Comenda Tríplice Coroa do Renascimento

Alexandre Rurikovich Carvalho

Fundamentação Histórica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
Capa promocional com o título “Fundamentação Histórica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento“. À esquerda, foto do Prof. Dr.h.c. mult Alexandre Rurikovich Carvalho sorrindo e assinando um documento. Ao centro, a medalha dourada da comenda FEBACLA acompanhada pelas ilustrações dos mestres renascentistas Leonardo da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Rafael Sanzio, com a logo do Jornal Cultural ROL na parte inferior.

RESUMO

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento , instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), constitui uma distinção honorífica de natureza cultural destinada a reconhecer personalidades que tenham contribuído significativamente para as ciências, as letras, as artes, a educação, a pesquisa, a cultura e a valorização do conhecimento humano. Sua fundamentação simbólica inspira -se no legado de três dos mais importantes mestres do Renascimento italiano: Leonardo da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Rafael Sanzio, representantes de diferentes dimensões da extraordinária transformação artística e intelectual ocorrida entre os séculos XV e XVI.

O presente artigo analisa a fundamentação histórica, cultural e iconográfica da Comenda, demonstrando como seus elementos visuais, as três coroas, as figuras dos três mestres, o sol nascente, os raios luminosos, os ramos de louro, o círculo e a identificação institucional da FEBACLA, constituem uma narrativa simbólica sobre conhecimento, criação, harmonia, excelência e renovação cultural. Busca -se compreender o conceito de “renascimento” não apenas como referência histórica a um período da civilização europeia, mas como um princípio permanente de renovação do pensamento, da arte, da cultura e dos valores humanísticos.

A Comenda apresenta -se, assim, como uma homenagem contemporânea àqueles que, à semelhança dos grandes mestres renascentistas, dedicam suas trajetórias à produção, preservação, transmissão e transformação do conhecimento.

Palavras-chave: Renascimento. Leonardo da Vinci. Michelangelo. Rafael. História da Arte. Humanismo. Honrarias. Cultura. FEBACLA.

1 INTRODUÇÃO

Ao longo da história, as sociedades desenvolveram diferentes formas de reconhecer aqueles que contribuíram de maneira relevante para a construção do conhecimento, o desenvolvimento das artes, a educação, a ciência e a preservação da memória coletiva. Medalhas, comendas, títulos e distinções honoríficas constituem, nesse contexto, instrumentos simbólicos por meio dos quais uma comunidade manifesta publicamente sua gratidão e reconhece trajetórias consideradas relevantes para a sociedade.

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento, instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), insere -se nessa tradição de reconhecimento. Entretanto, sua proposta apresenta uma característica particular: sua simbologia está diretamente vinculada a um dos períodos de maior transformação cultural da história ocidental, o Renascimento, e especialmente ao legado de três artistas cuja produção alcançou dimensão universal: Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael Sanzio. O Renascimento não pode ser reduzido a uma simples mudança no estilo artístico. Constituiu um amplo processo cultural no qual diferentes formas de conhecimento passaram a estabelecer relações mais estreitas.

A recuperação da Antiguidade clássica, o desenvolvimento do humanismo, a valorização da observação da natureza, o aperfeiçoamento da perspectiva, os estudos anatômicos, a arquitetura, a escultura, a pintura, a filosofia e a literatura participaram de uma transformação intelectual que marcou profundamente a cultura europeia (Burckhardt, 2009; Gombrich, 2012).

Nesse cenário, surgiu uma concepção particularmente significativa do artista como um indivíduo dotado de capacidade intelectual, investigativa e criadora. Leonardo da Vinci tornou -se uma das expressões máximas dessa concepção, enquanto Michelangelo levou a escultura, a pintura e a arquitetura a uma dimensão monumental, e Rafael desenvolveu uma linguagem marcada pelo equilíbrio, pela harmonia e pela síntese. É justamente dessa complementaridade que nasce a concepção da Tríplice Coroa do Renascimento.

A Comenda não pretende estabelecer uma hierarquia entre os três mestres, tampouco afirmar que o Renascimento se resume às suas trajetórias. Ao contrário, Leonardo, Michelangelo e Rafael são utilizados como referências simbólicas de três dimensões fundamentais da cultura: o conhecimento, a criação e a harmonia. A insígnia da Grande Comenda traduz visualmente essa concepção. Três coroas aparecem na parte superior; abaixo delas, três figuras representam os grandes mestres; um sol nascente ilumina a composição; raios de luz irradiam -se pelo medalhão; ramos de louro envolvem a parte inferior; e, no centro da base, encontra – se a identificação da FEBACLA. Cada um desses elementos possui significado próprio e, simultaneamente, integra uma narrativa única.

O objetivo deste artigo é apresentar a fundamentação histórica, cultural e simbólica da Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento, demonstrando de que maneira sua iconografia estabelece um diálogo entre a tradição renascentista e o reconhecimento contemporâneo daqueles que dedicam suas vidas à cultura, à ciência, às letras, às artes, à educação e à construção do conhecimento.

2 O RENASCIMENTO E A TRANSFORMAÇÃO DA CULTURA OCIDENTAL

O termo Renascimento está associado a um amplo processo de renovação cultural que se desenvolveu inicialmente em diferentes centros da Península Itálica e, posteriormente, expandiu -se por outras regiões da Europa. Embora sua cronologia não possa ser delimitada de maneira absolutamente rígida, os séculos XV e XVI constituem o período fundamental para compreender o desenvolvimento de suas principais manifestações.

A ideia de “renascimento” esteve relacionada à recuperação e à valorização da cultura da Antiguidade clássica, especialmente dos modelos greco -romanos, mas não significou simplesmente uma reprodução do passado. Os humanistas renascentistas reinterpretaram a Antiguidade a partir das necessidades e dos questionamentos de seu próprio tempo.

Burckhardt (2009) destacou a importância do período para o desenvolvimento de uma nova consciência do indivíduo e da cultura. Gombrich (2012), por sua vez, demonstra como a história da arte renascentista está profundamente relacionada ao desenvolvimento de novas formas de representar o espaço, o corpo humano, a natureza e a experiência visual. A perspectiva matemática, os estudos anatômicos e a observação sistemática da natureza modificaram profundamente a produção artística.

