Somos a mistura do jingar com a melodia, o timbre no fundo do canto, a bola girando, sim.
Somos nuvem sedenta de água, que suga toda má energia na balada, somos, somos, somos, somos frutos vermelhos no meio da água fervida, vivendo coisas proibidas, sim, somos de direita, esquerda e andamos torta á direita, fumos, velas e fogueiras, queria dizer, que sim, somos tudo que vemos e temos.
Ella Dominici discorre sobre memória, consciência e a reconstrução da condição humana
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PREMISSA
“A verdadeira paz talvez não seja a ausência da guerra, mas a coragem de permanecer humano quando tudo parece conspirar contra a humanidade.”( Rute Ella Dominici)
A guerra costuma ser narrada pela história oficial através de mapas, tratados diplomáticos, estratégias militares e estatísticas. Conhecemos datas, números de vítimas e nomes de batalhas. Contudo, por trás de cada dado existe uma existência interrompida, uma memória fragmentada e uma consciência profundamente transformada pela violência.
Poucos acontecimentos revelam tão intensamente a fragilidade da condição humana quanto os conflitos armados. Eles não destroem apenas cidades, monumentos e fronteiras. Desorganizam a linguagem, silenciam afetos e alteram a forma como as gerações futuras compreendem a própria humanidade.
Este ensaio propõe deslocar o olhar da narrativa histórica para a experiência humana. A guerra deixa de ser observada apenas como um acontecimento coletivo para tornar-se experiência íntima, inscrita na memória de indivíduos, famílias e povos. É na primeira pessoa que a dor adquire rosto, voz e permanência.
A literatura ocupa, nesse contexto, um lugar singular. Enquanto a história registra acontecimentos, a literatura preserva aquilo que dificilmente pode ser quantificado: o medo, a ausência, a culpa, a esperança e a lenta reconstrução da dignidade humana. Ela transforma a memória em responsabilidade ética.
Ao refletir sobre Hiroshima, sobre as mulheres que sustentam a continuidade da vida e sobre a permanência das lembranças nas gerações seguintes, este texto não pretende oferecer respostas definitivas. Busca, antes, reconhecer que toda civilização depende da capacidade de recordar sem transformar a memória em instrumento de ódio.
Lembrar não significa permanecer aprisionado ao sofrimento, mas impedir que a violência seja naturalizada. Quando a memória permanece viva, ela se converte em consciência; quando a lucidez permanece desperta, torna-se possibilidade de paz.
I — A Guerra em Primeira Pessoa
“Toda guerra começa quando o outro deixa de ser reconhecido como semelhante.”
Existe uma diferença profunda entre estudar uma guerra e sobreviver a ela. A primeira atividade pertence ao domínio da análise histórica; a segunda modifica irreversivelmente a percepção da existência. Nenhuma estatística consegue traduzir o instante em que uma criança compreende o significado da perda, nem o silêncio que permanece após o desaparecimento daqueles que davam sentido ao cotidiano.
A guerra rompe a continuidade da vida ordinária. O tempo deixa de ser organizado por projetos e passa a ser medido pela sobrevivência. Cada dia representa uma conquista incerta, cada despedida pode tornar-se definitiva, cada gesto cotidiano adquire inesperada dimensão ética.
Nesse contexto, a primeira pessoa deixa de ser mero recurso narrativo para transformar-se em lugar de resistência. Dizer “eu” significa afirmar que existe uma consciência que não foi completamente reduzida à lógica da destruição. A identidade sobrevive mesmo quando tudo ao redor parece destinado ao desaparecimento.
A literatura testemunhal tornou-se um dos maiores patrimônios da memória contemporânea exatamente porque restitui nomes, rostos e emoções às vítimas. Ao narrar a experiência individual, revela aquilo que permanece invisível nas descrições gerais da história: a singularidade da dor humana.
A guerra produz também deslocamentos interiores. Sobreviver implica conviver com lembranças fragmentadas, culpas silenciosas e perguntas sem resposta. O trauma não termina quando cessam os combates; prolonga-se na memória, influenciando relações familiares, escolhas pessoais e a maneira como novas gerações compreendem o passado.
