O escrever

Milton Gaspar Domingos:
Uma jornada sobre como a arte e o conhecimento transformam o vazio em liberdade e dão voz ao silêncio da alma

Um jovem com cabelo escuro encaracolado e sardas está sentado a uma secretária de madeira, profundamente concentrado a pintar num caderno de esboços. A luz do sol entra por uma janela à direita, iluminando o espaço com uma luz quente e acolhedora. Ele está a pintar uma borboleta com um forte contraste: a asa esquerda é feita de traços pretos e caóticos a carvão ou lápis, enquanto a asa direita é vibrante, pintada com aguarelas e funde-se com flores coloridas. Uma linha que se assemelha a um batimento cardíaco atravessa a parte inferior do desenho. A mesa à sua volta está repleta de materiais de arte, incluindo uma paleta de aguarelas suja de tinta, copos com pincéis, aparas de lápis e vários papéis soltos com esboços geométricos e formas.
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Mais do que pintar o caderno é,
é ver o mundo como ninguém vê
é dar vida, também realidade
ao desejo, e à necessidade

Sim, é aprender no divertimento
Exteriorizar o pensamento
é criar do nada, sim, do vazio
Atender o espírito que em mim crio

É libertar-se, sim, da ignorância
luz ter, livrar-se da inconsciência
É transformar os feios em bonitos

sentir no coração o batimento
É do mudismo não permanecer,
do grito silencioso viver.

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.

Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).

Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.

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Arizona, uma noite entre o rock, o amor e a saudade

O hino elétrico de uma geração que acreditou que a vida, a estrada e o amor podiam durar para sempre. Texto baseado na canção Arizona do Scorpions, de 1982

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato

Imagem noturna numa estrada desértica em frente a um motel com letreiros em néon a dizer "MOTEL VACANCY". Um carro clássico preto está estacionado no acostamento com os faróis acesos. Um jovem de blusão de cabedal preto está encostado ao carro ao lado de uma jovem fantasmagórica e translúcida, envolvida num brilho dourado. No ar, sobre a estrada, flutua uma guitarra elétrica holográfica brilhante feita de linhas de luz douradas. O fundo exibe cactos, montanhas distantes e um céu noturno estrelado.
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Existem músicas que parecem ter sido gravadas não em um estúdio, mas dentro de uma lembrança que a gente ainda não viveu. “Arizona”, dos Scorpions, tem esse jeito de estrada aberta, de noite quente, de juventude sem relógio e de um amor que talvez não tenha durado mais do que algumas horas, mas que, por algum motivo, continuou existindo muito depois que o sol nasceu. Ao ouvi-la, é difícil não imaginar os Estados Unidos dos anos 1980, com seus carros grandes, suas estradas intermináveis, suas jaquetas de couro, os letreiros luminosos dos motéis e aquela promessa tipicamente americana de que a felicidade poderia estar logo depois da próxima curva.

            Havia alguma coisa de ingênuo naquela maneira de sonhar. A América aparecia nos filmes e nas canções como um território onde qualquer rapaz podia pegar o carro, aumentar o volume do rádio e sair em busca de uma aventura que mudaria sua vida. O rock alimentava essa fantasia, e os Scorpions, com suas guitarras carregadas de energia, davam a ela uma espécie de coração elétrico.

            Em “Arizona”, a noite parece pertencer aos jovens, aos encontros inesperados e àquela liberdade que não pede explicações. O protagonista encontra uma mulher, vive com ela uma aventura intensa e transforma algumas horas em uma história digna de ser lembrada por toda a vida.

            Talvez o encanto esteja justamente nisso: ninguém precisa prometer eternidade para tornar um instante inesquecível. Há encontros que não sobrevivem à manhã seguinte, mas deixam uma marca que os anos não conseguem apagar. A garota de “Arizona” parece pertencer a esse tipo de lembrança, meio mulher, meio miragem, como alguém que aparece na estrada, sorri, muda o rumo da viagem e desaparece antes que tenhamos tempo de perguntar seu sobrenome.