O artista passou progressivamente a ser reconhecido como alguém que não apenas executava uma obra, mas que pensava, investigava e elaborava intelectualmente aquilo que produzia. Essa transformação explica por que o Renascimento permanece como uma das principais referências quando se pretende discutir a relação entre arte e conhecimento: a pintura deixou de ser apenas representação e tornou -se também investigação; a escultura deixou de ser apenas ornamentação e tornou -se expressão da condição humana; a arquitetura passou a combinar estética, matemática, funcionalidade e simbolismo. A arte, portanto, aproximou -se da ciência, da filosofia e da literatura. É nesse contexto que se encontra a origem conceitual da Grande Comenda.

3 LEONARDO DA VINCI: O CONHECIMENTO COMO CAMINHO PARA A CRIAÇÃO

Leonardo da Vinci ocupa posição singular na história da cultura ocidental. Pintor, desenhista, inventor, estudioso da anatomia, observador da natureza, engenheiro e pesquisador, Leonardo tornou -se o símbolo do chamado “homem universal” ( homo universalis) renascentista. Sua trajetória demonstra que a curiosidade intelectual pode ultrapassar fronteiras disciplinares.

Para Leonardo, compreender a natureza constituía parte essencial do processo criativo. Seus estudos anatômicos, por exemplo, estavam relacionados não apenas à curiosidade científica, mas também à necessidade de compreender a estrutura do corpo humano para representá -lo artisticamente. Obras como Mona Lisa, A Última Ceia  e A Virgem das Rochas  demonstram seu extraordinário domínio pictórico, mas seus cadernos e desenhos revelam igualmente uma mente dedicada à investigação de fenômenos naturais, máquinas, anatomia, água, voo e movimento (Gombrich, 2012).

A importância de Leonardo para a Grande Comenda encontra -se justamente nessa capacidade de unir arte e conhecimento. Por essa razão, sua representação na insígnia é compreendida como o símbolo da Coroa do Conhecimento . O conhecimento é a primeira condição do renascimento; não existe verdadeira renovação cultural quando a sociedade deixa de investigar, questionar e aprender. Leonardo representa, portanto, o pesquisador, o estudioso e o intelectual que jamais considera o conhecimento concluído. Sua figura na Comenda transmite uma mensagem especialmente significativa: renascer é também aprender novamente, investigar novamente e olhar para o mundo com curiosidade renovada.

4 MICHELANGELO: A GRANDEZA DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA

Michelangelo Buonarroti representa outra dimensão fundamental do Renascimento. Escultor, pintor, arquiteto e poeta, Michelangelo construiu uma trajetória marcada pela monumentalidade e pela intensa expressividade de suas obras. Sua produção escultórica, especialmente o Davi e a Pietà, tornou -se referência universal. Na pintura, a decoração da abóbada da Capela Sistina representa um dos maiores empreendimentos artísticos da história.

Entre 1508 e 1512, Michelangelo executou o afresco do teto da Capela Sistina, incluindo cenas do Gênesis, profetas, sibilas e numerosas figuras. Décadas depois, entre 1536 e 1541, realizou o monumental Juízo Final na parede do altar (Musei Vaticani, 2026). Sua obra demonstra que a criação artística pode alcançar dimensões que ultrapassam o simples domínio técnico. O corpo humano, em Michelangelo, torna -se instrumento para representar força, espiritualidade, movimento e dramaticidade. Na simbologia da Grande Comenda, Michelangelo representa a Coroa da Criação.

A criação constitui a capacidade humana de transformar uma ideia em realidade: o artista imagina aquilo que ainda não existe e, por meio de seu talento, transforma pensamento em obra. Esse princípio aplica -se também ao cientista, ao escritor, ao professor, ao pesquisador, ao compositor, ao arquiteto, ao historiador e a todos aqueles que produzem conhecimento. A criação é, portanto, uma das principais vias pelas quais o ser humano participa do processo de transformação da sociedade.

5 RAFAEL SANZIO: HARMONIA, BELEZA E HUMANISMO

Rafael Sanzio representa uma terceira dimensão essencial da cultura renascentista. Sua produção artística é frequentemente associada ao equilíbrio, à proporção, à clareza e à harmonia. Sua obra A Escola de Atenas, realizada nos Palácios Vaticanos, tornou -se uma das representações mais célebres do pensamento humanista renascentista.

Na composição, Rafael reúne importantes pensadores da Antiguidade em um espaço arquitetônico monumental. No centro encontram -se Platão e Aristóteles, representando diferentes correntes e filosofias. A pintura estabelece uma síntese entre filosofia, arquitetura, matemática, arte e conhecimento (Musei Vaticani, 2026), demonstrando que a pintura pode ser também uma representação visual da história das ideias. Rafael, portanto, simboliza a capacidade de harmonizar diferentes saberes. Na Grande Comenda, sua figura representa a Coroa da Harmonia . A harmonia não significa ausência de divergências, mas sim a capacidade de integrar diferentes elementos em uma construção maior e equilibrada. Ciência e arte, história e filosofia, literatura e educação, patrimônio e memória podem e devem dialogar. A cultura é precisamente esse espaço de encontro.

6 A TRÍPLICE COROA: CONHECIMENTO, CRIAÇÃO E HARMONIA

A expressão Tríplice Coroa do Renascimento nasce da união simbólica das três dimensões representadas pelos grandes mestres. Cada um deles encarna um princípio central para a construção da cultura e do saber: Leonardo da Vinci associa – se ao Conhecimento, simbolizando a investigação, a ciência, a curiosidade intelectual e a busca constante pelo saber; Michelangelo Buonarroti representa a Criação, expressando a força da arte, a transformação da matéria, a expressividade e a genialidade humana; e Rafael Sanzio encarna a Harmonia, traduzida no equilíbrio, na busca pela beleza, na síntese do pensamento e nos ideais do humanismo.