Recordar, portanto, não significa cultivar ressentimento. A memória transforma-se em exercício de responsabilidade. Ela impede que a violência seja reduzida a simples acontecimento histórico e recorda continuamente que cada conflito nasce, antes de tudo, da recusa em reconhecer plenamente a humanidade do outro.
Assim, toda narrativa em primeira pessoa torna-se também uma narrativa coletiva. Ao escutar uma única voz, reconhecemos milhares de outras que permaneceram silenciadas pela destruição.
II — A Mulher em Primeira Pessoa
“Onde a guerra interrompe a vida, muitas mulheres preservam a memória.”
As guerras foram frequentemente narradas pelos vencedores, pelos generais e pelos líderes políticos. Entretanto, existe uma outra história, menos visível e igualmente decisiva: aquela preservada pelas mulheres.
Enquanto o conflito reorganiza fronteiras e estruturas políticas, mulheres sustentam aquilo que permanece essencial à continuidade da existência: o cuidado, a transmissão da memória, a preservação da infância e a reconstrução cotidiana da esperança.
Elas experimentam perdas múltiplas. Perdem companheiros, filhos, lares, estabilidade e, muitas vezes, a própria identidade construída antes da violência. Ainda assim, assumem silenciosamente o trabalho de reorganizar a vida quando os combates terminam.
Não se trata de idealizar a figura feminina, mas de reconhecer uma dimensão histórica frequentemente negligenciada. A memória coletiva de inúmeros povos foi preservada por relatos orais, diários, fotografias, cartas e gestos cotidianos mantidos sobretudo pelas mulheres.
A maternidade, compreendida aqui em sentido amplo como capacidade de proteger e transmitir a vida, converte-se em resistência ética diante da destruição. Mesmo quando tudo parece perdido, permanece o compromisso de impedir que o esquecimento complete aquilo que a guerra iniciou.
A literatura registra inúmeras personagens femininas que atravessam conflitos sem perder completamente a capacidade de compaixão. Elas não representam ingenuidade, mas coragem moral.
Ao narrar a guerra em primeira pessoa feminina, a literatura amplia nossa compreensão da violência. Ela mostra que a reconstrução de uma sociedade começa muito antes da assinatura de tratados diplomáticos.
III — A Modernidade e a Guerra em Terceira Pessoa
“A técnica amplia o poder humano; somente a consciência pode limitar seu uso.”
A modernidade proporcionou extraordinários avanços científicos, tecnológicos e econômicos. Contudo, o mesmo conhecimento capaz de prolongar a vida também produziu instrumentos de destruição jamais imaginados pelas gerações anteriores.
Ao longo do século XX, a guerra deixou de depender exclusivamente da coragem individual dos combatentes para tornar-se resultado de sistemas burocráticos altamente organizados. A violência passou a ser administrada por estruturas impessoais.
Hannah Arendt observou que o mal pode apresentar-se não apenas como manifestação de crueldade consciente, mas também como resultado da incapacidade de pensar criticamente sobre os próprios atos.
Nesse cenário, a literatura recupera aquilo que a burocracia tende a apagar: a singularidade humana. Ao devolver nomes às vítimas e sentimentos às estatísticas, rompe a impessoalidade produzida pelas grandes máquinas administrativas da guerra.
A técnica não possui, em si mesma, orientação moral. Ela amplia possibilidades. Cabe à consciência humana decidir se o conhecimento será utilizado para preservar ou destruir a vida.
A verdadeira modernidade talvez não resida apenas na capacidade de criar tecnologias cada vez mais sofisticadas, mas na maturidade de utilizá-las em favor da dignidade humana.
IV — Cartografia da Memória
“A memória não pertence apenas ao passado; ela orienta a responsabilidade do futuro.”
A memória constitui um dos fundamentos da identidade humana. Não é apenas um arquivo de acontecimentos, mas um processo vivo pelo qual indivíduos e sociedades interpretam a própria existência. Após os grandes conflitos do século XX, recordar tornou-se também um imperativo ético.
As guerras não terminam quando cessam os disparos. Permanecem inscritas nos corpos, nas narrativas familiares e na cultura dos povos. O trauma atravessa gerações, moldando percepções, medos e formas de compreender o mundo.
Paul Ricoeur observa que recordar exige responsabilidade. A memória precisa preservar a verdade sem alimentar o ressentimento. Esquecer completamente favorece a repetição da violência; permanecer aprisionado ao passado impede a reconstrução da vida.
