Um par de meias pretas

Marli Freitas: ‘Um par de meias pretas’

Marli Freitas
Marli Freitas
imagem criada por IA do Gemini
Imagem criada por IA do Gemini

Hoje acordei sentindo um desassossego. Preciso deixar que as palavras fluam como torrentes que desaguam, lavando um mundo particular. Porém, o que se faz represado em mim clamando atenção, são águas dormentes que já fizeram sangrar o meu coração frágil e o meu corpo indefeso. Consequência de uma mente inquieta que desafiou a lógica, fazendo perguntas intrigantes onde não podia obter nenhuma resposta.

Diante dos conflitos que envolviam a minha infância, sobravam perguntas e uma reação febril causada pelo desespero de não compreender um mundo sombrio, onde ou se era isto ou aquilo. Sem alternativas, amei o mundo da imaginação, que, na minha santa inocência, era um caminho de fuga. Ainda não conhecia Machado de Assis, mas já desenvolvia a sua máxima de tirar o maior bem do pior mal. Por mais que tentasse desviar o olhar, sabia muito bem separar o joio do trigo e posso dizer que extrair o bem, muitas vezes, é como tentar extrair leite de pedra.

Na observação da natureza, encontrei ‘Aquele’ que me criou e ‘O’ amei. ‘Ele’ foi crescendo dentro de mim e quanto mais crescia, mais resiliente me tornava. Sempre fui um misto de docilidade e teimosia, e usei estas características a meu favor. Contestei o mal e amei o bem. Nasci dor, cresci resiliência e extrapolei todas as expectativas.

Vi e vivi entre a guerra e a paz. Em um mundo de verdades nuas me vi à deriva. Nos momentos de paz, viajei nas histórias encenadas pelo meu paizinho querido. Nos momentos de guerra, via o mundo de ponta cabeça diante da embriaguez daquele que tanto amava. Ele era alguém especial e, como tal, o mundo girava em torno da sua sobriedade ou embriaguez, que norteava a abundância e a escassez, o amor e o ódio, a alegria e a dor. Diante dessas polaridades, inconscientemente, trabalhava o caminho do meio.

Com o tempo comecei a viajar nos livros da Biblioteca Pública Municipal. Encontrei um refúgio nos mundos encantados, pois as responsabilidades impostas, prematuramente, sempre pesavam sobre mim. Cada dia ficava um pouco mais sabida e comecei a sonhar. Parecia algo natural. Só dependia de mim e isto era, simplesmente, fantástico! Amei o saber e não pretendia me separar do desejo de buscar respostas às minhas perguntas.

Quão inocente fui! Eu precisava de tantas coisas para ingressar no Ginasial (Anos Finais do Ensino Fundamental)! Ia precisar de dois uniformes completos (um para frequentar as aulas normais e outro para as atividades de Educação Física), cadernos, lápis, borracha, caneta, livros (que eram comprados para cada matéria) e outros materiais escolares. Eu só consegui comprar (com o agrado de uma madrinha) um mísero par de meias pretas.

Foi com aquelas meias pretas nas mãos que o meu mundo acabou e, neste instante em que deixo estas palavras doídas escorrerem da minha alma, ainda debulho em lágrimas como naquele dia, em que, com as meias pretas nas mãos, ouvi as palavras mais duras da minha vida “você já sabe demais, não precisa e não vai estudar”. Era espantoso demais e aquele instante não cabia no meu pior pesadelo.

Durante alguns dias o dilúvio desceu sobre mim. Não havia nada e nenhum lugar que pudesse conter as minhas lágrimas. Quando falo de invisibilidade, é sobre os piores dias da minha vida, onde fui lançada ao trabalho infantil doméstico, aos onze anos de idade, e obrigada a me virar sozinha no mundo. E, por dois longos anos, ninguém percebeu que eu estava fora da escola.

Marli Freitas

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O vento dos papagaios

Sergio Diniz da Costa: Crônica ‘O vento dos papagaios’

Sergio Diniz
Sergio Diniz
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Uma tarde de julho. Ventania. Crianças. Um campinho das peladas. Em vez de correria atrás de uma bola, porém, carretilhas numa mão e, na outra, um papagaio*!

Com as férias do meio do ano e os ventos ficando mais constantes e intensos, as brincadeiras da terra cedem a vez para os olhares ao céu.

