O velho, o café e o mendigo

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘O velho, o café e o mendigo’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem criada pela IA do Gemini - https://gemini.google.com/share/8be665a4a504
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O velho, cheio de dores, levantou mais cedo do que de costume. Não que não preferisse continuar na cama entregue aos sonhos, já que os pesadelos que o acompanham nos últimos tempos eram demais até mesmo para alguém que já passava dos 80. No entanto, a insistente dor nas costas não o permitia se manter deitado por mais que algumas horas.

            Acordou, olhou para o quarto vazio, o mesmo quarto onde dividira com Beatriz por mais de meio século. Brigas, logicamente, tiveram, mas não que o velho se recordasse exatamente de alguma. Talvez, uma em que a falecida tenha insistido tanto para que os dois fossem ao batizado do primeiro bisneto. Justamente no mesmo dia em que o Vasco decidia uma final de campeonato. 

            Foram e, durante a missa, o velho se mostrou extremamente ansioso para que tudo aquilo acabasse rapidamente para, então, poder voltar para casa. Demorou muito mais que o previsto e, ao retornarem, percebeu vários torcedores com a camisa do Gigante da Colina festejando. Frustração por não ter visto o jogo, mas um alívio pela conquista de mais um título.

            O velho arrastou seu corpo até a cozinha, onde ainda dava para sentir o suave perfume de Beatriz. Respirou aquele aroma e, apesar da lágrima que escorreu pelo canto do olho, pegou o pote de café, ainda da mesma marca que a esposa apreciava. Ele nem sabia se aquela era a melhor, já que quase nunca havia experimentado outra. Na verdade, não se recordava ou, possivelmente, não queria trair a memória da sua mulher. 

            Frustrado, o velho constatou que o café havia praticamente desaparecido do pote. Nem mesmo uma colherzinha, o que o obrigava a caminhar até o mercado da esquina para comprar mais. Com a roupa amarrotada, os cabelos desgrenhados, tratou apenas de calçar o chinelo e pegar o dinheiro sobre a mesinha de canto. 

            Já na rua, o velho praguejava silenciosamente, enquanto inúmeros transeuntes passavam quase esbarrando naquele corpo senil. Entrou e saiu do mercado sem se dar conta nem mesmo do preço, já que isso não importava, pois sempre levava a mesma marca. Pensou até em comprar dois pacotes, mas isso o faria cativo no apartamento pelo dobro do tempo. Levou apenas um, como sempre tinha feito por tantos e tantos anos.

            A sacola de plástico balançava conforme os passos capengas das frágeis pernas. O velho observou um ônibus vindo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pensou em se jogar na frente e acabar com tudo aquilo, mas não teve coragem. Observou um mendigo com a mão esticada e, talvez por impulso, despejou algumas pobres moedas. E, antes que pudesse se livrar daquela situação, ouviu a voz do maltrapilho: “Peço a Deus que estique o tempo do senhor!”

Eduardo Cesario-Martínez

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O velho e os vermes

Eduardo Cesario-Martínez: ‘O velho e os vermes’

Eduardo Martínez – Foto por Irene Oliveira
imagem gerada por IA do Gemini

Hoje acordei como sempre. O costumeiro mau-humor, certamente herança de um antepassado calabrês, continua firme nos meus olhos profundos e na minha boca retorcida. Lavei o rosto na água gelada, que levou o último resquício de esperança de retornar para cama e esperar pela Senhora da Foice.

Minha esposa, que casou por imposição dos pais, miseráveis que eram, não suportaria tamanho martírio de se deitar ao meu lado, nem sequer uma vez mais. Por sorte, foi acometida por um câncer, que a tomou por completo. Recebi a notícia por uma enfermeira, que se deu ao trabalho de me ligar àquela hora da madrugada.

Foi sepultada num dia de sol, como se libertada da minha insuportável companhia. Lembro-me exatamente da feição de alento em seu rosto no dia de sua partida, dentro daquele caixão, que me custou os olhos da cara. Pálida, é verdade, mas serena. Quanto às maçãs, nada que um pouco de maquiagem não a fizesse mais corada na hora da despedida.

Eis que aqui estou, ainda cumprindo a minha sina, sem coragem de cortar os pulsos ou me atirar da janela. Segundo andar. Na certa, daria com a fuça naquele jardim repleto de rosas. Se pararia de respirar ou não, é mais uma dúvida que me corrói.

Ouço o barulho de crianças gritando lá embaixo naquele maldito parquinho. Aquele lugar deveria ser demolido. Que construam algo mais útil ali. Que seja uma repartição pública, mas que acabem logo com esse martírio. Não suporto gente miúda se esgoelando, como se vivesse uma felicidade que não existe.

