O quarto sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O quarto sinal’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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A fuga da mãe e do miúdo passou despercebida aos olhares impávidos dos filhos da quinta. Os ímpios encontravam-se em festa, apesar da confusão instalada no interior da tenda, que culminara na queda do cálice sobre o altar da hipocrisia.

Após o último gole do vinho que sustentava a celebração, o monge, com gestos incomuns, solicitou o incensário para a bênção final. Foi então que os ímpios se recordaram: o incensário havia sido levado pelo miúdo, logo após a bênção inicial.

O miúdo não estava presente. Nem a mãe.

Um silêncio denso instalou-se. Para quebrá-lo, ergueu-se um assobio, um só, suficiente para convocar todos os cães fardados.

Vieram as filhas da quinta, trémulas. Vieram os cães fardados. Vieram os informantes da bófia, os garimpeiros, os lavradores. Até a guardiã dos avisos ignorados se fez presente.

Menos a mãe e o miúdo.

A ausência despertou inquietação entre os ímpios.
Onde estão?

A resposta foi um silêncio ensurdecedor.

Assim, a festa que começara sob a exibição da luxúria e da comunhão dos ímpios terminou com uma bênção sem incensário. Afinal, o miúdo era a oferenda dos filhos da quinta aos convidados, e o incensário, apenas o pretexto.

Declarou-se, então, a caça.

Uma rusga foi lançada em direção ao resgate do miúdo e da mãe.

A quinta foi reforçada. Novos arames farpados foram erguidos. A altura dos muros aumentou. A eletrificação do portão foi intensificada.

Os filhos da quinta permaneceram sob custódia da nova guardiã dos avisos ignorados, uma figura oferecida pelos ímpios convidados, trazida numa sacola triste.

Aos lavradores foram atribuídas porções maiores de terra, para que o cansaço lhes roubasse o tempo e, com ele, qualquer tentativa de fisgar o coração de uma das filhas da quinta, como sucedera com a mãe refugiada.

Aos garimpeiros impôs-se uma dívida eterna: pagariam pela morte do pai do miúdo, morto por ambição desmedida após encontrar ouro de valor ímpar. A dívida seria saldada na mina do Diabo, nas profundezas da quinta, sob exploração incessante, sem remuneração e vigiados pelos informantes da bófia.

Recrutaram-se novos cães fardados, mais jovens e de faro apurado. Os antigos foram expulsos e condenados a vaguear pelo mundo, à procura da mãe e do miúdo, agora como cães vadios.

Nenhuma punição recaiu sobre os filhos da quinta. Afinal, eram peritos em não sujar as mãos.

A caça estava declarada.

Enquanto isso, longe dali, a mãe, agora prostituta ressuscitada, enfrentava os piores solavancos da sua vida.

Sem teto. Sem alimento. Sem água sequer para a pureza do corpo.

Naquele novo mundo, tudo escasseava, excepto o sexo. O sexo, esse, fora elevado à condição de negócio mais rentável.

Diante disso, decidiu reinventar-se.

Tomou emprestado de uma amiga, também desalojada após a morte do marido, uma calça de pernas apertadas, uma blusa curta que mal lhe cobria o umbigo, um par de sapatos de salto alto, alguns cosméticos e um relógio simples para controlar o tempo.

E seguiu em direção ao prostíbulo.

Pela primeira vez, deixou o miúdo entregue ao destino, o mesmo destino que fora cruel com o pai.

Nos primeiros dias, enfrentou a resistência das outras mulheres. Chamaram-lhe velha. Intrusa. Indesejada.

A tensão só cessou com a intervenção do dono do prostíbulo.

O dono, um dos ímpios que estivera presente na festa da quinta. O mesmo cuja ação precipitada na tenda provocara a queda do cálice e, por consequência, a fuga da mãe e do miúdo.

Agora, ali estava ele.

E não a reconheceu.

Ela, porém, reconheceu-o sem hesitação.

A sua presença ajustou-lhe as intenções.

O destino, caprichoso, quis que o seu primeiro cliente fosse um rosto familiar: o monge.

Já não parecia velho. Já não era cego. Já não era surdo.

Nada do que fingira ser na tenda permanecia.

Atraído pelos seios firmes da recém-chegada, o monge escolheu-a. Naquele espaço, a novidade era sempre um atractivo e ele apreciava medir territórios ainda não explorados.

Ignorava, porém, que diante dele não estava apenas mais um corpo à venda.