Papagaios de vários tamanhos, cores e desenhos começam a alçar altura e a bailar, ao sabor do vento.

Vejo esses meninos, correndo e empinando seus papagaios e, diante de tanta alegria, me percebo divagando… mergulhando nas Águas do Passado.

Manhã ventosa de uma sexta-feira de agosto. A agitação, o burburinho da sala de aula, termina com a entrada de dona Terezinha, a professora de Geografia.

É uma entrada solene da professora que nos chama a todos de ‘filhinho’. E sua simples presença nos infunde um misto de aquietamento e expectativa.

Quase às vésperas da aposentadoria, ‘Tia’ Terezinha é uma das docentes mais antigas da escola. E, também, a mais idosa. Cabelos curtos e alvacentos. Rosto sulcado por rugas. Pequena estatura física e corpo ‘arredondado’.

O tempo, no entanto, parece ter passado ao largo em relação a ela. O que a genética não lhe aquinhoou no corpo físico, uma Força Maior compensou-lhe no espírito. Quando inicia a aula, a voz ribomboa, os olhos fulgem, as palavras, descrições, conceitos fluem caudalosamente.

Com ela, em seu Tapete Mágico imaginário, conhecemos as regiões brasileiras, com seu clima, sua fauna, flora, rios, montanhas…  E, numa visão multidisciplinar, infunde-nos o sentimento de respeito ao meio ambiente, de amor à natureza, de cuidado em relação à Mãe Terra.

E, nesta manhã de sexta-feira de agosto, de um tempo pueril, tia Terezinha, inspirada pelo clima, vai nos falar sobre os ventos. E ela, toda ela, se transforma num Atlas, num compêndio de Geografia.

Como uma sereia que, com seu canto, nos atrai, inicia a aula, ensinando que  os ventos são o ar em movimento e que desempenham um papel muito importante na vida dos seres vivos, pois são eles que levam para longe o ar viciado que respiramos e trazem até nós o ar puro, com bastante oxigênio, tão importante para o nosso organismo.

Discorre sobre os vários tipos de ventos, que alteram-se conforme a sua durabilidade. E, à nossa frente, por meio de gráficos, desfilam os ventos alísios e contra-alísios.

Depois deles, vêm as monções e as brisas. No entanto, chama-nos a atenção para aqueles que são muito perigosos. E, feito o ‘malfeitor da natureza’, vem o vilão-mor: o ciclone, nome genérico para os terríveis ventos circulares, como o tufão, o furacão, o tornado, o vendaval e um sobre o qual nunca ouvira falar: o willy-willy, nome que os ciclones recebem na Austrália e demais países do sul da Oceania.

Tia Terezinha, ardendo de entusiasmo, dá uma pausa, porém, para respirar. Nesse momento, não contendo minha curiosidade, pergunto:

─ Tia, e qual é o vento dos papagaios?

Uma tarde de julho. Ventania. Crianças. Um campinho das peladas.

Uma lufada mais fria do vento me tira daquele transe.

O vento mais intenso e a gritaria dos meninos me fazem olhar para o céu, agora totalmente tomado pelos papagaios. E caio em mim ao perceber que, na volta à sala de aula, não me lembro de qual foi a resposta de Tia Terezinha…

Qual é, afinal, o vento dos papagaios?

O céu é um mar de varetas de madeira e papel, num bailado multicolorido. E, de repente, um papagaio se sobressai. Apesar da distância, tenho a impressão de que ele tem o formato de um rosto. Um rosto que me dirige um olhar e, com ele, uma voz sussurra:

─ O vento dos papagaios, filhinho, é o vento da imaginação!

* Na minha infância, em Sorocaba, estado de São Paulo, nós denominávamos esse brinquedo como ‘papagaio’. Todavia, trata-se de um brinquedo com vários nomes, dependendo da região brasileira e até mesmo de outros países. Temos, assim: pipa, arraia ou pepeta, cafifa, quadrado, piposa, pandorga.

Sergio Diniz da Costa

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Incendiar o instante

Pietro Costa: Poema ‘Incendiar o instante’

Pietro Costa
Pietro Costa
Imagem criada por IA do Grok

Incendiar o instante, a premissa
para uma existência insubmissa:
que resgate o rumor das pedras!

