Um certo Edmundo Donato

Descubra a história por trás do jornalista que sonhava em viver da literatura e marcar gerações.

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Não era de briga, ainda mais depois da última surra que levou quando ainda estava nos primeiros anos na escola.  Se aquilo fazia parte do mundo masculino, ele preferiu seguir pelo caminho da literatura e, desde então, embrenhou-se entre páginas amareladas dos livros da estante do avô. 

          Começou por volumes da Coleção Vaga-Lume, quando se apaixonou pelas obras do escritor Marcos Rey: O mistério do cinco estrelas, O rapto do garoto de ouro e Um cadáver ouve rádio. Que mundo era aquele? Não teve dúvida e arriscou-se a abrir o coração para o avô.

            — Quero ser escritor.

            — Hum! Já falou isso pros seus pais?

            — Papai talvez não diga nada, mas mamãe vai me matar.

            — Por quê?

            — Porque quer me ver advogado ou médico.

            — Não.

            — Não?

            — Não perguntei isso. Por que quer ser escritor?

            Edmundo Donato pensou, pensou, pensou… 

            — Não posso?

            — É óbvio que pode.

            — Então?

            — Então, o quê, Edmundo?

            — Então, quero ser escritor. 

            Os anos seguintes foram de muitas descobertas. Edmundo passou por vários autores. Apaixonou-se por alguns, mas invejava apenas um: Afonso Henriques de Lima Barreto. Tanto é que enfrentou a mãe diante do pai mudo.

            — Mamãe, quero ser jornalista.

            — Jornalista, Edmundo? Quer morrer de fome? 

            — De fome não morro, mamãe.

            — E você acha que vai ter a mim e seu pai durante toda a vida.

            — Não, mamãe.

            — E por que é então que você diz com tanta certeza que não vai morrer de fome, meu filho?

            — Antes morro de desgosto entre processos e agulhas, mamãe.

            Edmundo virou jornalista. Não chegou a morrer de fome, mas longe de degustar caviar. Suficiente para ter uma vida pouco acima do modesto, o que, aos seus olhos, era mais do que satisfatório. No entanto, faltava-lhe algo.

               Durante uma conversa com um colega de redação, no Bar do Bosco, na 709 Norte, em Brasília, Edmundo levantou a questão que o frustrava.

                — Sabe, Bartô, quero ser escritor.

                — Nem sabia que você escrevia, Edmundo.

                — Um pouco.

                — E do nada você quer virar escritor?

                — Não é do nada. Virei jornalista por causa do Lima Barreto.

                — Pois eu virei por causa do José Seabra.

                — Excelente referência. Mas eu queria ser que nem o Lima.

                — Logo tu?

                — E por que não eu?

                — Nunca que você vai ser que nem o Lima Barreto.

                — Tá! Mas me dê uma razão. Uma única razão!

                — Edmundo, tu é um arregão!

                 — Alto lá, meu amigo! Arregão não!!! Cauteloso.

Eduardo Cesario-Martínez

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Dica de Leitura: Nicanor Pereira indica o livro 'Triste Fim de Policarpo Quaresma', de Lima Barreto


DICA DE LEITURA: o
 colunista Nicanor Filadelfo Pereira fala
de sua relação literária e afetiva com o livro de Lima Barreto

 

O Jornal ROL está inaugurando uma nova Categoria de textos: Dica de Leitura!

A ideia da nova Categoria – bem como o próprio título dela – surgiu a partir do envio de um texto encaminhado pelo colunista Nicanor Filadelfo Pereira, no qual ele expõe sua relação literária e afetiva com um livro que o impressionou muito na sua juventude: o romance ‘Triste Fim de Policarpo Quaresma’, de Lima Barreto.

Decorrente da manifestação literária espontânea e de cunho emocional de Nicanor Pereira, o jornal ROL entendeu que, além da Categoria ‘Livros Recomendados pelo ROL’, o jornal também deve ter outra em que, mais do que se divulgar a capa e a sinopse dos livros recomendados, o autor da Dica exponha, também, o sentimento envolvido na relação com o livro sob comentário.

A nova Categoria, desta forma, publicará textos semelhantes dos demais colunistas, bem como de leitores do jornal.

Eis, assim a Dica de Leitura, de Nicanor Filadelfo Pereira:

Em 1967, eu, assinante do Clube do Livro, li, com o olhar de um jovem, o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma. Encantei-me com o enredo, com o inusitado da obra. Hoje, amadurecido pelos embates da vida, com a nova visão de mundo, calejado pelas vicissitudes, intercaladas de sucessos e alegrias, o releio, e posso dizer, seguro, que Lima Barreto não escreveu um livro, externou a sua alma!

Se desejar ler, pode encontra-lo em PDF em:

Domínio Público, da Fundação Biblioteca Nacional, no site:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000159.pdf

Obra datada de: Todos os Santos (Rio de Janeiro), janeiro – março de 1911.