Essas três dimensões não funcionam de maneira independente: o conhecimento alimenta a criação; a criação transforma o conhecimento em expressão; e a harmonia integra conhecimento e criação em benefício da cultura. A Tríplice Coroa simboliza, assim, uma concepção integral da excelência humana. Não basta conhecer, é necessário criar; não basta criar, é necessário integrar; não basta produzir, é necessário transmitir; e não basta transmitir, é preciso contribuir para que as novas gerações continuem o processo de construção cultural.

7 A ICONOGRAFIA DA GRANDE COMENDA

A insígnia da Grande Comenda foi concebida como uma composição iconográfica na qual cada elemento possui uma função simbólica específica. A medalha não deve ser compreendida apenas como um objeto ornamental, pois sua estrutura constitui uma verdadeira narrativa visual sobre o Renascimento e sobre o ideal de excelência cultural.

7.1 As três coroas

No alto da medalha estão representadas três coroas, elemento que dá nome à honraria. A coroa, tradicionalmente associada à dignidade, à excelência e à distinção, assume aqui um caráter cultural e intelectual. As três coroas remetem aos três grandes mestres que inspiram a Comenda e representam os pilares simbólicos: Conhecimento, Criação e Harmonia. Não existe hierarquia entre elas; a disposição conjunta demonstra que a verdadeira excelência nasce da integração equilibrada dessas três dimensões.

7.2 As três figuras centrais

No centro da medalha encontram -se três figuras humanas que representam Leonardo, Michelangelo e Rafael . A representação é de natureza alegórica, destinada a evocar o legado dos mestres e não necessariamente a reproduzir retratos históricos rigorosos. Sua posição central reflete como os três artistas constituem a referência intelectual e estética fundamental da honraria.

Ao colocar os três lado a lado, a Comenda estabelece um diálogo permanente entre diferentes formas de expressão artística: Leonardo olha para a natureza e procura compreendê-la; Michelangelo transforma a matéria em expressão; e Rafael organiza beleza e pensamento em equilíbrio. Juntos, eles representam o ideal de uma cultura que recusa a separação absoluta entre arte e conhecimento.

8 O SOL NASCENTE COMO SÍMBOLO DO RENASCIMENTO

Um dos elementos mais expressivos da insígnia é o sol nascente, localizado na parte inferior da composição central. O nascer do sol constitui uma metáfora universal para renovação, esperança, conhecimento e recomeço, estabelecendo uma relação direta com o conceito de Renascimento. O sol que surge no horizonte representa a passagem da escuridão para a luz , no contexto da Comenda, essa transição expressa a passagem da ignorância para o conhecimento, do esquecimento para a memória, da estagnação para a criatividade, da ausência de perspectivas para a esperança e do silêncio cultural para a expressão artística. O sol representa, portanto, o conhecimento que nasce e se espalha, transmitindo uma mensagem essencial para o mundo contemporâneo: cada geração possui a responsabilidade de preservar o saber recebido e, simultaneamente, produzir novas formas de conhecimento.

9 OS RAIOS DE LUZ E A DIFUSÃO DO CONHECIMENTO

Os raios que partem do sol em direção às figuras centrais reforçam o simbolismo da iluminação. A luz representa o conhecimento compartilhado. Uma descoberta que permanece oculta não cumpre plenamente sua função social; da mesma forma, uma obra que não encontra leitores, espectadores ou estudiosos tem limitada sua capacidade de dialogar com o futuro. Os raios representam, assim, a expansão do saber através das gerações, estabelecendo uma ponte entre passado, presente e futuro. Os grandes mestres do Renascimento pertencem ao passado, mas sua luz continua a alcançar o presente. De modo análogo, aqueles que recebem a Grande Comenda são reconhecidos porque suas próprias realizações contribuem para iluminar o caminho das gerações futuras.

10 OS RAMOS DE LOURO E A HONRA

Na parte inferior da medalha encontram -se os ramos de louro, elemento tradicionalmente associado à vitória, à glória, à honra e ao reconhecimento, o que reforça o caráter honorífico da Comenda. Entretanto, nessa composição, a vitória não deve ser entendida como o triunfo de uma pessoa sobre outra, mas sim como: • a vitória da cultura sobre o esquecimento; • a vitória do conhecimento sobre a ignorância; • a vitória da memória sobre o apagamento da história; • a vitória da criação sobre a estagnação; e • a vitória da educação sobre a ausência de conhecimento. O louro simboliza a dignidade daquele que dedicou parte significativa de sua existência a uma causa cultural, artística, científica, intelectual ou humanitária.

11 O CÍRCULO E A CONTINUIDADE DA CULTURA

A estrutura circular da medalha também apresenta um significado importante. Por não possuir princípio nem fim delimitados, o círculo simboliza continuidade, permanência e eternidade. A cultura funciona de maneira semelhante: uma geração recebe conhecimentos de seus antecessores, acrescenta suas próprias contribuições e transmite esse patrimônio às gerações seguintes.

O Renascimento foi resultado desse processo de recuperação, interpretação e transformação do saber acumulado. A cultura nunca nasce do nada; é construída sobre o que foi produzido anteriormente. Por essa razão, o círculo exterior da medalha representa a continuidade da civilização e a transmissão incessante do patrimônio intelectual e cultural.

12 A FEBACLA COMO INSTITUIÇÃO DE RECONHECIMENTO CULTURAL

A identificação “FEBACLA”, presente na parte inferior da insígnia, estabelece a ligação entre essa rica simbologia e a instituição responsável pela concessão da honraria. A Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes assume a responsabilidade de valorizar trajetórias dedicadas ao saber e à cultura.

A Grande Comenda é coerente com essa perspectiva devido ao seu caráter interdisciplinar. A honraria destina -se a reconhecer personalidades com contribuições relevantes em diversas áreas, tais como: ciências, letras, artes, história, filosofia, educação, literatura, pesquisa, patrimônio cultural, comunicação, produção intelectual, humanismo e preservação da memória. Essa abrangência resgata o próprio espírito renascentista, no qual as fronteiras entre os saberes eram mais fluidas e integradas do que na estrutura acadêmica contemporânea.

