Phendula

Entre as dores do tempo, as feridas da história e o clamor místico a N’ZAMBI: a força visceral e a resistência da alma africana na poesia de Ismaél Wandalika

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika
Cartaz promocional do poema "PHENDULA" do autor Wandalika. Destaca-se o retrato de um homem negro de dreadlocks com traje tradicional. Em fundo surgem elementos como a bandeira de Angola, um tambor, o mapa de África, uma praia ao pôr do sol e uma escultura africana. No centro, lê-se: "Um clamor de dor, resistência e esperança" e "N’ZAMBI é a nossa cura!".
Imagem criada pela IA Gemini

‎Fugindo do tempo
‎A dor me cruza no obsoleto
‎Vivo no agrafador do pesadelo de meu túmulo
‎Mendigo meus sentimentos no espetáculo de meu mundo
‎Me Intensifico em cada discrepância de meu quotidiano
‎
‎Cavalgo nos planos escritos no murro
‎levito no mar da vida
‎mergulho no ar atmosférico
‎Abraço a brisa e suas lembranças
‎Absorvo os ventos do vacuo
‎Viajo nas trilhas de minhas melodias
‎Enfermo meu corpo N’ZAMBI provendencia curas…
‎A arte pinta os quadros que a política rotula
‎O artista é o cientista do empirismo lógico
‎Nos átrios clamamos : Phendula, Phendula!
‎A vida soma os alaridos dos batuques nas ondas de uma surfista
‎As palmas salvam a cidade de malícia
‎O caminho escurece a cada partida
‎O mar esconde os segredos mais negros da Europa
‎Os remos são coniventes nessa história
‎Nos átrios clamamos: Phendula! Phendula! Phendula! Phendula! N’ZAMBI é a nossa cura!
‎Os montes desabaram, olhamos nos olhos da esperança que desesperada mente!
‎
‎Fugindo do tempo
‎Nos átrios clamamos :
‎Phendula Phendula N’ZAMBI!
‎
‎A África encanta seus lamentamos
‎O destino veste os pontos de seus escolhidos!…

Soldado Wandalika

Voltar

Voltar




A cama dos casados I

Conto de Makala Sankara Anzuruni — À luz de uma fogueira ancestral, as lições de um velho professor sobre o lugar onde o amor aprende a respirar através das palavras.

Retrato em close do escritor moçambicano Makala Sankara Anzuruni vestindo camisa branca, olhando ligeiramente para cima com um fundo claro decorado com flores vermelhas.
Makala Sankara Anzuruni
Pintura digital de pessoas reunidas ao redor de uma fogueira sob uma grande árvore em uma aldeia africana durante a noite.
https://gemini.google.com/app/8072c724ee29e27e?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

Há camas onde o corpo descansa e outras onde o casamento aprende a respirar

A reunião começou quando a noite já tinha tomado conta da aldeia.

Não havia energia eléctrica. Não havia televisão. Não havia telefone para interromper a conversa. Havia apenas a lua, o som dos grilos e uma fogueira acesa debaixo da grande figueira.

Os homens estavam sentados em bancos de madeira. As mulheres ocupavam as esteiras. As crianças, depois de muitas corridas pelo terreiro, brincavam perto das mães.

Naquela aldeia, quando a noite chegava, a palavra ainda tinha tempo.

No centro da roda estava o professor.

Começou por cantar uma pequena música tradicional. As mulheres responderam em coro. A fogueira estalava, lançando pequenas faíscas para o escuro.

Quando terminou a canção, o professor olhou para os casais.

— Minhas mwanas, para que serve uma cama?

Maboa, que estava sentado perto do fogo, respondeu sem pensar:

— Para dormir, professor.

As mulheres riram.

O professor também sorriu.

— É exactamente por pensarmos assim que alguns casamentos passam a vida deitados e nunca descansam.

Maboa ajeitou-se no banco.

— Professor, cama é cama.

— Não, Maboa. Cama de solteiro pode ser cama. Cama de hospital pode ser cama. Mas a cama dos casados é outra escola.

Janete, que desde o princípio acompanhava tudo com atenção, levantou a mão.

— Professor, então o que se aprende nessa escola?

O professor aproximou as mãos do fogo.

— Aprende-se a conhecer a pessoa que dorme ao teu lado.

— Mas isso não se aprende antes do casamento?

O professor sorriu.

— Antes do casamento aprendemos a gostar. Depois do casamento aprendemos a conhecer.

