Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro

Alexandre Rurikovich Carvalho

A Base Histórica da Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro –  Literatura, Memória, Identidade e Preservação do Legado Cultural

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
A arte apresenta uma composição histórico-cultural dedicada à Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro,  unindo literatura, memória e identidade nacional. Em destaque, aparecem José de Alencar, Gonçalves Dias,  Álvares de Azevedo e Castro Alves, grandes referências do Romantismo brasileiro. Na parte inferior, destaca-se  a identificação do autor e do Jornal Cultural ROL.

RESUMO 

O presente artigo analisa a fundamentação histórica, literária e cultural da Comenda Estrelas  do Romantismo Brasileiro, instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências,  Letras e Artes (FEBACLA), como instrumento institucional de reconhecimento a  personalidades e instituições que se destacam por relevantes contribuições à literatura, à  cultura, à educação, à pesquisa, à preservação da memória nacional e à promoção de  valores humanísticos associados ao legado do Romantismo brasileiro.

A instituição da  Comenda encontra inspiração na trajetória e na obra de quatro nomes fundamentais das  letras nacionais: José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves,  representantes de diferentes vertentes do movimento romântico e de momentos distintos da  formação da literatura brasileira oitocentista.

O estudo apresenta aspectos biográficos e  literários desses autores, destacando a construção de uma literatura voltada para temas  nacionais, a valorização da natureza, do indígena, da identidade brasileira, dos sentimentos,  da subjetividade, da liberdade e das questões sociais. Examina-se, ainda, a finalidade da  Comenda, seus destinatários e sua importância como mecanismo simbólico de preservação  da memória cultural.

Conclui-se que a homenagem contemporânea aos grandes  representantes do Romantismo não constitui mera celebração retrospectiva, mas representa  uma forma de manter vivos princípios fundamentais da tradição literária brasileira,  estimulando novas gerações a valorizar a cultura, o conhecimento, a pesquisa, a educação e  a produção intelectual.

Palavras-chave: Romantismo brasileiro; José de Alencar; Gonçalves Dias; Álvares de  Azevedo; Castro Alves; Literatura brasileira; Memória cultural; Honrarias; FEBACLA. 

1 INTRODUÇÃO 

A história da literatura brasileira é inseparável do processo de formação da identidade  cultural do país. Ao longo do século XIX, especialmente após a Independência do Brasil,  escritores, poetas, intelectuais e artistas passaram a participar de um amplo processo de  construção simbólica da nacionalidade, procurando identificar temas, personagens,  paisagens, sentimentos e valores capazes de conferir à literatura brasileira características  próprias. 

Nesse contexto, o Romantismo brasileiro ocupou posição fundamental. Mais do que uma  escola literária, o movimento representou um momento de intensa transformação cultural, no  qual a literatura passou a desempenhar importante papel na construção de imagens do Brasil  e na valorização de elementos considerados representativos da experiência nacional. 

A literatura romântica brasileira desenvolveu diferentes tendências. O nacionalismo e o  indianismo estiveram presentes na primeira geração; a subjetividade, o sentimentalismo, a  idealização amorosa e a temática da morte ganharam força na segunda geração; e,  posteriormente, a poesia social e abolicionista encontrou em Castro Alves uma de suas  expressões mais vigorosas. 

É nesse amplo panorama que se inserem José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de  Azevedo e Castro Alves. Embora tenham produzido obras distintas e pertencido a  diferentes vertentes do Romantismo, os quatro contribuíram para a consolidação de uma  literatura brasileira capaz de expressar aspectos da identidade, da sensibilidade, da história e  das contradições da sociedade oitocentista. 

A Academia Brasileira de Letras reconhece, em sua tradição crítica e memorialística, a  relevância desses autores para as letras nacionais. Gonçalves Dias e José de Alencar, por  exemplo, são associados diretamente ao processo de nacionalização da literatura brasileira,  especialmente por meio do indianismo e da incorporação de temas brasileiros à poesia e à  prosa. 

É nesse patrimônio intelectual que encontra fundamento simbólico a Comenda Estrelas do  Romantismo Brasileiro, instituída pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências,  Letras e Artes (FEBACLA). 

A Comenda pretende transformar a memória em reconhecimento e o reconhecimento em  incentivo à continuidade da produção cultural brasileira. Seu propósito não é simplesmente  homenagear autores do passado, mas estabelecer uma ponte entre a tradição e o presente,  reconhecendo aqueles que, em seu próprio tempo, contribuem para que a literatura, a  cultura, a educação, a pesquisa e a memória nacional permaneçam vivas. 

2 O ROMANTISMO E A FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA 

O Romantismo brasileiro desenvolveu-se durante o século XIX, em um período marcado por  profundas transformações políticas e sociais. A Independência do Brasil, proclamada em  1822, criou um ambiente favorável à busca de elementos capazes de expressar  culturalmente a autonomia política alcançada pelo país. Nesse cenário, a literatura passou a  desempenhar uma função significativa na elaboração de uma identidade nacional.

A preocupação com a natureza brasileira, a valorização do indígena, a representação das  paisagens nacionais, o sentimento patriótico, a recuperação de episódios históricos e a  busca por uma linguagem literária identificada com o país constituíram elementos  importantes desse processo. 

Gonçalves Dias desempenhou papel central nesse movimento. Segundo a Academia  Brasileira de Letras, sua obra lírica e indianista incorporou temas e paisagens brasileiras à  literatura nacional e contribuiu para o processo de diferenciação cultural em relação à  tradição portuguesa. 

Na prosa, José de Alencar desenvolveu projeto igualmente importante. Sua produção  percorreu diferentes modalidades do romance brasileiro, incluindo o indianismo, o romance  histórico, o romance regionalista e o romance urbano. Entre suas obras encontram-se O  Guarani, Iracema, Ubirajara, Senhora, Lucíola, O Sertanejo e O Gaúcho, entre muitas outras. 

Assim, o Romantismo contribuiu para ampliar a percepção de que a literatura brasileira  poderia encontrar sua matéria-prima na própria realidade nacional. 

3 JOSÉ DE ALENCAR: O ROMANCE COMO INSTRUMENTO DE CONSTRUÇÃO  NACIONAL 

José Martiniano de Alencar (1829–1877) ocupa lugar de destaque na história do romance  brasileiro. Nascido em Messejana, no Ceará, Alencar foi advogado, jornalista, político, orador,  romancista e teatrólogo. Sua trajetória intelectual ultrapassou os limites da literatura,  envolvendo também questões políticas, linguísticas e culturais. A Academia Brasileira de  Letras o considera patrono da Cadeira nº 23. 

Sua contribuição para a formação da literatura nacional foi especialmente significativa porque  Alencar procurou construir uma ficção profundamente relacionada ao Brasil. Em O Guarani,  publicado em 1857, desenvolveu uma narrativa de caráter indianista que alcançou grande  popularidade. Em Iracema, publicado em 1865, aprofundou a elaboração literária do indígena  e da paisagem brasileira, articulando mito, natureza, linguagem e formação nacional. 

Sua produção, entretanto, não se limitou ao indianismo. Alencar escreveu romances urbanos,  históricos e regionais, procurando representar diferentes dimensões da sociedade brasileira.  Sua importância também está relacionada à reflexão consciente que realizou sobre a própria  atividade literária. Em Como e por que sou romancista, apresentou aspectos de sua  formação intelectual e de sua concepção estética. 

A Academia Brasileira de Letras destaca que sua obra contribuiu para a nacionalização da  literatura e para a consolidação do romance brasileiro. Nesse sentido, José de Alencar  representa, para a Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, o valor da criação literária  como instrumento de construção da identidade cultural e de representação da realidade  nacional. 

4 GONÇALVES DIAS: POESIA, NACIONALIDADE E INDIANISMO 

Antônio Gonçalves Dias (1823–1864) foi poeta, professor, crítico, historiador e etnólogo.  Nascido em Caxias, no Maranhão, estudou Direito em Coimbra e retornou posteriormente ao  Brasil, onde desenvolveu intensa atividade literária e intelectual. Sua obra constitui um dos  pilares da primeira geração romântica brasileira.

A publicação de Primeiros cantos, em 1846, representou importante momento de afirmação  de uma poesia voltada para temas brasileiros. Sua famosa “Canção do Exílio”, escrita em  1843, tornou-se uma das composições mais conhecidas da língua portuguesa. 

O indianismo de Gonçalves Dias alcançou especial relevância. Poemas como “I-Juca Pirama”, “Canto do Piaga”, “Canto do Guerreiro”, “Canto do Tamoio” e “Leito de folhas  verdes” demonstram sua capacidade de transformar elementos indígenas em matéria  poética. 

Sua produção não se restringiu à poesia. Gonçalves Dias também desenvolveu pesquisas  linguísticas e etnográficas, escreveu peças teatrais, realizou estudos históricos e participou  de atividades intelectuais e científicas. 

