Lina VeiraImagem do Canva, com texto por Lina Veira
Até aqui eu quis ter muitas certezas Sem exigir nada, eu quis ter muitas certezas. Até aqui entre as danças e guerras da vida, Eu queria parar no teu olhar e sorriso, Na cor de cada dia do céu do teu dia.
Denunciar cada gesto coberto Desarrumado como as estrelas, Na insana lucidez de estar. Até aqui eu quis viver cada gesto e abraço que nunca tive. Como um globo girando e acolhendo a todos, Até parar no teu olhar e sorriso E seguir meu caminho entre a liberdade e a solidão.
No escuro, guardei as memorias e rascunhos que precisei E como num jogo de xadrez preservei a rainha e o rei. Enquanto escrevia em todos esses anos, desenhei um Universo que sempre quis para gente: Ele é lindo! Roubei um pouco do seu tempo E cheguei com tempo para ganhar um abraço nele Abracei tão grande que não me contive em esmagar os espaços vazios Teria sido a escolha mais linda até aqui – teria sido.
Entre muitos labirintos que cruzei, enfrentei-os ouvindo sua voz entre a liberdade e a solidão Depois entendi que não existia mais caminho para voltar Nem eco, ou som algum.
Eu não pude evitar minha evolução, algumas curas. Foi necessário. Confesso que algumas vezes eu quis voltar talvez para ter alguém na memória no fim da vida E no mar de tantas fúrias e tormentas, sua voz deixou de ser calmaria e conforto Para ser gratidão. O tempo passou. E nem sempre o melhor que temos é o que podemos dar e ser para alguém.
‘A renovação ética em tempos de divisão: como a palavra reconstrói o mundo’
Taghrid Bou MerhiImagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69f17bf2-5150-83e9-bdf6-59df1b503674
Em tempos em que os mapas se fragmentam e as distâncias entre o medo e o discurso se estreitam, o mundo parece entrar em uma nova fase de partilha: partilha de geografias, de riquezas, de narrativas e até mesmo da própria definição da verdade. As lealdades se distribuem como se distribuem os interesses, e as fronteiras são traçadas dentro da linguagem antes de serem desenhadas sobre a terra.
Nesse clima tenso, a questão já não é apenas política ou cultural — ela se torna, em sua essência, ética: como o ser humano pode recuperar o equilíbrio dos valores em um tempo dominado por paixões, interesses e visões conflitantes? Daí nasce a necessidade de uma renovação ética que não se reduza a um discurso moralizante nem se limite a slogans genéricos, mas que se manifeste como uma transformação profunda da consciência individual e coletiva — uma reconstrução do ser humano a partir de dentro.
A partilha não é um conceito neutro; ela implica uma distribuição de poder e de sentido. Quando os povos dividem a terra, dividem também a história, a memória e os símbolos que a acompanham. Quando as comunidades compartilham narrativas, as verdades se multiplicam a ponto de se confrontarem, e a voz única se fragmenta em estilhaços de vozes. Essa realidade cria um estado de rigidez moral, em que os princípios se tornam instrumentos de defesa e a diferença passa a ser percebida como ameaça. Em tais momentos, não basta apegar-se aos valores herdados; é preciso questioná-los, interrogar suas raízes e libertá-los do uso utilitário que esvazia seu significado.
A renovação ética não significa substituir superficialmente um sistema por outro, mas retornar às perguntas fundamentais: o que é justiça? O que é responsabilidade? Quais são os limites da liberdade quando ela se cruza com a liberdade do outro? Essas questões ocuparam os filósofos ao longo dos séculos, e, a cada época turbulenta, novas respostas emergiram. Após as guerras europeias, o filósofo alemão Immanuel Kant escreveu sobre o dever moral como um compromisso interior baseado no respeito do ser humano por si mesmo e pelo outro.
