Quinto giro solar

Cinco sóis coroam a infância de Alexandre: uma emocionante epifania de amor paterno na poesia de Pietro Costa

Pietro Costa
Pietro Costa
Cardo do texto Quinto dia solar, de Pietro Costa

Pietro Costa

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O gosto do Marcos Rey

Bastou um gesto de gentileza espontânea para desarmar o homem mais temido do bairro e abrir as portas de um mundo inesquecível

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Fotografia realista de um bairro residencial brasileiro. Em primeiro plano, um menino está sentado num degrau de pedra a ler atentamente um livro antigo de capa gasta. Ao seu lado, um homem idoso de expressão séria, vestindo camisa xadrez e calças escuras, segura uma sacola de compras e observa-o. Ao fundo, numa rua residencial com carros antigos estacionados e uma grande amendoeira, outras crianças jogam futebol. A iluminação é natural sob um céu parcialmente nublado.
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Nunca imaginei que eu teria nem um minuto sequer com o Seu Urias, um tipo que sempre me pareceu a própria expressão de carranca. E era, pelo menos aos olhos de todos ali na rua, especialmente para as crianças e adolescentes.

    — Mamãe, por que ninguém gosta do Seu Urias?

    — Carlinho, isso não é verdade.

    — A senhora gosta dele?

    — Eu?

    — É.

    — De jeito nenhum! Que velho mais desagradável.

    Aconteceu numa manhã, talvez de domingo ou feriado. Sei apenas que não era dia de escola. Seu Urias vinha da quitanda da dona Lúcia, carregava duas sacolas abarrotadas. Quando ele estava a poucos metros, nossos olhares se cruzaram. Eu, por impulso, me ofereci para ajudá-lo. Coisa toda que fazemos quando deixamos o raciocínio de folga.

    — Muita gentileza sua. Carlinho, né?

    — Sim, senhor.

    — Filho da dona Joana, né?

    — Sim.

    — Boa mulher. Você é um menino de sorte.

    Seu Urias, assim que deixei a sacola na cozinha, tirou a carteira do bolso e sacou uma nota de cinco reais. Recusei.

    — Ah, entendi. Hombridade, né?

    Sem entender o que aquilo significava, assenti com a cabeça. Seu Urias me observou por um momento e, em seguida, foi até a sala, de onde retirou um livro da estante.

    — Gosta do Marcos Rey?

    — Quem?

    — Marcos Rey. Ele escreveu este livro maravilhoso. Conhece?

    Seu Urias me entregou aquele exemplar de “O mistério do cinco estrelas”. Um tanto gasto, para dizer a verdade.

    — Carlinho, livro bom é livro carcomido.

    Mais uma palavra que eu precisaria descobrir o significado.

    — Sim, senhor.

    — É seu, mas tem uma condição.

    Olhei desconfiado para aquele homem, praticamente um estranho.

    — E qual é a condição, senhor?

    — Que leia e depois me conte se gostou. Combinado?

    — Combinado.

    Apertamos as mãos como dois cavalheiros e corri de volta para a rua, onde os meus amigos continuavam jogando bola. Preferi me sentar debaixo da amendoeira. Abri o livro e, pela primeira vez, me embrenhei no mundo do Marcos Rey.

    Perdi a hora, mamãe me gritou:

    — Carlinhos, o almoço tá pronto!

    Nem estava com fome, mas sempre soube que não era de bom tom desobedecer a dona Joana. Corri em sua direção e entrei esbaforido.

    — Ei, o que é isso aí nas suas mãos?

    — Marcos Rey, mamãe.

    — O quê?

    — Foi o Seu Urias que me deu.

    — E o que aquele velho queria com você?

    — Nada, mamãe. Eu me ofereci para ajudar a carregar as compras. Então, ele me deu o Marcos Rey.

    — Hum!

    Talharim à bolonhesa. Até hoje é o meu prato favorito. Mesmo assim, as páginas do Marcos Rey me pareceram muito mais saborosas.

    Terminei de ler “O mistério do cinco estrelas” na madrugada. Adormeci e, não duvido, devo ter sonhado com a trama. Pena que nunca me lembro dos sonhos, deve ser coisa de família. Minha mãe sempre me disse que sonhos são coisas de grã-fino.

    Quando acordei, já era quase meio-dia. Havia um movimento estranho na rua. Assustado, fui até a minha mãe, que me contou o motivo:

    — Foi pra onde, mamãe?

    — Morreu, Carlinhos. Morreu.

   Seu Urias, soube mais tarde, enfrentava uma doença terrível há anos: câncer nos pulmões. Resistiu o quanto pôde. Não teve velório, não teve enterro nem despedida. A única filha, Lorena, honrou o pedido do pai: viajou para o Rio de Janeiro e jogou as cinzas na praia de Copacabana. 