A Academia Brasileira de Letras identifica em sua obra uma contribuição decisiva para a  incorporação de temas e paisagens brasileiras à literatura nacional, associando sua produção  à formação de uma consciência literária brasileira. Gonçalves Dias representa, portanto, na  simbologia da Comenda, a valorização da poesia, da identidade nacional, da pesquisa e da  memória cultural brasileira. 

5 ÁLVARES DE AZEVEDO: SUBJETIVIDADE, JUVENTUDE E SENSIBILIDADE  ROMÂNTICA 

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831–1852) representa uma das expressões mais  marcantes da segunda geração do Romantismo brasileiro. Nascido em São Paulo, estudou  no Colégio Pedro II e posteriormente na Faculdade de Direito de São Paulo. Sua vida foi  interrompida precocemente, aos vinte anos, no Rio de Janeiro. A Academia Brasileira de  Letras o reconhece como patrono da Cadeira nº 2. 

Sua obra caracteriza-se por forte subjetividade, presença do sentimentalismo, idealização  amorosa, melancolia, conflito entre sonho e realidade e recorrência de temas como a morte,  a noite e a impossibilidade. 

Álvares de Azevedo expressou uma dimensão diferente do Romantismo brasileiro. Enquanto  a primeira geração enfatizou especialmente a nacionalidade e o indianismo, sua poesia  voltou-se para o universo interior do indivíduo, revelando conflitos, desejos, angústias e  idealizações. Sua produção tornou-se particularmente significativa por revelar que o  Romantismo brasileiro não constituiu movimento homogêneo. 

A tradição crítica da Academia Brasileira de Letras identifica diferentes vertentes do  romantismo brasileiro, incluindo o caráter mais sombrio e noturno associado a Álvares de  Azevedo, em contraste com outras expressões do movimento. Sua presença na  fundamentação simbólica da Comenda representa, assim, a liberdade criadora, a  subjetividade, a sensibilidade artística e a importância da expressão individual na literatura. 

6 CASTRO ALVES: POESIA SOCIAL, LIBERDADE E HUMANISMO 

Antônio Frederico de Castro Alves (1847–1871) foi uma das vozes mais expressivas da  poesia social brasileira. Nascido na Bahia, estudou Direito no Recife e em São Paulo e  participou intensamente da vida intelectual de seu tempo. Sua poesia adquiriu forte  dimensão social, especialmente em sua oposição à escravidão.

A Academia Brasileira de Letras registra que Castro Alves assumiu consciência do papel  social do poeta, desenvolvendo uma poesia marcada por grande força oratória e  preocupação com questões coletivas. Entre suas obras encontram-se Espumas Flutuantes, A  Cachoeira de Paulo Afonso, Gonzaga, ou a Revolução de Minas e Os Escravos

A poesia de Castro Alves ampliou as possibilidades do Romantismo brasileiro ao transformar  a palavra poética em instrumento de denúncia e defesa da liberdade. Sua produção constitui  importante testemunho da dimensão humanística que a literatura pode assumir quando  ultrapassa o espaço individual e se volta para questões sociais. 

Nesse sentido, Castro Alves representa, na inspiração da Comenda, os valores da liberdade,  da dignidade humana, da justiça, da consciência social e do compromisso humanístico da  produção intelectual. 

7 AS QUATRO ESTRELAS DO ROMANTISMO BRASILEIRO 

A escolha de José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves como  referências da Comenda permite construir uma representação simbólica das principais  dimensões do Romantismo brasileiro. Podemos compreendê-los a partir de quatro grandes  eixos: 

José de Alencar: Nacionalidade, romance e construção da identidade cultural; • Gonçalves Dias: Poesia, indianismo, natureza e sentimento nacional; • Álvares de Azevedo: Subjetividade, sensibilidade, juventude e liberdade criadora; • Castro Alves: Liberdade, humanismo, consciência social e defesa da dignidade. 

A expressão “Estrelas do Romantismo Brasileiro” adquire, portanto, um profundo significado  simbólico. As estrelas representam luz, memória e permanência. Mesmo pertencendo a um  período histórico distante, esses autores continuam iluminando a cultura brasileira por meio  de suas obras. 

A própria Academia Brasileira de Letras preserva institucionalmente essa memória,  mantendo esses autores como patronos de cadeiras e destacando sua importância para a  formação das letras nacionais. 

8 A INSTITUIÇÃO DA COMENDA ESTRELAS DO ROMANTISMO BRASILEIRO 

A Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, instituída pela Federação Brasileira dos  Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), nasce como uma iniciativa de  valorização da memória literária e cultural brasileira. Sua fundamentação simbólica está  associada ao legado de quatro grandes representantes do Romantismo, mas sua finalidade  não se restringe à homenagem histórica. 

A Comenda estabelece uma relação entre memória e reconhecimento. Preservar a memória  de um movimento literário significa reconhecer que a cultura não se constrói apenas pela  produção do presente. Ela resulta da continuidade de experiências, obras, ideias, valores e  conhecimentos transmitidos entre gerações. Dessa forma, a honraria procura reconhecer  aqueles que, em diferentes áreas, dão continuidade ao espírito de valorização da cultura  brasileira.

9 FINALIDADES DA COMENDA 

Entre as principais finalidades da Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, podem ser  destacadas: 

9.1 Valorizar a literatura brasileira 

Reconhecer escritores, poetas, pesquisadores, críticos literários e demais agentes que  contribuam para o desenvolvimento e a preservação das letras nacionais. 

9.2 Preservar a memória cultural 

Estimular ações destinadas à preservação da memória de escritores, instituições,  movimentos literários, obras e manifestações culturais brasileiras. 

9.3 Incentivar a educação 

Reconhecer educadores e instituições que utilizem a literatura, a história e a cultura como  instrumentos de formação humana e cidadã. 

9.4 Estimular a pesquisa 

Valorizar pesquisadores dedicados ao estudo da literatura, história, cultura, patrimônio,  memória e identidade brasileira. 

9.5 Reconhecer o patrimônio intelectual 

Contribuir para que a produção intelectual seja compreendida como parte integrante do  patrimônio cultural da sociedade. 

9.6 Promover valores humanísticos 

Valorizar iniciativas relacionadas à liberdade, dignidade humana, solidariedade, educação,  conhecimento, justiça, cultura e respeito à diversidade das experiências humanas. 

9.7 Incentivar novas gerações 

Estimular jovens escritores, pesquisadores, professores, estudantes e agentes culturais a  conhecer e preservar a tradição literária brasileira. 

Esta primeira parte está pronta e revisada! Quando desejar, pode enviar a segunda parte para continuarmos a avaliação e estruturação final. 

10 A QUEM SE DESTINA A COMENDA 

A Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro poderá ser destinada a personalidades e  instituições cuja trajetória esteja relacionada à valorização da cultura e do conhecimento,  especialmente nas áreas de: 

• Literatura; 

• Poesia; 

• História; 

• Filosofia;

• Educação; 

• Pesquisa; 

• Cultura; 

• Patrimônio histórico e cultural; 

• Preservação da memória; 

• Biblioteconomia e documentação; 

• Museologia; 

• Jornalismo cultural; 

• Produção cultural; 

• Artes; 

• Estudos literários; 

• Promoção dos valores humanísticos. 

Podem ser contemplados escritores, poetas, professores, pesquisadores, historiadores,  acadêmicos, artistas, jornalistas, gestores culturais, instituições de ensino, academias de  letras, centros culturais, museus, bibliotecas, arquivos, fundações e demais entidades que  tenham desenvolvido ações relevantes relacionadas aos objetivos da honraria. 

A distinção deve estar vinculada a uma trajetória efetiva de contribuição, evitando que a  homenagem seja compreendida apenas como distinção honorífica desvinculada de  realizações concretas. 

11 A IMPORTÂNCIA DO RECONHECIMENTO CULTURAL 

As honrarias culturais possuem uma dimensão simbólica particularmente relevante.  Reconhecer publicamente uma trajetória significa registrar socialmente que determinada  contribuição possui importância para além da esfera individual. Nesse sentido, a Comenda  pode funcionar como instrumento de memória institucional. 

A sociedade contemporânea vive em um ambiente marcado pela velocidade da informação e  pela constante substituição de referências. Obras, autores e acontecimentos históricos  podem perder espaço na memória coletiva quando não são continuamente estudados,  divulgados e reinterpretados. 

A preservação da memória, portanto, não significa simplesmente olhar para o passado.  Significa estabelecer condições para que o passado continue dialogando com o presente. 

A homenagem aos grandes autores românticos adquire especial significado porque eles  próprios participaram de um processo de construção de identidade nacional. Ao reconhecer  aqueles que hoje preservam e ampliam esse patrimônio, a FEBACLA estabelece uma  continuidade simbólica entre diferentes gerações de produtores do conhecimento. 