13 O RENASCIMENTO COMO CONCEITO CONTEMPORÂNEO

Embora historicamente delimitado à Europa dos séculos XIV a XVI, o conceito de Renascimento assume um significado atemporal: Renascimento é renovação. Uma sociedade renasce quando valoriza sua história; uma cultura renasce quando preserva seu patrimônio; a ciência renasce quando novas perguntas são formuladas; a arte renasce quando novos artistas encontram novas linguagens; a educação renasce quando desperta a curiosidade; e a memória renasce quando o esquecido volta a ser estudado.

Por essa razão, a Grande Comenda não pretende apenas rememorar um período histórico, mas reconhecer pessoas que realizam processos de renovação cultural em seu próprio tempo. Aqueles que pesquisam, ensinam, escrevem, pintam, esculpem, preservam, restauram, educam e produzem ciência tornam -se agentes de novos renascimentos.

14 A GRANDE COMENDA COMO INSTRUMENTO DE MEMÓRIA

As honrarias cumprem igualmente uma importante função memorialística. Ao receber uma comenda, o homenageado recebe um símbolo que registra publicamente a relevância de sua trajetória. A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento cumpre essa função ao associar o homenageado ao legado de Leonardo, Michelangelo e Rafael. A mensagem implícita carrega elevada responsabilidade: quem recebe uma honraria inspirada nesses mestres é convidado a compreender o valor de sua própria contribuição cultural. Essa distinção não busca estabelecer uma comparação de genialidade, mas afirmar, simbolicamente, que o homenageado participa do processo de construção da cultura. A Comenda reforça que os valores de conhecimento, criação e harmonia permanecem indispensáveis à sociedade contemporânea.

15 A TRÍPLICE COROA E A EXCELÊNCIA HUMANA

A concepção da Grande Comenda também pode ser compreendida como uma reflexão sobre a própria ideia de excelência. A excelência, contudo, não significa perfeição absoluta, mas dedicação, competência, perseverança e contribuição. Leonardo ensina a importância da curiosidade; Michelangelo ensina a força do trabalho e da criação; Rafael ensina o valor do equilíbrio e da harmonia. A reunião desses ensinamentos produz uma concepção de excelência fundamentada em três perguntas centrais: • O que sabemos? • O que somos capazes de criar a partir desse conhecimento? • Como podemos utilizar aquilo que sabemos e criamos para contribuir com a sociedade? Essas três indagações sintetizam o verdadeiro espírito da Tríplice Coroa.

16 A GRANDE COMENDA E O HUMANISMO

O humanismo constitui outro aspecto fundamental para compreender a simbologia da honraria. O Renascimento recolocou o ser humano no centro de numerosas reflexões culturais, sem que isso significasse a negação da dimensão religiosa predominante na sociedade europeia da época. O interesse pela dignidade, pela capacidade intelectual, pela educação e pelas potencialidades humanas tornou -se uma das características marcantes da cultura humanista.

A obra de Rafael, particularmente A Escola de Atenas, é um exemplo eloquente dessa valorização do pensamento humano. A Grande Comenda recupera esse princípio ao compreender a cultura como instrumento de valorização da pessoa e da sociedade. Afinal, o conhecimento sem humanidade pode tornar -se mero acúmulo de informações; a arte sem humanidade pode perder sua capacidade de dialogar com a experiência humana; e a educação sem humanidade pode transformar -se em mera transmissão mecânica. O verdadeiro renascimento cultural exige, portanto, conhecimento acompanhado de responsabilidade social.

17 A COMENDA COMO PONTE ENTRE PASSADO E FUTURO

A principal força simbólica da Grande Comenda encontra -se na construção de uma ponte entre diferentes tempos históricos. De um lado, está o Renascimento italiano e seus grandes mestres; do outro, encontra -se o mundo contemporâneo e suas novas formas de produzir conhecimento. Entre ambos, situa-se a cultura. Leonardo, Michelangelo e Rafael pertencem ao passado, mas continuam presentes nos museus, nos livros, nas universidades, nas escolas, nas pesquisas, nas reproduções artísticas e no imaginário coletivo. Isso demonstra que uma obra cultural verdadeiramente significativa não se encerra com a morte de seu autor: ela continua viva enquanto houver quem a contemple, estude, interprete e transmita.

A Grande Comenda assume exatamente essa perspectiva. Ao homenagear uma personalidade contemporânea sob a inspiração dos mestres renascentistas, a FEBACLA estabelece uma continuidade simbólica entre aqueles que construíram a cultura no passado e aqueles que continuam a construí-la no presente.

18 O SIMBOLISMO DA GRANDE COMENDA TRÍPLICE COROA DO RENASCIMENTO

A análise conjunta de sua história e iconografia permite compreender a Grande Comenda como uma síntese articulada de valores: • As três coroas:  representam a excelência, a dignidade e a homenagem aos três grandes mestres. • Leonardo da Vinci: simboliza o conhecimento e a investigação científica. • Michelangelo: representa a criação e a força expressiva das artes. • Rafael Sanzio: encarna a harmonia, a beleza e o ideal humanista. • O sol nascente: simboliza o renascimento e a esperança. • Os raios luminosos: representam a difusão e a transmissão do conhecimento. • Os ramos de louro: expressam a honra, o mérito e o reconhecimento público. • O círculo exterior: representa a continuidade e a permanência da cultura. • A inscrição FEBACLA:  identifica a instituição que chancela esses valores na forma de uma distinção honorífica contemporânea.

O resultado é uma insígnia que conta uma história por meio de uma linguagem essencialmente simbólica. Ela comunica que o verdadeiro renascimento não pertence exclusivamente ao passado, mas acontece continuamente, sempre que alguém decide estudar, pesquisar, criar, preservar, ensinar e compartilhar.

19 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento apresenta -se como uma distinção honorífica cuja fundamentação ultrapassa a dimensão meramente protocolar de uma honraria visual. Sua concepção estabelece um diálogo fértil entre a história da arte, o humanismo renascentista e a necessidade contemporânea de valorizar aqueles que dedicam suas trajetórias à construção e à preservação do conhecimento.

