22 de agosto é o Dia do Folclore, comemoração que recorda o dia no qual a palavra “folclore” foi usada pela primeira vez no ano 1846. Quem o fez foi o pesquisador britânico William John Thoms (1803-1885). Este uniu as palavras inglesas folk (que significa “povo”) e lore (que quer dizer “conhecimento”). Assim, folclore ganha o significado literal de “conhecimento do povo” ou “aquilo que o povo faz”.
O folclore brasileiro é a rica identidade cultural popular do país. Formado pela mistura de influências indígenas, africanas e europeias, ele engloba mitos, lendas, festas populares, danças, brincadeiras, comidas típicas e crendices passadas de geração em geração. O dia 22 de agosto é dedicado a celebrar essa herança nacional.
Como surgiu o dia do folclore no Brasil?
No Brasil, os debates folclóricos deram origem ao I Congresso Brasileiro, realizado no Rio de Janeiro, em 1951. Muitos estudiosos como João Ribeiro, Renato Almeida, Rossini Tavares de Lima, Luís da Câmara Cascudo, Amadeu Amaral, Édison Carneiro, Mário de Andrade, Sílvio Romero, Lindolfo Gomes e Florestan Fernandes (entre outros) debateram sobre as características atribuídas ao folclore: o anonimato, a transmissão oral, a antiguidade ou tradicionalidade, a sobrevivência e o conceito de civilidade dos povos.
O dia do folclore brasileiro foi definido oficialmente através do Decreto de Lei nº 56.747, de 17 de agosto de 1965, aprovado pelo Congresso Nacional. A partir desta data, conforme definia a lei, o dia 22 de agosto passou a ser celebrado como o Dia do Folclore em todo o país.
A preocupação em sistematizar e divulgar o folclore brasileiro ganhou força no começo do século XX no Brasil. Vale destacar que, durante a Semana de Arte Moderna, em 1922, A tela Lenda Brasileira, de Vicente do Rego Monteiro, e algumas composições de Heitor Villa-Lobos apresentavam alguns elementos nativos/populares. Entretanto, sem o aprofundamento folclórico que viria no final daquela década. Já várias obras com inspiração no folclore brasileiro como Macunaímae as telas de Tarsila não integravam a programação oficial de fevereiro de 1922. Assim, o folclore e as lendas nacionais só ganharam o centro das criações modernistas anos depois, especialmente com o Movimento Antropofágico e a fase Pau-Brasil de Tarsila do Amaral e Mário de Andrade. Anos depois, em 1947, foi criada a Comissão Brasileira de Folclore. E, posteriormente, as comissões estaduais. Em 1951, o 1º Congresso Brasileiro de Folclore foi realizado.
O que fazer para comemorar o dia do folclore?
O Dia do Folclore costuma ser bastante festejado pelas escolas. Algumas das atividades mais comuns que os estudantes podem desempenhar para aprenderem mais sobre a cultura e as tradições típicas de suas regiões são:
ler lendas folclóricas em sala de aula;
fazer adaptação de uma lenda folclórica em forma de teatro ou musical;
reescrever um conto folclórico;
aprender sobre a história do folclore e sua importância para a sociedade;
apresentar danças temáticas folclóricas;
preparar um prato típico folclórico.
Dessa forma, o folclore é uma manifestação cultural viva, vinculada à identidade de um povo e à ressignificação de tradições transmitidas entre gerações. Cabe ressaltar que, em muitos casos, limitada à associação com lendas e mitos, revela a necessidade de ampliação do entendimento sobre a abrangência das manifestações folclóricas, especialmente no que se refere à música, às danças, às brincadeiras e demais expressões culturais. As instituições de ensino deveriam realizar um trabalho efetivo ao longo da Educação básica. A formação de professores também urge reformulação quanto à preparação para trabalhar com esta temática.
Principais Lendas e Personagens
Saci-Pererê: menino negro de uma perna só, gorro vermelho e cachimbo, famoso por fazer travessuras e criar redemoinhos.
Curupira: protetor das florestas, retratado com cabelos vermelhos e pés virados para trás para despistar caçadores.
Iara: sereia das águas doces que enfeitiça homens com seu canto irresistível.
Mula sem Cabeça: mulher transformada em um animal quadrúpede que solta fogo pelas narinas.
Boitatá: cobra de fogo que protege a natureza e persegue quem a desrespeita.
Boto Cor-de-Rosa: jovem charmoso que sai dos rios à noite para encantar pessoas em festas.
Festas, Danças e Tradições
Festas Populares: festa Junina, Carnaval, Folia de Reis e o Festival de Parintins.
Danças: Maracatu, Jongo, Tambor de Crioula e Frevo.
Brincadeiras: pipa, pula-corda, pega-pega e corrida do saco.
Comidas Típicas: pamonha, bolo de fubá, feijoada e tapioca.
Obras literárias brasileiras que retratam o folclore incluem clássicos de pesquisa de Luís da Câmara Cascudo, releituras infanto-juvenis de Clarice Lispector e Ana Maria Machado e álbuns de personagens populares.
Obras de Pesquisa e Referência
· Antologia do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo: Reúne o principal da tradição oral e dos mitos do país.
· Lendas Brasileiras para Jovens, de Luís da Câmara Cascudo: adapta lendas populares para novos leitores.
Releituras e Contos Populares
· Como Nasceram as Estrelas – Doze Lendas Brasileiras, de Clarice Lispector: apresenta doze lendas com o estilo marcante da autora.
· Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro, de Januária Cristina Alves: lista mais de 100 figuras fantásticas da nossa cultura.
· Histórias à Brasileira, de Ana Maria Machado: resgata contos tradicionais e mitos do imaginário nacional.
Exemplos de Romances e Obras
· Macunaíma (1928), de Mário de Andrade: o famoso “rapsódia” modernista mistura mitos indígenas, lendas da Amazônia e o folclore de várias regiões para criar o herói sem nenhum caráter que define a identidade nacional.