12 O LEGADO HUMANÍSTICO DO ROMANTISMO 

Embora o Romantismo seja tradicionalmente estudado como movimento literário, seu legado  pode ser compreendido de maneira mais ampla: 

José de Alencar colocou em evidência a necessidade de construção de uma  literatura capaz de representar o Brasil; 

Gonçalves Dias transformou a natureza, o indígena e o sentimento nacional em  matéria poética; 

Álvares de Azevedo demonstrou a força da subjetividade e da liberdade criadora;

Castro Alves elevou a poesia à condição de instrumento de reflexão social e defesa  da liberdade. 

Assim, as quatro referências escolhidas para inspirar a Comenda permitem compreender o  Romantismo brasileiro como um campo de experiências múltiplas. Há, em seus diferentes  representantes, uma valorização da identidade, da liberdade, da sensibilidade, da memória,  da criatividade e da condição humana. Esses elementos justificam sua permanência como  referências para o presente. 

13 A COMENDA COMO INSTRUMENTO DE PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA 

A criação de uma honraria inspirada em determinado período histórico pode desempenhar  função importante na preservação da memória coletiva. No caso da Comenda Estrelas do  Romantismo Brasileiro, o ato de reconhecer contemporaneamente personalidades e  instituições comprometidas com a literatura e a cultura estabelece uma espécie de diálogo  entre passado e presente. 

O homenageado não recebe apenas uma distinção; recebe também a responsabilidade  simbólica de integrar uma cadeia de transmissão cultural. A ideia fundamental é que a  memória somente permanece viva quando é estudada, ensinada, preservada e transmitida. 

Por essa razão, a Comenda pode ser entendida como uma forma de reconhecimento cultural  que ultrapassa o caráter protocolar da solenidade. Ela representa uma declaração  institucional de apreço pelo conhecimento, pela cultura e pela produção intelectual. 

14 FEBACLA E A VALORIZAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA 

Ao instituir a Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, a Federação Brasileira dos  Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) insere-se em uma tradição de  valorização das letras, das ciências, das artes e da memória cultural. 

A escolha de quatro nomes representativos do Romantismo brasileiro estabelece uma  conexão direta com um dos períodos mais importantes da formação da literatura nacional. A  iniciativa também amplia o conceito de homenagem cultural, pois não se limita à preservação  de nomes consagrados. 

A Comenda busca reconhecer aqueles que continuam produzindo conhecimento, formando  novas gerações, pesquisando a história, escrevendo, preservando acervos, desenvolvendo  projetos culturais e mantendo viva a memória brasileira. Nesse sentido, a homenagem ao  passado transforma-se em incentivo à construção do futuro. 

15 O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO “ESTRELAS” 

A palavra “estrelas” possui forte valor simbólico. Na tradição cultural, a estrela representa  luz, orientação, permanência e inspiração. Aplicada ao universo literário, a expressão permite  compreender os grandes autores como referências que continuam iluminando gerações  posteriores. 

José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves pertencem  historicamente ao século XIX, mas suas obras continuam presentes nos estudos literários,  nas escolas, nas universidades, nas academias e no imaginário cultural brasileiro.

As quatro estrelas escolhidas como inspiração da Comenda podem, portanto, ser  compreendidas como símbolos de quatro dimensões fundamentais: 

Alencar: identidade e nacionalidade; 

Gonçalves Dias: poesia e brasilidade; 

Álvares de Azevedo: subjetividade e criação; 

Castro Alves: liberdade e humanismo. 

Juntas, essas dimensões formam uma constelação simbólica da cultura brasileira.

16 A ATUALIDADE DO LEGADO ROMÂNTICO 

O legado do Romantismo não pertence exclusivamente ao século XIX. Em uma sociedade  marcada por transformações tecnológicas, novas formas de comunicação e profundas  mudanças culturais, questões como identidade, pertencimento, liberdade, memória e  valorização da cultura continuam presentes. A literatura permanece como espaço  privilegiado para a reflexão sobre o indivíduo e a sociedade. 

A preservação do patrimônio literário também assume importância diante das novas  tecnologias e da expansão da inteligência artificial. Quanto maior a capacidade tecnológica  de produzir e reproduzir conteúdos, maior se torna a responsabilidade humana de preservar  referências históricas, autoria, contexto, memória e significado cultural. 

Nesse cenário, iniciativas de valorização de autores e movimentos literários históricos podem  contribuir para evitar que a inovação tecnológica produza um distanciamento em relação às  raízes culturais. A modernidade não precisa significar abandono da memória. Ao contrário, o  conhecimento do passado pode oferecer fundamentos para compreender criticamente o  presente e construir o futuro. 

17 A COMENDA E A TRANSMISSÃO ENTRE GERAÇÕES 

Uma das funções mais importantes de qualquer instituição cultural é promover a transmissão  do conhecimento. A geração que conhece José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de  Azevedo e Castro Alves possui a responsabilidade de apresentar suas obras às gerações  seguintes. 

Da mesma forma, pesquisadores, professores, escritores, academias, universidades,  bibliotecas, museus e instituições culturais desempenham papel fundamental na conservação  desse patrimônio. 

A Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro pode ser compreendida, nesse sentido, como  um símbolo dessa transmissão. O reconhecimento concedido no presente dialoga com os  valores intelectuais do passado e procura estimular novas contribuições para o futuro. 

18 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro, instituída pela Federação Brasileira dos  Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), possui fundamentação simbólica  assentada em um dos períodos mais significativos da formação da literatura brasileira.

Sua inspiração em José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves permite representar diferentes dimensões do Romantismo: a construção da identidade  nacional, a valorização da natureza e da cultura brasileira, a subjetividade, a liberdade  criadora, a consciência social e os valores humanísticos. 

José de Alencar contribuiu decisivamente para a consolidação do romance brasileiro e para  a elaboração literária de temas nacionais. Gonçalves Dias conferiu grande força à poesia  indianista e à expressão da nacionalidade. Álvares de Azevedo tornou-se referência da  subjetividade e da sensibilidade romântica. Castro Alves, por sua vez, elevou a poesia social  e a defesa da liberdade a uma de suas expressões mais vigorosas. 

A escolha dessas quatro personalidades não representa a tentativa de reduzir a riqueza do  Romantismo brasileiro a apenas quatro nomes. O movimento foi amplo, diverso e composto  por numerosos autores e tendências. A escolha constitui, antes, uma síntese simbólica de  diferentes dimensões do legado romântico. 

Nesse contexto, a Comenda assume uma finalidade que ultrapassa o simples  reconhecimento protocolar. Ela representa uma iniciativa de preservação da memória,  valorização da literatura, incentivo à pesquisa, reconhecimento da educação e promoção da  cultura brasileira. Homenagear aqueles que dedicam suas vidas ao conhecimento significa  reconhecer que a cultura é patrimônio coletivo. 

Da mesma maneira que as estrelas permanecem como pontos de referência no céu, os  grandes autores permanecem como pontos de referência na trajetória cultural de uma nação.  Por isso, a Comenda Estrelas do Romantismo Brasileiro pode ser compreendida como uma  homenagem àqueles que mantêm acesa a luz da literatura, da educação, da pesquisa, da  cultura e da memória. 

Mais do que recordar o passado, trata-se de reconhecer aqueles que ajudam a preservar,  interpretar e ampliar o patrimônio intelectual brasileiro. E, ao fazê-lo, a FEBACLA reafirma  uma concepção essencial: uma nação que preserva sua memória cultural fortalece sua  identidade e oferece às novas gerações melhores condições para compreender seu  passado, interpretar seu presente e construir seu futuro. 

REFERÊNCIAS 

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Álvares de Azevedo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de  Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/alvares-de-azevedo. Acesso  em: 17 set. 2026.  

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Castro Alves: biografia. Rio de Janeiro: Academia Brasileira  de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/castro-alves/biografia.  Acesso em: 17 set. 2026. 

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Castro Alves: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/castro alves/bibliografia. Acesso em: 17 set. 2026.  

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Gonçalves Dias: biografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/goncalves dias/biografia. Acesso em: 17 set. 2026. 

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Gonçalves Dias: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/goncalves dias/bibliografia. Acesso em: 17 set. 2026.  

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. José de Alencar: biografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/jose-de alencar/biografia. Acesso em: 17 set. 2026.  

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. José de Alencar: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia  Brasileira de Letras, [s. d.]. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/jose-de alencar/bibliografia. Acesso em: 17 set. 2026.  

ALENCAR, José de. Iracema: lenda do Ceará. Brasília, DF: Edições Câmara, 2017. ALVES, Castro. Espumas flutuantes. Bahia: Camilo Lellis Masson, 1870.  

ALVES, Castro. O navio negreiro e Vozes d’África. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, Edições  Câmara, 2013. (Série Prazer de Ler, n. 5). Disponível em: https://bd.camara.leg.br/bd/items/c765ec5e cf89-4f52-b25c-ac6a2f37c291/full. Acesso em: 17 set. 2026.  

AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. São Paulo: Martin Claret, 2005. 

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 50. ed. São Paulo: Cultrix, 2015.  

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1750-1880. 16. ed.  Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul; São Paulo: FAPESP, 2017.  