A escolha de Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael Sanzio como referências simbólicas confere à Comenda uma identidade fundamentada em três dimensões essenciais do espírito renascentista: conhecimento, criação e harmonia. Leonardo representa a curiosidade intelectual e a investigação da natureza; Michelangelo simboliza a força criadora capaz de transformar matéria e pensamento em arte; Rafael representa o equilíbrio, a proporção e a capacidade de harmonizar diferentes formas de saber. As três coroas sintetizam esses valores, elevando -os à condição de princípios permanentes de excelência. O sol nascente acrescenta à composição a ideia fundamental de renovação, demonstrando que o conceito de Renascimento não deve ser interpretado apenas como uma referência cronológica.

Na perspectiva da Comenda, renascer significa renovar o conhecimento, preservar a memória, estimular a criatividade, valorizar a cultura e construir novas possibilidades para o futuro. A iconografia completa -se com os raios luminosos, que simbolizam a transmissão do saber; os ramos de louro, que representam a honra e o mérito; e a estrutura circular, que expressa a continuidade da civilização através das gerações.

Dessa forma, a Grande Comenda constitui uma homenagem ao passado, mas também um compromisso com o presente e o futuro. Sua mensagem essencial pode ser sintetizada em uma ideia: toda sociedade necessita de novos renascimentos. Quando um pesquisador descobre, um professor ensina, um escritor escreve, um artista cria, um historiador preserva, um cientista investiga ou um agente cultural mantém viva a memória de uma comunidade, ocorre um renovado ato de renascimento. Inspirada nos três grandes mestres do Renascimento, a Comenda estabelece uma concepção de reconhecimento baseada na certeza de que o conhecimento deve iluminar, a criação deve transformar e a cultura deve permanecer viva. Assim, as três coroas passam a constituir uma declaração de princípios: • Conhecer para compreender. • Criar para transformar. • Harmonizar para construir. • Preservar para transmitir. • Renovar para fazer renascer.

A Grande Comenda Tríplice Coroa do Renascimento consagra, portanto, aqueles que fazem da inteligência, da criatividade, da cultura e do compromisso com a sociedade instrumentos de construção de um futuro no qual o legado das grandes civilizações continue a ser permanentemente reavaliado, reinterpretado e renovado.

REFERÊNCIAS

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte italiana: do Giotto a Leonardo. São Paulo: Cosac Naify, 2003. v. 2.

BURCKHARDT, Jacob. A cultura do Renascimento na Itália: um ensaio. Tradução: Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 34. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.

GARIN, Eugenio. O homem do Renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1991.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. Tradução: Álvaro Cabral. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2012.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. Tradução: Maria Clara F. Kneese e J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2007. (Coleção Debates).

MUSEI VATICANI. Cappella Sistina: storia della Cappella Sistina. Città del Vaticano: Musei Vaticani, 2026. Disponível em: https://www.museivaticani.va. Acesso em: 13 set. 2026.

MUSEI VATICANI. La Scuola di Atene. Città del Vaticano: Musei Vaticani, 2026. Disponível em: https://www.museivaticani.va. Acesso em: 13 set. 2026.

VASARI, Giorgio. Vidas dos artistas. Tradução: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

Alexandre Rurikovich Carvalho

Voltar

Facebook




A educação como missão real

Alexandre Rurikovich Carvalho

‘A educação como missão real: a visão pedagógica de Dom Pedro II e a nobreza da docência’  

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Retrato de Dom Pedro II em pose reflexiva, em estilo clássico do século XIX. O imperador é
representado em tons sépia, com gesto sereno e expressão contemplativa, simbolizando sua
admiração pela educação e pelo papel do professor.
Retrato de Dom Pedro II em pose reflexiva, em estilo clássico do século XIX. O imperador é
representado em tons sépia, com gesto sereno e expressão contemplativa, simbolizando sua
admiração pela educação e pelo papel do professor.

Resumo. O presente artigo analisa a célebre frase atribuída a Dom Pedro II — “Se não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro” — como expressão de um ideal humanista e civilizatório que marcou o Segundo Reinado brasileiro. Busca-se compreender o pensamento educacional do monarca, sua influência sobre o desenvolvimento da instrução pública e sua concepção do magistério como missão moral. A pesquisa, de caráter qualitativo e interpretativo, fundamenta-se em revisão bibliográfica e análise documental, contextualizando o imperador como patrono das letras, das ciências e das artes. Conclui-se que Dom Pedro II via na educação o instrumento fundamental para o progresso nacional e via o professor como o verdadeiro construtor do futuro.

Palavras-chave: Dom Pedro II; Educação; Docência; Humanismo; História da Educação Brasileira.

1. Introdução

A história da educação brasileira é inseparável da figura de Dom Pedro II (1825–1891), monarca que, mais do que governar, dedicou-se ao estudo, à cultura e à ciência. Sua frase — “Se não fosse imperador, desejaria ser professor” — ultrapassa o valor retórico e revela um ideal ético e pedagógico.
No contexto do século XIX, a afirmação de um soberano que via no magistério a mais nobre das profissões representa um marco de pensamento ilustrado e progressista. Para o imperador, educar era não apenas transmitir conhecimento, mas formar consciências e preparar cidadãos para o futuro da nação.

O presente artigo tem por objetivo analisar o significado dessa declaração e suas implicações para a história da educação no Brasil, discutindo as políticas culturais e o legado intelectual de Dom Pedro II à luz da pedagogia humanista e do papel transformador do professor.

2. Contexto Histórico e Intelectual do Segundo Reinado

Dom Pedro II ascendeu ao trono em 1840 e reinou até 1889, período conhecido como Segundo Reinado, marcado por estabilidade política, expansão econômica e florescimento cultural. Desde jovem, recebeu uma formação ampla e rigorosa, orientada por mestres como o padre Diogo Antônio Feijó, o marquês de Itanhaém e outros intelectuais de destaque da época. Dotado de notável inteligência e curiosidade intelectual, o monarca tornou-se poliglota, dominando mais de dez idiomas, entre eles o grego, o hebraico, o árabe e o tupi. Demonstrava grande apreço pelas ciências humanas e naturais, mantendo correspondência com personalidades científicas e literárias de renome mundial, como Victor Hugo, Louis Pasteur, Richard Wagner, Alexandre Dumas e Alexander von Humboldt, com quem trocava ideias sobre arte, filosofia e progresso técnico.

