Retratos de tia Gertrudes

Uma misteriosa figura familiar e sua persistente recusa em dividir os retratos do passado

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma cena rústica e nostálgica vista de perto. Sobre uma mesa de madeira envelhecida, encontram-se dois grandes álbuns de recortes abertos que exibem fotografias antigas a preto e branco de várias pessoas. Sobre a mesa estão também espalhados uma fotografia solta de uma mulher, uns óculos de leitura, um pequeno ramo de folhas secas, um bilhete com texto manuscrito, um naperão de renda e uma chávena. Ao fundo, uma janela de madeira rústica e aberta enquadra uma paisagem campestre serena com colinas verdes, palmeiras e algumas casas sob um céu ligeiramente nublado.
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Tia Gertrudes pouco conheci. Quer dizer, ainda guardo lembranças enevoadas daquela figura o quão taciturna pode ser alguém cuja magreza ultrapassasse as parcas carnes. Rabugenta que fosse, continuava da família. 

    Solteirona, vovó costumava dizer sobre a primogênita. Entretanto, a minha tia se recusava a carregar rótulos impostos pela sociedade, especialmente aqueles reverberados pelos lábios da própria mãe.

    — Livre, mamãe. Livre!

    — Você nasceu mulher, Gertrudes. Mulheres não são livres, jamais serão. É sina. Melhor que se aprume antes que seja tarde demais.

    Minha avó tinha lá suas ideias, a maior parte reproduções do que aprendera, seja nos parcos anos nos bancos escolares, seja nas cacetadas que levou na lida com os homens. Não a culpo nem a eximo, coisas que não vivi por completo.

    Talvez o hábito mais marcante de tia Gertrudes fosse a relutância em se deixar fotografar ao lado de quem quer que fosse, inclusive de parentes mais próximos e, em especial, de namorados de ocasião. Certa feita, fui eu o preterido.

     — Mas, titia, sou eu, seu sobrinho favorito.

    — A gente nunca sabe o dia de amanhã, Marquinhos.

    É engraçado quando alguém me visita e eu, quando a prosa é boa, resolvo lhe mostrar alguns álbuns de família. Vez ou outra, um observador mais atento fica intrigado com aquela figura isolada em inúmeros retratos.

    — É a tia Gertrudes, irmã de papai.

    — E por que ela sempre aparece sozinha?

    De vez em quando, sinto que algum espírito brincalhão me baixa e cisma em brincar com as verdades. 

    — Ah, é que a tia Gertrudes não gostava de ofuscar ninguém com a sua beleza estonteante.

    Até hoje, ninguém ousou contrariar a minha resposta, que segue como veredito de um tempo que passou mais rápido do que eu esperava. Dizer que tia Gertrudes pudesse ofuscar alguém com a sua aparência pode parecer um absurdo, e não travo imbróglios desnecessários contestando tal hipótese. O que importa, o que importa de verdade é que ela, apesar de não estar há anos entre nós, continua sendo da família.

Eduardo Cesario-Martínez

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