Algumas mulheres trocaram olhares.

O professor continuou:

— A cama dos casados também é lugar de intimidade. É natural que marido e mulher tenham ali a sua vida de casal. Mas reduzir a cama apenas ao encontro dos corpos é esquecer que o casamento também precisa do encontro das palavras.

A roda ficou silenciosa.

— Há casais que sabem deitar juntos — prosseguiu —, mas não sabem conversar. Sabem dividir a cama, mas não sabem dividir os problemas. Sabem procurar carinho, mas não sabem pedir desculpa.

Janete baixou os olhos.

Maboa mexeu na lenha com um pequeno pau.

— A cama pode ser o lugar onde marido e mulher conversam sobre os filhos, sobre o dinheiro, sobre a machamba, sobre a construção da casa e sobre aquilo que está a pesar no coração.

Uma senhora perguntou:

— Então a cama também serve para fazer planos?

— Serve, sim.

O professor apontou para a casa ao lado.

— Antes de uma casa crescer com tijolos, muitas vezes começa a crescer numa conversa.

Maboa levantou a mão.

— Professor, quer dizer que a cama também é escritório?

— É escritório, conselho de família, lugar de reconciliação e, quando a discussão aperta, até tribunal.

A gargalhada correu pela roda.

— Mas existe uma diferença — acrescentou o professor. — No tribunal, alguém precisa ganhar. No casamento, se um ganha e o outro perde, os dois acabam perdendo.

Janete bateu palmas.

— Essa frase vou levar para casa.

O marido olhou para ela.

— Leva também a lenha.

Todos riram.

Janete respondeu:

— Estás a ver, professor? Já começou o julgamento.

O professor abanou a cabeça.

— É por isso que o casamento precisa de humor. Quando marido e mulher deixam de rir juntos, começam a procurar motivos para rir um do outro.

A mãe de Impwana, uma senhora conhecida por falar pouco e observar muito, levantou a mão.

— Professor, por que razão existem casais que vivem muitos anos juntos e continuam a não se entender?

O professor ficou alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu:

— Porque morar na mesma casa não significa viver na mesma vida.

A senhora baixou a cabeça.

O professor prosseguiu:

— Há marido que conhece o preço do pão, mas não conhece a preocupação da mulher. Há mulher que sabe a hora de o marido regressar, mas não sabe o que ele traz dentro do coração.

O fogo estalou.

Ninguém riu.

— O casamento começa a adoecer quando as conversas diminuem. Primeiro deixam de conversar sobre sonhos. Depois deixam de conversar sobre problemas. Mais tarde, conversam apenas sobre comida, crianças, dinheiro e trabalho.

Maboa levantou novamente a mão.

— Professor, e o dinheiro?

— O dinheiro também precisa de conversa.

Todos olharam para ele.

— Não estou a falar de esconder notas debaixo da esteira — esclareceu. — Estou a falar de planeamento. Marido e mulher precisam de saber quanto ganham, quanto gastam e o que querem construir juntos.

Um homem sentado mais atrás comentou:

— Se a minha mulher souber tudo o que ganho, professor, onde fica a surpresa?

— A surpresa — respondeu o professor — será quando descobrires que o dinheiro acabou antes de o mês terminar.

A gargalhada foi geral.

Maboa até bateu palmas.

Depois, o professor ficou novamente sério.

— Família sem plano é como barco sem remador. Conhece o rio, mas não escolhe a margem.

Janete perguntou:

— E quando um dos dois não quer conversar?

— Começa-se por escutar.

— E se não quiser escutar?

— Fala-se com calma.

— E se continuar sem querer?

O professor olhou para ela.

— Minha filha, há portas que não se abrem com pancadas. Algumas precisam de paciência.

A frase ficou suspensa sobre a roda.

Ao longe, ouviu-se o canto de um galo, enganado pela claridade da fogueira.

O professor fechou o caderno.

— Meus filhos, casamento não é apenas dividir uma casa. É dividir responsabilidades, sonhos, dificuldades e decisões.

Fez uma pausa.

— A cama dos casados é pequena demais para carregar o orgulho de duas pessoas.

Ninguém falou.

— Mas é grande o suficiente para caber uma conversa sincera.

A reunião terminou.

A fogueira continuou acesa por mais algum tempo.

As mulheres recolheram as esteiras. Os homens despediram-se. As crianças foram chamadas para dentro de casa.

Janete caminhou ao lado do marido.

Maboa ficou para trás, procurando o seu chinelo, amarrado com arame.