Segundo José Murilo de Carvalho (2007, p. 45), “Dom Pedro II foi um dos raros monarcas do século XIX cuja verdadeira paixão residia no conhecimento”. Essa paixão se refletiu em políticas que incentivaram o avanço educacional, artístico e científico no Brasil. O imperador foi patrono da Academia Brasileira de Letras e protetor de instituições culturais, como o Museu Nacional, a Biblioteca Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), que desempenharam papel fundamental na construção da identidade nacional. Também estimulou o desenvolvimento de infraestruturas modernas, como o telégrafo, a ferrovia e a fotografia, introduzindo o país no contexto da modernidade oitocentista.

O Colégio Pedro II (1837), criado ainda durante o período regencial, mas consolidado sob seu patrocínio, tornou-se modelo de ensino secundário e referência de qualidade intelectual. Além disso, Dom Pedro II incentivou a criação de escolas normais para formação de professores, reconhecendo o magistério como pilar da civilização. Em carta de 1873, afirmou: “Nada eleva mais um povo do que o saber; e nada o degrada tanto quanto a ignorância”. Essa convicção de caráter iluminista o levou a patrocinar o estudo de jovens brasileiros na Europa, apoiando bolsas de estudo e missões pedagógicas, especialmente na França e na Alemanha, com o objetivo de trazer ao Brasil novas metodologias e paradigmas científicos.

A postura intelectual do monarca refletia uma visão cosmopolita e humanista, que conciliava tradição e progresso. Dom Pedro II via a cultura como instrumento de emancipação moral e política, acreditando que o conhecimento poderia elevar o Brasil ao patamar das nações mais civilizadas. Sob sua influência, o país vivenciou um período de efervescência intelectual, com o surgimento de revistas literárias, debates científicos e a consolidação de uma elite letrada comprometida com a modernização nacional.

3. A Concepção Humanista e Moral da Educação

A frase analisada neste estudo contém um núcleo filosófico que remete ao ideal humanista. Para Dom Pedro II, a educação deveria transcender o ensino de conteúdos e promover o desenvolvimento integral do ser humano. Tal perspectiva aproxima-se das ideias de Rousseau e Condorcet, para quem a instrução pública é condição essencial de liberdade e moralidade.

O imperador acreditava que o educador era o verdadeiro condutor do progresso nacional. Em discurso de 1876, declarou:

“Educar não é apenas instruir, mas formar o caráter. O mestre não ensina apenas o que sabe, mas o que é.”

Essa visão traduz um compromisso ético com a formação do cidadão e antecipa princípios pedagógicos que mais tarde seriam retomados por pensadores brasileiros como Rui Barbosa, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.

Conforme Saviani (2007, p. 23), “a educação é sempre um ato político e moral”. Essa noção é coerente com o pensamento de Dom Pedro II, que via na docência uma missão espiritual, capaz de transformar o destino do país por meio da cultura e do conhecimento.

4. Políticas e Ações Educacionais de Dom Pedro II

O reinado de Dom Pedro II foi marcado por importantes iniciativas voltadas à disseminação do ensino, à valorização cultural e ao fortalecimento das instituições de saber. O monarca via a educação como base indispensável para o progresso moral e material da nação, e, por isso, adotou uma postura ativa na promoção de políticas públicas voltadas ao ensino, à ciência e às artes. Entre as principais ações, destacam-se:

  1. Criação e fortalecimento do Colégio Pedro II, que se tornou referência nacional em educação humanista e científica. A instituição foi concebida como modelo de excelência, com currículo abrangente que integrava disciplinas clássicas, línguas estrangeiras, filosofia, ciências naturais e história, formando gerações de intelectuais e estadistas. O próprio imperador acompanhava seu funcionamento, participando de cerimônias, visitando salas de aula e premiando alunos de destaque.
  2. Estímulo à formação docente, com a fundação de escolas normais em várias províncias, especialmente a partir da década de 1870. Dom Pedro II compreendia que o progresso do ensino dependia da qualificação do professorado, e incentivou reformas pedagógicas inspiradas em modelos europeus, como o francês e o alemão. Essas escolas tornaram-se centros de difusão de novas metodologias de ensino, contribuindo para o fortalecimento do magistério nacional.
  3. Apoio às instituições científicas e artísticas, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), o Museu Nacional, o Observatório Imperial do Rio de Janeiro e a Academia Imperial de Belas Artes. Sob seu patrocínio, tais instituições desempenharam papel fundamental na produção e preservação do conhecimento, além de promoverem o intercâmbio intelectual entre o Brasil e a Europa. O imperador também incentivou a realização de expedições científicas, especialmente nas áreas de botânica, geografia e arqueologia, consolidando o país como centro emergente de investigação científica no hemisfério sul.
  4. Patrocínio à imprensa, à difusão cultural e à tradução de obras científicas e literárias, ampliando o acesso ao conhecimento. Dom Pedro II acreditava que a circulação de ideias era essencial para o desenvolvimento do espírito público e da cidadania. Assim, apoiou publicações educativas, jornais literários e a tradução de textos fundamentais das ciências e das humanidades, aproximando o Brasil das grandes correntes de pensamento do século XIX.
  5. Concessão de bolsas de estudo no exterior, destinadas à formação de estudantes, engenheiros, artistas e professores brasileiros. Essa política contribuiu para a modernização das práticas pedagógicas e científicas nacionais, permitindo que o país assimilasse avanços tecnológicos e concepções filosóficas do Velho Mundo. Entre os bolsistas estavam nomes que mais tarde se destacariam no cenário intelectual brasileiro, colaborando com o projeto civilizatório de Dom Pedro II.

Como observa Lilia Moritz Schwarcz (1998, p. 112), “a figura do imperador confundia-se com a do intelectual, que fazia da cultura um instrumento de poder simbólico e de prestígio internacional”. Essa postura consolidou o Brasil como uma das monarquias mais cultas e respeitadas de seu tempo, distinguindo-se por seu compromisso com o saber e com a modernidade ilustrada. Além disso, o legado educacional e científico de Dom Pedro II ultrapassou as fronteiras do Império, sendo reconhecido por instituições estrangeiras como a Academia de Ciências de Paris e a Royal Society de Londres, das quais foi membro correspondente.