· A Arma Escarlate (2011), de Renata Ventura: um romance fantástico ambientado no Brasil que insere lendas e criaturas do folclore nacional em um enredo urbano de magia.
· Sagarana (1946), de João Guimarães Rosa: embora seja uma coletânea de novelas, o livro mergulha no realismo mágico do sertão mineiro, repleto de causos, crendices populares, lobisomens e o imaginário místico do povo caipira.
· O Saci (1921) e outras obras de Monteiro Lobato: pioneiro em dar forma literária aos mitos do folclore brasileiro no Sítio do Picapau Amarelo, onde a Cuca, o Saci e o Curupira convivem com personagens reais.
· Romances de época de autores como Christopher Kastensmidt e Samir Machado de Machado, que misturam acontecimentos históricos do Brasil Colônia e Império com a presença ativa de seres míticos como o Boitatá e a Mula sem cabeça.
Guilherme Machado Imagem criada pela IA do Gemini, em 08/07/2026 – https://gemini.google.com/app/c3876b7bdd6b8064?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all
“A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido.” (Lucas 12:48)
Era uma vez um país que parecia ter sido desenhado à mão por Deus.
Sua terra era fértil e produzia quase tudo.
Seus rios pareciam mares.
Suas florestas respiravam vida e guardavam riquezas que poucos lugares do mundo conheciam.
O sol visitava sua terra durante quase o ano inteiro.
A chuva caía na medida certa.
Seus campos produziam alimento.
Seu subsolo escondia riquezas.
Era uma terra que lembrava a antiga promessa de leite e mel.
Não conhecia terremotos capazes de engolir cidades.
Nem vulcões que escurecessem seus céus.
Nem furacões que apagassem sua história.
E naquela terra também vivia um povo tão abençoado quanto perseverante.
Trabalhava muito.
Inventava caminhos quando parecia não haver saída.
Ria com facilidade.
Cantava mesmo nos dias difíceis.
Caía.
Levantava.
Tinha o estranho dom de continuar acreditando depois de cada decepção.
Quando terminou sua criação, um anjo olhou para aquele lugar e perguntou:
— Senhor… não é privilégio demais para um só povo?
Deus sorriu.
— Espere até ver o que eles farão com tudo isso.
O anjo voltou os olhos para aquela terra.
Não compreendeu a resposta.
Compreenderia muitos anos depois.
O tempo passou.
O país cresceu.
Suas cidades se multiplicaram.
Como acontece com toda grande nação, também conheceu dias difíceis.
Vieram hospitais que já não conseguiam atender todos os que precisavam.
Escolas que esperavam por dias melhores.
Estradas que pareciam nunca terminar.
Promessas que se renovavam mais depressa do que eram cumpridas.
Escândalos que desapareciam da memória antes de desaparecerem da realidade.
Com o passar dos anos, aquele povo encontrou novas formas de dividir sua atenção.
Aprendeu a ouvir mais aqueles que confirmavam suas próprias certezas do que aqueles que apresentavam perguntas difíceis.
Passou a procurar culpados para todos os problemas e salvadores para todas as soluções.
Esqueceu que nenhuma nação é construída pelas mãos de uma única pessoa, nem destruída por apenas uma delas.
As mãos humanas podem conduzir caminhos, mas nunca constroem sozinhas o futuro de uma nação.
Criou muros entre pessoas que antes dividiam as mesmas ruas.
Enquanto discutiam quem estava certo, poucos percebiam que os mesmos problemas continuavam esperando.
Mas aquele povo também havia aprendido uma estranha forma de descansar.
A cada novo ciclo, acreditavam que agora as coisas mudariam.
E talvez essa fosse uma de suas maiores virtudes.
Ou uma de suas maiores fragilidades.
A cada quatro anos havia uma grande festa.
Durante noventa minutos, esqueciam os hospitais.
Esqueciam as escolas.
Esqueciam a violência.
Esqueciam os impostos.
Esqueciam as promessas.
Esqueciam até uns dos outros.
Enquanto a bola rolava, o país parava.
E parar era a única forma que conheciam de descansar.
Nas arquibancadas, abraçavam desconhecidos como irmãos.
Nos bares, erguiam copos em uníssono.
Dentro das casas, até as famílias desunidas sentavam-se lado a lado.
A grande festa não pedia nada.
Apenas que fechassem os olhos para todo o resto.
E eles fechavam.
Fechavam com tanta força que, por um instante, quase acreditavam que o país era aquilo:
Um campo verde.
Um hino cantado a plenos pulmões.
Um riso fácil diante da televisão.
Depois do apito final, o encanto se desfazia.
Mas durava o suficiente para aliviar o peso de mais quatro anos.
Com o tempo, a festa tornou-se tão importante que o próprio calendário aprendeu a respeitá-la.
Decisões esperavam.
Debates mudavam de data.
Promessas podiam aguardar.
Afinal, havia noventa minutos que ninguém ousava interromper.
Enquanto os olhos acompanhavam a bola…
Os problemas aprendiam a permanecer imóveis.
Não porque desaparecessem.
Mas porque quase ninguém os observava.
Um dia resolveram trazer a maior festa do mundo para dentro de casa.
Pintaram fachadas.
Ergueram monumentos.
Construíram arenas.
Prometeram que, quando tudo terminasse, o país seria diferente.
E talvez tenha sido.
Apenas não da maneira como imaginavam.
Descobriram que era mais fácil inaugurar arquibancadas do que esperança.
Mais fácil iluminar estádios do que bairros esquecidos.
Mais fácil preparar noventa minutos de espetáculo do que enfrentar décadas de abandono.
Naquele ano, porém, a festa ganhou o mundo.
Um povo escolheu abrir o espetáculo lembrando aqueles que atravessaram mares para construir sua história.
