Tarde azul de primavera
Evani Rocha: Poema ‘Tarde azul de primavera’


Conto os dias e as horas para te ver.
Já reguei o meu jardim,
Em breve as primeiras flores vão aparecer
E chamar as borboletas.
É primavera outra vez…
Eu sei que vais chegar em uma destas tardes
De brisa mansa e sombra na varanda,
Enlaçar meu corpo feito gavinhas…
Conto também as pedras do caminho,
E as centelhas que desprendem de meus olhos
Ao encontro dos teus…
São as luzes que te guiam até mim!
Conto mentalmente as curvas de teu corpo,
E o palpitar ligeiro dentro do meu peito.
Há pouco para entardecer,
O sol já se deita sobre as calçadas de pedra,
Os terreiros de terra, sobre os verdes prados…
Conto as horas enlouquecidas, que escorrem entre meus dedos,
Leves, sedentos… sobre a pele encrespada.
E assim, o sol vai escondendo-se no horizonte alaranjado.
Mais uma vez, rego o meu jardim,
E a mesma água que verte de meus olhos ansiosos,
Encharca a terra, renova as folhas das hortênsias
E abre uma rosa carmim…
Apenas uma rosa, de pétalas sedosas e perfumadas,
No fim desta tarde azul…
Conto o tempo em minutos e segundos,
Tropeço nos números,
Colho os últimos raios de sol,
Que logo se esvaem de minhas mãos,
Para repousar atrás dos montes!
Eu ainda te espero,
Mesmo que seja para os únicos sussurros deste final de tarde,
Ou para a infinitude de teus braços, numa noite enluarada!
Evani Rocha
Ah, quem me dera!
Evani Rocha: Poema ‘Ah, quem me dera!’


Ah, quem me dera ser um passarinho
Para voar no céu de tua boca!
Ou borboletas esvoaçantes
Sobre as flores do teu jardim…
Quem me dera ser a dama do teu palco
Ou a tua arte preferida…
Podia até ser uma folha caída,
Nas sendas do teu caminho…
Ah, quem me dera ser o abraço na despedida
E as lágrimas de alegria no reencontro!
Ou, quem sabe, a aurora dos teus dias…
Quem me dera ser a lua cheia
Na tua janela,
Ou a porta aberta na tua chegada…
Se eu pudesse, certamente, seria a luz das estrelas
Flamejando na vastidão dos teus olhos!
Evani Rocha
Jardins de esperança
Pietro Costa: Poema ‘Jardins de esperança’


O corpo é jardim, cada célula uma flor,
cultivar o cuidado para semear o amor.
O toque é linguagem que salva em silêncio,
ouvir a pele, eis um ato de pertencimento.
Nessa aurora rosa, a esperança floresce,
prevenir traduz um gesto que fortalece.
O peito é morada do sopro vital,
cuidar-se é plantar futuro no quintal.
A vida requer ternura no gesto mais simples,
um exame em tempo é ponte que nos redime.
Outubro ventila candente luz em cada janela,
a consciência é chama, uma oficiosa sentinela.
Pietro Costa
De volta ao meu jardim
Verônica Moreira: ‘De volta ao meu jardim’


Estou voltando pra mim
Estive fora por um tempo,
fora das reais prioridades,
encontrei meras vaidades.
Hoje, retorno ao caminho,
àquilo que me é princípio,
início, raiz, compromisso,
o que me faz pulsar e viver.
Volto ao primeiro amor,
retorno às primícias,
aquelas que deixei para trás,
as que me traziam paz.
Voltei para dentro de mim,
encontrei poesias solitárias,
libertei-nas nesta manhã,
quando abri meu jardim.
O jardim das amoreiras,
aquele que outrora cultivei.
Encontrei espinhos e cardos,
e amoras caídas ao chão.
Quanto tempo não sinto
nem doce nem amargo,
o azedo da fruta verde
ou o doce da fruta madura.
Há muito não sinto o cheiro,
nem perfume de flores.
Quanta poesia sufocada,
inúmeros versos perdidos.
Mas hoje, simplesmente,
voltei ao meu jardim,
destranquei sua porta
e degustei suas delícias.
Abracei o passado,
perdoei os animais,
até beijei as lembranças,
as marcas nem vejo mais.
Eu disse em voz alta
aos invasores de outrora:
— Saiam… eu os liberto agora.
Meu jardim voltará a florir.
Eu posso sentir os versos,
eles dançam ao meu redor.
A poesia me abraça forte,
já posso ser dela outra vez.
Verônica Moreira
O que é que há, João?
Evani Rocha: ‘O que é que há, João?’


O que é que há, João?!
Hoje está tão cabisbaixo,
Frustrado e resmungão…
Já olhou o céu, João?
O azul profundo,
Mostrando que não tem fundo,
Não tem parede, nem chão!
O que é que há, João?!
Sentiu a brisa do mar,
A maresia a espalhar,
Um cheiro doce no ar?
Já observou o beija-flor,
Voando de flor, em flor,
Enfeitando o Jardim?
João, nada mais lindo
Não há,
Que ver o nascer do sol
No horizonte sem fim!
Sorver o sabor da vida,
Nos caminhos da estação,
Talvez na última parada, João,
Ainda haverá perfume
Nas suas honrosas mãos!
Evani Rocha
Meu templo
Evani Rocha: Poema ‘Meu templo’


às 08:30 PM
Lembro-me das histórias
Do jardim ensolarado
Dos pedregosos caminhos
Das veredas orvalhadas
Dos ramalhetes amarelos
Pendurados nas janelas
Da saudade impregnada
Nos ladrilhos das calçadas
Abdiquei-me dos detalhes
Das folhas do calendário
Engavetei na memória
O silêncio da verdade
Despedi-me das utopias
Vesti-me de realidade,
Nos ponteiros do relógio
No murmúrio da cidade
Não me apetece conselhos
Planto as minhas sementes,
Aceito minha colheita
Não me doma o espelho
Nem a peleja da lida
Eu sou o meu próprio templo
O tempo em correria
O mover das estações,
As águas em correnteza
Os trilhos e os vagões
Trago as marcas nos pés
Nas mãos o amanhecer
Nos olhos trago a certeza
Dos vales que atravessei
Das flores que eu colhi
E das que nunca plantei!
Evani Rocha