O conjunto dessas políticas demonstra que Dom Pedro II compreendia o conhecimento como elemento estruturante do Estado e via na educação o caminho para a emancipação do indivíduo e o engrandecimento da nação. Sua visão de governo, profundamente marcada pelo humanismo, pelo racionalismo e pela fé no progresso, deixou marcas duradouras no sistema educacional brasileiro e na construção de uma identidade cultural própria.

5. O Professor como Agente de Transformação

Ao declarar que desejaria ser professor, Dom Pedro II revela não apenas uma admiração pessoal pela docência, mas uma profunda compreensão do poder formador da palavra, do exemplo e da transmissão do conhecimento. Sua afirmação — “Se não fosse imperador, desejaria ser professor” — sintetiza uma visão de mundo iluminista e humanista, na qual o saber se coloca acima do poder e a educação é vista como instrumento de emancipação individual e social. Para o monarca, o verdadeiro governante e o verdadeiro mestre compartilham a mesma missão: “dirigir inteligências” e “preparar homens do futuro”, conduzindo o povo pelo caminho da razão e da virtude.

Essa concepção coloca o professor no centro do processo civilizatório, reconhecendo-o como figura essencial na formação moral e intelectual da sociedade. Assim como o monarca dirige a nação, o educador conduz as mentes — mas sua autoridade é moral, ética e intelectual, e não política. O imperador compreendia que a força de um país residia menos nas armas do que nas escolas, e que somente por meio da educação o Brasil poderia alcançar o patamar das nações civilizadas. Em diversos discursos, Dom Pedro II exaltou o magistério como “a mais nobre das profissões”, chegando a afirmar que “a ignorância é a verdadeira inimiga da liberdade”.

A figura do professor, portanto, era para Dom Pedro II símbolo do progresso, do altruísmo e da construção do caráter nacional. Ele via na docência não apenas uma função técnica, mas uma missão espiritual e patriótica, responsável por moldar consciências e cultivar valores éticos, científicos e humanísticos. Em várias ocasiões, o imperador fez questão de visitar escolas públicas e privadas, dialogando com mestres e alunos, e demonstrando sincero interesse pelo cotidiano do ensino. Seu respeito pelos professores era público e constante, o que contribuiu para elevar o prestígio moral da profissão em uma época ainda marcada pela desigualdade educacional e pela escassez de recursos didáticos.

Segundo Fernando de Azevedo (1958, p. 67), “a educação brasileira deve a Dom Pedro II o impulso inicial de seu despertar cultural e o prestígio moral do magistério”. Essa valorização do professor como guardião do saber e agente da transformação social permanece como um ideal a ser plenamente alcançado na contemporaneidade. O imperador antecipava, de certo modo, ideias que mais tarde seriam defendidas por educadores como Anísio Teixeira e Paulo Freire, ao considerar que ensinar é um ato de libertação e que a instrução popular é o caminho mais seguro para a justiça e o desenvolvimento.

O legado de Dom Pedro II, portanto, não se limita às reformas institucionais, mas estende-se à formação de uma mentalidade educacional que valoriza o conhecimento como bem supremo. Sua visão coloca o professor como mediador entre o saber e o cidadão, como aquele que constrói pontes entre o passado e o futuro, entre a tradição e a inovação. Ainda hoje, em tempos de desafios educacionais e crises de valores, o exemplo do “imperador professor” continua a inspirar a crença de que a transformação do mundo começa pela sala de aula.

6. Atualidade do Pensamento de Dom Pedro II

No século XXI, a profissão docente enfrenta desafios complexos e persistentes, como a desvalorização social, a precarização das condições de trabalho, a sobrecarga emocional e a carência de políticas públicas consistentes voltadas à formação continuada e à valorização salarial dos educadores. Em meio a esse cenário, a mensagem de Dom Pedro II adquire nova relevância, ressoando como um apelo ético, filosófico e simbólico em defesa do magistério e do papel essencial da educação na construção de uma sociedade justa e esclarecida. Sua célebre admiração pela docência — expressa na frase “Se não fosse imperador, desejaria ser professor” — transcende o tempo, reafirmando a dignidade e a missão humanizadora do ensino.

Para Dom Pedro II, ensinar era um ato de elevação moral, um compromisso com o progresso intelectual e espiritual do povo. Essa convicção, ancorada nos ideais iluministas e no humanismo cristão, encontra eco nas discussões pedagógicas contemporâneas sobre o papel transformador da educação. No mundo atual, marcado pela aceleração tecnológica, pela crise de valores e pela desigualdade de oportunidades, o pensamento do imperador permanece como referência de esperança e propósito: o conhecimento continua sendo a via mais segura para a liberdade e para o fortalecimento da cidadania.

Como afirmou Anísio Teixeira (1969, p. 14), “sem professores não há nação possível”. Essa máxima reforça o sentido atemporal da frase imperial: formar inteligências é formar o próprio destino de um povo. A educação, vista por Dom Pedro II como instrumento de emancipação e progresso, mantém-se o principal caminho para o desenvolvimento nacional. Sua postura de respeito à ciência, à cultura e ao magistério oferece um contraponto inspirador diante da crise de reconhecimento que hoje atinge os profissionais da educação.

A atualidade do pensamento de Dom Pedro II reside, portanto, em sua capacidade de articular valores éticos, políticos e culturais em torno da figura do professor e da centralidade da escola como espaço de formação cidadã. Ao reconhecer no educador o verdadeiro construtor da pátria, o imperador antecipou um ideal que atravessa gerações: o de que nenhum projeto de nação é sustentável sem investimento intelectual e moral em seus mestres.