            E o rapaz, que talvez tenha acreditado estar vivendo apenas uma aventura, descobre depois que algumas noites não terminam quando a música acaba.

            O filósofo alemão Ernst Bloch escreveu sobre a esperança como uma força que nos faz enxergar possibilidades ainda não realizadas. A juventude talvez seja a forma mais impaciente dessa esperança: acreditamos que o mundo está à nossa espera, que o amor pode surgir em qualquer esquina e que a vida sempre nos concederá outra oportunidade. Nos anos 1980, essa expectativa encontrava no rock uma trilha sonora perfeita. A guitarra parecia anunciar que nada era definitivo, que ainda havia tempo para fugir, apaixonar-se, cometer erros e voltar para casa com histórias que os pais jamais compreenderiam completamente.

            Mas o tempo, esse sujeito sem educação que nunca bate à porta, acaba modificando tudo. Os carros envelhecem, as estradas ganham outros nomes, os amigos se dispersam e as pessoas que um dia dançaram juntas passam a se reconhecer apenas em fotografias desbotadas. Aquela liberdade que parecia infinita ganha o peso das responsabilidades, das contas, das despedidas e dos amores que não encontraram lugar para continuar.

            O que antes era aventura passa a ser saudade, e a saudade tem uma crueldade particular: devolve os sentimentos, mas não devolve as circunstâncias que os fizeram nascer.

            É nesse ponto que “Arizona” deixa de ser apenas uma canção sobre diversão e conquista. Ela se transforma, para quem a escuta muitos anos depois, em uma espécie de máquina do tempo sentimental. A música continua a mesma, mas nós já não somos os mesmos. O riff de guitarra permanece vibrante, enquanto alguma coisa dentro de nós se recolhe silenciosamente. Lembramos de pessoas que talvez nem tenham ouvido Scorpions conosco, de festas em que o mundo parecia caber numa pista de dança, de olhares demorados e de promessas que nunca chegaram a ser pronunciadas. Às vezes, a memória inventa detalhes; outras vezes, é a própria realidade que parece ter sido inventada pela distância.

            Existe uma ternura especial na cultura juvenil daquela época, mesmo quando ela se vestia de rebeldia. Por trás do cabelo comprido, das roupas extravagantes e do volume ensurdecedor, havia uma vontade muito humana de pertencer a algum lugar e ser amado por alguém. O romantismo dos anos 1980 não era necessariamente mais verdadeiro do que o de hoje, mas parecia encontrar mais espaço para o gesto, para a espera e para a expectativa.

             Uma canção podia acompanhar uma viagem inteira, e uma fita gravada especialmente para alguém carregava uma declaração que muitas vezes a timidez não permitia fazer pessoalmente. Hoje, podemos enviar centenas de mensagens em poucos minutos; naquela época, às vezes era preciso esperar dias para descobrir se alguém ainda pensava em nós. E talvez essa demora, por mais angustiante que fosse, ensinasse alguma coisa sobre o valor de esperar.

            A inocência, porém, não desaparece de uma vez. Ela vai se perdendo aos poucos, quando descobrimos que nem todo encontro se transforma em romance, que nem toda paixão suporta a vida cotidiana e que algumas pessoas chegam apenas para nos mostrar uma versão de nós mesmos que desconhecíamos. O rapaz de “Arizona” talvez tenha vivido uma noite extraordinária sem imaginar que, muitos anos depois, a lembrança de uma aventura poderia carregar também a melancolia de tudo aquilo que não voltou. Afinal, até a felicidade pode doer quando se torna passado.

            É curioso pensar que o chamado modo americano de vida, tantas vezes associado ao consumo, à velocidade e à busca incessante pelo prazer, também tenha produzido imagens tão românticas de liberdade.