A literatura torna-se espaço privilegiado dessa elaboração. Ela transforma lembranças em linguagem, oferecendo à dor um lugar de permanência que não se reduz à repetição do sofrimento. Assim, a memória deixa de ser apenas recordação e converte-se em compromisso com o futuro.
Cartografia da Memória — Os grandes massacres do século XX
Primeira Guerra Mundial (1914–1918): cerca de 20 milhões de mortos. Deixou uma Europa devastada e inaugurou a guerra industrial em larga escala. �
HISTORY · 1
Genocídio Armênio (1915–1917): aproximadamente 1,5 milhão de vítimas, considerado um dos primeiros genocídios do século XX. �
thoughtco.com
Segunda Guerra Mundial (1939–1945): entre 70 e 85 milhões de mortos, incluindo o Holocausto, o maior conflito da história humana. �
HISTORY · 1
Holocausto (1933–1945): cerca de 6 milhões de judeus assassinados, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelo regime nazista. �
HISTORY
Hiroshima e Nagasaki (1945): aproximadamente 200 mil mortos entre vítimas imediatas e posteriores à radiação, marcando o início da era nuclear. �
HISTORY
Guerra da Coreia (1950–1953): cerca de 3 milhões de mortos, consolidando a divisão da península coreana. �
PubMed Central (PMC)
Guerra do Vietnã (1955–1975): aproximadamente 2 a 3 milhões de mortos, deixando profundas marcas humanas, ambientais e políticas. �
PubMed Central (PMC) · 1
Genocídio Cambojano (1975–1979): cerca de 2 milhões de vítimas, consequência do regime do Khmer Vermelho. �
thoughtco.com
Guerras dos Bálcãs (1991–1999): aproximadamente 140 mil mortos, marcadas por limpeza étnica e pelo massacre de Srebrenica. �
PubMed Central (PMC)
Estima-se que mais de 100 milhões de pessoas tenham perdido a vida em guerras e conflitos do século XX, tornando-o o período mais violento da história contemporânea e um permanente chamado à responsabilidade ética e à preservação da memória. �
V — Hiroshima: Quando a Ciência Ultrapassou a Consciência
“O conhecimento alcança sua grandeza quando permanece inseparável da responsabilidade.”
Hiroshima permanece como um dos símbolos mais contundentes da capacidade humana de produzir destruição em escala inédita. Em poucos segundos, milhares de vidas foram interrompidas, e os efeitos físicos, psicológicos e ambientais prolongaram-se por décadas.
O episódio não representa apenas um marco militar. Ele inaugura uma reflexão permanente sobre os limites éticos do progresso científico. A inteligência técnica mostrou-se extraordinária; a consciência moral revelou-se insuficiente para impedir a devastação.
O Memorial da Paz de Hiroshima permanece como testemunho silencioso dessa responsabilidade histórica. Mais do que preservar ruínas, convida a humanidade a reconhecer que nenhum avanço científico pode ser separado de suas consequências humanas.
VI — Como a Flor de Hiroshima
“Hiroshima, mon amour”À Marguerite Duras
“À memória daqueles cuja ausência continua a ensinar a humanidade a florescer”
Uma bomba julgou estéril o solo da fertilidade. Apesar da devastação homicida, houve um impulso; na vila morta, célere, a vida.
A flor de Hiroshima floresce. Se apenas sobrevivesse, seria somente um símbolo biológico.
Mas florescer é um verbo da alma, metáfora da resiliência, a serenidade que ensaia novamente a vida.
A cinza acreditava possuir a última palavra. A flor respondeu em perfume: imagem singela da extraordinária continuidade.
O perfume não tem corpo nem ocupa espaço. Não se deixa aprisionar; expande-se, transcende. E do massacre, gesto agreste, a poesia se consagra.
Não reconstrói edifícios, nem desfaz explosões. Não devolve os mortos às suas imensidões.
A flor não explica a tragédia, mas transforma suas dimensões.
A bomba definia a terra como o último vazio. A vida, porém, recusa o verbo desistir.