Cada remada era uma homenagem às raízes que ainda sustentavam a nação.
O outro escolheu celebrar o sucesso da estação.
Afinal, um povo sempre celebra aquilo que escolhe não esquecer.
Naquele ano, porém, a festa terminou cedo.
Pela primeira vez em muito tempo, não houve tempo suficiente para esquecer.
O apito final chegou antes que o encanto pudesse voltar.
E, quando a televisão foi desligada…
Os hospitais continuavam lotados.
As escolas continuavam esperando.
As ruas continuavam inseguras.
Os impostos continuavam altos.
As promessas permaneciam onde sempre estiveram: apenas nos discursos.
Foi naquele instante que a resposta dada ao anjo finalmente fez sentido.
Deus nunca havia perguntado apenas o que aquele povo faria com suas riquezas.
Perguntava o que faria com sua atenção.
Porque aquilo que um povo escolhe olhar todos os dias, pouco a pouco, também escolhe se tornar.
Um povo raramente perde seu futuro de uma só vez.
Primeiro, perde a capacidade de lembrar.
Depois, acostuma-se a esquecer.
E, quando já não consegue distinguir distração de esperança…
chama de descanso aquilo que apenas adiou.
Naquele dia…
o silêncio venceu.
“O meu povo foi destruído porque lhe faltou conhecimento.” (Oséias 4:6)
Eventos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil
Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho
‘Eventos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil: processos históricos, identidade nacional e construção da modernidade cultural’
Dom Alexandre Rurikovich CarvalhoA imagem representa a diversidade da arte e da literatura brasileiras ao longo do tempo, reunindo movimentos e eventos culturais marcantes. A composição simboliza o diálogo permanente entre tradição, inovação e identidade nacional. Imagem criada por IA do ChatGPT
Resumo
A Semana de Arte Moderna de 1922 ocupa lugar central na historiografia cultural brasileira, sendo tradicionalmente apresentada como marco fundador da modernidade artística nacional. Entretanto, essa centralidade tende a ocultar a complexidade do processo histórico que antecedeu e sucedeu tal evento. O presente artigo tem como objetivo analisar os principais acontecimentos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil, desde o século XIX até o período contemporâneo, demonstrando que a formação da cultura brasileira resulta de uma longa trajetória de debates intelectuais, instituições, movimentos estéticos e eventos culturais.
A pesquisa fundamenta-se em revisão bibliográfica de autores clássicos da crítica literária, da história cultural e da sociologia da cultura, evidenciando que a modernidade artística brasileira é fruto de continuidades, rupturas e reinterpretações sucessivas. Conclui-se que a Semana de 1922 deve ser compreendida não como ponto inaugural, mas como momento de inflexão dentro de um processo histórico amplo e plural.
Palavras-Chave: Literatura brasileira. Arte brasileira. Modernismo. Identidade nacional. História cultural.
Abstract
The Week of Modern Art of 1922 holds a central position in Brazilian cultural historiography and is traditionally presented as the founding landmark of national artistic modernity. However, such centrality tends to obscure the complexity of the historical process that preceded and followed this event. This article aims to analyze the main artistic and literary events of great repercussion in Brazil from the nineteenth century to the contemporary period, demonstrating that Brazilian cultural formation results from a long trajectory of intellectual debates, institutions, aesthetic movements, and cultural events. The study is based on a bibliographic review of classical authors in literary criticism, cultural history, and sociology of culture. It is concluded that the 1922 Week should be understood not as an inaugural point, but as a moment of inflection within a broad and plural historical process.
Keywords: Brazilian literature. Brazilian art. Modernism. National identity. Cultural history.
1 Introdução
A constituição da arte e da literatura brasileiras esteve historicamente vinculada à busca pela definição de uma identidade nacional. Desde o processo de Independência, em 1822, intelectuais passaram a questionar o papel da cultura como elemento de legitimação política, simbólica e social do novo Estado.
Ao longo do tempo, diversos acontecimentos artísticos e literários marcaram esse percurso, assumindo diferentes formas: fundação de instituições, realização de eventos públicos, publicação de manifestos, congressos regionais, exposições de arte e movimentos literários organizados. Nesse contexto, a Semana de Arte Moderna de 1922 tornou-se o episódio mais difundido, frequentemente tratada como marco fundador da modernidade brasileira.
Entretanto, conforme observa Antonio Candido (2000), a literatura não se forma por rupturas absolutas, mas por processos históricos cumulativos. Assim, compreender a cultura brasileira exige analisar os eventos que precederam e sucederam 1922, reconhecendo a complexidade das forças sociais, políticas e estéticas envolvidas.
Este artigo propõe uma abordagem historiográfica ampla, examinando os principais eventos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil, do século XIX à contemporaneidade, buscando compreender sua contribuição para a consolidação da modernidade cultural brasileira.
2 Instituições culturais e a formação do pensamento nacional no século XIX
A consolidação da arte e da literatura brasileiras no século XIX esteve profundamente vinculada ao processo de formação do Estado nacional. Após a Independência política, em 1822, emergiu entre os intelectuais brasileiros a necessidade de construir uma identidade cultural capaz de legitimar simbolicamente a nova nação perante si mesma e diante do mundo ocidental.
Nesse contexto, a cultura passou a ser concebida como instrumento estratégico de unificação territorial, coesão social e afirmação política. A literatura, a historiografia e as artes visuais foram mobilizadas como meios de produção de uma memória nacional comum, capaz de articular passado, presente e projeto de futuro. Como observa Antonio Candido (2000), a literatura brasileira não nasce espontaneamente, mas se estrutura a partir de um sistema de relações entre autores, instituições, público leitor e ideologias dominantes.
O século XIX, portanto, constitui o momento inaugural da organização institucional da vida intelectual brasileira, marcado pela criação de academias, revistas literárias, associações científicas e espaços de sociabilidade cultural.