            A estrada representa a possibilidade de partir; o carro, a intimidade de um pequeno mundo em movimento; o rock, a recusa em aceitar que a existência seja apenas uma sucessão de obrigações. Mas toda estrada pressupõe uma distância, e toda partida carrega a possibilidade de não haver retorno. A liberdade é sedutora justamente porque abre caminhos, embora não nos diga quais deles valerão a pena.

            Talvez seja por isso que continuamos ouvindo essas músicas. Não porque desejamos voltar literalmente aos anos 1980, mas porque sentimos falta da pessoa que éramos quando ainda acreditávamos que o futuro guardava todas as respostas. Arizona, nesse sentido, não é apenas um lugar no mapa americano. É um território íntimo, construído com guitarras, noites quentes, beijos inesperados e despedidas que só compreendemos muito tempo depois. É o nome que damos àquela parte da juventude que permanece viva, mesmo quando já não sabemos exatamente onde deixamos suas chaves.

Quando a música termina, a vida continua, como sempre continuou. O rádio silencia, a estrada fica para trás e a manhã revela as coisas que a noite preferia esconder. Ainda assim, alguma coisa permanece. Talvez seja a lembrança de uma mulher, o som de uma guitarra ou simplesmente a certeza de que, por algumas horas, estivemos inteiramente vivos.

            E isso não é pouco. Porque envelhecer não significa apenas acumular anos; significa descobrir que os momentos mais preciosos quase nunca avisam quando estão acontecendo. Na juventude, queremos que a noite nunca termine. Mais tarde, tudo o que desejamos é poder escutar novamente aquela canção e, por três ou quatro minutos, sentir que ainda existe uma estrada aberta diante de nós, que o amor não chegou tarde demais e que, em algum lugar distante, Arizona continua esperando por quem um dia acreditou que a vida podia ser tão simples quanto um carro, uma guitarra e dois corações perdidos na mesma noite.

Clayton Alexandre Zocarato

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Na senda do indomável

Na senda do indomável, Pietro Costa liberta o cavalo rubro da poesia contra o caos das horas

Pietro Costa
Pietro Costa
Imagem gerada pela IA do ChatGPT

Não me detenho
na contagem dos anos.
O tempo, por si, não se explica.
Somamos enganos.

Nem no relâmpago a esbravejar
seu brevíssimo clarão de eternidade,
nem nos insetos que ficam a tramar
a política do ínfimo, da minuciosidade.

Pouco me pesa ou chega a estarrecer
se corvos guerreiam pelo azul do céu
ou se o sol, exausto de cálido, declina
como um deus que aprende a morrer.

Que importa o orvalho e sua poética,
quando a manhã já nasce fatigada?
Ou a ciência, sem assombro e patética,
olvida o espanto primeiro, melindrada?

Sonhei que sonhava o próprio sonho,
nada de estranho e sem merecer alarde:
nossa consciência é um labirinto bisonho
que é reconhecido tarde, bastante tarde.

Mas há um gesto,
um quase nada,
que redime o caos das horas:
o sinal do poeta.

Esse cavalo rubro, indomável,
que irrompe na noite dos homens
e fere o silêncio com sentido.

Ele cavalga
entre a vida e a morte,
sem pedir licença ao medo,
sem dobrar-se à lógica do útil.

E eu,
fugitivo da vida menor,
abandono os muros domesticados,
seus tijolos de cautela e hábito,
para subir,
ofegante e lúcido,
a ladeira do desassossego,
onde o verso não explica:
revela.

Pietro Costa

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A invenção de quem somos

Nicole Menezes Martins:
entre memórias, escolhas e medos, a descoberta de quem podemos ser