COUTINHO, Afrânio; COUTINHO, Eduardo de Faria (dir.). A literatura no Brasil. 7. ed. São Paulo:  Global, 2004.  

DIAS, Gonçalves. Primeiros cantos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1846.  

DIAS, Gonçalves. Últimos cantos. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1851.  

MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira. 4. ed.  São Paulo: É Realizações, 2014.  

MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira: das origens ao romantismo. 4. ed. São Paulo:  Cultrix, 2001.  

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do  romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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A Última Vez

A ÚLTIMA VEZ
Da prosa à poesia: Virgínia Azevedo lança seu primeiro livro de poemas

Capa do livro 'A Última Vez', de Virgínia Azevedo
Capa do livro ‘A Última Vez’, de Virgínia Azevedo

A trajetória literária da tatuiense Virgínia Azevedo começou em 2021, quando passou a publicar poemas em suas redes sociais. Desde então, a escrita ganhou espaço cada vez mais significativo em sua vida, levando-a da poesia ao romance e, agora, de volta aos versos, com o lançamento de A última vez, seu primeiro livro de poemas.

Professora da rede municipal de ensino de Tatuí (SP), licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade de Brasília (UnB) e pós-graduada na área de educação, Virgínia estreou na literatura em 2022, com o romance O Perfume das Sombras: A história do maior amor do mundo. Inicialmente publicado em formato e-book, o livro teve boa recepção do público e, no ano seguinte, ganhou edição impressa pela Opera Editorial.

Também em 2023, lançou A luz em seus olhos, igualmente publicado primeiro em e-book e posteriormente em edição impressa. A obra foi apresentada ao público em noite de autógrafos realizada no Museu Histórico Paulo Setúbal, em Tatuí.

A consolidação de sua trajetória literária também se manifesta em sua participação em eventos e projetos voltados à literatura. Virgínia participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), pela Casa Opera, em 2023 e 2025. Em 2024, foi convidada a apresentar seus poemas no projeto Devir, Poesia e Prosa e participou do 1º e do 3º Encontro de Escritores Tatuianos. No mesmo ano, desenvolveu um sarau literário com alunos do 9º ano da EMEF “Prof. Alan Alves de Araújo”.

Sua atuação na área da literatura estende-se também ao incentivo à escrita e à formação de novos leitores e autores. Em 2025, ministrou uma palestra sobre escrita na Escola Estadual “Prof. Lienette Avalone Ribeiro”.

Em 2026, Virgínia Azevedo dá um novo passo em sua trajetória com A última vez, seu primeiro livro de poemas. O lançamento, realizado em noite de autógrafos no Museu da Imagem e do Som de Tatuí, reuniu expressivo público e marcou uma nova etapa de sua produção literária.

Da publicação de poemas nas redes sociais à participação em importantes encontros literários e à publicação de romances e poesia, Virgínia Azevedo vem construindo, passo a passo, uma trajetória que aproxima literatura, educação e formação de leitores — e que encontra, em A última vez, uma nova forma de expressão.

A Última Vez (2026)

SINOPSE: O que permanece depois da última vez? Neste livro, Virgínia Azevedo reúne poemas que conduzem o leitor a sentimentos intensos e universais, como amor, solidão, vazio e saudade, transformando emoções profundas em versos delicados e intensos.

“Há dores que doem mais por serem eternas.”

Serviço

Autora: Virgínia Azevedo

Editora: Ópera Editorial

ISBN: 978-65-5175-117-2

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Outras Obras de Virgínia Azevedo

O Perfume das Sombras: a história do maior amor do mundo (2023)

SINOPSE: Dois grandes amores, separados pela intolerância e pelo tempo, desafiam perseguições, perdas e impossibilidades.

Em linguagem poética, Virgínia Azevedo constrói uma narrativa intensa sobre sentimentos capazes de ultrapassar o tempo e o próprio limite da existência.

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Autora: Virgínia Azevedo

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A luz em seus olhos (2024)

SINOPSE: Armand, um vampiro, reencontra dois séculos depois Carolina, sua esposa desaparecida, agora vivendo como bibliotecária e sem qualquer lembrança de seu passado.

Ao tentar reconquistá-la, ele cria uma fundação para aproximar-se dela. Entre mistérios, romance e identidades transformadas, o casal revive uma história de amor marcada pelo sobrenatural.

Serviço

Autora: Virgínia Azevedo

Editora: Ópera Editorial

ISBN: 978-6-6081-125-6

Número de páginas: 67

Preço: R$55,00

Venda: Saite da Opera Editorial (https://operaeditorial.com.br/produto/a-luz-em-seus-olhos/)

Capa do livro 'O Perfume das Sombras - A História do Maior Amor do Mundo'
Capa do livro ‘O Perfume das Sombras – A História do Maior Amor do Mundo’

Capa do livro 'A luz em seus Olhos - Duas Vidas, um Amor'
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Da mente inquieta ao apocalipse no papel

Adalberto Neto e a Arte de Dar Vida ao Caos em Red Stone City

Adalberto Neto

Há quem acredite que a imaginação tem prazo de validade ou que a literatura exige diplomas para acontecer.

O escritor paulistano Adalberto Pereira de Lima Neto, de 59 anos, provou o contrário: a verdadeira literatura nasce do olhar curioso sobre o mundo e da coragem de transformar visões em palavras.

Hoje aposentado e residente em Belford Roxo (RJ), Adalberto decidiu que nunca é tarde para dar voz à sua mente inquieta, presenteando os amantes de distopias com um dos universos mais instigantes e viscerais da ficção contemporânea.

A paixão por criar mundos não surgiu da noite para o dia.

Desde a infância, Adalberto já exercitava o dom de narrar.

Ao olhar para os aviões que cruzavam o céu, ele não via apenas máquinas, mas centenas de vidas fictícias: inventava de onde vinham, para onde iam e quais segredos carregavam.

Alimentado por influências de peso como Stephen King, André Vianco, Alexandre Callari e Manel Loureiro (autor da Trilogia Apocalipse Z), o autor desenvolveu uma escrita marcante, capaz de transmitir sentimentos reais e cruéis em meio a cenários de extrema tensão.

Uma Cidade como Organismo Vivo: O Nascimento de uma Saga

O ponto de virada para a criação do seu universo literário veio de um estalo poético e perturbador: e se uma cidade não fosse apenas tijolos e concreto, mas um organismo vivo que pulsa, reage e sangra?

Foi a partir dessa premissa que nasceu a atmosfera sufocante e magnética da série Red Stone City, uma jornada épica composta por quatro obras que se complementam e arrastam o leitor para o centro do colapso:

• ‘Sangue e Poeira’: O pontapé inicial que estabelece o ritmo ágil e impiedoso da narrativa, apresentando quatro histórias que se entrelaçam dentro de um organismo urbano doente onde ninguém está realmente seguro.

• ‘Sangue e Dor’: Uma imersão profunda, sombria e psicológica no sofrimento humano, onde cada conto é um mergulho em um pesadelo particular: do erro que não pode ser desfeito ao horror que espreita em cada esquina.

• ‘O Diário’: A obra que funciona como um vislumbre intimista e doloroso do caos, resgatando os registros desesperados de uma mãe tentando proteger sua família no auge do colapso da cidade.

• ‘Sangue e Ruínas’: O ápice épico e avassalador que encerra a saga (será?), amarrando os destinos com maestria, poeira, desespero e a eterna busca pela redenção.

Sentimentos Reais em Situações Extremas

O grande trunfo de Adalberto Neto não está apenas no suspense de dar “frio na barriga” ou nas reviravoltas de tirar o fôlego, mas na humanidade que ele injeta em cada página.

Seus personagens não são heróis inabaláveis; são seres humanos falhos, assustados e movidos pelo amor, pelo medo e pela busca incansável pela sobrevivência.

Adalberto prova que a imaginação guardada por tantos anos não estragou com o tempo, pelo contrário, maturou como um bom vinho.

Ao transformar uma cidade em um personagem vivo, o autor não construiu apenas uma distopia marcante; construiu uma ponte direta com o coração de leitores que buscam emoções brutais e verdadeiras.

Uma saga imperdível para quem ama ficção científica, suspense e o poder transformador da boa literatura nacional.

Super recomendo!

REDE SOCIAL DO AUTOR

SANGUE E DOR

SINOPSE

Em Red Stone, algumas estradas não aparecem nos mapas.

No meio de noites frias, rodovias desertas e cidades esquecidas, pessoas comuns começam a cruzar caminhos com algo impossível de explicar.

Um médico cansado tentando voltar para casa. Um homem fugindo da própria culpa. Viajantes que entram em postos abandonados, estradas silenciosas e construções que parecem existir fora do tempo.

Todos chegam a Red Stone carregando dores, arrependimentos e segredos que nunca conseguiram deixar para trás.

Mas a cidade percebe.