2.1 O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)
Fundado em 1838, durante o período regencial, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) foi a principal instituição responsável pela sistematização do pensamento histórico e cultural do Império. Inspirado em modelos europeus — especialmente no Institut Historique de Paris — o IHGB tinha como finalidade explícita “coligir, metodizar e publicar os documentos necessários à história e à geografia do Brasil”.
Sua criação atendeu a um projeto político mais amplo: a necessidade de legitimar o Estado imperial por meio da construção de uma narrativa histórica unificadora. Segundo Schwarcz (1993), o Instituto atuou como um verdadeiro “laboratório simbólico da nação”, produzindo discursos que reforçavam a ideia de unidade territorial, continuidade histórica e harmonia social.
A atuação do IHGB não se restringiu à historiografia. A instituição tornou-se espaço privilegiado de encontro entre escritores, políticos, juristas e homens de letras, funcionando como núcleo organizador da intelectualidade oitocentista. Nomes como Gonçalves de Magalhães, Francisco Adolfo de Varnhagen, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar estiveram direta ou indiretamente vinculados ao Instituto.
Nesse ambiente, consolidou-se a noção de que a cultura deveria cumprir uma função pedagógica e civilizatória, contribuindo para a formação do “espírito nacional”. A literatura, nesse sentido, passou a ser entendida não apenas como manifestação estética, mas como instrumento de educação moral e política da sociedade.
2.2 O Romantismo brasileiro como projeto cultural do Estado-nação
O Romantismo brasileiro emerge diretamente articulado ao projeto nacional do século XIX. Diferentemente do romantismo europeu, marcado pela reação ao racionalismo iluminista e às transformações industriais, no Brasil o movimento assumiu caráter fundacional.
A publicação de Suspiros Poéticos e Saudades (1836), de Gonçalves de Magalhães, simboliza o início oficial do romantismo no país. A obra, fortemente influenciada pela estética francesa, já indicava a necessidade de uma literatura comprometida com os valores da pátria e da nacionalidade.
Segundo Coutinho (2004), o romantismo brasileiro foi essencialmente um movimento de afirmação cultural, cujo objetivo principal consistia em “inventar simbolicamente o Brasil”. Para isso, os escritores buscaram temas, personagens e paisagens que diferenciassem a produção nacional da literatura europeia.
2.3 Indianismo, natureza e construção simbólica da nacionalidade
Entre as estratégias adotadas pelo romantismo brasileiro, destaca-se o indianismo, que elevou o indígena à condição de herói nacional. A figura do índio, idealizada e romantizada, foi convertida em símbolo de origem e pureza moral, contrapondo-se ao colonizador europeu.
Autores como Gonçalves Dias, com poemas como I-Juca Pirama, e José de Alencar, em romances como O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874), elaboraram um imaginário épico voltado à fundação mítica da nação.
Embora posteriormente criticado por seu caráter idealizante e eurocêntrico, o indianismo desempenhou papel central na consolidação de uma identidade literária própria. Conforme observa Candido (2000), tratava-se menos de representar o indígena real e mais de criar um mito capaz de sustentar simbolicamente a nacionalidade.
Paralelamente, a exaltação da natureza tropical tornou-se elemento recorrente da poesia e da prosa românticas. A paisagem brasileira passou a ser descrita como espaço de grandeza, fertilidade e beleza singular, reforçando a ideia de excepcionalidade do território nacional.
2.4 A imprensa, as revistas literárias e a circulação de ideias
Outro fator decisivo para a consolidação da cultura letrada no século XIX foi o fortalecimento da imprensa. Jornais e revistas literárias tornaram-se espaços fundamentais de divulgação estética, crítica intelectual e debate político.
Periódicos como Niterói – Revista Brasiliense, fundada em Paris por Gonçalves de Magalhães e Araújo Porto-Alegre, tiveram papel decisivo na introdução do romantismo no Brasil. Posteriormente, revistas como Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e diversos jornais literários regionais ampliaram a circulação das ideias românticas.
Esses espaços de publicação contribuíram para a formação de um público leitor e para o estabelecimento de redes intelectuais entre diferentes províncias, fortalecendo o sentimento de pertencimento cultural à nação brasileira.
2.5 Limites e contradições do projeto cultural oitocentista
Apesar de sua importância histórica, o projeto cultural do século XIX apresentava contradições profundas. A identidade nacional construída pelas elites letradas excluía amplos segmentos da população, especialmente negros escravizados, libertos, indígenas reais e camadas populares.
A cultura oficial promovida pelas instituições imperiais privilegiava uma visão idealizada do país, frequentemente silenciando conflitos sociais, desigualdades raciais e tensões políticas. Essa limitação seria posteriormente questionada por movimentos literários posteriores, como o Realismo, o Naturalismo e, sobretudo, o Pré-Modernismo.
Ainda assim, o século XIX foi responsável por lançar as bases estruturais da vida intelectual brasileira, criando instituições, públicos, tradições literárias e modelos interpretativos que permaneceriam ativos ao longo do século XX.
2.6 O legado do século XIX para a modernidade cultural brasileira
A importância das instituições culturais oitocentistas reside no fato de terem organizado o primeiro sistema literário nacional. Conforme define Antonio Candido (2000), somente a partir desse período é possível falar em literatura brasileira enquanto sistema orgânico, dotado de continuidade histórica.
O romantismo, o IHGB, a imprensa literária e os espaços de sociabilidade intelectual constituíram o alicerce sobre o qual se desenvolveriam os movimentos posteriores. O modernismo de 1922, longe de surgir como ruptura absoluta, dialoga criticamente com esse legado, reelaborando suas propostas à luz das transformações sociais do século XX.
Dessa forma, compreender o papel das instituições culturais e do romantismo no século XIX é condição indispensável para interpretar os grandes eventos artísticos e literários que marcaram a história cultural do Brasil.