Descrição detalhada (para leitores de ecrã ou acessibilidade alargada):
A imagem apresenta a marca do projecto. No topo, destaca-se o texto "Jovens Talentos" escrito numa fonte preta com serifa. Por baixo da frase, encontra-se a silhueta em preto e tons alaranjados de um grupo de cerca de dez jovens com os braços erguidos e de mãos dadas num gesto de união e celebração. Abaixo da figura, sobressai a inscrição "Jornal Cultural" em letras azuis e, em maior destaque no fundo, o logótipo "ROL" antecedido por um símbolo geométrico laranja.
Logotipo da seção Jovens Talentos
Jovem mulher diante de caminhos que se dividem, cercada por imagens e sombras que simbolizam memória, identidade e escolhas.
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Talvez uma das coisas mais curiosas sobre a vida seja a quantidade de coisas que deixamos de viver não porque não as desejávamos, mas porque, em algum momento, tivemos medo de tentar. O tempo passa, as pessoas seguem caminhos diferentes e, muitas vezes, aquilo que permanece não é exatamente a pessoa, mas a possibilidade. Talvez seja por isso que uma frase do texto tenha ficado tanto na minha cabeça: “e o amor platônico, às vezes, é eterno só porque nunca foi real”. Existe algo de incômodo nisso. Às vezes queremos tanto alguém que construímos uma imagem quase perfeita justamente porque nunca tivemos a oportunidade de descobrir quem aquela pessoa realmente era. O que permanece, então, não é necessariamente o amor por alguém, mas o apego ao que poderia ter acontecido. E talvez transformar o “e se?” em uma memória seja uma das formas mais silenciosas de perder alguma coisa.

Não acho que isso signifique que devemos tentar controlar o tempo ou fazer tudo acontecer à força. Se você ama alguém, talvez valha a pena dizer. Tentar. Permitir que algo exista fora da imaginação. Se o tempo acabar separando duas pessoas, talvez simplesmente não fosse o momento. E, se a vida as colocar novamente no mesmo caminho, talvez exista uma nova possibilidade. O ponto não está em garantir um resultado, mas em não permitir que o medo seja o único responsável pelas escolhas que fazemos.

Talvez essa dificuldade de agir esteja profundamente relacionada ao modo como construímos nossa própria identidade. Acredito que existam muitos fatores envolvidos: comparação, crenças, medo da rejeição, necessidade de aceitação e experiências que nos ensinam, pouco a pouco, a esconder determinadas partes de nós. Na infância, parece existir uma relação mais espontânea com o simples ato de ser. A criança não precisa pensar o tempo inteiro sobre como está sendo percebida para existir. Mas, conforme cresce, começa a descobrir que ser quem é nem sempre é recebido com acolhimento. Às vezes sofre bullying, preconceito, rejeição ou simplesmente percebe que determinadas características suas são menos aceitas naquele ambiente. Então aprende a criar um personagem.

O problema talvez não esteja em criar esse personagem. Em certos momentos, ele pode até ser uma forma de proteção. O problema começa quando esquecemos que ele foi criado. Depois de tanto tempo desempenhando determinado papel, podemos nos identificar profundamente com ele e passar a acreditar que aquilo é quem somos. O personagem deixa de ser uma estratégia e passa a parecer identidade. E talvez seja justamente aí que aconteça um dos maiores esquecimentos humanos: não esquecer fatos sobre nós mesmos, mas esquecer que somos maiores do que as definições que aprendemos a sustentar.

Por isso, talvez a memória tenha uma função diferente daquela que normalmente atribuímos a ela. Uma memória não precisa ser uma verdade imutável sobre quem fomos. Ela é o registro de algo que, em determinado momento, nos marcou. Quando alguém procura um lugar para voltar, talvez não esteja procurando necessariamente um espaço físico. Talvez esteja procurando uma sensação, uma forma de existir, uma versão de si mesma que parecia mais próxima de alguma coisa essencial. A saudade, nesse sentido, pode não ser apenas daquilo que aconteceu, mas também daquilo que poderíamos ter sido.

O passado, entretanto, não pode ser reconstruído. Podemos observá-lo, compreendê-lo e aprender com ele, mas não precisamos permanecer presos a ele. Talvez o caminho não seja voltar a ser quem éramos, mas trazer para quem somos hoje aquilo que havia de verdadeiro naquela versão. Recuperar uma espontaneidade sem recuperar a ingenuidade. Recuperar a coragem sem abandonar a consciência. Olhar para trás não para morar no passado, mas para reconhecer partes de nós que ficaram esquecidas no caminho.