Estava a memória viva daquilo que fingira não ver.

Na casa onde tudo obedecia a regras invisíveis, a prostituta ainda não conhecia os seus limites. Quando o monge a procurou, não recusou. Não por desejo, mas por hábito antigo, feito de sobrevivência e resignação.

Depois do acto apressado, ele levantou-se com a leveza dos que nunca ficam. Disse que ia buscar cigarros, como se o fumo pudesse justificar a impotência. Saiu. E não voltou.

Ficou o quarto. Ficou o cheiro. Ficou a ausência, essa presença mais pesada do que qualquer corpo.

Ela percebeu, então, que não haveria pagamento pelo serviço prestado. Nem palavra, nem responsabilidade, nem vestígio de moral. O monge, homem de fé na aparência e de corrupção nos gestos, dissolvera-se na noite. E, como rumor ainda mais amargo, sabia-se que mantinha ligações com o dono do prostíbulo, alianças silenciosas entre homens que vestiam virtude como máscara.

Saiu à sua procura. Não por esperança, mas por necessidade de sentido.

As outras mulheres perceberam. Já conheciam aquele tipo de abandono. Ainda assim, riram-se. Não por crueldade consciente, mas por desgaste, como quem já não distingue a dor dos outros da própria indiferença.

Mas nela o riso não encontrou eco. Encontrou forma.

Algo se endureceu por dentro. A humilhação deixou de ser ferida e tornou-se direcção. Já não queria apenas o monge. Queria o colapso de tudo o que o sustentava: a quinta, os homens, a ordem invisível dos ímpios.

Quando regressou, trazia o peso de quem já procurou demais e encontrou apenas vazio. Sentou-se em silêncio. E deixou a pergunta que nasceu inevitável: por quê?

O filho aproximou-se e enxugou-lhe as lágrimas. E nesse gesto simples, quase imperceptível, aprendeu uma verdade sem nome: as lágrimas de uma mãe não são como as de crocodilo.

O filho cresceu sem nome, sem pai, sem escola e sem Deus. Cresceu a observar o mundo de fora. Um dia viu uma carrinha levar crianças da sua idade para a escola. Enquanto uns eram conduzidos ao futuro, outros nem sequer sabiam que ele existia.

Ainda assim, o mundo encontrou forma de chegar até ele. Fragmentos de línguas antigas e estrangeiras: latim, alemão, francês, inglês, tiveram lhe atravessado a vida lá na quinta como restos de uma ordem maior que nunca o incluiu.

Depois veio a rua.

A rua não o rejeitou. Absorveu-o. Tornou-se parte do que sobra. Aprendeu a viver entre restos, a abrir sacos como quem abre destinos. E havia nisso uma ironia cruel: os mesmos lixos que lhe garantiam sobrevivência eram admirados por altruístas performativos como paisagens curiosas da pobreza.

A mãe, por sua vez, afundava-se cada vez mais no prostíbulo, não por escolha, mas por perseguição. Havia nela uma obsessão: encontrar o monge, obrigá-lo a olhar com a lâmpada acesa para aquilo que tinha deixado para trás.

Na rua, o rapaz encontrou os que já não perguntavam “porquê”. Mas dentro dele ainda havia resistência.

Até que encontrou o limite.

Num contentor, entre restos sem nome, viu um recém-nascido morto, apertado num saco de plástico. Não disse nada. Guardou o silêncio, como se tivesse herdado o peso do mundo.

Noutro contentor, encontrou comida ainda boa. E pensou no absurdo: o que uns descartam como excesso, outros disputam como sobrevivência.

Começou então a questionar tudo. A mesma sociedade que ridiculariza os que falam sozinhos na rua celebra aqueles que decidem destinos com uma assinatura.

Um dia, cansado, deitou-se sob uma árvore cujas flores pareciam desistir antes de cair. Da sua sacola, retirou um livro: Cândido. Leu e encontrou Pangloss, com o seu otimismo insistente, quase ofensivo diante da realidade.

Mas ali compreendeu: não bastava aceitar o mundo como o melhor possível. Era preciso enfrentá-lo.

O sol desaparecia quando um padre se aproximou. Chamou-o sem pressa, sem julgamento.

O rapaz abriu os olhos.

Tinha o corpo cansado de restos, mas a consciência inquieta de quem já não cabe no lugar onde está.

Levantou-se.

E seguiu.