Entre desaparecimentos misteriosos, vozes na escuridão e lugares que desafiam a realidade, Red Stone revela um horror que vai muito além do sobrenatural: o confronto inevitável com aquilo que cada pessoa tenta esconder dentro de si.

Sombrio, atmosférico e perturbador, Red Stone é uma coletânea de terror psicológico onde cada conto se conecta por estradas que parecem vivas — e que sempre levam exatamente onde dói.

SANGUE E POEIRA

SINOPSE

Bem-vindo a uma cidade que respira, observa… e tem fome.

Por trás da fachada perfeita de Red Stone City, com seus desfiles patrióticos e famílias poderosas, esconde-se uma verdade brutal: cada sorriso esconde uma sombra, e as histórias bonitas são feitas de mentiras de sangue.

Neste primeiro volume da antologia de terror urbano e mitologia sombria, você caminhará por ruas onde ninguém está realmente sozinho. Prepare-se para encontrar:

Verdades Perigosas: Jornalistas obstinados que ousam cavar os segredos mais profundos da cidade e pagam o preço por isso.

O Vazio: Pessoas comuns que, de repente, despertam em mundos completamente desertos e aterrorizantes.

Predadores da Noite: Criaturas elegantes que caçam sob o manto da escuridão, seguindo seus próprios códigos de honra e uma sede insaciável de sangue.

Aqui, o perigo não está no que você vê.

Está no que está olhando para você enquanto você caminha sozinho à noite.

Entre neste universo.

Descubra os segredos de Red Stone City.

Se tiver coragem.

O DIÁRIO

SINOPSE

Ela começou a escrever para registrar a infância do filho.

Os primeiros passos. Os aniversários. As pequenas alegrias de uma vida simples ao lado da família que amava.

Então vieram os rumores.

Uma doença misteriosa.

Notícias contraditórias.

Medo.

E, aos poucos, o mundo começou a mudar.

O Diário acompanha os últimos registros de uma mãe comum diante do colapso da sociedade. Enquanto as ruas se tornam cada vez mais perigosas e a esperança desaparece, ela luta para proteger o marido e o pequeno Lucas de uma ameaça que ninguém compreende completamente.

Narrado em forma de diário, este é um relato íntimo sobre amor, perda, medo e sobrevivência. Uma história que não fala sobre heróis, soldados ou grandes líderes.

Fala sobre pessoas comuns.

Pessoas que tinham sonhos.

Pessoas que tinham famílias.

Pessoas que foram deixadas para trás.

Ambientado no universo R.S.C. — Red Stone City, este livro revela os acontecimentos que antecederam a queda do mundo conhecido e os eventos que dariam origem ao livro Sangue e Ruínas.

Abra estas páginas por sua conta e risco.

Pois em Red Stone, não garantimos finais felizes.

SANGUE E RUINAS

SINOPSE

Quando o apocalipse zumbi transforma a cidade em um território dominado pelos mortos-vivos, João se vê preso em um dos prédios do condomínio onde sempre viveu.

Cercado por ameaças do lado de fora e com recursos cada vez mais escassos, ele faz o possível para manter a si mesmo e sua mãe em segurança.

No entanto, sua maior preocupação não são os zumbis. Sua mãe sofre de Alzheimer e, embora ainda o reconheça, a doença avança de forma imprevisível.

A cada dia, João convive com o medo de que chegue o momento em que ela olhe para ele e não veja mais o filho que sempre amou.

Enquanto luta para protegê-la de um mundo em ruínas, ele também tenta preservar as lembranças que ainda os mantêm unidos.

Entre a ameaça constante dos mortos-vivos e a cruel progressão da doença, João enfrenta uma batalha silenciosa e dolorosa: salvar sua mãe de um perigo que pode ser combatido é difícil, mas impedir que ela o esqueça pode ser impossível.

Em um mundo onde a humanidade está desaparecendo, seu maior desafio é não perder o último vínculo que dá sentido à sua sobrevivência.

OBRAS DO AUTOR

Sangue e poeira
Sangue e Poeira

Sangue e Dor
Sangue e Dor

O Diário
O Diário

Sangue e Ruínas
Sangue e Ruinas

ONDE ENCONTRAR


Página Inicial

Resenhas da colunista Lee Oliveira




A árvore centenária

Evani Rocha: Do tronco ressequido ao sopro do primeiro broto, um conto profundo sobre como o amor materno vence a barreira do tempo.

Evani Rocha
Evani Rocha
https://chatgpt.com/c/6a917a8f-dcc0-83e9-aec6-59d9905b6ce7

O céu escureceu de repente, bradou, rugiu e desabou em águas torrenciais. Um vendaval arrancou galhos e troncos das maiores árvores da floresta. Uma senhora-árvore centenária não suportou a força do vendaval. Lutou contra o vento, retorceu-se, mas foi vencida! Então, caiu desfalecida sobre os braços da terra-mãe. Deitou-se sobre o solo alagado e chorou, chorou muito…de seus estômagos abertos, as águas brotavam como nascentes, querendo viver…

Quando a tempestade cessou, tudo se acalmou e o burburinho da floresta voltou ao trivial. Exceto aquele espaço ocupado pela árvore, agora, era um triste vazio…

A árvore tentou mover seu grande tronco, muito dolorido. Mas viu suas raízes axiais expostas, dilaceradas, arrancadas…

Dos seus grandes galhos-braços, as folhas caídas estavam espalhadas pelo chão da floresta, à revelia.

Ela olhou em prece para o céu. Viu o azul profundo, abrindo-se num clarão…era o sol! A árvore esfacelada mal podia abrir seus olhos-estômatos das poucas folhas que ainda aderiam a seus galhos esguios. Mas esforçou-se ao máximo. Abriu-os vagarosamente e as lágrimas secaram!

Então, ela esperou…

Esperou pelos dias e pelas noites… Esperou o tempo passar, continuamente. Amanhecia e anoitecia, tudo igual! Mas a senhora-árvore continuava no mesmo lugar…

Perdeu todas as folhas e frutos…Foi secando-se, definhando, despedaçando-se aos poucos, no correr solitário do tempo. Tornou-se esquelética e fria. Tudo o que lhe restara foram os galhos e troncos ressequidos e quebradiços. À sua volta, formigas carregavam seus fragmentos, em fila indiana, incansavelmente.

No final do verão, a árvore soltava seus últimos suspiros, quando alguém cochichou ao seu ouvido: “mamãe…”

Era um bebê verdinho, quase pálido, recém-nascido. Despontava de uma semente sepultada sob ela…

A árvore, sem vida, sentiu algo renascer dentro de si… Era um bebê seu, que nascera de suas sementes jogadas pelo vento. Ali, sob ela, no solo encharcado pela tempestade, a sementinha alimentou-se de seus nutrientes e germinou.

Emocionada, a árvore-mãe pensou: “Minha morte não foi em vão! Ela trouxe vida, continuidade, sentido…”

Agora renascia em outro corpo, de um jeito próprio, fincando suas tenras raízes, ganhando novos pigmentos através do rei-sol…

Assim, de alguma forma, ela vivia novamente, para iniciar um novo e magnífico ciclo!

Evani Rocha

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O imóvel que respira no escuro

Conto de Clayton Alexandre Zocarato narra os segredos de uma misteriosa casa viva

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O imóvel respirava.

            Ninguém sabia dizer quando aquilo havia começado, e talvez essa fosse a primeira mentira contada pela casa, porque toda coisa que respira já respirou antes de ser percebida.

            O problema não era ouvir o ar entrando pelas paredes, nem perceber o pequeno movimento das janelas durante a madrugada, nem mesmo a insistência de um ruído semelhante ao pulmão de um animal adormecido.

            O problema era que o imóvel respirava sem possuir pulmões, e isso fazia com que todas as explicações possíveis parecessem imediatamente ridículas.

            Durante o dia, a casa permanecia imóvel, obediente à geometria das coisas que não possuem vontade. Era um imóvel como tantos outros: paredes, portas, janelas, corredores, tomadas, uma escada estreita, um quintal coberto por uma espécie de silêncio vegetal.

            Havia poeira sobre os móveis e uma lâmpada que demorava alguns segundos para acender. Havia também uma torneira que pingava sempre às três horas da tarde, embora ninguém tivesse encontrado qualquer vazamento.

            À noite, porém, tudo mudava.

            Não era uma mudança visível. O imóvel não crescia, não se deslocava, não alterava a posição das portas. Nada acontecia que pudesse ser fotografado.

             Ainda assim, às duas horas e dezessete minutos, aproximadamente, as paredes pareciam adquirir uma espessura diferente, como se deixassem de separar o interior do exterior e passassem a separar o possível do impossível.

            Era nesse momento que começava a respiração.

            Primeiro, um sopro quase imperceptível.

            Depois, um longo recolhimento.

            Em seguida, o estalo das vigas.

            E então o imóvel inspirava.

            Inspirava como quem espera alguma coisa.

            Expirava como quem se arrepende.