Isso também muda a maneira como enxergamos as outras pessoas. Vivemos em uma época em que frequentemente vemos apenas aquilo de que gostamos ou não gostamos em alguém. Muitas vezes, enquanto outra pessoa fala, já estamos preparando uma resposta, uma defesa ou um julgamento. Escutamos menos do que pensamos que escutamos. Talvez compreender alguém exija justamente uma espécie de redução do próprio ego: aceitar que uma pessoa é complexa demais para caber em uma única definição. Ninguém é apenas uma característica, uma escolha, um erro, uma opinião ou uma fase da vida. E isso vale também para nós mesmos.

Talvez nos rotulemos tanto que esquecemos que estamos constantemente mudando. Uma pessoa pode ser contraditória, mudar de ideia, amadurecer, regredir, aprender, esquecer e reconstruir-se inúmeras vezes. Isso não significa que não exista identidade, mas que identidade talvez seja menos uma coisa fixa e mais um processo. Somos influenciados por aquilo que vivemos, pelas pessoas que encontramos, pela cultura, pelas crenças que aprendemos e pelos ambientes que habitamos. A questão não é escapar completamente dessas influências — provavelmente isso seja impossível —, mas perceber que elas existem.

É nesse ponto que a discussão sobre tecnologia e sociedade se torna interessante. Talvez seja simplista tratá-la como algo simplesmente bom ou ruim. A pergunta mais profunda é quem constrói esses ambientes, quais incentivos existem dentro deles e de que maneira eles moldam nosso comportamento. Byung-Chul Han ajuda a pensar sobre isso quando discute como o “você pode” pode transformar-se silenciosamente em “você precisa”. Ninguém necessariamente nos obriga a produzir o tempo inteiro, responder imediatamente, estar disponíveis ou melhorar constantemente. Ainda assim, podemos acabar internalizando essas exigências e cobrando de nós mesmos aquilo que antes vinha de fora.

Isso levanta uma questão importante sobre autonomia. Nossas escolhas continuam sendo nossas, mas não acontecem no vazio. Escolhemos dentro de ambientes, possibilidades, valores e estruturas que já existiam antes de nós. Talvez autonomia, então, não seja a ausência completa de influência, mas a capacidade de perceber as influências que nos atravessam e, mesmo assim, escolher conscientemente. A pergunta deixa de ser apenas “eu escolhi?” e passa a ser “eu consigo perceber por que estou escolhendo isso?”.

Essa mesma questão aparece dentro de nós. Existe uma diferença enorme entre ter um pensamento e acreditar que somos aquele pensamento; entre sentir uma emoção e acreditar que precisamos agir imediatamente de acordo com ela. Talvez liberdade não seja fazer tudo aquilo que desejamos, mas ampliar nossa capacidade de escolha. Existe um pequeno espaço entre o estímulo e a resposta, e talvez seja justamente nesse espaço que nasce o discernimento. Não precisamos deixar de sentir medo, raiva, tristeza ou insegurança para sermos livres. Precisamos conseguir perceber o que está acontecendo antes de transformar automaticamente aquilo em ação.

Talvez o mesmo aconteça com nossas crenças. Muitas vezes tratamos interpretações que aprendemos ao longo da vida como se fossem verdades absolutas sobre quem somos. “Eu sou assim”, “eu não consigo”, “isso não é para mim”, “as pessoas vão me rejeitar”. Mas de onde veio cada uma dessas certezas? Quantas delas nasceram realmente de uma escolha consciente e quantas foram construídas a partir de experiências, medo, comparação ou necessidade de pertencimento?

Talvez consciência seja justamente começar a fazer essas perguntas. Não para desconfiar de tudo o que somos, mas para diferenciar aquilo que escolhemos daquilo que simplesmente aprendemos a repetir. Talvez amadurecer não seja chegar a um estado em que nada mais nos afeta, em que finalmente somos imunes ao medo, às opiniões ou às circunstâncias. Talvez seja perceber cada vez mais aquilo que antes acontecia automaticamente e conquistar, pouco a pouco, a possibilidade de escolher diferente.

