Whale song

Jane Nash: Story ‘Whale song’

Jane Nash
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He held the V tool in his right hand pushing it away from his anchoring fingers through the rubber block. Slowly. He’d already drawn an outline of his whale for guidance but the details were waiting to come out of his hand and fingers. The silence of the room was punctuated by the rattle of his breathing. Medication keeping him alive and focused were responsible for the speed of his breathing. The rattle, leftover from a week of hay-fever, faded far out of his consciousness, leaving him only aware of the tiny grooves he was carving.

He was meticulous in his carving. It took him an hour to create the whale. He sat back, looking at the 15 x 9 cm carving. Rubber blocks were easier to carve and handle than Lino.  He liked the process rather than final results. Finished products no longer belonged to him as they were ready for sale.

A movement on the desk caught his attention. The whale’s tail flicked out of the block. The blowhole spouted a tiny spurt of water.  The sound of his loud breathing was eclipsed by the sounds of the ocean. Gull cries and the swish of waves entered his ears. A deep whine of whale call rang through his body leaving him breathless. As suddenly as it started, it stopped when he put his hands onto the rubber block.  

Hand printing is a process of patience and accuracy creating something special, a limited edition, a ghost or unique print.  All the while during this process, he couldn’t dismiss his  supernatural experience.  He stared at the black ink spread upon the perspex plate. He carved to add a waterspout coming from the whale on the block.  He covered the block in ink. He laid the paper upon the block and using a baren he pressed the paper into the block. Each press brought with it once again, the sound of crashing waves.

He printed a limited edition of 10. He left them pegged to a line. That night he fell asleep to the sound of whale song.

The next morning was quiet. He shook himself to counter yesterday’s hallucination.  First, a strong cup of sweet tea before he entered his studio. Every print was blank. The block had been inked.  Prints had been pegged to dry but there was nothing to show. He stared hard at the carved block. He half expected the whale to tease him and move a fin, do anything but it didn’t move. He could no longer hear whale song in his mind. The pod he created had swum away in the night. 

Deep breath sighing, he debated whether to reprint the whale or carve something different.  There was clear evidence he’d printed the day before, that wasn’t an hallucination or was it?

He stared at the blank sheets. Convinced the whales had escaped his studio in the night, he settled down to another strong cup of strong tea and began to plan how his art could repopulate the oceans.

Jane Nash

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Um par de meias pretas

Marli Freitas: ‘Um par de meias pretas’

Marli Freitas
Marli Freitas
imagem criada por IA do Gemini
Imagem criada por IA do Gemini

Hoje acordei sentindo um desassossego. Preciso deixar que as palavras fluam como torrentes que desaguam, lavando um mundo particular. Porém, o que se faz represado em mim clamando atenção, são águas dormentes que já fizeram sangrar o meu coração frágil e o meu corpo indefeso. Consequência de uma mente inquieta que desafiou a lógica, fazendo perguntas intrigantes onde não podia obter nenhuma resposta.

Diante dos conflitos que envolviam a minha infância, sobravam perguntas e uma reação febril causada pelo desespero de não compreender um mundo sombrio, onde ou se era isto ou aquilo. Sem alternativas, amei o mundo da imaginação, que, na minha santa inocência, era um caminho de fuga. Ainda não conhecia Machado de Assis, mas já desenvolvia a sua máxima de tirar o maior bem do pior mal. Por mais que tentasse desviar o olhar, sabia muito bem separar o joio do trigo e posso dizer que extrair o bem, muitas vezes, é como tentar extrair leite de pedra.

Na observação da natureza, encontrei ‘Aquele’ que me criou e ‘O’ amei. ‘Ele’ foi crescendo dentro de mim e quanto mais crescia, mais resiliente me tornava. Sempre fui um misto de docilidade e teimosia, e usei estas características a meu favor. Contestei o mal e amei o bem. Nasci dor, cresci resiliência e extrapolei todas as expectativas.

Vi e vivi entre a guerra e a paz. Em um mundo de verdades nuas me vi à deriva. Nos momentos de paz, viajei nas histórias encenadas pelo meu paizinho querido. Nos momentos de guerra, via o mundo de ponta cabeça diante da embriaguez daquele que tanto amava. Ele era alguém especial e, como tal, o mundo girava em torno da sua sobriedade ou embriaguez, que norteava a abundância e a escassez, o amor e o ódio, a alegria e a dor. Diante dessas polaridades, inconscientemente, trabalhava o caminho do meio.

Com o tempo comecei a viajar nos livros da Biblioteca Pública Municipal. Encontrei um refúgio nos mundos encantados, pois as responsabilidades impostas, prematuramente, sempre pesavam sobre mim. Cada dia ficava um pouco mais sabida e comecei a sonhar. Parecia algo natural. Só dependia de mim e isto era, simplesmente, fantástico! Amei o saber e não pretendia me separar do desejo de buscar respostas às minhas perguntas.

Quão inocente fui! Eu precisava de tantas coisas para ingressar no Ginasial (Anos Finais do Ensino Fundamental)! Ia precisar de dois uniformes completos (um para frequentar as aulas normais e outro para as atividades de Educação Física), cadernos, lápis, borracha, caneta, livros (que eram comprados para cada matéria) e outros materiais escolares. Eu só consegui comprar (com o agrado de uma madrinha) um mísero par de meias pretas.

Foi com aquelas meias pretas nas mãos que o meu mundo acabou e, neste instante em que deixo estas palavras doídas escorrerem da minha alma, ainda debulho em lágrimas como naquele dia, em que, com as meias pretas nas mãos, ouvi as palavras mais duras da minha vida “você já sabe demais, não precisa e não vai estudar”. Era espantoso demais e aquele instante não cabia no meu pior pesadelo.

Durante alguns dias o dilúvio desceu sobre mim. Não havia nada e nenhum lugar que pudesse conter as minhas lágrimas. Quando falo de invisibilidade, é sobre os piores dias da minha vida, onde fui lançada ao trabalho infantil doméstico, aos onze anos de idade, e obrigada a me virar sozinha no mundo. E, por dois longos anos, ninguém percebeu que eu estava fora da escola.

Marli Freitas

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