3 O final do século XIX: transição estética, crise do romantismo e reorganização do pensamento intelectual
O último quartel do século XIX representa um dos períodos mais decisivos da história cultural brasileira. Trata-se de uma fase marcada por profundas transformações políticas, sociais e epistemológicas, que repercutiram diretamente na produção artística e literária. O enfraquecimento do modelo romântico coincidiu com a crise do regime imperial, o avanço das ideias científicas europeias e o surgimento de novas concepções sobre o papel da literatura na sociedade.
Nesse contexto, a cultura brasileira passou por um intenso processo de revisão crítica, caracterizado pela substituição do idealismo romântico por perspectivas fundamentadas no cientificismo, no racionalismo e na observação objetiva da realidade social. Conforme observa Schwarcz (1993), o final do século XIX foi marcado pela tentativa das elites intelectuais de interpretar o país à luz dos paradigmas científicos em voga na Europa.
3.1 A crise do Romantismo e o esgotamento do projeto idealista
A partir da década de 1870, o romantismo brasileiro passou a apresentar sinais evidentes de esgotamento. O distanciamento entre o discurso idealizado da literatura e a realidade social — marcada pela escravidão, pela desigualdade e pela instabilidade política — tornou-se cada vez mais evidente.
O modelo romântico, centrado na exaltação da pátria, do amor ideal e do heroísmo indígena, já não correspondia às demandas de uma sociedade em processo de modernização. O crescimento urbano, o fortalecimento da imprensa, a expansão do ensino superior e o contato mais intenso com a produção intelectual europeia contribuíram para a emergência de novas sensibilidades estéticas.
Esse período assiste, portanto, à transição de uma literatura fundadora para uma literatura crítica, voltada à análise dos mecanismos sociais, políticos e psicológicos que estruturavam a sociedade brasileira.
3.2 As Conferências da Glória e a renovação do debate intelectual
Entre 1873 e 1876, realizaram-se no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, as chamadas Conferências Populares da Glória, consideradas um dos mais importantes eventos culturais do período.
Essas conferências reuniram intelectuais, juristas, escritores e cientistas interessados na divulgação do conhecimento moderno. Entre os participantes estavam Joaquim Nabuco, Tobias Barreto, Sílvio Romero e Machado de Assis.
Os temas abordados incluíam:
positivismo;
evolucionismo darwinista;
crítica literária;
educação;
filosofia;
abolicionismo;
republicanismo.
Segundo Candido (2000), as Conferências da Glória funcionaram como espaço de transição entre a mentalidade romântica e o pensamento moderno, contribuindo decisivamente para a consolidação de uma cultura intelectual mais científica e secularizada.
3.3 O cientificismo e a influência das teorias europeias
O final do século XIX foi profundamente marcado pela recepção das teorias científicas europeias, especialmente:
o positivismo de Auguste Comte;
o evolucionismo de Charles Darwin;
o determinismo de Hippolyte Taine;
o naturalismo de Émile Zola.
Essas correntes influenciaram diretamente a crítica literária e a produção artística brasileira. A literatura passou a ser concebida como instrumento de análise social, subordinada às leis do meio, da raça e do momento histórico.
Tal perspectiva reforçou a crença na ciência como chave interpretativa da realidade nacional, embora frequentemente resultasse em leituras deterministas e racializadas, como aponta Schwarcz (1993).
3.4 Realismo e Naturalismo: novas concepções estéticas
O marco simbólico da virada estética ocorreu em 1881, com a publicação simultânea de duas obras fundamentais:
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis;
O Mulato, de Aluísio Azevedo.
Enquanto o romance de Aluísio Azevedo inaugurava o Naturalismo brasileiro, fortemente influenciado pelo determinismo científico, a obra de Machado de Assis introduzia uma forma singular de realismo crítico, marcada pela ironia, pela ambiguidade e pela análise psicológica.
O Realismo machadiano afastava-se do naturalismo mais ortodoxo ao questionar os próprios limites da razão científica, revelando a complexidade moral e social do indivíduo moderno.
3.5 Machado de Assis e a maturidade da literatura brasileira
A obra de Machado de Assis representa o ponto mais elevado da literatura brasileira no século XIX. Seus romances da fase realista — Quincas Borba, Dom Casmurro e Esaú e Jacó — aprofundam a crítica à sociedade burguesa, às relações de poder e às ilusões do progresso.
Segundo Candido (2000), Machado rompe definitivamente com o modelo pedagógico do romantismo, instaurando uma literatura autônoma, reflexiva e esteticamente madura.
Sua produção marca a consolidação de um sistema literário plenamente desenvolvido, capaz de dialogar em igualdade com as grandes tradições europeias.
3.6 Literatura, abolição e crise do Império
O período final do século XIX foi atravessado por intensos debates políticos, especialmente em torno da abolição da escravidão e da proclamação da República. Muitos escritores engajaram-se diretamente nessas questões.
Autores como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio utilizaram a palavra escrita como instrumento de militância, evidenciando o papel social da literatura como espaço de intervenção pública.
A proximidade entre literatura e política intensificou o caráter crítico da produção intelectual, reforçando a percepção de que a cultura era elemento fundamental na transformação da sociedade brasileira.
3.7 O Simbolismo e a reação ao cientificismo
No final do século XIX, emergiu também o Simbolismo, movimento que representou reação ao excesso de racionalismo do realismo-naturalismo. Influenciado por correntes espiritualistas e estéticas francesas, o simbolismo valorizava a subjetividade, a musicalidade e o mistério.
Autores como Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens introduziram novas possibilidades expressivas à poesia brasileira, ampliando o horizonte estético do período.
Embora menos institucionalizado, o simbolismo desempenhou papel relevante na diversificação da literatura nacional e na transição para a modernidade poética do século XX.
3.8 O legado do final do século XIX para o século XX
O final do século XIX legou à cultura brasileira um conjunto de transformações estruturais fundamentais:
consolidação da crítica literária moderna;
fortalecimento da imprensa e do público leitor;
profissionalização do escritor;
autonomia estética da literatura;
surgimento de uma consciência crítica nacional.