No fim, talvez o que mais nos aprisione não seja o passado, o tempo, a tecnologia ou sequer as outras pessoas, mas a inconsciência com que atravessamos tudo isso. O passado não pode ser mudado, mas pode ser compreendido. O futuro não pode ser garantido, mas pode ser construído. As influências não podem ser eliminadas, mas podem ser percebidas. E aquilo que sentimos não precisa determinar aquilo que fazemos.

Talvez viver seja justamente esse movimento entre receber aquilo que a vida nos oferece e decidir o que faremos com isso. Não voltar a ser quem éramos, nem tentar controlar quem seremos, mas reconhecer, no presente, aquilo que ainda é verdade em nós. Porque talvez a pergunta mais importante não seja “quem eu fui?” ou “quem eu deveria ser?”, mas simplesmente: diante de tudo o que me aconteceu, quem eu escolho ser agora?

Nicole Menezes Martins

Nicole Menezes Martins, aluna do 3º ano do ensino médio do curso técnico com ênfase em Administração de Empresas da Etec de Novo Horizonte (SP), é orientanda do professor clayton Alexandre Zocarato.

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Palavra em território

Mario Antonio Rosa: Palavra em território – O sonho do tempo II e a definição da Poesia Latino-Americana

Mario Antonio Rosa
Mario Antonio Rosa
O sonho do tempo 2. Poesia venezuelana atual (Alberto Martínez-Márquez e Mirih Berbin, editores; Letras Salvajes, Moca, Porto Rico / Valência, Venezuela, 2026)
Capa do livro O sonho do tempo 2. Poesia venezuelana atual (Alberto Martínez-Márquez e Mirih Berbin, editores; Letras Salvajes, Moca, Porto Rico / Valência, Venezuela, 2026)

Mario Antonio Rosa

“Entrei na região estreita.
Tudo o que canta se reúne aos meus pés
como bandeiras que o tempo inclina…”*

Rafael Cadenas

Entrar no território. Buscar-se íntimo ou compartilhado pelas cadências de uma voz dificilmente próxima do tédio. Dizer poesia como clima e como aviso; levar, depois, a nave construída para águas livres, adquirindo, desde logo, uma cidadania na palavra. O poeta, a quem sempre considerei intérprete e tradutor da sempre buscada condição humana, é, talvez, a luz mais urgente entre os numerosos guias que envelhecem ao definir uma humanidade. Essa nave-memória de Nemo, o personagem de Verne, que ali renuncia ao mundo da superfície para singrar os mares em liberdade, fala-nos de um todo que se abraça a uma verdade poética e à sempre relevante atualidade que a poesia expõe, adverte e impõe aos sentidos e, quem sabe, à alma.

A Venezuela nos ocorre, então, belamente próxima. A irmandade nos envolve em sua grandeza de luz. Tudo acontece e, se assim é, a poesia venezuelana é um coração. No entanto, talvez não haja extensão eletrônica neste escrito para falar de um universo revelador e audacioso, de uma poesia investida dos poderes de uma mensagem, de uma invenção fresca na palavra. Agora, ficará muito por dizer; o tinteiro costuma ser profundo, e outras vozes darão continuidade ao acontecimento. É isso que acontece na chave da boa poesia.

O sonho do tempo 2. Poesia venezuelana atual (Alberto Martínez-Márquez e Mirih Berbin, editores; Letras Salvajes, Moca, Porto Rico / Valência, Venezuela, 2026) constitui uma cartografia poética da Venezuela contemporânea. Reúne a obra de 31 vozes poéticas provenientes de diversas regiões do país, oferecendo uma leitura panorâmica das buscas estéticas e discursivas que marcam o presente literário venezuelano. A antologia se articula como um espaço de polifonia, no qual a poética funciona como refúgio, testemunho, linguagem de resistência e reconstrução da memória histórica e afetiva. Em meio aos processos conjunturais do país, a antologia projeta a poesia não como uma perda, mas como uma “casa” simbólica e uma ponte para a permanência… a nave em chamas, em uma rota que se dá a conhecer diante do mundo.