Eduardo Cesario-Martínez

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Tempo das miudezas

A delicadeza da infância e o resgate da liberdade no sensível poema de Dorilda Almeida

Dorilda Almeida
Dorilda Almeida
Uma cena calorosa e nostálgica de um grupo de crianças felizes brincando ao ar livre perto de uma pequena vila cercada por serras. Ao redor delas, há árvores frutíferas carregadas e vegetação abundante. No centro, um menino agachado segura com cuidado um lagarto verde enquanto uma garota ao seu lado sorri e aponta para o animal. Outras crianças se aproximam curiosas por um caminho de terra, ao lado de um rio de águas calmas. A iluminação dourada e suave do final da tarde cria uma atmosfera mágica de liberdade, natureza e infância.
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Infância alegre,
no meio de árvores frutíferas,
vivíamos o tempo inocente
das nossas vidas,
entre formigas, pássaros e vagalumes a brilhar
Vivíamos
O tempo das miudezas!

Criávamos cobras e lagartos
no quintal de todos nós.
O lagarto se chamava Pascoal.
Amávamos como irmãos, amigos.
Cada animal tinha um nome;
E ao serem descobertos pelos adultos
eram soltos.
Vivíamos
O tempo das miudezas!

Nossa cidade respirava lendas e segredos antigos,
cercada de serras e belezas naturais,
era cheia de mistérios e exuberância:
muitos musgos, galhos e flores secas
Era lugar de brincadeira total
O tempo das miudezas!

No coração da cidade
corria um rio de águas cintilantes como a nossa Constelação
O nosso mundo era de imaginação e liberdade.
Era um espaço mágico,
um lugar onde ninguém vigiava ninguém
um mundo cheio de encantamento
O tempo bom das miudezas!

(Poema integrante da Antologia Manoel de Barros – O Poeta das Miudezas – 2026)

Dorilda Almeida

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Reynaldo, o homem mais forte do mundo

Como uma velha fotografia conseguiu unir três gerações em torno do homem mais forte do mundo

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Ilustração em gravura a preto e branco de estilo vintage mostrando dois homens ao ar livre num caminho ladeado por vegetação densa. O homem em pé, no centro, veste calções brancos, sorri para a câmara e segura horizontalmente outro homem acima da sua cabeça com ambos os braços estendidos. O homem erguido encontra-se em Posição de Prancha horizontal, vestindo também calções brancos.
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A primeira vez que me deparei com Reynaldo, tive certeza de que ele era o homem mais forte do mundo. Seu físico, aos meus olhos de menino, parecia tão poderoso, que não duvidaria que poderia enfrentar até mesmo um tigre, caso um desses enormes felinos resolvesse aparecer por aqui, talvez fugido de algum zoológico ou circo. Mas eis que, enquanto admirava a fotografia desse Tarzan dos longínquos anos 1950, meu neto, de seis anos, pareceu intrigado com meu sorriso saudoso.

      — O que foi, vovô?

      — Vovô tá olhando umas fotos antigas, Pedrinho.

      — Posso ver?

     Coloquei o menino no colo. Ele, sem seguida, pareceu se encantar com o retrato do Reynaldo erguendo meu pai sobre a cabeça.

        — Quem é?

        — É um homem chamado Reynaldo, que aqui está levantando meu pai.

        — Ele jogou o seu papai no chão?

        — Não. Eles eram amigos. Estavam apenas posando para fotografia.

        — Hum… Vovô, o seu papai também era fortão?

        — Um pouco, mas não que nem o Reynaldo. 

        Essa inesperada cumplicidade infantil conseguiu unir meu neto àquele pivete de tantas décadas atrás. Passamos toda a tarde grudados, cheios de histórias para contar um para o outro. Pedrinho arrancava-me gargalhadas há tanto esquecidas. É engraçado como gente miúda tem essa capacidade de transformar os velhos em seres humanos mais gentis e menos pretensiosos em relação aos próprios feitos. 

      Ensinei meu neto a jogar botão. Danado como ele só, o moleque me aplicou uma goleada e, suspeito, me deixou marcar um gol por conta da amizade que desfrutamos naquele momento. E eu que pensava que era o maioral. Que nada! Pedrinho conseguiu entender como era aquele jogo, que até lhe dei todos os meus jogadores para que ele pudesse brincar com seus amigos. 

        Quase um mês após esse dia, o guri veio me visitar. Eufórico, me contou que seus colegas e ele estavam brincando de botão nos finais de semana. E já pensavam em criar um torneio, com direito até a prêmio, que seria um pote de sorvete para que todos se refrescassem. 

         Enquanto meu neto e eu conversávamos, minha filha e o marido, pai do Pedrinho, pareciam entretidos com o bolo de laranja comprado na padaria. Nisso, meu genro percebeu o álbum de fotografias sobre a estante e, então, começou a folheá-lo. Não tardou, o sujeito começa a rir.