Colher o silêncio cultivado pelo pó,
nestas rotas sinuosas de criatividade;
varrer ruínas com ventos de liberdade
e desatar a infância contida em cada nó.

Pietro Costa

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     Liberdade mente-me

Ella Dominici: ‘Liberdade mente-me’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada por IA do Bing – 31 de julho de 2025,
às 17:23 PM

Liberdade mente-me.

Essa frase contém o abismo e a ironia de quem, ao desejar ser livre, percebe que a promessa da liberdade pode ser uma ilusão sedutora, uma quimera que queima as asas de quem voa em sua direção.    

      A liberdade, nesse paradoxo, torna-se uma entidade que mente ao nos prometer plenitude — e quando finalmente se apresenta, somos nós que não mais sabemos habitá-la.

     O céu não desce, nem sobe. Apenas paira — imóvel como um olhar que sabe demais. A manhã acorda com os ombros tensos, e ninguém ousa nomear o absurdo.  

     O silêncio mastiga a dúvida, e o homem, ao tentar mover-se, tropeça na própria lucidez. Tudo nele é consciência, e essa consciência pesa mais que a morte. Ele vive, sim. Mas cada passo é um protesto contra o chão.

     Ela caminhava como se arrastasse uma infância às costas. Os lençóis ainda tinham o cheiro das promessas não cumpridas. Ao lado, a pele do outro — morna, disponível — era uma ilha que ela não sabia habitar.

      A liberdade entrou pela janela e ficou parada no meio do quarto. Era tarde demais. Ela já havia aprendido a respirar sem ela.

     O sol invadia o quarto sem pedir licença. Ela não fechava as cortinas. Queria que a dor aprendesse a conviver com a luz. Mas a luz era cega e mostrava tudo: as rachaduras, os restos, as bonecas viradas para a parede. Ser livre era uma tarefa que exigia forças que ela havia doado a poemas. E os poemas? Amavam-na, mas não a salvavam.

     Ela tocava nas palavras como quem toca numa pedra quente: não para colher, mas para reconhecer o calor. Tudo em volta pulsava sem sentido, como se o mundo tivesse desaprendido a nascer. Ela queria mais que voar — queria dissolver-se no ar. Mas ao tentar, percebeu que o ar também sangra. E então, nomeou o indizível com o silêncio.

     As cartas, os cadernos, a máquina de escrever — hoje teclado — tudo a olhava como se exigisse confissão. Ela mentia com precisão.

     A liberdade era o disfarce da desistência. E ela, embora tão jovem, já sabia dançar com as perdas. Sabia que o tempo não cura: apenas reorganiza os escombros para parecer paisagem.

     Na escada, ninguém espera. A porta não se abre nem se fecha, apenas observa. Cada degrau range uma acusação sem língua. O homem carrega um nome que não lhe pertence.

     E a liberdade? É uma senha esquecida. Um papel dobrado no bolso que nunca se ousou virar. Ele anda, não por vontade, mas porque parar é admitir que foi engolido.

     A mente é um palco onde as cortinas nunca fecham. Sonhos desfilam nus, e medos gritam entre os bastidores. Ele fala consigo mesmo, mas escuta o mundo inteiro.

     A liberdade mora num crânio vazio, ecoando ideias que nunca se realizam. Há mais dor em pensar do que em sofrer. E mais prisão na dúvida do que na cela.

     Liberdade mente-me — com sua voz de vento e vestes de luz. Mas a luz também fere, e o vento não escolhe rota. Talvez sejamos apenas corpos tentando lembrar como se vive, depois da promessa não cumprida.

     Talvez liberdade seja esse espelho onde a alma não se reconhece mais.

Ella Dominici

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O ‘São João’ de minha infância

Evani Rocha: ‘O ‘São João’ de minha infância

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada pela IA do Gencraft
Imagem criada pela IA do Gencraft

Hoje é dia vinte e quatro. Nuvens passam espalhadas no céu, como fiapos brancos de algodão, num fundo, azul profundo, me dizendo que é céu de junho.

Meu coração bate calmo e leva-me a um tempo distante, sinto saudades da infância na época de São João. Posso até me ver menina: magrinha e serelepe, correndo descalça pelo terreiro; e os adultos batendo papo, em volta da fogueira.