Em seu prólogo, a antologia situa o ponto de partida epistemológico e estético da poesia contemporânea em quatro grandes figuras tutelares do século XX venezuelano: Reynaldo Pérez (1945–2023), em sua voz imediata e contemplativa, círio de orientação para várias gerações de poetas; Víctor “El Chino” Valera Mora (1935–1984), com uma poesia de longo fôlego, entrelaçando tom apaixonado, urgência histórica e linguagem lírico-política; Ana Enriqueta Terán (1918–2017), transeunte intocável desde o soneto clássico até o verso livre, ligada à paisagem andina e à estética do humano; e, naturalmente, Rafael Cadenas (1930), Prêmio Cervantes (2022), poeta da exploração dos estados de consciência e cuja voz nos arrasta para um mundo mágico, abrindo o mirante reflexivo que deve dominar a visão humana, isto é, de outro reino emergente.

Essas correntes, cada uma em seu estado de criação, vão nutrindo as vanguardas e os grupos poéticos venezuelanos, como Sardio, El Techo de la Ballena, Tráfico e Guaire, cuja projeção no século XXI se manifesta no panorama antologizado por meio do diálogo entre o lirismo social, o intimismo filosófico, a performance e a poesia de protesto ou resistência urbana.

Cada poeta desta antologia assume o entorno com sua poesia grave, repleta de signos e mensagens. Bastariam essas bússolas, embora confesse que a unidade desses 31 poetas é poderosa, intuitiva, reveladora, presente. Assim, no percurso, encontramos a poeta Lilia Ferrer-Morillo, com sua memória afrodiaspórica, a identidade camponesa e a denúncia contra a marginalização. Sua poesia possui um ritmo de reivindicação e resistência:

Anseiam que eu não seja
essa pessoa de bem que elas encarnam,
interpretam, encenam, representam,

que eu me cartografe periférica, forasteira,
lunfarda, malfeitora, caloteira,
alheia à centralidade
e à moralidade de sua própria casta
malfeitora…

(Gente de bem)

Róger Herrera Rivas, escritor, ator, dramaturgo e artista plástico, brilhando na coordenada sob o signo de Antonin Artaud, com uma poesia pessoal, afiada em uma música interior e em uma consciência do poeta contra o mundo. Artaud defendia um teatro capaz de impactar os sentidos do espectador. Era, sem dúvida, a intensidade que a poesia exige de sua criação e de sua força:

Meu ofício é ser cidadão,
despedir-me sem mágoas
de ilusões e totens,
abrir navalhas, franzir a testa,
sacrificar-te o húmus
para me sentir bem em meu ofício
de homem de esquina, de ruído de lata
ou de poeta;
meu ofício é ser cidadão.

(Ofício)

Juan Lebrun, por sua vez, propõe-nos a investigação metapoética, a contemplação da paisagem e o jogo fônico da linguagem. Sua estética resgata o assombro e a desmontagem dos limites poéticos formais. É frequência para um grande viajante:

Quão pouco sei, Juan,
dos rumores que vêm das ruas
e das folhas caindo em sua sonora paisagem
de rubores cortados pelo vento.
Não saber é andar pelo bom caminho.
Não saber dessa forma é uma depressão revolvendo minha alma,
um estar atento a não saber o quê…
e estar sempre acreditando na surpresa.