Esse período estabelece as bases intelectuais que permitiriam o surgimento do Pré-Modernismo e, posteriormente, do Modernismo de 1922.
Dessa forma, longe de representar um intervalo entre movimentos, o final do século XIX constitui etapa decisiva na formação da modernidade cultural brasileira, articulando tradição e ruptura em um processo contínuo de reflexão sobre o país.
4 O Pré-Modernismo e a problematização do Brasil
O chamado Pré-Modernismo, compreendido entre 1902 e 1922, não constitui uma escola formal, mas um momento de inflexão crítica. Obras como Os Sertões, de Euclides da Cunha, evidenciaram a existência de múltiplos Brasis, revelando conflitos sociais, regionais e raciais.
Autores como Lima Barreto denunciaram o racismo estrutural e a exclusão social, enquanto Monteiro Lobato problematizou o atraso econômico e cultural do país. Esse conjunto de obras rompeu com a visão idealizada da nação, preparando o terreno para as transformações modernistas.
5 A Semana de Arte Moderna de 1922
A Semana de Arte Moderna, realizada entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, constitui um dos acontecimentos mais emblemáticos da história cultural brasileira. O evento reuniu escritores, artistas plásticos, músicos e intelectuais que defendiam a renovação estética e a ruptura com os padrões acadêmicos vigentes desde o século XIX.
Participaram da Semana nomes centrais do modernismo brasileiro, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Heitor Villa-Lobos. Suas apresentações, exposições e conferências questionaram abertamente o formalismo parnasiano, a rigidez acadêmica e a dependência cultural em relação à Europa.
A proposta modernista fundamentava-se na liberdade de criação, na experimentação formal e na busca por uma linguagem artística capaz de expressar a complexidade da sociedade brasileira em processo de urbanização e industrialização. A incorporação da oralidade, do humor, da fragmentação narrativa e da crítica à tradição constituiu um rompimento significativo com os modelos estéticos anteriores.
Apesar de sua recepção inicial marcada por vaias, críticas e incompreensão do público, a Semana de 1922 estabeleceu um novo horizonte para a arte nacional. Conforme observa Bosi (2006), seu impacto não foi imediato, mas progressivo, consolidando-se sobretudo ao longo da década seguinte por meio da atuação intelectual e editorial de seus participantes.
Além de seu caráter estético, a Semana de Arte Moderna deve ser compreendida como um acontecimento profundamente simbólico, realizado no contexto das comemorações do Centenário da Independência do Brasil. Tal circunstância conferiu ao evento um significado político-cultural ampliado, associando a renovação artística à necessidade de repensar o projeto de nação no início do século XX. Ao propor uma revisão crítica do passado colonial e acadêmico, os modernistas reivindicavam uma cultura capaz de dialogar com a modernidade sem abdicar de suas especificidades históricas e sociais.
Embora sua repercussão imediata tenha permanecido restrita aos círculos intelectuais urbanos — especialmente à elite paulista —, a Semana instaurou um novo paradigma de reflexão sobre a cultura brasileira. Ao legitimar o experimentalismo, a linguagem coloquial e a valorização do cotidiano nacional, o movimento modernista abriu caminho para uma interpretação plural do Brasil, que seria aprofundada nos anos posteriores por meio de manifestos, revistas e novas correntes artísticas.
Desse modo, a Semana de Arte Moderna de 1922 consolidou-se como marco simbólico da modernidade cultural brasileira, não por representar uma ruptura absoluta, mas por catalisar transformações já em curso e projetar novos rumos para a literatura, as artes visuais, a música, a arquitetura e o pensamento social do país.
6 Desdobramentos do Modernismo Brasileiro: consolidação, pluralidade estética e projetos de interpretação do Brasil
A Semana de Arte Moderna de 1922, embora frequentemente tratada como evento fundador da modernidade artística brasileira, representou apenas o ponto inicial de um processo complexo de transformações culturais que se estendeu ao longo das décadas seguintes. O modernismo brasileiro consolidou-se não como um movimento homogêneo, mas como um conjunto plural de experiências estéticas, ideológicas e regionais, marcadas por diferentes projetos de interpretação do país.
A partir dos anos 1920, a produção artística e literária brasileira passou por um processo de diversificação, no qual conviviam propostas de ruptura formal, revisões da tradição, debates sobre identidade nacional e aproximações críticas com as vanguardas europeias. Conforme observa Candido (2000), o modernismo deve ser compreendido como um “movimento de longa duração”, cujos efeitos ultrapassam amplamente o evento de 1922.
6.1 A consolidação do Modernismo na década de 1920
Nos anos imediatamente posteriores à Semana de Arte Moderna, o modernismo enfrentou resistência por parte da crítica tradicional e das instituições acadêmicas. Entretanto, por meio da atuação intensa de seus principais protagonistas, o movimento gradualmente ampliou sua influência.
Revistas literárias como Klaxon, Estética e Terra Roxa e Outras Terras tornaram-se espaços fundamentais de divulgação das novas propostas artísticas. Nelas, os modernistas defendiam a liberdade formal, o experimentalismo linguístico e a ruptura com os modelos parnasianos e simbolistas.
Mário de Andrade destacou-se como articulador intelectual do movimento, desenvolvendo reflexões sobre música, folclore e literatura que buscavam compreender o Brasil a partir de suas manifestações populares. Sua obra Macunaíma (1928) constitui síntese exemplar dessa proposta, ao fundir oralidade, mito, humor e crítica social.
6.2 O Movimento Antropofágico e a redefinição da identidade cultural
Entre os diversos desdobramentos do modernismo, o Movimento Antropofágico ocupa posição central. Lançado simbolicamente em 1928, com a publicação do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, o movimento propôs uma revisão radical das relações culturais entre Brasil e Europa.
