Ainda cedo o corpo ao silêncio

A embriaguez do mundo na poesia de Ella Dominici

Ella Dominici
Ella Dominici
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Ó sopro infiel, renasce
onde as águas me esperam.
Ainda hei de cantar, ao entardecer,
as deusas que arranquei
de seus cintos de sombra.
Sucos de uva queimam meus lábios,
cachos vazios brilham ao sol,
e eu respiro neles
a embriaguez do mundo.

Libélulas-lembranças retornam
em teimosas asas:
a nuca molhada, o riso fugidio,
braços que se enredam no meu sono
e se dissolvem na claridade.

Tentei deter-vos,
mas fostes rosas desfolhadas ao sol;
o vosso perfume
nasceu para escapar.
Almejo, assim, cada fruto maduro
que se rompe ao toque;
cada abelha que murmura
no calor da seiva
devolve-me o desejo.

O dia se curva.
A mata veste-se de ouro e cinza
e, sobre sua lava, repousa
a rainha dos meus sonhos.
Retê-la é dar à sombra
consciência de sua fuga.
Agora cedo o corpo ao silêncio.
Bebo luz, sorvo vinho
e sigo o rastro que de ti resta,
já transformado em penumbra.

Destila-te em mim, diva noite.
Desce em véus de silêncio e âmbar.
Teus passos confundem-se com a brisa,
tua pele dissolve-se no orvalho,
tua boca reinventa-se
no silêncio.

Ainda assim, és minha:
presença que não se prende,
ausência que me embriaga,
clarão que me cega
e chama que não se apaga

Ella Dominici

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