(A Sofía Mogollón)

Yurimia Boscán e a forja do tempo, lugar e existência, metal que sustenta, talvez, o que há de mais imóvel no ser, unindo-se às despedidas, à memória familiar e ao espaço doméstico. Seu estilo é de uma sobriedade afetiva, com imagens cotidianas carregadas de melancolia. Mas é precisamente aí que dialoga uma vertente poética inesperada:

Condenada à minha cotidianidade,
Deus é monossílabo.
Sei às vezes leva acento e outras não (é diacrítico), como eu.
Cozinha é uma palavra grave (muito grave).
Coração é uma palavra aguda (talvez por isso doa tanto).
Lençol é uma palavra esdrúxula,
como escape, sacuda-se, dispa-se.

Meu nome é substantivo próprio,
poeta é comum,
angústia é abstrato,
humanidade é coletivo…

E, daí, acende-se um continente feito palavra por palavra. Cada um dos 31 poetas carrega a urgência de um manifesto poético; é uma antologia que vive, que se lê e que se aspira, buscando-nos alguma vez na verdadeira poesia. O sonho do tempo 2 reafirma a vitalidade da poesia venezuelana no contexto hispano-americano contemporâneo.

Ao oferecer um corpus diversificado de vozes que escrevem a partir da vivência territorial e do desenraizamento, a antologia demonstra como o fato poético opera como resistência cultural e reconstrução simbólica. Sua contribuição para a literatura latino-americana está em articular um mapa de polifonias discursivas que dialogam diretamente com as grandes vertentes continentais: do neobarroquismo e da poesia social às escritas do corpo, da afro-feminilidade e do questionamento da linguagem. A compilação confirma que, diante da dispersão ou das crises históricas, a poesia venezuelana continua sendo um espaço fundamental de investigação e permanência estética.

É, finalmente, o território, sem fim nem começo… uma liberdade:

Ser livre é compreender nossas correntes
ao sentir seu peso morder nossa pele.
É pupila que escolhe ver o infinito
sem paredes que detenham seu olhar.
A ave não pede permissão ao vento para voar.
Suas asas
são cartas abertas ao azul extenso…
elas escrevem sua própria rota.

(Ernesto Marrero Ramírez,
Asas de liberdade)

Mario Antonio Rosa

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Uma fuga austera

Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi: quando a sombra se liberta do peso do ‘Eu’

Mustafa Al-Sumaidi
Mustafa Al-Sumaidi
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Minha sombra me deixa na calçada
e caminha sozinha
pela rua em frente a mim.

Ela escapa de dentro de mim,
dos recônditos ocultos da alma,
onde o não dito encontra uma voz
sobre minha língua.

Ela não precisa de sapatos,
nem de guarda-chuva,
nem de cigarros…
Nunca verifica os bolsos
como eu faço.

Atravessa no sinal vermelho,
indiferente aos carros que passam
ou às vitrines das lojas.

Cumprimenta as lojas
pelas quais já não ouso passar,
e sorri para os transeuntes
que conheço pelo nome.

Quando vê um rosto desconhecido
vestindo exatamente as roupas que eu visto,
desaparece atrás
de uma placa abandonada.

Retoma sua caminhada
ao perceber que
não fui eu quem a viu,
como se para sempre
estivesse fugindo do meu corpo,
cujos passos se tornaram pesados,
e somente ela conseguisse libertar-se
de um nome chamado “Eu”.

Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi

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Voar

Laskiaf Amortegui: Poema ‘voar’

Laskiaf Amortegui
Laskiaf Amortegui
Imagem criada pela IA do Gemini, em 07 de julho de 2026, às 10h19
Imagem criada pela IA do Gemini, em 07/07/2026, às 10h19

VOAR

para voar ou morro para voar…

​Voar acima dos meus preceitos, às vezes, torna-me uma pessoa melhor.

Voar acima dos meus sonhos: isso faz-me infeliz.

Voar sem deixar rasto, isso entristece a minha alma.

Voar sacudindo as nuvens: isso gera uma chuva de esperanças.

Voar para além do tempo glorifica-me.

Voar sem bater as minhas asas escraviza-me.

Voar, sempre voar e dançar entre quimeras de cores efémeras.

Voar e voar, devo voar, ainda que seja com o pensamento.

Laskiaf Amortegui

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