Mais do que um legado histórico, sua visão constitui uma lição permanente de valorização, respeito e esperança. Em tempos de transformações globais, é urgente resgatar o espírito que animava o “imperador professor”: a crença de que educar é servir à humanidade, e que o saber, mais do que um privilégio, é um dever compartilhado entre governantes e cidadãos. Assim, o pensamento de Dom Pedro II continua a iluminar o presente, inspirando novas gerações de educadores a manter viva a fé na força transformadora da educação e no poder civilizador da palavra e do exemplo.

7. Considerações Finais

Dom Pedro II compreendia a educação como a verdadeira base de sustentação de um país civilizado. Sua frase sintetiza uma visão de mundo em que o saber é o mais elevado dos poderes e o professor, seu mais digno representante.
O imperador não via o trono como símbolo de dominação, mas como espaço de serviço à cultura e à ciência. Seu amor pelo ensino e sua admiração pelo professorado representam um legado moral e intelectual que ultrapassa os limites do tempo.
Ao desejar ser mestre, Dom Pedro II eternizou a imagem de um governante que acreditava no poder das ideias — e, sobretudo, no poder do educador de transformar o mundo.

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Fernando de. A Cultura Brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1958.

CARVALHO, José Murilo de. Dom Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SAVIANI, Dermeval. História das Ideias Pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2007.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

TEIXEIRA, Anísio. Educação e o Mundo Moderno. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.BARROS, Maria do Carmo. O Ideal Educador de Dom Pedro II. Rio de Janeiro: MEC/INEP, 1989.

Alexandre Rurikovich Carvalho

Voltar

Facebook




Dimensão social e humanista de Silvestre P. Ferreira (1769-1846)

Diamantino Loureiro Rodrigues de Bártolo: Artigo ‘Dimensão social e humanista de Silvestre P. Ferreira (1769-1846)’

Diamantino Bártolo

O século XVIII não esqueceu as artes, tais como a pintura, a escultura, a arquitetura, principalmente a partir da França e, poder-se-ia incluir aqui, a literatura, que teve grande destaque não só no país de Napoleão Bonaparte, como também na Inglaterra e na Alemanha.

É na França que as ‘Luzes’ têm o seu maior desenvolvimento, onde se localiza o seu epicentro, cujas coordenadas ideológicas fundamentais são: a) Fundar toda a organização política e social no reconhecimento dos direitos naturais do homem: a igualdade face à lei; respeito pela propriedade privada; liberdade de pensamento e de expressão; b) Oposição da religião natural à religião tradicional da Igreja, defesa do deísmo e críticas à superstição e temporalidade eclesiásticas; c) Defesa de uma moral natural, no sentido do dever, de se praticar o bem enquanto benéfico para os indivíduos e, não por medo ou horror ao pecado, demonstrando assim um certo pragmatismo, enquanto passantes efémeros e errantes pela terra; d) Crença nas virtudes da liberdade, da tolerância e do progresso.

Anuncia-se, assim, com as ‘Luzes’ (não no seu todo, mas em parte delas) o liberalismo do século XIX, a condenação da intolerância religiosa e do despotismo; inicia-se a propagação de um pensamento burguês, em ruptura com o sistema feudal e, a partir dos filósofos da época, desencadeiam-se movimentos reformadores e revolucionários.  

Outros eventos relevantes ocorreram no século XVIII, todavia, o objetivo aponta num outro sentido, que não apenas o filosófico-político-cultural, mas também a importância que teria tido o luso-brasileiro Pinheiro Ferreira, na maior implementação, cumprimento e aperfeiçoamento de uma educação para a cidadania e direitos humanos, no quadro de uma sociedade democrática e de liberdade plena, a partir das suas intervenções, e nos espaços com os quais há um passado comum, objetivamente como povos irmãos: Brasil e Portugal, no presente trabalho; Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa, numa perspectiva mais ampla e de curto prazo; cidadania universal como projeto final.

Não se estranhará que na primeira metade do século XIX, a importância de Silvestre Ferreira no Brasil tenha sido notória, ainda que, no Portugal metropolitano, não se haja verificado grande interesse pela sua obra e intervenção social. Goste-se ou não, das teses liberais, apoie-se ou não as filosofias tradicionais oficiais sobre política, educação e sociedade, não restam dúvidas acerca da postura global deste autor, cuja vida poderá constituir um estímulo na implementação de valores, que se consideram decisivos para a paz e justiça mundiais.

Em termos políticos, Silvestre Ferreira, fervoroso adepto do Constitucionalismo, tem um conceito de democracia que consiste na ausência de todo o privilégio. Um governo em que a lei não exclui ninguém do exercício de todo e qualquer direito político, a partir do momento em que tenha sido considerado apto pelos seus concidadãos, aqui residindo o princípio da igualdade como fundamento exclusivo das democracias.

A valorização das ciências sociais e morais por parte de Pinheiro Ferreira será uma constante, e a relação que ele estabelece entre estas e as ciências experimentais, permitirá esclarecer sobre a importância das primeiras, que considera encerrarem uma linguagem mais rica.

Na sua dimensão política, a filosofia de Silvestre Ferreira, será desenvolvida a partir do contributo que, na sua época, deu a Portugal e ao Brasil, escrevendo algumas obras que em pleno século XXI, se podem considerar estimulantes e inspiradoras, destacando-se aqui, salvo melhores e doutas opiniões, o “Manual do Cidadão em um Governo Representativo”, que tinha por objetivos: um sistema de governação pública; uma política de educação; a constituição dos vários poderes.

Apesar da notoriedade da sua obra filosófica no Brasil, o certo é que, à época, havia na então colónia portuguesa outro tipo de preocupações que não estimulavam o estudo de matérias humanístico-filosóficas; inversamente, os cursos de natureza prática e profissional suscitavam maior interesse, criando-se no mesmo ano em que a Corte Portuguesa se transferiu para o Rio: a Academia da Marinha, depois a Academia Real Militar, o curso de Cirurgia no Hospital Militar da Baía; os cursos de Anatomia, de Cirurgia e de Medicina, o Curso de Agricultura, Química, Geologia e Mineralogia; D. João VI estava mais sensibilizado para a criação de cursos práticos com vista à formação de técnicos e de especialistas, em ordem à satisfação das necessidades públicas mais prementes

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

site@nalap.org

Voltar: http://www.jornalrol.com.br