Criança não quer saber de conversa de gente grande. Nós queríamos mesmo era acender gravetos e sair iluminando os trieiros no meio do campo, atrás das casas, nos quintais…

Recordo-me das batatas-doces assadas na brasa da fogueira e dos foguetes que animavam o São João. O frio de Chapada e o nevoeiro do inverno eram sempre presença certa.

Hoje eu sinto o frio por aqui, mas tem uma intensidade e uma luz diferente. O que será que muda quando a gente cresce? As coisas se transformam ou somos nós que mudamos demais? As mesmas comidas já não têm o mesmo sabor, não há mais fogueira, nem rojões, muito menos cantoria.

Caio na real que são novos tempos. Tempo da tecnologia, do mundo digital. Podemos compartilhar qualquer coisa: abraços, beijos, bate-papo e até uma vela acesa, virtualmente, é claro. Olho em volta à procura do terreiro de chão batido, das crianças correndo, da fogueira acesa, com as madeiras bem arrumadas e as labaredas vermelhas.  Ainda os encontro: Posso compartilhar comigo essas lembranças, e nem precisei usar ‘meio tecnológico’. Apenas abri uma caixinha bem guardada no fundo da memória…

Como é gratificante ter boas recordações. Eu mudei de tempo e de lugar, nós mudamos. As coisas, os sabores, os cheiros também se diferenciaram.

Cada fase da vida tem um gosto especial. Essa luz e esse sabor de hoje, há pouco, também será saudade.

Evani Rocha

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O drama do apartamento da Berrine

Ella Dominici: ‘O drama do apartamento da Berrine’

Ella Dominici
Ella Dominici
Fotografo jornalístico presente no centro de São Paulo, nos anos 64 fotografando manifestação estudantil 
Fotografo jornalístico presente no centro de São Paulo, nos anos 64 fotografando manifestação estudantil 
Microsoft Bing. Imagem criada pelo Designer

A infância se passou em Minas ao filho da professora de História e aos seus quatro irmãos, cinco no total. Foram criados pela dona Lázara, moça naquela época e que se manteve solteira. Ela os viu nascer, era uma negra dedicada ,quase mãe…mais que mãe .

Por sua vez a mãe muito moderna para as décadas de cinquenta a sessenta, dirigia, fumava…uma feminista que discutia a época em suas excelentes aulas.

    Hugo veio para São Paulo , estudar sociologia na USP, morava no apartamento cedido a duras custas pelo pai na avenida Berrine.

    Creio que fosse por volta de 1968 quando na faculdade se drogava, aliás todos os amigos, irmãos e alguns primos lá de Minas .

    Provava-se tudo e corria as avenidas de São Paulo no engajamento político  de revolta e liberdade…e em busca do LSD.

    Era um conjunto de cinco prédios, cada qual pintado de uma cor. O dele era azul. Elevadores par e ímpar, curioso ter que acertar e não ir parar no andar errado. Nesse dia errou o andar e subiu um de escada.

    Chegou e olhou pelo vitral da sala, aqueles de correr, ouviu o ruído de algo enferrujado, que emperra, precisava lixar e pintar. Faltava manutenção já que não era dedicado.

   Pela janela podia-se ver a praça Sanson que ficava bem abaixo, um campinho de futebol e uma área de lazer para crianças. Hugo costumava levar  a Leica, sua cadelinha pinscher 2, o nome dado justifica o gosto e paixão pela fotografia, à qual ele era obstinado.

 Sua preciosidade era uma ‘Leica M 10-R’ que comprou usada na rua Augusta. Sua namorada.

    Gostava do apartamento miúdo de 70 metros, para ele era até grande e acomodava suas tralhas e seus livros Marxistas e de Weber, muita literatura e história, além da pilha de discos e LP do Chico que cantavam canções censuradas. Tudo no Hugo era censurado. Anos torturados sem esquecimento.

      Todos os irmãos disputavam esse apartamento, mas ficara nele até o fim.

Não sei porque lembrou- se do tempo que passara em Berlim,onde recolhia canecas de cerveja que deixavam pelos bancos da praça. Fazia um valor suficiente para se manter vivo por ali.

     Doía- lhe a cabeça agora. Coberta por uma vasta e desgrenhada cabeleira que disfarçava o cérebro que parecia oco.