Seu projeto não era mera especulação racional, mas uma tentativa de estabelecer um critério que transcendesse interesses imediatos. A ideia do “imperativo categórico” surgiu como um convite a agir de modo que a ação pudesse ser universalizada — um comportamento cuja legitimidade provém de sua possibilidade de se tornar regra comum entre os seres humanos.
Cerca de um século e meio depois, em meio ao colapso dos valores europeus nas duas guerras mundiais, o filósofo francês Emmanuel Levinas apresentou uma concepção ética distinta, colocando a responsabilidade pelo outro como origem de todo sentido. Ele não partiu de uma lei abstrata, mas do rosto do outro, cuja presença se impõe como um chamado ético impossível de ignorar. Em tempos de divisão, quando grupos se cristalizam em identidades rígidas, recordar o rosto do outro torna-se um ato de resistência contra a objetificação e a exclusão.
A literatura também não permaneceu distante dessa inquietação ética. Nos romances de Fiódor Dostoiévski, o conflito entre o bem e o mal se desenrola no interior da alma humana, em contextos sociais marcados por desigualdade e angústia espiritual. Suas personagens vivem em ambientes turbulentos, onde a responsabilidade individual é constantemente posta à prova: pode o ser humano justificar seu erro pelas circunstâncias? A renovação nasce da confissão ou da punição? Suas obras revelam que a transformação ética começa quando o indivíduo enfrenta a si mesmo com honestidade dolorosa.
Albert Camus, por sua vez, abordou a moralidade em um mundo absurdo. Em seu romance “A Peste”, a epidemia torna-se metáfora do mal coletivo e da prova da consciência. As personagens não dispõem de certezas metafísicas que as tranquilizem, mas escolhem a solidariedade e a ação. A renovação ética aparece, assim, como um gesto cotidiano, uma insistência no sentido em meio ao absurdo.
Em outro contexto, o pensador indiano Rabindranath Tagore escreveu sobre a unidade entre o ser humano e a natureza, defendendo a superação do egoísmo nacional em direção a um horizonte mais amplo de humanidade. Sua visão não era política no sentido restrito, mas espiritual e cultural: a renovação começa pela reconciliação entre o eu e o mundo. Em tempos de disputa por poder e recursos, seu chamado à abertura e à tolerância soa como um convite ao reequilíbrio interior.
A filosofia árabe contemporânea também abordou essa questão sob diversas perspectivas. O pensador marroquino Mohammed Abed Al-Jabri propôs uma crítica da razão árabe e sua reconstrução sobre bases racionais, afirmando que qualquer renascimento ético exige a desconstrução das estruturas mentais que perpetuam o fechamento. O filósofo libanês Charles Malik, que participou da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, via na dignidade humana o alicerce de qualquer projeto ético moderno. Esses esforços demonstram que a renovação não é ruptura com a tradição, mas leitura crítica que abre novos horizontes.
Na era digital, a crise ética assume novas formas. A verdade se dispersa entre plataformas, e a opinião se converte em mercadoria. Nesse cenário, a honestidade torna-se uma responsabilidade ainda mais pesada. O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa recorda que a liberdade de expressão não é privilégio, mas compromisso. O escritor e o jornalista não podem se refugiar na neutralidade quando a dignidade humana está em jogo. A renovação ética implica redefinir a relação entre liberdade e responsabilidade, entre o direito de falar e o dever de verificar.
O trabalho também ocupa lugar central nesse debate. O Dia Internacional dos Trabalhadores destaca a dignidade das mãos que constroem, cultivam e cuidam. Em um mundo onde a riqueza é distribuída de forma desigual, reconhecer o valor do trabalho é um ato ético. O filósofo alemão Karl Marx identificou na alienação do trabalhador um sintoma de desordem moral na estrutura econômica. Sua análise não era apenas econômica, mas crítica à perda da humanidade em um sistema que transforma o indivíduo em instrumento de produção. Sob essa perspectiva, a renovação ética exige repensar as condições de justiça social.