A consciência, em floração, renasceu na natureza, porque florescer é escolha da alma, e quando a cinza imaginou ser a última palavra,
A flor de Hiroshima poetizou o perfume na forma mais delicada de negar a violência.
O amor permanece em plena liberdade, sem fronteiras nem espaços definidos.
Persiste quando a matéria desaparece e o silêncio dialoga com as memórias que não cabem na linguagem:
colecionam perfumes que devolvem à humanidade, não os seus mortos, mas o fôlego que a dor acreditava ter extinguido.
Porque a matéria do absurdo torna-se cinza: o obscuro
mas na alma o último verbo é florescer:
Hiroshima, mon amour.
Rute Ella Dominici
Epílogo — Eu, Sobrevivente
“Sobreviver é transformar a memória em responsabilidade.”
Não sobrevivi apenas às guerras inscritas na história. Sobrevivi às guerras silenciosas que atravessam consciências, fragmentam afetos e desafiam continuamente a condição humana.
Compreendi que a paz não se estabelece apenas pelo fim dos conflitos. Ela começa quando reconhecemos no outro a mesma dignidade que desejamos preservar em nós. Esse reconhecimento transforma a memória em compromisso ético e impede que a violência encontre no esquecimento um novo abrigo.
A literatura participa dessa reconstrução ao conservar aquilo que a destruição não consegue alcançar: a experiência humana. Enquanto houver quem escreva, leia e recorde, permanecerá viva a possibilidade de uma cultura fundada na responsabilidade, na compaixão e na esperança.
Talvez essa seja a mais profunda vocação da palavra: lembrar que, mesmo depois das maiores ruínas, a humanidade ainda pode escolher florescer.
Que este trabalho encontre leitores capazes de reconhecer que, mesmo diante da devastação da matéria , a literatura continua sendo uma forma de preservar a humanidade.
Pelos antigos perfumes ainda agarrados às bordas das almofadas, pela luz que desperta na crista de um galo ancestral, como se alguém tivesse testemunhado uma estrela caída sendo engolida pela luz do dia — por aquilo que as cidades conquistaram, essas cidades que, tropeçando em direção a si mesmas, encontraram seu amanhã entre dois rios; pela água nos suspiros das belas mulheres, temerosas de que Sherazade, despercebida, pudesse encontrar a imaginação do Imperador entre os espelhos; pela memória da tinta nos livros, os exércitos de Hulagu foram lançados ao rio.
Como se pode amar uma cidade mais do que aqueles que a chamam de lar, estrangeiro?
Se por acaso encontrares Zubayda, diz-lhe: hoje, todo o poder está em suas mãos. E eu vou encontrar Timur.
Não me importam as mulheres dos acampamentos, as escravas, as cativas, nem aquelas cujo fluxo mensal cessou. Nunca sorri para um estranho sem que ele pudesse me ver.
Digo-lhe: Ó estrangeiro, por que te apressaste em me matar e me deixaste como um cadáver para apodrecer, entre as treliças da filha de al-Jalabi e os muros da prisão de Abu Ghraib? E eu quase te dei uma casa e uma escrava ao meu lado.
Esperamos até o meio-dia para tirar nossas fotografias hoje na Rua al-Mutanabbi, onde o livro retorna do rio para sentar-se conosco nos cafés, onde ouvimos a voz de al-Ghazali talhando seu sopro nos pulmões do ar e no muro da cidade; onde os olhos das belas mulheres se transformam em florestas de palmeiras, e nove reinos se erguem ao longo das duas margens do Eufrates.
E então vi o arauto anunciando:
Não foste tu quem disse: Ó touro deste céu, e de todo céu — desce ao mais profundo abismo, até encontrares a terra erguida sobre teus chifres por nossa causa, e deixa-nos herdar a erva da imortalidade?
Não foste tu quem disse, antes que a escrita existisse, à filha da Senhora do Palácio: Eu te amo.
Eu sou aquele que te concedeu dois pequenos riachos, para que pudesses lavar o que quisesses — tuas pernas — até que o meio-dia tecesse a cor do dia.
Não foste tu quem disse:
O rosto da cidade é água. E esta é a prova do meu suicídio — retornei como aquele que, hoje, encontra em ti a cura para a morte.
E, desde que dei minha palavra, nenhuma alma pode ser salva se não acreditar em meu milagre:
que sou o guardião dos dois rios e o guardião de tudo o que a natureza me deixou entre eles.