     A cabeça misturando nebulosamente os fatos que soubera pela Lázara, não por terem ligado, mas ele teria feito um telefonema, o que nunca fazia, pois interurbanos eram caríssimos; além de que os vínculos eram cada vez mais frágeis. Parece que ninguém existia…a mãe morrera drasticamente num acidente no trevo da entrada da cidade mineira. Para que viver, se nem os ideais de liberdade podiam lhe libertar o espírito inquieto. E por que morrer se a luta era a própria vida.

O pavor aumentava, ele inexistia nos corredores sombrios da existência. A droga lhe galardoava como o nada.

     E neste devaneio meio sonho, meio real, ouviu um ruído no hall de entrada,  pisadas fortes e vozes masculinas, pensou no que poderia ser, lembrando- se dos últimos acontecimentos com famílias de amigos engajados…

    A porta da sala foi arrombada?

   Desespero total, mais uma vez seria detido, e por quanto tempo agora, e a tortura para confessar o que? será que são eles, ou não? A dúvida cada vez mais se expande, de onde viria esse turbilhão?

    A tontura o tomava, eram os efeitos adrenérgicos em seu peito e corpo…

  Olha para a janela que precisava de reparos, num relance lembra- se de Ivete Mendes e seus compatriotas e…. de Yunens Paiva… um dia contaria esta façanha ao Marcelo, filho do amigo…

    Procura vasculhando com os olhos pela Leica, agarra a peça e freneticamente a pendura  no seu pescoço. Onde quer que fosse ela teria que acompanhá- lo .

    Não existe outra saída, não tem escolha senão a fuga antes que o tomassem e o levassem, isso já seria demais para suportar…

     Salta do décimo primeiro andar. Salto livre.

     A gangorra do parquinho balançou afundando a terra ao suportar o peso de seu corpo. 

       Virou fotógrafo jornalístico .

Ella Dominici

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Natal. Abertura ao outro

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Artigo

‘Natal. Abertura ao outro’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
"O reencontro dos familiares, também dos amigos verdadeiros, naquele dia mágico..."
“O reencontro dos familiares, também dos amigos verdadeiros, naquele dia mágico…”
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Ano após ano, a festa tradicional, alegadamente da família, celebra-se com mais ou menos pompa e circunstância, designadamente, nas suas principais dimensões: material, religiosa, social; ou conforme os objetivos de cada pessoa, independentemente dos seus valores, crenças, tradições e cultura; e, também, ainda há quem passe indiferente por esta festa, encarando o dia de Natal, como um outro qualquer dia do calendário anual.

Na cultura da sociedade Portuguesa, o Natal continua a ser a festa da família, período de tempo em que se procura reforçar os laços parentais ou, em muitos casos, a reconciliação dos entes mais queridos que, por vicissitudes várias da vida, estiverem desavindos durante mais ou menos tempo.

O reencontro dos familiares, também dos amigos verdadeiros, naquele dia mágico constitui motivo de grande felicidade e de quantas vezes, acerto do passado, da resolução de situações mal resolvidas ou, ainda, por solucionar, de cedências, desejavelmente, sinceras e generosas, das partes até então conflituantes.

Natal de todos, para todos e com todos: adultos e crianças; famílias e amigos; colegas de trabalho e patrões; camaradas de armas, independentemente de o serem em tempo de guerra ou de paz; tempo para recordar traquinices de infância, malandrices escolares, paixonetas de adolescentes, namoros e compromissos, enfim, um mundo de vivências e de recordações, que se tenta reconstruir, se possível com as pessoas que também as experimentaram connosco.

Mas esta magia, que tão bem carateriza o Natal, vive-se, ainda mais intensa e sinceramente, no mundo das crianças, que, na sua ingenuidade e simplicidade, aguardam com imensa ansiedade, a “chegada” do “Menino de Jesus”, precisamente na noite da consoada, em que a família, os amigos incondicionais, quando convidados, se juntam para tomarem a refeição tradicional daquela noite mágica, e que varia, relativamente, de região para região, mesmo dentro do próprio país.

Em geral, as famílias constroem o presépio, alusivo ao nascimento de Jesus, implantam a denominada “Árvore de Natal”, que enfeitam e iluminam, no cimo da qual é colocada a estrela, qual farol que, dias mais tarde, nos princípios de Janeiro, guiará: “na tradição cristã, os três reis magos eram sábios que vinham do Oriente à procura do menino Jesus. Ao encontrarem Cristo, prestaram-lhe culto e deram-lhe presentes. 