             — O que foi, papai?

             — Já viu essa foto, filho?

             O pai do meu neto, finalmente, apontou para fotografia do Reynaldo.

             — Ah, papai, esse aí é o Reynaldo. Sabia que ele é o homem mais forte do mundo?

             — Quem? Esse frangote?

         Minha filha não deixou de perceber as feições de desgosto que o Pedrinho e eu fizemos. E, tentando contornar a asneira dita pelo marido, emendou:

             — Olha quem fala, o senhor que ostenta essa barriga enorme. Pois saiba você que o Reynaldo era capaz de enfrentar até um tigre. 

Eduardo Cesario-Martínez

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Saudade

Laskiaf Amortegui: quando a saudade faz morada nas paredes do tempo

Laskiaf Amortegui
Laskiaf Amortegui

As casas guardam histórias que às vezes esquecemos.
​
A casa está vazia. Acaso a casa se foi com a mamãe?

A mamãe não sorri mais; a mamãe era o diapasão do lar.

As panelas esfriaram, o seu aroma se esfumou e a sua sinfonia desapareceu. A cozinha emudeceu. A algazarra familiar deixou de ecoar nas paredes: as crianças cresceram e se foram.

O papai deixou o ninho há muito tempo e, atrás dele, a mamãe.

A casa viveu o seu zênite junto a ela; sua alma e sua essência deixaram histórias secretas em suas paredes estéreis. A casa está triste, a mamãe não voltou. Foi-se sem bagagem nem sua bengala.

A casa sorri quando meus irmãos e eu nos aproximamos; ela se acuartela no canto do ontem, talvez procurando a mamãe, a matriarca maior.
​

Laskiaf Amortegui

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E o mundo me fez poeta

Ismaél Wankalika:
entre as sombras da vida e a luz dos versos, nasce a voz de um poeta!

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika

Nascemos entre os fios que nos ligam a existência
Nossa razão é a lógica da saberia assertiva
Num caminho vários espinhos
Abismos não limpam gargalhadas nos meios dos sorrisos
O passado é renovado pela semente lançada no óvulo
Vários mundos escolhendo os seus
Rendidos no cenáculo lançam suas preces a Deus
E assim na madrugada nos meus escritos o poeta nasceu
Dando a coreografia de sua caneta seu sonho reviveu…

E o mundo me fez poeta

Na voz de meu pai
No cantar de mamãe
Ouviram-se as sombras de suas épocas
Canção holística que arrastou-os para trilha
O poeta despertou comendo suas rimas na órbita da vida
As vezes a vida enquadra-se no sentido que damos a ela.

E o mundo me fez poeta

Eu era um menino desolado
Com ânsias no coração procurava melodias
Beijava o sol todas as manhãs que o vento soprava ao redor mundo
Escassez de encanto
Na palm da infância
Vivi meus dias perto do mar da vida

Caneta expressava um barulho tardio
No peito intenso desejo de mudar o trajeto
Ainda luto contra os meus choros
Massageio a dor no cotovelo das ondas
Caminho segurando as forças com o som de uma guitarra sem cordas
Esse é o meu destino visualizado na penumbra.

E o mundo me fez poeta

Entre os gritos injustos de meu pai
A resiliência destemida de mamãe
Fiz nascer meu primeiro verso
Transformei suas vidas nos meus textos
Sou eles, nessa versão poética de suas místicas vidas
Suas estórias estão aqui dentro
O orgulho que os venceu, tenho seu segredo em mim
Escrevo nestas sombras o enigma de suas tragédias
Sorte adiada no pumar da esperança
Sou poeta!
finjo dor
Escrevo com ardor

Sou capitão neste navio
Na contra mão de suas sombras
Cortarei o negro com a força das espadas.

E o mundo me fez poeta

Sinto o peso das almas que a mim clamam
Pressão nos ombros
No mundo de vários mundos encontrei o meu mundo.
Fiz minha letra
Que alma chora mas a resiliência mantém-me vivo.

E o mundo me fez poeta!

Soldado Wandalika

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Sendo diferente

Entre um bolo imperfeito e uma lembrança inesquecível, Jane Nash celebra a beleza de ser diferente

Jane Nash
Jane Nash
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Minha mãe teve que correr
Até a loja da esquina
No dia anterior
Dedos de chocolate
Um saco de Smarties
Mais um pouco de cobertura
Quem poderia imaginar
Que o bolo
Com um buraco no meio
Poderia ser um sucesso tão grande
Para uma criança de 9 anos

Cinquenta anos depois
Amigos fizeram um bolo
Um ato de amor
Red Velvet
Perfeitamente feito
Lindamente apresentado
O bolo estava delicioso
Mas ainda assim
Sem dúvida alguma
Faltava-lhe
Um buraco no meio.

Jane Nash

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