Sinto o aroma do lixo apodrecido vindo da cozinha. Isso mesmo! Não o jogo fora há quase duas semanas. Por que faço isso? Hum! Bem, vou matar a sua curiosidade, antes que você me mate de tédio.
Deixo que os vermes, a maioria depositada por moscas, se deliciem com os restos de comida deixada de lado de propósito. Vermes precisam de alguém que lhe dê algo para comer.

Portanto, não me julgue por isso! Se a minha vizinha possui gatos, que mal tem se eu crio vermes? Certamente, você também tem lá as suas manias. Ou vai querer me enganar que a sua vida é recheada de pôneis coloridos?

Não pense você que sou um imundo. Pois não sou! Tomo banhos regulares, mas nada de exageros. Isso, por sinal, me faz lembrar de um momento da minha infância. Quer sabê-lo? Vou lhe contar, mas guarde segredo ou, então, seja mais um a falar mal de mim. Não me importo, assim como nunca liguei para todos os outros que me conheceram nesses meus quase 100 anos. Completo-os depois de amanhã.

Antes de entrar nos pormenores, devo lembrá-lo de que sou de uma enorme família, cheia de irmãos. Sou o segundo, logo abaixo de Judith, de uma prole de quase 15. Quase porque três não tiveram o desgosto de enxergar as trevas deste mundo. Que sejam 12, tanto faz. Uma longa escada de ano em ano, às vezes falhando um ou outro, dependendo do tempo das viagens do meu falecido pai ou, então, por conta de algum natimorto.

Tudo começou quando contava com três ou quatro anos. Não estou certo, talvez tivesse sido pouco antes, pouco depois. Detalhes sem qualquer relevância. Minha mãe, com uma barriga gigantesca, carregava um dos meus irmãos. As pernas inchadas, os pés parecendo patas de elefantes, mamãe se arrastava pelo quintal pendurando trapos, a maior parte encardida, no longo varal. Judith e eu aos seus pés, como dois carrapatos tentando sugar o máximo de sangue daquela força bruta de total ignorância.

— Judith, minha filha, quer ver o seu irmãozinho aqui na barriga da mamãe?

Minha mãe levantava um pouco a blusa e falava para Judith encostar um dos olhos no seu umbigo. Minha irmã obedecia e abria aquele sorriso, como se descobrisse algo que jamais vislumbrei. Em seguida, mamãe me puxava pelo braço e me mandava fazer o mesmo. E, por mais que eu abrisse e fechasse meus olhos, nunca consegui enxergar além da sujeira depositada no umbigo da minha mãe.

Esse costume foi passado para os filhos subsequentes, que foram jogados neste mundo. Meus irmãos, talvez cúmplices de mamãe, sempre responderam com aquele sorriso de felicidade em seus rostos. Fui tomado por sentimentos, ora de incapacidade, ora de inveja, ora de profundo ódio, até que, pouco antes dos 18, deixei-me cair no mundo. Nunca mais os vi.

Dos 18 aos quase 100, eis que estou aqui. Não me arrependo de nada que fiz ou deixei de fazer. No entanto, também não sinto orgulho da minha jornada de vida. Bem sei que, não tarda, serei eu o devorado pelos vermes que cultivo.

Eduardo Cesario-Martínez

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O velhinho do terno

José Antonio Torres: ‘O velhinho do terno’

José Antonio Torres
José Antonio Torres
O velhinho do terno
O velhinho do terno
Microsoft Bing. Imagem criada pelo Designer

Em uma certa casa de cômodos, que também funcionou como pensão por alguns anos, e que se situava na cidade do Rio de Janeiro, havia um inquilino bem idoso. Ele se vestia diariamente com um terno, gravata, chapéu e usava uma bengala. Parecia um Lorde inglês. Possuía dois ternos que revezava semanalmente. A dona da casa de cômodos lavava a roupa dele e servia-lhe o almoço.

Era um senhor muito quieto. Quase não falava. Não conversava com os demais inquilinos. Não se sabia se possuía algum familiar. Ele não comentava absolutamente nada sobre a vida dele.

Saía pela manhã, retornava para almoçar e ia dormir durante a tarde. Levantava-se ao final da tarde, arrumava-se e saía outra vez – acreditava-se que ia jantar, tendo em vista que a pensão não servia jantar – e retornava no início da noite para dormir. Essa era a sua rotina diária. Parecia um personagem saído dos filmes de mistério.