“Segundo a narrativa bíblica, os reis magos vieram do Oriente à procura do recém-nascido menino Jesus a fim de adorá-lo e oferecer-lhe presentes. Apesar de serem descritos em algumas versões da Bíblia apenas como magos (termo utilizado para referir-se a homens sábios, eruditos), essas figuras foram convertidas ao longo da história em reis, por isso, são conhecidos hoje como “três reis magos”.” 

“Os magos, então, ofereceram ao menino Jesus três presentes: incenso, mirra e ouro. Após isso, foram avisados por Deus em um sonho que não deveriam informar nada a Herodes e, assim, retornaram para sua terra por outro caminho.” (in: https://brasilescola.uol.com.br/natal/reis-magos.htm)

O presépio é, porventura, o símbolo maior e mais encantador do Natal. Ele como que irradia uma atração irresistível, as figuras que o integram, parecem reais, com vida e, bem protegida, a cabana onde estão Maria e José com o seu filhinho, Jesus, aquecidos, naquela noite fria de dezembro, pelos animais.

A simplicidade, a humildade e o amor estão ali expostos para o mundo habitado por uma humanidade que não consegue entender-se, devido aos mais diversos e, por vezes, incompreensíveis e inaceitáveis interesses, não obstante todas as pessoas terem perfeito conhecimento que, sem exceções, a vida físico-intelectual e sócio material é, tão só, uma passagem efémera, por um mundo que se renova e morre a cada instante.

O Natal das crianças, também dos adultos, deveria ser uma quadra de paz, de alegria, de fraternidade e de perdão, quanto mais não fosse por um futuro melhor, no qual se possa acreditar, que seria: de conforto, de abundância, de tranquilidade, de segurança, de liberdade, de igualdade, de justiça, de paz, de solidariedade, de amizade, de lealdade e de gratidão, entre pessoas e povos que habitam um mundo que, afinal, não é deles.

A Quadra Natalícia, tal como a Quaresma por ocasião da Páscoa, porém, numa perspetiva diferente, designadamente para as religiões que comemoram estes períodos festivos, reveste-se de um significado muito intenso, porque vivido com as mais profundas convicções culturais, e uma Fé muito grande no devir melhor. É um tempo mágico, de esperança.

O Natal, para quem acredita que pode ser uma Festa da Família, que neste período é possível resolver muitas situações do passado, proteger um futuro de concórdia, enfim, para quem deseja viver esta festa com o coração, deve ser encarado como mais uma oportunidade de vida, agora, no sentido de que há sempre uma porta aberta, (uma oportunidade) e, quando esta, apesar de tudo, se fecha, é preciso confiar na possibilidade de que uma janela poder abrir-se para a bem-aventurança.

Aproveito esta oportunidade para: primeiro, pedir desculpa por algum erro que, involuntariamente, tenha cometido e, com ele,  magoado alguém; depois para desejar um Santo e Feliz Natal, com verdade, com lealdade, com gratidão, seja no seio da família, seja com outras pessoas, com aquela amizade de um sincero «Amor Humanista» e muito reconhecimento pelo que me têm ajudado, ao longo da minha vida, compreendendo-me e nunca me abandonando. 

É este Natal, praticamente simbólico, que eu desejo festejar com a alegria possível, pesem embora as atuais restrições e condicionalismos, impostos por um conjunto de situações cruéis, que atiram cada vez mais pessoas para a miséria, fome e morte.

Finalmente, de forma totalmente pessoal, sincera e muito sentida, desejo a todas as pessoas que, verdadeiramente, com solidariedade, amizade, lealdade e cumplicidade, me têm acompanhado, através dos meus escritos, um próspero Ano Novo e que 2024 e, desejavelmente, as muitas dezenas de anos que se seguirem, lhes proporcionem o que de melhor possa existir na vida, que na minha perspetiva são: Saúde, Trabalho, Amizade/Amor, Felicidade, Justiça, Paz e a Graça Divina. A todas estas pessoas aqui fica, publicamente e sem reservas, a minha imensa GRATIDÃO.  

Venade/Caminha – Portugal, NATAL de 2023

Com o protesto da minha permanente GRATIDÃO

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente Vitalício (Não Executivo) do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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