A antropofagia defendia a “devoração” crítica das influências estrangeiras, rejeitando tanto a cópia servil quanto o nacionalismo ingênuo. Ao transformar a dependência cultural em potência criativa, Oswald formulou uma das mais originais teorias culturais do século XX.
Segundo Haroldo de Campos (1992), a antropofagia representa uma verdadeira “teoria da tradução cultural”, antecipando debates contemporâneos sobre hibridismo, pós-colonialismo e identidade periférica.
6.3 Regionalismos modernistas e pluralização do movimento
A partir da década de 1930, o modernismo deixa de ser predominantemente paulista e assume feições regionais. Esse processo amplia significativamente o alcance social e estético do movimento.
No Nordeste, destaca-se o Movimento Regionalista, articulado em torno do Congresso Regionalista do Recife, em 1926, sob liderança de Gilberto Freyre. Diferentemente do regionalismo romântico do século XIX, essa vertente valorizava a cultura local sem idealizações, enfatizando suas contradições históricas e sociais.Essa perspectiva influenciou profundamente o chamado Romance de 30, responsável por uma das fases mais expressivas da literatura brasileira.
6.4 O Romance de 30 e o compromisso social da literatura
A década de 1930 marca a consolidação de uma literatura fortemente comprometida com a análise da realidade social brasileira. Autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e José Lins do Rego produziram romances centrados em temas como:
desigualdade social;
seca e migração;
coronelismo;
exploração do trabalho;
violência estrutural.
Esses escritores combinaram inovação formal com denúncia social, ampliando o público leitor e fortalecendo a função crítica da literatura.
Para Bosi (2006), o Romance de 30 representa a maturidade do modernismo, ao integrar experimentação estética e consciência histórica.
6.5 Modernismo e Estado: cultura, nacionalismo e política
Durante o Estado Novo (1937–1945), parte dos ideais modernistas foi incorporada ao discurso oficial. O governo de Getúlio Vargas promoveu políticas culturais voltadas à valorização do folclore, da música popular e do patrimônio histórico.
Embora essa aproximação tenha possibilitado a institucionalização da cultura brasileira, também gerou tensões entre autonomia artística e instrumentalização política.
Intelectuais modernistas ocuparam cargos públicos e participaram da formulação de políticas culturais, contribuindo para a criação de museus, arquivos e órgãos de preservação do patrimônio.
6.6 As vanguardas do pós-guerra e a renovação estética
No período posterior à Segunda Guerra Mundial, o modernismo deu origem a novas vanguardas. Entre elas, destaca-se o Concretismo, consolidado com a Exposição Nacional de Arte Concreta (1956–1957), realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O movimento concretista, liderado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, propôs uma poesia visual e experimental, marcada pela valorização da materialidade da linguagem.
Essa vertente reafirmou o caráter inovador do modernismo, aproximando a literatura brasileira das discussões internacionais sobre linguagem e comunicação.
6.7 Tropicália: síntese crítica da cultura brasileira
Na década de 1960, em contexto de ditadura militar, emerge a Tropicália, movimento que promoveu profunda revisão dos ideais modernistas. Inspirada diretamente na antropofagia, a Tropicália integrou cultura erudita e popular, tradição e indústria cultural.
Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto e Hélio Oiticica produziram uma estética híbrida, crítica e provocadora, que redefiniu as fronteiras entre arte, política e mercado cultural.
A Tropicália representa, assim, a atualização do projeto modernista em meio às tensões do mundo contemporâneo.
6.8 O modernismo como processo histórico contínuo
A análise dos desdobramentos do modernismo revela que o movimento não se encerra em uma geração específica. Ao contrário, seus princípios — experimentação, crítica cultural e busca da identidade nacional — permanecem ativos ao longo do século XX.
Do Manifesto Antropófago à Tropicália, passando pelo Romance de 30 e pelas vanguardas concretistas, o modernismo consolidou-se como eixo estruturante da cultura brasileira.
Conforme afirma Candido (2000), trata-se do movimento mais duradouro e influente da história literária nacional, responsável por redefinir não apenas a linguagem artística, mas a própria forma de pensar o Brasil.
7 Vanguardas e cultura no pós-guerra
O período posterior à Segunda Guerra Mundial corresponde a uma fase de intensas transformações no campo artístico e intelectual brasileiro, marcada pela ampliação dos meios de comunicação, pela urbanização acelerada e pela consolidação da indústria cultural. Nesse contexto, a arte e a literatura passaram a dialogar de maneira mais direta com as vanguardas internacionais, ao mesmo tempo em que buscavam reinterpretar criticamente a realidade nacional.
A Exposição Nacional de Arte Concreta (1956–1957) marcou a consolidação do Concretismo no Brasil, movimento caracterizado pela experimentação visual da linguagem poética e pela valorização da materialidade do signo linguístico. Os poetas concretistas propunham uma poesia não discursiva, estruturada a partir da disposição gráfica das palavras, do ritmo visual e da economia verbal. Tal proposta aproximava literatura, artes visuais e comunicação, estabelecendo diálogo com as vanguardas europeias do pós-guerra e com o desenvolvimento dos meios técnicos modernos.
Paralelamente, na década de 1960, emergiu a Tropicália, movimento cultural que promoveu uma síntese inovadora entre tradição popular e cultura de massa. Inspirados pela antropofagia modernista, artistas tropicalistas incorporaram elementos da música popular brasileira, do rock, do cinema novo, das artes plásticas e da poesia experimental, rompendo com hierarquias entre cultura erudita e popular.
Em meio ao contexto repressivo da ditadura militar instaurada em 1964, a Tropicália assumiu caráter de resistência simbólica e contestação estética. Ao integrar música, artes visuais, literatura e performance, o movimento redefiniu as formas de expressão artística no país e ampliou o debate sobre identidade nacional, política cultural e indústria cultural. Dessa maneira, as vanguardas do pós-guerra reafirmaram o dinamismo da cultura brasileira e sua capacidade de reinventar, em diferentes contextos históricos, os princípios inaugurados pelo modernismo.