            Ninguém morava ali havia muitos anos. Isso, entretanto, nunca significou que o imóvel estivesse vazio. O vazio é uma palavra inventada pelos vivos para nomear aquilo que não conseguem ocupar. Uma casa abandonada não está vazia. Está cheia de ausências. E algumas ausências possuem mais peso do que pessoas.

            O antigo proprietário havia desaparecido sem deixar explicações. Não havia sangue, não havia cartas, não havia roupas abandonadas sobre uma cama. Havia apenas uma fotografia encontrada na sala, virada para a parede. Nela aparecia a fachada do imóvel, ainda recém-construído, mas havia uma diferença perturbadora: todas as janelas estavam abertas, embora a fotografia tivesse sido tirada em um dia de inverno.

            No verso da fotografia havia uma frase:

            “Não venda a casa. Ela ainda não terminou de existir.”

            Ninguém compreendeu.

            Frases assim costumam sobreviver porque não precisam ser compreendidas.

            Durante anos, corretores tentaram vender o imóvel. Alguns desistiram depois de visitá-lo. Outros simplesmente desapareceram dos registros, como se nunca tivessem trabalhado com imóveis.

            Um deles afirmou que havia entrado na cozinha e saído pela infância. Outro jurou ter encontrado, no segundo andar, uma porta que dava para uma sala idêntica à sala de entrada, mas habitada por móveis que pertenciam à sua própria casa.

            Ninguém acreditou.

            É sempre mais fácil acreditar na loucura de alguém do que na arquitetura de uma casa.

            O imóvel permaneceu fechado.

            Até que certa noite alguém entrou.

            Não porque desejasse comprar.

            Não porque procurasse abrigo.

            Não porque estivesse perdido.

            Entrou porque teve a impressão de que a casa o chamava.

            Era uma sensação absurda, quase infantil. Um chamado sem voz. Uma inclinação invisível do mundo. Como se todas as ruas daquela cidade tivessem sido construídas para conduzi-lo àquela porta.

            Parou diante da fachada.

            A noite estava úmida.

            As árvores permaneciam imóveis.

            Nenhum carro passava.

            Então ouviu.

            Um som profundo.

            Lento.

            Respiratório.

            O imóvel inspirou.

            Ele recuou.

            O imóvel expirou.

            Ele aproximou-se.

            Durante alguns segundos ficou diante da porta, tentando decidir se aquilo que sentia era medo ou apenas a percepção tardia de que nunca havia estado realmente seguro em lugar algum.

            Tocou a maçaneta.

            Estava quente.

            Isso o perturbou mais do que qualquer outra coisa.

            Uma maçaneta quente significa que alguém esteve ali.

            Ou que a própria casa possui temperatura.

            Ou que a realidade é apenas uma forma educada de esconder aquilo que não conseguimos explicar.

            Abriu a porta.

            A sala estava escura.

            Não havia eletricidade, mas alguma luminosidade cinzenta penetrava pelas frestas das janelas. A poeira suspensa parecia formar pequenas constelações. Por alguns instantes ele teve a impressão de que o chão se movia.

            Não era o chão.

            Era a respiração.

            As paredes avançavam alguns milímetros e recuavam.

            Avançavam.

            Recuavam.

            Como se o imóvel estivesse tentando aprender a permanecer vivo.

            Ele entrou.

            A porta fechou-se atrás dele.

            Não houve estrondo.

            Apenas um clique.

            O tipo de clique que uma decisão produz quando já não pode ser desfeita.

            Olhou para trás.

            A porta estava lá.

            Mas parecia distante.

            Muito distante.

            Não fisicamente.

            Existencialmente.

            Aquela porta ainda era uma porta, mas havia deixado de ser uma saída.

            Foi então que compreendeu que certas coisas não precisam estar trancadas para impedir uma fuga.

            Caminhou pela sala.

            Havia um relógio sobre a parede.

            O ponteiro dos segundos girava para trás.

            Ele aproximou-se.

            O relógio marcava duas horas e dezessete minutos.

            Sempre.

            O ponteiro dos minutos tremia.

            O dos segundos recuava.

            O das horas parecia imóvel.

            Encostou o ouvido na parede.

            Ouviu um coração.

            Afastou-se imediatamente.

            Depois riu.

            Riu porque a alternativa seria aceitar.

            E rir diante do inexplicável é uma das últimas formas de soberania que restam ao homem.

            — É apenas madeira — disse.

            A parede respondeu:

            — Sim.

            Ele ficou imóvel.

            Não havia boca.

            Não havia voz.

            A resposta parecia ter surgido dentro de sua cabeça, mas possuía uma textura estranha, como se outra consciência tivesse utilizado sua memória para falar.

            — Quem disse isso?

            Silêncio.

            — Eu perguntei quem disse isso.

            A casa respirou.

            — Ninguém.

            Ele olhou para o teto.

            — Então quem respondeu?

            A casa permaneceu imóvel.

            — Você.

            — Eu não disse nada.

            — Ainda.

            A palavra caiu dentro dele como uma pedra.

            Ainda.

            O que significava ainda?

            Ainda não havia dito?

            Ainda não existia?

            Ainda não havia morrido?

            A casa respirou novamente.

            Ele começou a caminhar.

            No corredor havia sete portas.

            Tinha certeza de que eram seis.

            Contou novamente.

            Sete.

            Abriu a primeira.

            Um quarto vazio.

            Abriu a segunda.

            Outro quarto vazio.

            A terceira dava para uma pequena biblioteca.

            Livros ocupavam as estantes.

            Todos sem títulos.

            Retirou um volume.

            Abriu.

            As páginas estavam em branco.

            Virou outra.

            Em branco.

            Outra.

            Em branco.

            Até chegar à última página.

            Ali havia uma única frase:

            “Você está lendo o lugar errado.”

            Fechou o livro.

            Devolveu-o à estante.

            Foi então que percebeu que os livros respiravam.

            As capas se elevavam lentamente.

            Subiam.

            Desciam.

            Subiam.

            Desciam.

            Centenas de pequenos pulmões de papel.

            Ele saiu da biblioteca.

            A casa parecia observá-lo.

            Não havia olhos.

            Mas havia observação.

            Talvez os olhos sejam apenas uma forma primitiva de observar.

            Talvez observar seja algo que as paredes fazem melhor do que nós.

            Entrou em outro quarto.

            Havia uma cama.

            Sobre ela, um casaco.

            O casaco estava molhado.

            Ele reconheceu o tecido.

            Era seu.

            Passou a mão sobre a roupa.

            Estava fria.

            No bolso encontrou uma chave.

            Não sabia de que porta era.

            Guardou-a.

            Então ouviu passos no andar superior.

            Um.

            Dois.

            Três.

            Pararam.

            Depois quatro.

            Cinco.

            Seis.

            Ele contou.

            Eram os passos de alguém descendo.

            Mas não havia escada naquela direção.

            Mesmo assim, os passos aproximavam-se.

            O som atravessava o teto.

            Descia pelas paredes.

            Entrava no chão.

            Até que parou diante dele.

            — Quem está aí?

            A casa respondeu:

            — Você.

            — Eu estou aqui.

            — Não este.

            Ele sentiu frio.

            — Quantos de mim existem?

            A casa demorou a responder.

            — Depende de quando você pergunta.

            Ele começou a compreender que não deveria fazer perguntas.

            Mas o ser humano, diante do abismo, costuma fazer perguntas justamente porque não sabe fazer outra coisa.

            — A casa está viva?

            Silêncio.

            — A casa está viva?

            O imóvel respirou profundamente.

            — A pergunta é pequena demais.

            — Então o que você é?

            As paredes estalaram.

            — Aquilo que permanece quando ninguém mais acredita.

            Ele sentou-se na cama.

            Durante alguns minutos não disse nada.

            A casa também não.

            Foi o primeiro momento de paz.

            Talvez a paz seja apenas a suspensão temporária das perguntas.

            Fechou os olhos.

            Pensou em sua infância.

            Não lembrava do rosto da mãe.

            Isso o assustou.

            Tentou lembrar do pai.

            Também não conseguiu.

            Lembrou da escola.

            Dos corredores.

            Da primeira vez em que sentira vergonha.

            Do primeiro beijo.

            Da primeira morte.

            Mas tudo parecia acontecer dentro daquela casa.

            A casa não mostrava lembranças.

            Ela fabricava passado.

            E talvez essa fosse sua verdadeira perversidade.

            Ela não precisava matar ninguém.

            Bastava alterar aquilo que alguém acreditava ter vivido.

            Levantou-se.

            No corredor, agora havia oito portas.

            Depois nove.

            Depois dez.

            Cada vez que olhava, uma nova porta aparecia.

            — Isso não é possível.

            A casa respondeu:

            — Possível para quem?

            Ele não respondeu.

            A casa continuou:

            — Você chama de impossível tudo aquilo que não sabe suportar.

            — E o que é possível?

            — Tudo o que já aconteceu.

            — E o que não aconteceu?

            — Também.

            Ele fechou os olhos.