Passado um tempo, a dona da casa de cômodos precisou reajustar o valor dos aluguéis dos quartos e o velhinho ficou na dele. Não fez qualquer comentário. Chegou o dia do pagamento e o velhinho não pagou o reajuste. A senhora então, deu-lhe o prazo de uma semana para que arrumasse um outro lugar para morar e que a partir daquele momento não lhe serviria mais o almoço.

Em um determinado dia dessa mesma semana, o velhinho apareceu todo machucado no rosto e nas mãos, que estavam bem esfoladas. Mancava bastante também, caminhando com certa dificuldade. Ele não fez qualquer comentário.

No dia seguinte saiu uma notícia no jornal, onde informava que um senhor de idade havia sido atropelado e citava o nome do velhinho do terno. O filho da dona da casa de cômodos, que deveria ter uns 11 ou 12 anos na época, leu a notícia que lhe foi mostrada por um outro inquilino da casa e perguntou-lhe se poderia recortar aquela notícia para guardá-la? O inquilino permitiu e ele assim o fez. Recortou a notícia – que não era muito grande – e guardou-a.

Cerca de dois dias depois, aparece na casa um policial com uma intimação para que a senhora comparecesse à Delegacia, pois estava sendo acusada de ter agredido o velhinho e lhe causado aqueles machucados. Ela, muito surpresa e assustada, negou veementemente ter praticado tal ato e explicou ao policial que, dias antes, ele apareceu todo machucado e não falou o que havia acontecido. O filho da senhora então, ouvindo aquela acusação que pesava sobre sua mãe, foi buscar o recorte de jornal que havia guardado – onde constava a notícia sobre o atropelamento do velhinho – e mostrou-o ao policial. Este leu a notícia e chamou o velhinho, que estava em seu quarto, e pediu-lhe explicações. O velhinho se manteve em silêncio e de cabeça baixa. O policial passou-lhe uma descompostura bem ríspida.

A senhora, muito revoltada com a tentativa de armação do velhinho para prejudicá-la, contou ao policial que havia reajustado o aluguel e que o velhinho não pagou o acréscimo. Em vista disso, ela deu-lhe uma semana para procurar outro lugar para morar. Disse então ao policial que, diante do acontecido, não queria aquele homem morando ali nem mais um segundo, pois não se sabia o que mais ele poderia aprontar. O policial entendeu e foi solidário a ela, determinando ao velhinho que pegasse a sua mala e fosse embora naquele momento. Assim ocorreu. Nunca mais se teve notícias dele.

Não fosse o menino, filho da dona da casa de cômodos, ter guardado o recorte de jornal com a reportagem do acidente, a senhora teria a sua vida complicada pelo velhinho do terno.

José Antonio Torres

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O sapato voador

Isabel Furini: Poema ‘O sapato voador’

Isabel Furini
Isabel Furini
Microsoft Bing. Imagem criada pelo Designer
Microsoft Bing. Imagem criada pelo Designer

Eu vou contar a história
desse estranho sapato.
Um idoso comprou sapatos
e ele vivia feliz, até que no muro
começou a chorar um gato.

O velhaco ficou raivoso
e arremessou um sapato.
Rapidamente pulou o gato
e caiu em um buraco.

O sapato foi levado pela ventania,
elevou-se sobre as nuvens
e ficou voando perto dos guarda-chuvas,
da chaleira, dos relógios, dos peixes
e de pessoas estranhas, clonadas
por um cientista maluco.

Por fim, o sapato caiu na terra
e um relojeiro o encontrou
e fez um relógio cuco.

Isabel Furini

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O papel da pessoa idosa no século XXI 

Francisco Evandro de Oliveira:

‘O papel da pessoa idosa no século XXI’

Francisco Evandro Farick
Francisco Evandro Farick
"Na Grécia antiga e na sociedade europeia, bem como na africana, o patriarcado era dominante..."
Na Grécia antiga e na sociedade europeia, bem como na africana, o patriarcado era dominante…”
Microsoft Bing – Imagem criada pelo Designer

Desde os tempos mais remotos, os quais a humanidade tem conhecimento, quer seja de Abraão até nosso dias atuais, que os seres humanos mais jovens sempre viveram sob a orientação patriarcal. 

E assim aconteceu com o povo Hebreu, depois chamado de povo de Israel, quando Abraão mudou de nome para Israel e depois da morte do rei Salomão houve a divisão do reino em reino do Norte e reino do Sul, respectivamente reino de Israel e reino de Judá.  

Contudo, na China antiga já o sistema patriarcal era bem mais forte, em consequência, bem mais enérgico. 

Na Grécia antiga e na sociedade europeia, bem como na africana, o patriarcado era dominante e os jovens eram orientados pelos anciões e todos viviam em função dele, assim também eram nas sociedades indígenas das Américas. 