Não desperdiçarei a água de uma nuvem que cairá sobre meu reino onde quer que vague, nem a areia que perdeu os mandamentos de seus ancestrais dentro daquela antiga imaginação do vento.
E não negocio a mim mesmo por nenhuma alma, nem negocio aqueles que buscaram refúgio comigo durante a guerra em troca da captura de povos que, em nossos mitos, são nossos vizinhos.
Sou aquele que, quando liberto o barro entre os túmulos, se curva no caminho diante de uma folha de capim que envelheceu esperando por mim.
Talvez uma das coisas mais curiosas sobre a vida seja a quantidade de coisas que deixamos de viver não porque não as desejávamos, mas porque, em algum momento, tivemos medo de tentar. O tempo passa, as pessoas seguem caminhos diferentes e, muitas vezes, aquilo que permanece não é exatamente a pessoa, mas a possibilidade. Talvez seja por isso que uma frase do texto tenha ficado tanto na minha cabeça: “e o amor platônico, às vezes, é eterno só porque nunca foi real”. Existe algo de incômodo nisso. Às vezes queremos tanto alguém que construímos uma imagem quase perfeita justamente porque nunca tivemos a oportunidade de descobrir quem aquela pessoa realmente era. O que permanece, então, não é necessariamente o amor por alguém, mas o apego ao que poderia ter acontecido. E talvez transformar o “e se?” em uma memória seja uma das formas mais silenciosas de perder alguma coisa.
Não acho que isso signifique que devemos tentar controlar o tempo ou fazer tudo acontecer à força. Se você ama alguém, talvez valha a pena dizer. Tentar. Permitir que algo exista fora da imaginação. Se o tempo acabar separando duas pessoas, talvez simplesmente não fosse o momento. E, se a vida as colocar novamente no mesmo caminho, talvez exista uma nova possibilidade. O ponto não está em garantir um resultado, mas em não permitir que o medo seja o único responsável pelas escolhas que fazemos.
Talvez essa dificuldade de agir esteja profundamente relacionada ao modo como construímos nossa própria identidade. Acredito que existam muitos fatores envolvidos: comparação, crenças, medo da rejeição, necessidade de aceitação e experiências que nos ensinam, pouco a pouco, a esconder determinadas partes de nós. Na infância, parece existir uma relação mais espontânea com o simples ato de ser. A criança não precisa pensar o tempo inteiro sobre como está sendo percebida para existir. Mas, conforme cresce, começa a descobrir que ser quem é nem sempre é recebido com acolhimento. Às vezes sofre bullying, preconceito, rejeição ou simplesmente percebe que determinadas características suas são menos aceitas naquele ambiente. Então aprende a criar um personagem.
O problema talvez não esteja em criar esse personagem. Em certos momentos, ele pode até ser uma forma de proteção. O problema começa quando esquecemos que ele foi criado. Depois de tanto tempo desempenhando determinado papel, podemos nos identificar profundamente com ele e passar a acreditar que aquilo é quem somos. O personagem deixa de ser uma estratégia e passa a parecer identidade. E talvez seja justamente aí que aconteça um dos maiores esquecimentos humanos: não esquecer fatos sobre nós mesmos, mas esquecer que somos maiores do que as definições que aprendemos a sustentar.
Por isso, talvez a memória tenha uma função diferente daquela que normalmente atribuímos a ela. Uma memória não precisa ser uma verdade imutável sobre quem fomos. Ela é o registro de algo que, em determinado momento, nos marcou. Quando alguém procura um lugar para voltar, talvez não esteja procurando necessariamente um espaço físico. Talvez esteja procurando uma sensação, uma forma de existir, uma versão de si mesma que parecia mais próxima de alguma coisa essencial. A saudade, nesse sentido, pode não ser apenas daquilo que aconteceu, mas também daquilo que poderíamos ter sido.
O passado, entretanto, não pode ser reconstruído. Podemos observá-lo, compreendê-lo e aprender com ele, mas não precisamos permanecer presos a ele. Talvez o caminho não seja voltar a ser quem éramos, mas trazer para quem somos hoje aquilo que havia de verdadeiro naquela versão. Recuperar uma espontaneidade sem recuperar a ingenuidade. Recuperar a coragem sem abandonar a consciência. Olhar para trás não para morar no passado, mas para reconhecer partes de nós que ficaram esquecidas no caminho.