            — Você não faz sentido.

            A casa respirou.

            — Finalmente.

            Foi então que ele percebeu que o absurdo não era a casa respirar.

            O absurdo era ele esperar que o mundo tivesse obrigação de fazer sentido.

            A casa não era louca.

            Louca era a expectativa.

            Aquela pequena crença humana de que paredes deveriam permanecer imóveis, relógios deveriam avançar, portas deveriam conduzir a lugares e mortos deveriam permanecer mortos.

            A casa apenas retirava essas convenções.

            E, sem elas, o mundo revelava sua verdadeira arquitetura.

            Uma arquitetura sem arquiteto.

            Caminhou até o fim do corredor.

            Encontrou uma porta diferente.

            Era branca.

            Sem maçaneta.

            Sobre ela havia uma inscrição:

            “ENTRE QUANDO TIVER CERTEZA.”

            Ele sorriu.

            — Nunca entrarei.

            A casa respondeu:

            — Já entrou.

            A porta abriu-se.

            Do outro lado havia uma sala completamente iluminada.

            Ele reconheceu o lugar.

            Era a sala de sua própria casa.

            Seu sofá.

            Sua televisão.

            Sua mesa.

            Seu relógio.

            Seu retrato.

            Mas havia alguém sentado no sofá.

            Ele mesmo.

            A outra versão levantou-se.

            Olhou para ele.

            Sorriu.

            — Você demorou.

            Ele não conseguiu falar.

            — Quanto tempo estou aqui?

            O outro respondeu:

            — Desde antes de você entrar.

            — Isso é impossível.

            — Você continua usando essa palavra.

            — Quem é você?

            — A pergunta errada.

            — Então qual é a pergunta certa?

            O outro aproximou-se.

            — Por que você precisa ser alguém?

            Ele ficou em silêncio.

            O outro continuou:

            — Você passou a vida inteira tentando transformar existência em propriedade. Meu corpo. Minha casa. Meu nome. Minha profissão. Minha memória. Meu passado. Meus medos. Até a morte você queria possuir.

            — Eu apenas fiquei.

            A frase pareceu produzir uma rachadura no ar.

            O imóvel respirou.

            As duas versões dele permaneceram diante uma da outra.

            Então o outro desapareceu.

            Não morreu.

            Não saiu.

            Apenas deixou de estar onde estava.

            Ele entrou na sala.

            Era sua casa.

            Mas não era.

            Sobre a mesa havia uma fotografia.

            Pegou-a.

            Era a fachada do imóvel.

            Virou.

            No verso estava escrito:

            “Não venda a casa. Ela ainda não terminou de existir.”

            Ele deixou a fotografia cair.

            Sentiu vontade de chorar.

            Não chorou.

            Talvez porque naquele momento percebeu que até suas lágrimas pertenciam à casa.

            Saiu.

            A porta estava novamente diante dele.

            Abriu.

            Do lado de fora amanhecia.

            A rua estava cheia.

            Pessoas caminhavam.

            Carros passavam.

            Um cachorro latia.

            Uma mulher varria a calçada.

            Tudo parecia normal.

            Olhou para trás.

            O imóvel estava silencioso.

            Nenhum movimento.

            Nenhuma respiração.

            Nada.

            Ele caminhou alguns metros.

            Sentiu alívio.

            Então ouviu um som.

            Inspirou.

            Expirou.

            Parou.

            Percebeu que o som vinha de dentro dele.

            Respirou novamente.

            A casa respirou junto.

            Ou talvez ele respirasse como a casa.

            Voltou-se.

            A fachada permanecia imóvel.

            No segundo andar, uma janela abriu-se lentamente.

            Ele não viu ninguém.

            Mas teve certeza de que havia alguém olhando.

            Continuou caminhando.

            Durante meses tentou esquecer.

            Conseguiu esquecer durante alguns dias.

            Depois durante algumas horas.

            Depois durante alguns minutos.

            Até perceber que o esquecimento também era uma forma de permanência.

            Começou a sonhar com o imóvel.

            Todas as noites.

            Nos sonhos, nunca entrava.

            Ficava diante da porta.

            Esperando.

            A casa respirava.

            Ele respirava.

            E ambos aguardavam alguma coisa que nenhum dos dois sabia nomear.

            Certa manhã, recebeu uma carta.

            Não havia remetente.

            Dentro havia apenas uma folha.

            Nela estava escrito:

            “Você deixou sua chave aqui.”

            Ele verificou os bolsos.

            A chave encontrada no quarto ainda estava consigo.

            Colocou-a sobre a mesa.

            Naquela noite, dormiu mal.

            Às duas horas e dezessete minutos, acordou.

            Ouviu o som.

            Inspirar.

            Expirar.

            Inspirar.

            Expirar.

            O som vinha do corredor.

            Levantou-se.

            Abriu a porta do quarto.

            A chave estava no chão.

            Não sobre a mesa.

            No chão.

            Brilhava sob a luz fraca.

            Ele pegou.

            Não sabia por quê.

            Vestiu-se.

            Saiu de casa.

            Andou pelas ruas vazias.

            A cidade parecia outra.

            Ou talvez ele fosse outro.

            Chegou ao imóvel pouco antes do amanhecer.

            A porta estava aberta.

            Entrou.

            Desta vez não sentiu medo.

            Sentiu reconhecimento.

            O que era pior.

            A casa respirou.

            — Você voltou.

            Ele respondeu:

            — Eu nunca saí.

            A casa permaneceu em silêncio.

            — Então acabou?

            — O quê?

            — Tudo isso.

            — Tudo isso ainda nem começou.

            Ele olhou para o corredor.

            Havia apenas uma porta.

            A mesma porta.

            Branca.

            Sem maçaneta.

            Sobre ela havia uma nova frase:

            “SAIA QUANDO TIVER CERTEZA.”

            Ele sorriu.

            Empurrou.

            A porta abriu.

            Do outro lado havia uma rua.

            A rua estava cheia.

            Pessoas caminhavam.

            Carros passavam.

            Um cachorro latia.

            Uma mulher varria a calçada.

            Era a mesma manhã.

            Era a mesma cidade.

            Era o mesmo mundo.

            Ele saiu.

            A porta fechou.

            Olhou para trás.

            Não havia imóvel.

            No lugar da casa existia apenas um terreno vazio.

            Nenhuma parede.

            Nenhuma janela.

            Nenhuma escada.

            Nenhum vestígio.

            Um homem passou por ele.

            Ele perguntou:

            — O senhor sabe o que havia aqui?

            O homem olhou para o terreno.

            — Nada.

            — Nunca houve uma casa?

            — Não.

            — Tem certeza?

            O homem sorriu.

            — Tenho.

            Ele continuou caminhando.

            Depois de alguns metros, colocou a mão no bolso.

            Encontrou a chave.

            Parou.

            Olhou para ela.

            Não havia nenhuma porta.

            Mas a chave existia.

            Talvez uma chave não precise de fechadura.

            Talvez sua função verdadeira seja lembrar ao homem que toda abertura contém a possibilidade de um fechamento.

            Guardou-a novamente.

            Continuou.

            A cidade despertava.

            O céu clareava.

            As pessoas começavam a falar.

            O mundo recuperava sua aparência habitual.

            Mas, em algum lugar atrás das coisas, havia uma respiração.

            Lenta.

            Profunda.

            Quase imperceptível.

            Ele caminhou mais depressa.

            A respiração acompanhou.

            Parou.

            Ela parou.

            Voltou a caminhar.

            Ela voltou.

            Então compreendeu.

            Não era o imóvel que respirava.

            Era o espaço entre ele e o imóvel.

            Era aquilo que permanecia quando a casa desaparecia.

            Era a distância.

            Era a ausência.

            Era o intervalo entre uma coisa e seu nome.

            Talvez fosse Deus.

            Talvez fosse o nada.

            Talvez fosse apenas o ruído do próprio sangue procurando uma saída.

            Ele não soube.

            E, pela primeira vez, não precisou saber.

            Sentou-se numa praça.

            Observou as pessoas.

            Todas caminhavam como se soubessem para onde iam.

            Ele achou aquilo profundamente comovente.

            Uma criança corria atrás de uma bola.

            Um homem discutia ao telefone.

            Uma mulher chorava discretamente.

            Um velho alimentava pássaros.

            Nada fazia sentido.

            Tudo continuava.

            E talvez esse fosse o único sentido possível.

            Continuar.

            Não porque houvesse destino.

            Não porque houvesse promessa.

            Não porque alguém tivesse escrito uma finalidade escondida atrás das paredes.

            Continuar porque o movimento é a forma mais discreta que o absurdo encontrou para não confessar sua derrota.

            Ele fechou os olhos.

            Respirou.

            Inspirou.

            Expirou.

            Por um instante, ouviu novamente o imóvel.

            Mas agora o imóvel estava dentro dele.

            Ou ele estava dentro do imóvel.

            Ou nunca existira imóvel algum.

            Abriu os olhos.