No entanto, os séculos foram passando e as sociedades evoluindo e foi passo a passo se modificando a cadeia da orientação familiar e foi variando de país para país. 

Com a excessiva evolução da tecnologia, a qual, praticamente cresce a cada 24h e com a explosão da informática e o surgimento da internet, é mister que façamos uma reflexão para sabermos o papel dos idosos que está inserido nessa atual sociedade e como se daria a orientação aos seus filhos e aos jovens. 

Primeiramente devemos considerar e salientar que o crescimento explicitado acima fez surgir, sob minha óptica de enxergar os fatos históricos, que a decadência moral e ética da sociedade em todos os níveis, face a explosão do desejo apelativo sexual em tudo. 

Os nossos jovens, exceto os que estão inserido na linha da pobreza, tem tudo com relativa facilidade e, em consequência, tem o conhecimento a qualquer momento a seu dispor, portanto não mais, em tese, necessitam da orientação dos mais idosos, que passo a passo vão sendo renegados ao segundo plano, ou quiçá terceiro plano na vida familiar deles e somente os recorrem quando há uma urgência financeira ou problemática forte que extrapolem seu conhecimento de vida. 

Então é mister que a população idosa reflita o que fazer no seu dia a dia, porque muitos deles ao se sentirem desprezados começam a ficar com tendência depressiva, a qual culmina com hospitalização e falência.  

No entanto, para acompanhar essa evolução social do dia a dia de nossa era tecnológica, faz-se necessário que os idosos de um modo geral estejam atualizados com o que há de melhor, se possível, na tecnologia para que o diálogo pais e filhos e idosos x jovens esteja em sintonia com a realidade da sociedade atual. 

Nesse caso, existe uma grande probabilidade de não haver afastamento social e o diálogo se fará presente entre as gerações. 

Portanto, para que os nosso idosos estejam com relativa saúde mental para que possam orientar e interagir com os filhos jovens, se faz necessário que pratiquem, se possível, esportes, tenham uma vida saudável e sejam antenados com a realidade dos noticiários, para que possam saber o que está acontecendo no mundo e dialogar de igual para igual. 

                 
Francisco Evandro de Oliveira 

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Sandra Albuquerque: 'Passou dos sessenta'

Sandra Albuquerque

Passou dos sessenta

Passou dos sessenta, idoso é.

Muitos queriam aqui chegar, mas perderam suas vidas das variadas formas possíveis.

Ser idoso, não deveria ser um peso à sociedade, mas é.

Tudo o que antes já não era muito favorável, agora é pior.

É como se portões da sorte fechassem: as oportunidades de emprego ficam escassas, pois as rugas que trazem em seu rosto mudam do status de experiente para inválido; o plano de saúde triplica, condenando-o à conformidade da caótica situação da falta de vagas em hospitais públicos; as medicações mais necessárias, com absurdos preços não se encontra na farmácia popular e a alimentação saudável que deveria ser acessível é uma verdadeira carestia.

Infelizmente, só os idosos ricos no país, que são a minoria, têm vida digna; os demais tateiam na corda bamba, tentando matar um gigante por dia.

As vagas gratuitas nos transportes públicos nem sempre são respeitadas e se o idoso for reclamar, ainda, perde a razão, mandando-o procurar o que fazer como se ele já nunca tivesse feito.

A maioria não se toca que todo idoso de hoje contribuiu para o progresso do país até aqui, pois foram milhares de dias trabalhados de sol a sol.

É uma vergonha, mas infelizmente, o país não está preparado para envelhecer, não levando em conta que isto está bem próximo a acontecer porque o índice de idosos aumenta a cada dia e logo, logo, seremos um país idoso.

Na vida social, o idoso quase nunca é convidado para as festas, pois alegam que o idoso dorme cedo e, muitas vezes, em festa de família, fica numa mesinha separado porque não tem papo.

Mas hoje no Dia de Idoso, tenho a esperança de um mundo bem melhor, pois o fato de ser idoso não está nas marcas que traz em sua pele e sim, é uma questão mental, pois vemos muitos jovens que não têm a vitalidade de um idoso.

Hoje em dia, o idoso vem lutando para mudar o seu quadro de peso morto: dança, faz ginástica, canta, namora, estuda, participa de vários eventos porque o que o idoso quer é viver com qualidade de vida e a sociedade precisa aceitar este fato, respeitando-o, dando a ele a oportunidade de viver com dignidade.

 

(Escritora Poetisa Sandra Albuquerque)

Rio de Janeiro/RJ, 1º/10/2021.