Isso também muda a maneira como enxergamos as outras pessoas. Vivemos em uma época em que frequentemente vemos apenas aquilo de que gostamos ou não gostamos em alguém. Muitas vezes, enquanto outra pessoa fala, já estamos preparando uma resposta, uma defesa ou um julgamento. Escutamos menos do que pensamos que escutamos. Talvez compreender alguém exija justamente uma espécie de redução do próprio ego: aceitar que uma pessoa é complexa demais para caber em uma única definição. Ninguém é apenas uma característica, uma escolha, um erro, uma opinião ou uma fase da vida. E isso vale também para nós mesmos.
Talvez nos rotulemos tanto que esquecemos que estamos constantemente mudando. Uma pessoa pode ser contraditória, mudar de ideia, amadurecer, regredir, aprender, esquecer e reconstruir-se inúmeras vezes. Isso não significa que não exista identidade, mas que identidade talvez seja menos uma coisa fixa e mais um processo. Somos influenciados por aquilo que vivemos, pelas pessoas que encontramos, pela cultura, pelas crenças que aprendemos e pelos ambientes que habitamos. A questão não é escapar completamente dessas influências — provavelmente isso seja impossível —, mas perceber que elas existem.
É nesse ponto que a discussão sobre tecnologia e sociedade se torna interessante. Talvez seja simplista tratá-la como algo simplesmente bom ou ruim. A pergunta mais profunda é quem constrói esses ambientes, quais incentivos existem dentro deles e de que maneira eles moldam nosso comportamento. Byung-Chul Han ajuda a pensar sobre isso quando discute como o “você pode” pode transformar-se silenciosamente em “você precisa”. Ninguém necessariamente nos obriga a produzir o tempo inteiro, responder imediatamente, estar disponíveis ou melhorar constantemente. Ainda assim, podemos acabar internalizando essas exigências e cobrando de nós mesmos aquilo que antes vinha de fora.
Isso levanta uma questão importante sobre autonomia. Nossas escolhas continuam sendo nossas, mas não acontecem no vazio. Escolhemos dentro de ambientes, possibilidades, valores e estruturas que já existiam antes de nós. Talvez autonomia, então, não seja a ausência completa de influência, mas a capacidade de perceber as influências que nos atravessam e, mesmo assim, escolher conscientemente. A pergunta deixa de ser apenas “eu escolhi?” e passa a ser “eu consigo perceber por que estou escolhendo isso?”.
Essa mesma questão aparece dentro de nós. Existe uma diferença enorme entre ter um pensamento e acreditar que somos aquele pensamento; entre sentir uma emoção e acreditar que precisamos agir imediatamente de acordo com ela. Talvez liberdade não seja fazer tudo aquilo que desejamos, mas ampliar nossa capacidade de escolha. Existe um pequeno espaço entre o estímulo e a resposta, e talvez seja justamente nesse espaço que nasce o discernimento. Não precisamos deixar de sentir medo, raiva, tristeza ou insegurança para sermos livres. Precisamos conseguir perceber o que está acontecendo antes de transformar automaticamente aquilo em ação.
Talvez o mesmo aconteça com nossas crenças. Muitas vezes tratamos interpretações que aprendemos ao longo da vida como se fossem verdades absolutas sobre quem somos. “Eu sou assim”, “eu não consigo”, “isso não é para mim”, “as pessoas vão me rejeitar”. Mas de onde veio cada uma dessas certezas? Quantas delas nasceram realmente de uma escolha consciente e quantas foram construídas a partir de experiências, medo, comparação ou necessidade de pertencimento?
Talvez consciência seja justamente começar a fazer essas perguntas. Não para desconfiar de tudo o que somos, mas para diferenciar aquilo que escolhemos daquilo que simplesmente aprendemos a repetir. Talvez amadurecer não seja chegar a um estado em que nada mais nos afeta, em que finalmente somos imunes ao medo, às opiniões ou às circunstâncias. Talvez seja perceber cada vez mais aquilo que antes acontecia automaticamente e conquistar, pouco a pouco, a possibilidade de escolher diferente.