A questão ambiental igualmente integra esse processo. O Dia Internacional da Biodiversidade nos lembra que a relação entre humanidade e planeta não é mera exploração, mas responsabilidade. O filósofo alemão Hans Jonas formulou o “princípio da responsabilidade” voltado às gerações futuras, defendendo uma nova ética capaz de reconhecer a fragilidade do mundo natural. Em tempos de crise climática, a renovação ética torna-se uma necessidade existencial ligada à preservação da vida em todas as suas formas.
Diante desses exemplos, torna-se evidente que a renovação ética não nasce de decretos, mas de transformações sutis na consciência. Ela começa quando o indivíduo compreende que sua identidade não anula a humanidade compartilhada, que sua força não legitima a dominação e que sua pertença não justifica a exclusão. Em tempos de divisão, pode ser tentador apegar-se ao interesse imediato; contudo, a história mostra que sociedades que negligenciam sua dimensão ética mergulham em ciclos de violência difíceis de romper.
Literatura, filosofia e ciência não são esferas isoladas da vida cotidiana, mas laboratórios de sentido. Quando um poeta escreve sobre a dor do outro, redistribui a luz sobre áreas esquecidas da consciência. Quando um cientista reflete sobre o impacto de nossas escolhas no planeta, coloca diante de nós um espelho do futuro. Quando um filósofo questiona justiça e liberdade, abre caminhos para reconstrução.
A renovação ética, portanto, não é luxo intelectual, mas condição para a sobrevivência do sentido em um mundo fragmentado. É um percurso que exige coragem para reconhecer erros, disposição para escutar e capacidade de imaginar um mundo que acolha a diferença sem convertê-la em conflito permanente. Talvez não transforme rapidamente os mapas políticos, mas transforma o ser humano que os desenha.
Ao final, permanece a pergunta suspensa no espaço da reflexão: se o mundo divide terras, riquezas e narrativas, seremos capazes de compartilhar também a responsabilidade e reconstruir uma ética comum que salve nossa humanidade da erosão ou permitiremos que a partilha se converta em fratura irreversível?
Maria Beatriz Munoz RuizImagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69eb6bb3-61ec-83e9-bb8e-2c54388dadd8
Que el tiempo se detenga cada noche; que las horas sean elegantes y lentas ondas que avanzan, sin apenas ser vistas, en el lago, fruto del amor de dos cisnes enamorados que pasean invisibles bajo un techo estrellado. No deseo dormir; mi vida comienza cuando las calles descansan libres de los pasos agitados de aquellos que viven presos en el día, atados, enredados en un ciclo infinito de sueños desechados.
De día… una simple mortal, invisible, vulgar… sin desear ser más.
De noche… un alma que vuela en la oscuridad, acariciada sensualmente por Percy Shelley y atrapada entre los brazos de Lord Byron, acogiendo con agrado sus besos robados, sus labios, su mentira anunciada que me permito creer sin cuestionar nada. El villano de la historia, si la inocencia no hubiera sido borrada de mi cuerpo o simplemente deseara guardar la honra que en aquellos tiempos exigían los hipócritas.
John Keats pasea sus melancólicas palabras y recorre cada centímetro de mi cuerpo con su calma, pero Ibn Hazm me ama con su desgarradora pasión, me posee con cada declaración y me persigue con su mirada como el atributo al nombre, como alguien que nunca abandonará la batalla.
Y después de disfrutar entre las sábanas de versos y eternos ritmos de baladas, converso con Nietzsche sobre la prisión de los hombres, sobre su seguridad construida sobre una idea manipulada. A nuestra conversación se une Charles Baudelaire: cómplice, amigo, camarada… tan parecido a mí, que sus versos con mis opiniones se solapan.