No santuário da Nossa Senhora, deram-lhe um novo nome, ou talvez apenas um novo lugar.

E assim, o quarto sinal cumpriu-se: não como resposta, mas como início de uma outra forma de dúvida.

Ramos António Amine

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Os filhos da quinta

Ramos António Amine: Conto ‘Os filhos da quinta’

Ramos António Amine
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Durante muito tempo, fingiu-se que a quinta era apenas um lugar, um espaço cercado por arames farpados, guardado por cães fardados e saturado pelo cheiro da cumplicidade entre homens armados. Um território onde se reuniam os devotos da hipocrisia, os bebedores do mesmo cálice rachado da conveniência, os guardiões disciplinados do silêncio.

Mas essa foi sempre a mentira mais confortável.

A quinta nunca foi apenas um lugar. A quinta é uma escola.

Uma escola de fabricar obediência, de polir consciências até que deixem de se rebelar, de ensinar homens e mulheres a trair a verdade com elegância. Ali não se educa, condiciona-se. Não se forma, molda-se. Aprende-se a distorcer a realidade até que ela obedeça, a chamar prudência à cobardia, inteligência à omissão e maturidade à rendição. E, acima de tudo, aprende-se isto: o poder não precisa de ser legítimo, basta parecer legal.

Foi assim que nasceram os filhos da quinta.

Uns nasceram dentro dos muros, domesticados desde o berço. Cresceram a repetir palavras que nunca pensaram, a respeitar limites que nunca compreenderam, a defender uma ordem que nunca os questionou, porque nunca lhes permitiu questionar. Alimentaram-se de histórias sobre ordem, estabilidade e tradição, como quem engole um sedativo, não para entender o mundo, mas para não o perturbar.

Outros chegaram depois, atraídos pela promessa suja do pertencimento. A quinta acolheu-os como sempre faz, oferecendo abrigo em troca de silêncio, influência em troca de submissão, reconhecimento em troca de consciência. E eles aceitaram. Quase todos aceitam. Os poucos que hesitaram aprenderam depressa que a fome dobra mais convicções do que qualquer argumento.

Com o tempo, os filhos da quinta tornaram-se muitos e tornaram-se pesados. Não apenas no corpo, mas naquilo que evitam carregar: responsabilidade. Arrastaram-se pelos corredores do poder como sombras bem alimentadas, ocuparam cadeiras que nunca lhes exigem coragem, pronunciaram palavras que nunca comprometem nada.

Falam muito. Dizem pouco.

Prometem tudo. Não entregam nada.

Reconhecem-se à distância, não por símbolos, mas por reflexo. A mesma linguagem vazia, a mesma habilidade em fugir sem parecer fugir, a mesma obsessão em manter tudo exatamente como está. E assim a quinta sobrevive, não pela força, mas pela repetição, não pela verdade, mas pelo hábito.

Mas há algo que os filhos da quinta nunca aprenderam e nunca quiseram aprender: escutar. Porque escutar é perigoso. Escutar implica dúvida. E a dúvida é o primeiro golpe contra qualquer muralha.

Do outro lado da quinta, o mundo não esperou. As vozes que foram ignoradas cresceram sem permissão. Tornaram-se mais duras, mais claras, mais impossíveis de calar. As perguntas que foram evitadas fora da quinta começaram a ser feitas dentro dela por aqueles que a quinta tolera, mas nunca aceita: os lavradores.

Homens admitidos apenas para lavrar a quinta. Presentes nas manhãs e nas tardes, mas nunca pertencentes. Vigiados por cães vadios, mas indispensáveis à vitalidade da própria quinta.

Foram eles, e não os filhos da quinta, que continuaram a dizer o que precisava ser dito.

As verdades silenciadas não desapareceram. Acumularam-se. E, como tudo o que é comprimido por demasiado tempo, começaram a procurar saída, não pela porta, mas pela fissura, pelo canto, pelo eco, pela falha.

Até que a falha apareceu.

As filhas da quinta, educadas em ideais que a própria quinta trai, igualdade, fraternidade, solidariedade, começaram a sentir o peso da mentira em que foram criadas. E, quando a realidade entra em conflito com a educação, algo cede.

Neste caso, cedeu o muro.

Uma delas atravessou-o.

Envolveu-se com um lavrador, o mais jovem entre eles, e, no silêncio que a quinta exige, fizeram o que a quinta proíbe: reconheceram-se como iguais, despidos de hierarquia e de fingimento.