No fim, talvez o que mais nos aprisione não seja o passado, o tempo, a tecnologia ou sequer as outras pessoas, mas a inconsciência com que atravessamos tudo isso. O passado não pode ser mudado, mas pode ser compreendido. O futuro não pode ser garantido, mas pode ser construído. As influências não podem ser eliminadas, mas podem ser percebidas. E aquilo que sentimos não precisa determinar aquilo que fazemos.
Talvez viver seja justamente esse movimento entre receber aquilo que a vida nos oferece e decidir o que faremos com isso. Não voltar a ser quem éramos, nem tentar controlar quem seremos, mas reconhecer, no presente, aquilo que ainda é verdade em nós. Porque talvez a pergunta mais importante não seja “quem eu fui?” ou “quem eu deveria ser?”, mas simplesmente: diante de tudo o que me aconteceu, quem eu escolho ser agora?
Nicole Menezes Martins
Nicole Menezes Martins, aluna do 3º ano do ensino médio do curso técnico com ênfase em Administração de Empresas da Etec de Novo Horizonte (SP), é orientanda do professor clayton Alexandre Zocarato.
Ismaél Wankalika: entre as sombras da vida e a luz dos versos, nasce a voz de um poeta!
Soldado Wandalika
Nascemos entre os fios que nos ligam a existência Nossa razão é a lógica da saberia assertiva Num caminho vários espinhos Abismos não limpam gargalhadas nos meios dos sorrisos O passado é renovado pela semente lançada no óvulo Vários mundos escolhendo os seus Rendidos no cenáculo lançam suas preces a Deus E assim na madrugada nos meus escritos o poeta nasceu Dando a coreografia de sua caneta seu sonho reviveu…
E o mundo me fez poeta
Na voz de meu pai No cantar de mamãe Ouviram-se as sombras de suas épocas Canção holística que arrastou-os para trilha O poeta despertou comendo suas rimas na órbita da vida As vezes a vida enquadra-se no sentido que damos a ela.
E o mundo me fez poeta
Eu era um menino desolado Com ânsias no coração procurava melodias Beijava o sol todas as manhãs que o vento soprava ao redor mundo Escassez de encanto Na palm da infância Vivi meus dias perto do mar da vida
Caneta expressava um barulho tardio No peito intenso desejo de mudar o trajeto Ainda luto contra os meus choros Massageio a dor no cotovelo das ondas Caminho segurando as forças com o som de uma guitarra sem cordas Esse é o meu destino visualizado na penumbra.
E o mundo me fez poeta
Entre os gritos injustos de meu pai A resiliência destemida de mamãe Fiz nascer meu primeiro verso Transformei suas vidas nos meus textos Sou eles, nessa versão poética de suas místicas vidas Suas estórias estão aqui dentro O orgulho que os venceu, tenho seu segredo em mim Escrevo nestas sombras o enigma de suas tragédias Sorte adiada no pumar da esperança Sou poeta! finjo dor Escrevo com ardor
Sou capitão neste navio Na contra mão de suas sombras Cortarei o negro com a força das espadas.
E o mundo me fez poeta
Sinto o peso das almas que a mim clamam Pressão nos ombros No mundo de vários mundos encontrei o meu mundo. Fiz minha letra Que alma chora mas a resiliência mantém-me vivo.
Minha sombra me deixa na calçada e caminha sozinha pela rua em frente a mim.
Ela escapa de dentro de mim, dos recônditos ocultos da alma, onde o não dito encontra uma voz sobre minha língua.
Ela não precisa de sapatos, nem de guarda-chuva, nem de cigarros… Nunca verifica os bolsos como eu faço.
Atravessa no sinal vermelho, indiferente aos carros que passam ou às vitrines das lojas.
Cumprimenta as lojas pelas quais já não ouso passar, e sorri para os transeuntes que conheço pelo nome.
Quando vê um rosto desconhecido vestindo exatamente as roupas que eu visto, desaparece atrás de uma placa abandonada.
Retoma sua caminhada ao perceber que não fui eu quem a viu, como se para sempre estivesse fugindo do meu corpo, cujos passos se tornaram pesados, e somente ela conseguisse libertar-se de um nome chamado “Eu”.