Entonces paseo en la noche; Thomas Hardy me acompaña, pero es demasiado lento y no siempre estoy preparada, así que con una mirada me comprende y corro hacia la nada, hacia la mujer que me entiende como si fuera mi hermana: Emily Dickinson, aquella que apartó el mundo de su puerta creando una hermosa esencia entre aquellas paredes encerrada. Y con los dedos manchados de tinta, en pijama y algo extrañada, me pregunta: ¿Cómo puedes vivir en un mundo que no amas? ¿Cómo puedes ser dos personas tan distintas sin ser juzgada?
Yo me levanto de la cama, miro a través de su ventana y contesto: Cada día y cada noche libré mil batallas, suspiraba por un mundo inexistente, por un mar en calma; soñaba con vivir en un poema, en una de las historias narradas. Ansiaba que el mundo dejara de ser gris, que mi vida cambiara y la gente dejara de disparar a las almas.
Pero comprendí que mi felicidad estaba atada a sus actos, y aquello hizo que reflexionara. Depender de seres ajenos a mi causa es estar presa sin haber deseado entrar en la batalla. Solo yo consigo darme paz; solo yo sé que mi placer acaricia mi piel sin despreciar las cicatrices que de día me dañan. Soy la misma moneda, pero con diferentes caras: sol y luna, hielo y fuego, dulce y amarga. Soy Jane Austen de día y Virginia Woolf de noche, en su habitación propia. Soy complicada, un poco loca; amo la vida, pero detesto el mundo donde se aloja. Ingratas personas…
Vivo de noche, sueño de día, sonrío aunque el mundo no me sonría; porque no espero nada, tengo todo lo que necesito bajo la luna plateada.
Logo da seção Logo da seção O Leitor ParticipaImagem gerada por IA do ChatGPT – 08 de março de 2026, às 10:15
Somos atacadas porque somos mulheres? A sentença já nasce no ventre?
Por sermos mulheres pagamos antes mesmo de existir?
Pela roupa. Pelo corpo. Pela liberdade que insistem em dizer que não podemos ter.
Dizem que foi a roupa. Dizem que foi o horário. Dizem que foi o comportamento. Mas nunca dizem que foi a violência.
Então responda — com coragem e sinceridade:
Qual das mulheres que você ama você entregaria à dor, ao medo, ao sangue?
Qual delas aceitaria ver espancada, violentada, assassinada… e ainda assim procuraria uma justificativa para torná-la culpada?
Porque toda vez que se culpa uma mulher apenas por ser mulher — por viver, errar, existir como qualquer ser humano — a violência encontra abrigo.
Justificar agressões é participar do silêncio. É normalizar o horror.
É permitir que matem uma mulher antes mesmo de tirarem sua vida.
Porque a violência contra uma mulher começa no julgamento.
Culpada porque é mulher. Culpada porque terminou. Culpada pela roupa curta. Culpada porque falou. Culpada porque existiu.
Culpada. Culpada. Culpada.
E o veredito final: apagar quem somos, silenciar o que amamos.
Até quando?
Karla Dornelas
Karla Dornelas
Karla Dornelas, natural de Caratinga (MG), é escritora e poetisa. Membro da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA e da Academia Brasileira de História e Literatura -ABHL, com projetos literários em desenvolvimento, incluindo a reedição de seu primeiro livro de poesias, ‘Simplesmente Você’.
Ao longo de sua trajetória, foi contemplada com menções honrosas por sua dedicação à arte e à literatura.
Sua escrita nasce do olhar sensível sobre o cotidiano, transformando o mundo em experiências poéticas e afetivas.
Com linguagem marcada pela delicadeza, musicalidade e criação de vocabulário próprio, busca dar voz ao invisível e valorizar o que é essencialmente humano, dedicando-se à construção de uma trajetória literária voltada à arte de tocar e transformar o leitor por meio da palavra.
A felicidade é uma métrica, e nós, seus escravos. A ignorância rende poder para alguns, mas o conhecimento gera liberdade para todos. A arte e a vida ora se veneram, ora se repudiam.