8 Eventos culturais contemporâneos
A consolidação da modernidade cultural brasileira ao longo do século XX resultou no fortalecimento de grandes eventos artísticos e literários responsáveis pela difusão da produção nacional e pela inserção do Brasil no circuito internacional das artes. Diferentemente dos movimentos anteriores, caracterizados por manifestos e grupos intelectuais restritos, os eventos culturais contemporâneos assumem caráter institucionalizado, permanente e plural.
Nesse contexto, destaca-se a Bienal Internacional de São Paulo, criada em 1951, considerada a segunda maior exposição de artes visuais do mundo, atrás apenas da Bienal de Veneza. A Bienal desempenhou papel decisivo na internacionalização da arte brasileira, possibilitando o contato sistemático entre artistas nacionais e tendências estéticas estrangeiras, além de contribuir para a formação crítica do público e para a profissionalização do campo artístico.
No âmbito literário, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), criada em 2003, consolidou-se como o principal evento literário do país. A FLIP tornou-se espaço privilegiado de encontro entre escritores, editores, pesquisadores e leitores, promovendo debates sobre literatura, história, política e sociedade, além de estimular o mercado editorial e projetos de leitura em escala nacional.
Além de sua dimensão artística, os eventos culturais contemporâneos desempenham relevante função social e educativa, ao promoverem a democratização do acesso à produção cultural e o fortalecimento das políticas públicas voltadas à leitura e às artes. Tais iniciativas ampliam o diálogo entre criadores, pesquisadores e público, contribuindo para a formação de novos leitores e para a valorização da diversidade cultural brasileira. Ademais, esses eventos refletem as transformações do campo cultural no contexto da globalização, incorporando debates sobre memória, identidades, sustentabilidade e inclusão social. Dessa forma, consolidam-se como espaços estratégicos de circulação simbólica, reafirmando a centralidade da cultura na construção da cidadania e na projeção internacional da arte e da literatura produzidas no Brasil.
Considerações finais
A análise dos eventos de arte e literatura de grande repercussão no Brasil evidencia que a formação da cultura nacional constitui um processo histórico longo, complexo e marcado por permanentes disputas simbólicas. Longe de resultar de um acontecimento isolado, a modernidade artística brasileira consolidou-se por meio de sucessivas experiências estéticas, intelectuais e institucionais que atravessaram diferentes períodos históricos, desde o século XIX até a contemporaneidade.
O estudo demonstrou que, ainda no contexto imperial, a criação de instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a emergência do romantismo exerceram papel fundamental na construção de uma consciência nacional. Ao buscar temas, símbolos e narrativas próprias, a literatura oitocentista estabeleceu as bases do sistema literário brasileiro, promovendo a articulação entre produção intelectual, público leitor e projeto político de nação.
No final do século XIX, o esgotamento do romantismo e a incorporação das teorias científicas europeias provocaram significativa inflexão no pensamento cultural. O Realismo, o Naturalismo e o Simbolismo revelaram novas possibilidades expressivas e ampliaram o papel crítico da literatura, permitindo maior aproximação entre arte e realidade social. Nesse contexto, a obra de Machado de Assis representou a maturidade estética da literatura brasileira, consolidando sua autonomia formal e intelectual.
O período pré-modernista aprofundou esse movimento crítico ao expor as contradições estruturais do país, revelando a distância entre o Brasil idealizado e o Brasil real. Autores como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato desempenharam papel decisivo na problematização da identidade nacional, preparando o terreno para as rupturas estéticas do século XX.
A Semana de Arte Moderna de 1922, analisada neste artigo como marco simbólico e não como ponto inaugural absoluto, configurou-se como momento de inflexão capaz de catalisar transformações já em curso. Ao propor a revisão da tradição acadêmica e a valorização da linguagem cotidiana, o modernismo inaugurou uma nova forma de pensar a cultura brasileira, pautada pela experimentação, pela crítica e pela busca de autonomia estética.
Seus desdobramentos, expressos no Movimento Antropofágico, no Regionalismo nordestino, no Romance de 30 e nas políticas culturais do período varguista, evidenciaram a pluralidade interna do modernismo e sua capacidade de adaptação às diferentes realidades regionais e sociais do país. Ao longo do século XX, o movimento deixou de ser apenas uma vanguarda estética para tornar-se eixo estruturante da cultura brasileira.
As vanguardas do pós-guerra, especialmente o Concretismo e a Tropicália, reafirmaram esse legado ao atualizar criticamente os princípios modernistas diante das transformações tecnológicas, políticas e culturais do mundo contemporâneo. Em contextos distintos, tais movimentos evidenciaram a capacidade da arte brasileira de dialogar com tendências internacionais sem abdicar de sua singularidade histórica.
Por fim, os eventos culturais contemporâneos, como a Bienal Internacional de São Paulo e a Festa Literária Internacional de Paraty, demonstram a continuidade desse processo, ao institucionalizar espaços de circulação simbólica, formação de público e internacionalização da produção artística e literária nacional. Esses eventos reafirmam a cultura como campo estratégico para a construção da cidadania, da memória coletiva e da projeção do Brasil no cenário global.
Dessa forma, conclui-se que a história da arte e da literatura brasileiras deve ser compreendida como um movimento contínuo de diálogo entre tradição e inovação. A centralidade atribuída à Semana de Arte Moderna de 1922, embora justificada por seu valor simbólico, não deve obscurecer a multiplicidade de experiências que a antecederam e a sucederam. Reconhecer essa trajetória ampla permite compreender a cultura brasileira como espaço dinâmico, plural e permanentemente em construção, no qual diferentes gerações reinterpretam o país e reinventam suas formas de expressão.
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