Do primeiro encontro, perderam a inocência.

Dos seguintes, cometeram o erro irreversível.

Trouxeram ao mundo a prova viva da fraude da quinta.

Um filho.

Um corpo que a quinta não consegue classificar sem se contradizer. Um sangue que mistura aquilo que ela passou gerações a separar. Um facto que destrói o discurso.

E, pela primeira vez, os filhos da quinta ficaram sem linguagem. Porque não há retórica que apague o que existe.

E então surgiu o dilema, não teórico, mas inevitável: continuar a defender os muros, mesmo depois de atravessados, ou admitir, finalmente, que esses muros nunca serviram para proteger, mas apenas para separar, excluir e mentir.

E essa é a escolha que os filhos da quinta sempre evitaram. Porque admitir isso exige mais do que coragem. Exige verdade. E verdade é tudo aquilo que a quinta ensinou a temer.

Acima desse dilema, sobrevoa uma última questão: cuidar do filho, herdeiro involuntário dos muros, ou impedir que ele exista como ruptura.

É assim que nasce, dentro da quinta, o primeiro sinal da tragédia.

Ramos António Amine

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A comunhão dos ímpios

Ramos António Amine: ‘A comunhão dos ímpios’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada por IA do Grok – 08 de fevereiro de 2026, às 10:19 PM – https://grok.com/imagine/post/1d467e89-a828-4fc3-992e-b7cc41062106

Comungam
no altar da hipocrisia
os que atiram pedras à luz do dia
e à noite compram o mesmo corpo
que fingem não desejar.

Comungam
os que escrevem leis
com a tinta do cálice alheio
e as cumprem
de olhos baixos
e consciência muda.

Comungam
os que nunca tocaram a ferida
mas repartem o pão
feito do sangue que não lhes pertence.

Comungam
os que se ajoelham
não para pedir perdão
mas para rir
com os lábios ainda húmidos de vinho.

Comungam
os que chamam a prostituta de terreno baldio
e nunca perguntam
quem a devastou primeiro.

Comungam
os que veem o mal passar
e desviam o olhar
como quem observa a chuva
sem sentir frio.

Comungam
os que oferecem um cálice amargo
e exigem silêncio
enquanto ela bebe.

Comungam
os que cavam fossos
e depois condenam
quem cai neles.

Comungam
os que nunca perguntaram
como ela chegou ali
mas perguntam todos os dias
por que ainda não saiu.

Comungam
os que acreditam
que sair é vontade
e não oportunidade.

Comungam
os que creem
que a fome escolhe
e que a miséria não empurra.

Comungam
os que chamam prostituição de causa
e nunca de consequência
de um mundo
que aprendeu a vender tudo,
até o que não tem preço.

Comungam
os que aplaudem a exclusão
e depois fogem dos seus efeitos.

Comungam
os que exigem pureza
de quem nunca teve escolha.

Comungam
os que pagam para olhar
e chamam isso de normalidade.

Comungam
os que dizem que a prostituta está morta
sem perceber
que o cadáver é outro:
a sensibilidade coletiva,
a ética moldada à conveniência.

Comungam
os que pensam que ela pede salvação
quando o que pede
é humanidade.

Comungam
os que a sacrificam todos os dias
para que a sociedade
continue limpa por fora.

Comungam
os que normalizam a dor
para vender facilidade.

Comungam
os que acreditam
que o altar da hipocrisia é eterno.

Mas não sabem
que ele não cai pela força,
nem pelo fogo,
nem pelo grito

basta
retirar-lhe
o silêncio cúmplice
que o alimenta.

Ramos António Amine

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A prostituta ressuscitada

Ramos António Amine: ‘A prostituta ressuscitada’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada por IA do Grok - 21 de janeiro de 2021, às 07:45 PM - https://grok.com/imagine/post/80c83328-2e66-4bc9-8a23-f5c0d2bef7ab
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A sociedade foi programada para dar respostas rápidas a problemas complexos. Rotular alguém de prostituta tornou-se, ao longo do tempo, uma dessas respostas fáceis, uma forma insípida de encerrar qualquer debate sobre injustiça, estupros precoces, desigualdade, pobreza, violência e exclusão social. O rótulo basta. O contexto histórico deixa de importar.

A prostituta ocupa um lugar tão trivial quanto contraditório na ordem social. É visível, mas não reconhecida; abusada, mas descartada; tolerada na prática, condenada no discurso. Ela denuncia aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e depois pune quem cai neles.