Naquela aldeia, naquela noite, ninguém precisava de televisão para ocupar o silêncio.

Ninguém precisava de telefone para lembrar que existia alguém ao lado.

Havia a fogueira.

Havia a palavra.

E havia a cama dos casados, à espera de duas pessoas que talvez naquela noite descobrissem que dormir juntos é fácil.

Difícil é acordar todos os dias e continuar a escolher um ao outro.

Porque há problemas que não precisam de uma casa maior.

Precisam apenas de duas pessoas dispostas a sentar-se juntas, conversar com sinceridade e olhar para o mesmo futuro.

Makala Sankara Anzuruni

Voltar

Facebook




Ondaka 6.7

Renata Barcellos entrevista Ondaka 6.7: da oralidade à literatura, a força da palavra africana!

Logotipo da seção Entrvistas ROLianas
Ondaka 6.7. Jovem preto de camisa clara, com livros nas mãos, Fundo preto.
Ondaka 6.7

Minicurrículo: Ondaka 6.7 (Osvaldo Boaventura Francisco), de Porto Amboim, Angola, nasceu aos 06 de Julho de 1994.

Formado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto.

Membro fundador do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, MNIA.

Agente de Desenvolvimento Comunitário com certificação em TFT in Practice – Training for Transformation (metodologia baseada na obra de Paulo Freire).

Curador e Bibliotecário do Mosaiko, onde desenvolve actividades que visam fomentar o acesso ao conhecimento e a participação cívica.

Venceu o Prémio Imprensa Nacional de Literatura 2023 e o Concurso de Contos Celebrando Talentos Literários 2024 da Grace Publisher. Obras Publicadas: Ntangu e Ntima ou A Absoluta Mama Mboze;  Uma Festa Lá No Céu.

Entrevista

1 Como surgiu o interesse pelas letras?

ONDAKA 6.7: O primeiro input me foi dado por um tio que a dada altura veio viver em nossa casa e contáva-nos diversas estórias. Eu nem ler, nem escrever em condições ainda sabia. Isso se me aceitas nessa pergunta incluir as estórias contadas (oralmente) porque os meus pais não tinham livros em casa. E foi muito tempo depois que aquela entrada deu alguma inquietação quando um professor e padre do ensino médio citava vários clássicos da literatura mundial ao dar a sua aula de gramática. E depois, vi-me a fazer letras na universidade. 

2 Quais são os objetivos do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola ?

ONDAKA 6.7: Importa lembrar que a Associação MNIA hoje é uma extensão do pensamento de Viriato da Cruz, primeiro teorizador e activista do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, surgido em 1948, sob o lema “Vamos Descobrir Angola”, que abriu uma nova página na história da literatura angolana. O MNIA agora renovado pretende lutar pela expressão dos interesses populares e da autêntica natureza africana em todas as formas de Arte e Cultura angolana, baseados no sentido estético, na inteligência, na vontade e na razão africanas; desenvolver actividades culturais e educativas que visem sempre a revitalização do lúmen ou energia interior do ser humano.

3 Qual o papel da biblioteca na contemporaneidade? 

ONDAKA 6.7: Continua tendo o mesmo papel, que é de acolher e disseminar conhecimento. Entretanto, vai perdendo o impacto quando não é dinamizada, quando não se vai atrás dos leitores. Numa época como a nossa, em que se acentua o modo breve e imediato de ser, as pessoas vivem desinteressadas do que é essencial. No caso de Angola, por exemplo, além desse desinteresse global, adiciona-se a escassez de bibliotecas públicas e das que existem estão estáticas, desligadas dos desafios actuais. Ainda, agrava-se o facto de a escolas públicas não possuírem bibliotecas. E que os alunos chegam às universidades sem conhecerem uma biblioteca. 

4 Quais são as características de um bom conto? 

ONDAKA 6.7: A brevidade e o impacto. Talvez diria o fascínio provocado pela forma como é trabalhada e/ou condensada a linguagem. Por exemplo, ouvíamos por várias horas o tio a contar inúmeras estórias, mas nós também participávamos respondendo, ora dando um fio aos enredos. Enfim, não consigo desassociar o conto da oralidade. Acho que o conto sai sempre do oral para o escrito, onde deve voltar sempre. O conto é oral!

5 Mensagem ao leitor:

ONDAKA 6.7: Leia(m), porque a leitura é uma forma prazerosa de libertação.

Renata Barcellos

Voltar

Facebook