem pedir, de um poeta que guardou seu valioso legado dentro de mim. Não se tratava de dinheiro, prata ou ouro, mas de um tesouro que poucos desejavam, embora todos os que o possuíram se tornassem ricos, mesmo sem perceber que o verdadeiro herdeiro é aquele que lê.

Verônica Moreira

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