Ninguém ousa questionar como ela chegou ali. A pergunta que vem à tona é sempre por que não sai. Como se sair fosse apenas uma questão de vontade e não de oportunidades. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a pobreza não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram plenamente.

A prostituta é imediatamente concebida como símbolo de decadência moral. Entretanto, a verdadeira decadência revela-se na hipocrisia social que absolve o cliente e condena a prostituta; que beija em surdina a boca da prostituta, mas a julga em voz alta. Nesse cenário, a prostituição nunca é causa, mas corolário de um mundo que preferiu vender tudo, inclusive a dignidade humana.

É nesse ponto que se dá a ressurreição.

A prostituta ressuscita quando cansa de ser apenas produto e passa a ser voz. Quando reconhece que há um sistema que a empurrou para a quinta dos ímpios e deixa de ser mero objeto de excitação ou repulsa dos próprios ímpios. Ressuscita quando descobre que a vergonha que lhe cobre o rosto nunca foi criação sua, mas obra de uma sociedade incapaz de assumir as próprias incoerências.

Essa ressurreição nada tem a ver com religião, muito menos com mito. É social e política. É o renascer de uma consciência que, ao longo do tempo, foi mantida refém de uma estrutura que sobreviveu do silêncio cúmplice. É a recusa em carregar sozinha o peso da culpa de uma autoridade que aplaude a exclusão e, depois, condena os seus efeitos para deles se afastar.

Em essência, a prostituta nunca esteve morta. Morta estava a sensibilidade coletiva que escolheu condená-la sem compreender a sua história. Morta estava a ética que exige pureza e inocência de quem nunca teve escolhas, enquanto normaliza a corrupção moral de quem pode pagar para sugar as tetas da prostituta.

A prostituta ressuscitada não pede salvação. Solicita humanidade. E, ao fazê-lo, interpela-nos com uma pergunta desconfortável, mas necessária: quem, afinal, precisa de salvação: ela ou a sociedade que a forjou?

Ramos António Amine

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Hipocrisia

Loide Afonso: Poema ‘Hipocrisia’

Loid Portugal
Loid Portugal
Criador de imagens do Bing – 12 de maio de 2025,
às 10:01 PM

Que hipocrisia!
O fogo
A dança
O vinho
O toque
Não
É
Nunca
Foi?

Por que é que você fingiu sentir, e me olhou nos olhos e consentiu?

Eu estava lá
Sozinha
Calada
Sentada

Não pisquei os olhos
Pedi o vinho
Comi salmão
Nem pra direita olhei

Você seguiu meus
Passos
Meu perfume farejou
Entrou e me encontrou

A porta fechou
Minha alma tocou
Encostou
Meus lábios encontrou

Juntou nossas retinas
Meu rosto acariciou
Teu corpo
Me encontrou
Não valeu?

Loid Portugal

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Desilusão

Ivete Rosa de Souza: Poema ‘Desilusão’

Ivete Rosa de Souza
Ivete Rosa de Souza
"...Sou ave sem rumo voando na bruma fria..."
“…Sou ave sem rumo voando na bruma fria…”
Imagem gerada com IA do Bing ∙ 25 de novembro de 2024
às 8:38 AM

Sou ser que se aborrece com a hipocrisia
Sou ave sem rumo voando na bruma fria
Sou vento que venta tristeza e engano
Sou grão de areia enfrentando o oceano
Fui brisa suave no amor que me roubou
Da vida a verdade do sonho a magia
Fui calma e serena fui poesia
Agora sou pedra solta rolando na ladeira
Passando na vida sem eira nem beira
Sou agora poeira que incomoda o dia
Fui amante amada e por fim vazia
Fui vertente fui semente em alguém germinada
Fui de colo, de berço, vivi muitos anos
De perto e de longe vieram engano
Sou como isca lançada
Nas águas rolando desperdiçada
Já fui primeira inteira, depois esquecida
Nas horas desenhadas fui chegada e partida
Hoje triste reconheço chorando
Que entre os dedos passaram sonhos
E com medo me deixei pelos caminhos.
Se fui par de outra alma hoje sou espinho
Não mais amo nem me chamo para amar
Não sei ser o fim nem vou recomeçar.

Ivete Rosa de Souza

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O fantástico gosto da loucura

Clayton Alexandre Zocarato: ‘O fantástico gosto da loucura’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
“Um amor,  mesmo que seja virtual, que faça meu espiritual viajar por caminhos tortuosos…
Imagem criada pela IA do Bing

Não vejo razão em manter e  conservar a minha  razão, em fazer do meu coração alguma vazão, que venha refazer alguma emoção, dentro desse clarão de hipocrisias, que mata minha paixão.

Vou me perder em um flerte pelo desconhecido, adocicando minha mente, na busca de um pecado que me faz ser amado, mas também um azarado, em esperar o lugar ideal para declarar o fantástico gosto de amor, silenciado por um prazer que expurga os desejos mais ácidos por entre meus suores de vontades, silenciadas por sonhos que foram sentenciados ao esquecimento banal.

O que seria a loucura?

Ora bolas! Não me venha com qualquer tipo de maluquice, mergulhando os sentimentos mais profundos em um copo raso de insatisfações morais mesquinhas, que procura  em um  romantismo de fundo de garrafa alguma forma de egocentrismo barato.

Na verdade, nem os lunáticos mais  profanos que se classificam como filósofos sabem ao certo o que  seria verdadeiramente a verdade da loucura. 

Sejamos o senso-comum, de um ‘barato’ sulco mental, em se ovacionar o Paraíso, mas que se é vendido banalmente, em troco de algum amor que mais tarde será derramado em muitas lágrimas solitárias.

No silêncio da timidez, o fantástico se realiza, como uma explosão galáctica de turbilhões emocionais, que sacodem a alma dos mais puros, e dá um tapa na cara de pujanças de hipocrisias racionais, que se dizem iguais, mas dinamita mistérios mentais desiguais e imorais.

Não desejo ter razão, em meio ao fantástico gosto em  enlouquecer de amor.

Um amor,  mesmo que seja virtual, que faça meu espiritual viajar por caminhos tortuosos, em viver de uma saudade, sem nunca tê-la tocado, de somente querer buscar um esclarecimento, para aquilo que não tem nenhum esclarecimento.

Não lamento a distância, isso só fez aumentar minha ânsia em voltar a sonhar, com gosto de me perder nos braços de uma doce insensatez, em ter o gosto de ternura em  voltar a ouvir sua voz.

Perdoe-me pela excessiva volúpia, pois no barulho da chuva eu sonho com seus beijos mais fantásticos, libidos e garridos, por uma  frenética busca em poder fazê-la loucamente feliz.

Não vou ser infeliz, como outros perdidos apaixonados, que balbuciam suas frustrações perante luares de amargares.

Afinal, a loucura da docilidade do seu sorriso, invadiu meu pequeno mundo de autoconfiança funesta, que finjo em  esconder uma agonia, que culmina sempre em voltar a olhar suas fotos na tela do meu notebook, vaticinando que é você  meu novo almejar, em tentar voltar a amar.

Como é fantástico sentir isso de novo, apesar de nunca tê-la te visto, defronte as marcas de, ‘um senso comum’, em assassinar todo o pouquinho de afeto que ainda restou em um mundo enlouquecido por um materialismo tosco, aos quais meus júbilos de carinhos por você, talvez algum dia tenham fim, mas para por qual motivo, vou angariar pensar no término, em algo  que, talvez, nem tenha começado direito?

Nas fissuras do meu  peito dolorido, por amores sofridos, levanto toda a manhã, esperando, imaginando, ansiando, pensando como seria maravilhoso abraçá-la, mesmo como sendo a mais doce, das minhas  amizades.

Não é loucura pensar no fantástico em sonhar  ter você como amor e amiga, afinal em cada movimento da minha mente, estão um realce em sempre encontrar-me com você atravessando minha imaginação, enlouquecendo minhas ideias, que ficam alucinadas em saber que o mais fantástico de tudo isso, é que você é, ao mesmo tempo, pensamento, sonho e realidade, em cada uma de minhas invenções psicológicas, em desejá-la, como um anjo que voltou  para os braços de sua protegida, sendo por ele eternamente querida, minha amiga e amor…. Sem nenhuma dor ou rancor, você é a flor de uma nova esperança, em enlouquecer docemente meu querer, em ousar tê-la para mim, mesmo se for por um dia, uma noite, um mês, uma vida…

O tempo não importa, afinal já estou louco por uma fantasia, de tocar seu semblante, como os mais raros dos diamantes, e os mais sincero e feliz dos amantes.

Clayton Alexandre Zocarato

Crônica escrita especialmente para a doce Renata Montagner

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