            A praça continuava ali.

            As pessoas continuavam ali.

            O mundo continuava.

            No bolso, a chave permanecia quente.

            Ele apertou-a entre os dedos.

            E ouviu, muito distante, uma porta se abrindo.

            Depois outra.

            Depois outra.

            Depois milhares.

            Todas ao mesmo tempo.

            Nenhuma levava a lugar algum.

            E, justamente por isso, todas levavam para dentro.

            Ele sorriu.

            Não havia mais casa.

            Não havia mais saída.

            Não havia mais pergunta.

            Apenas a respiração.

            Apenas o escuro.

            Apenas aquele estranho lugar onde o ser, cansado de existir, finalmente descobria que o nada também precisava respirar.

Clayton Alexandre Zocarato

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Um dia na vida real

Um retrato cru da era digital, do desemprego e do silêncio na Avenida São João, por Evani Rocha

Evani Rocha
Evani Rocha
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Deita novamente no sofá, estica as pernas, levanta e aumenta a velocidade do ventilador de teto. Vai até a janela, puxa a cortina veneziana, olha a rua. O sol escaldante brilha no asfalto preto. Os carros se enfileiram no sinaleiro. Imagina o calor que os transeuntes devem estar sentindo. Vai até a geladeira, abre a porta, sente necessidade de comer algo, de preferência doce. Não está com fome. Começa abrindo os vários potes de plástico… quem sabe encontra algo interessante. Abre um, dois, três e, dessa vez, achou um pedaço de goiabada esquecido numa lata de sorvete.  Pensa rápido: ‘Acho que goiabada não estraga…’ Procura por um creme de leite, lógico, daria uma boa incrementada naquele achado. Oba! Encontrou na porta da geladeira em meio à algumas garrafas e potes com coisas não identificadas. Apanhou a caixa, balançou; tinha um restinho. Olhou a data. Estava vencido. Pensou novamente: ‘Creme de leite estraga…’. Resolveu deixar de lado. Ficou só com a goiabada mesmo.

Foi até ao armário da cozinha, abriu a segunda gaveta; os talheres estavam muito misturados. Mexeu, mexeu e finalmente encontrou um garfo. Espetou-o no pedaço de doce e jogou a lata dentro da pia, de qualquer jeito. Uma pilha de louça suja, saía para fora da cuba. Foi até ao sofá, deitou-se e recostou-se confortavelmente nas almofadas amassadas. Começou a degustar o doce. Seus olhos passeavam pelo ambiente. Seu cérebro processava, processava…reparou o lustre caindo, pendurado apenas por um fio, lembrou-se também da lâmpada queimada. Pegou novamente o celular. Passou rapidamente pelas redes, viu alguns vídeos e pulou vários. Abriu o Instagram, nenhuma novidade há vinte minutos. Começou a repassar algumas conversas antigas no WhatsApp. Ninguém havia falado com ele nas últimas seis horas. 

O doce acabou. Pôs o garfo sobre a mesinha de centro, juntamente com três copos sujos, que ali jaziam há pelo menos três dias. Continuou mexendo no celular. Nada lhe apetecia. Jogou-o no sofá; sentou-se. Foi até o banheiro e se olhou no espelho. Não tinha necessidade fisiológica. Enquanto se olhava no espelho, processava, processava…pensou em fazer a barba, talvez cortar um pouco os cabelos. As olheiras denunciavam as noites mal dormidas. Abriu a torneira da pia, enxaguou a boca, jogou água no rosto. De súbito ouviu um apito no celular, enxugou o rosto e correu para o sofá. Apanhou o celular, viu que havia uma mensagem nova no WhatsApp.

Um amigo perguntou se ele estava bem, porque estava sumido!? Teve vontade de responder que estivera muito ocupado, com muito trabalho…processou. Resolveu gravar um áudio; assim poderia explicar melhor. Começou a gravar: ‘Que nada, cara, estou sempre por aqui, sabe como é, as coisas estão difíceis, estou levando currículo em vários lugares…aguardando ser chamado em algum!’ Preferiu dizer a verdade. Não gostaria de aumentar seus problemas cometendo o primeiro pecado capital. 

Ficou à espera de que o amigo continuasse a conversa, mas nada, o aplicativo mostrava ‘mensagem não visualizada’. Processava, processava…Chegou à conclusão de que o amigo era só mais um daqueles que dizem: ‘Olha, você sabe como te considero, cara, se precisar de alguma coisa, é só falar!’. Estava cansado dessa hipocrisia disfarçada de amizade. Lembrou que sua conta bancária estava praticamente no vermelho; tinha que economizar o máximo que pudesse, pois não havia mesmo com quem contar. Também, lá se vão sete meses desempregado. Levantou-se novamente do sofá. Andou pela sala em círculos por algumas vezes. Processava, processava…o celular na mão, de segundo em segundo, passava por todos os aplicativos e redes sociais que frequentava. Nada, nada, nada…pensou que estava com ranço dessa tal tecnologia…

Foi até a geladeira pela enésima vez, agora não procurou comida, pois já sabia que seria em vão. Pegou uma garrafa de plástico transparente com água, procurou por um copo limpo, viu que toda a louça que tinha estava suja dentro da pia, pensou que não ligava para isso, pegou um copo de vidro com um resto de líquido escuro e jogou fora. Era certamente resquício do café fraco feito pela manhã daquele dia. Tomou a água em um só gole. Voltou à sala, rodou o dedo novamente nos aplicativos e redes sociais. Olhou a mensagem enviada ao amigo: ‘Não visualizada’. Processou, processou…Tinha certeza de que o tal amigo fingiu que não viu a mensagem. Pensou: ‘Ninguém quer se comprometer…’

Foi até a janela novamente. O sol já havia abaixado. Dali a pouco seria noitinha. Talvez saísse para dar uma volta com Leocádio, seu cãozinho poodle. Por pensar em Leocádio, atentou-se que por horas não o via. Deu uma volta no pequeno apartamento. Olhou pela sala e cozinha e foi até seu quarto. O cãozinho dormia o sono dos deuses sobre seu edredom, embolado. Suspirou aliviado e pensou que pelo menos alguém conseguia dormir naquela casa. Com o celular na mão, foi novamente até a janela da sala. Olhava as pessoas passando apressadas sobre a calçada estreita, pensou que certamente a maioria delas estava indo ou voltando do trabalho. Teve vontade de gritar, sabe-se lá o quê. Chamar um nome aleatório.

Mas quem iria ouvir um chamamento do terceiro andar daquele prédio antigo da avenida São João, se o barulho do trânsito era insuportável. Olhou novamente o celular. Processou, processou, processou… Nada de novo, nem uma mensagem, nem uma curtida na última foto postada…, ninguém falou com ele nas últimas duas horas. Exceto o tal amigo, que não tinha tempo para responder à mensagem.

Evani Rocha

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Quando o silêncio deixa de ser casa

Quando as paredes da mente ecoam o indizível: a escrita reflexiva e visceral de Adriana Rocha

Adriana Rocha
Adriana Rocha
Ilustração simbólica sobre o enfrentamento à violência doméstica, com uma mulher deixando um ambiente de medo e opressão por uma porta aberta para um caminho iluminado. Elementos em tons lilás representam proteção, escuta, diálogo, respeito, autonomia e dignidade. Em primeiro plano, flores, uma balança da justiça, uma fita lilás e materiais sobre mediação reforçam a mensagem de segurança e liberdade.
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Agosto Lilás nos convida a olhar para uma realidade que, muitas vezes, permanece escondida atrás das portas de uma casa, dos silêncios de uma família e das justificativas que tentam normalizar aquilo que jamais deveria ser normalizado: a violência doméstica.

Falar sobre enfrentamento à violência contra a mulher é falar sobre proteção, dignidade, autonomia e, sobretudo, sobre o direito de viver sem medo.

Nesse contexto, a mediação privada precisa ser compreendida com responsabilidade. Mediação não é sinônimo de reconciliação a qualquer custo, tampouco pode transformar uma situação de violência em uma simples divergência entre partes colocadas em condições aparentemente equivalentes.

A essência da mediação está no diálogo qualificado, na autonomia e na construção responsável de soluções. Mas esses princípios somente podem ser exercidos quando existem condições mínimas de segurança, liberdade e equilíbrio para que a pessoa possa se expressar e decidir.

Em situações que envolvem violência doméstica, o primeiro compromisso deve ser com a proteção da pessoa em situação de violência. Antes de perguntar “como podemos construir um acordo?”, é necessário perguntar: “há segurança para que essa pessoa possa escolher?” Essa mudança de perspectiva é fundamental.

A violência pode assumir diferentes formas: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Nem sempre deixa marcas visíveis. Algumas das feridas mais profundas são produzidas por ameaças, humilhações, controle, isolamento, medo e dependência econômica.

Por isso, o mediador e a mediadora precisam estar preparados para reconhecer sinais de vulnerabilidade, compreender os limites éticos e jurídicos de sua atuação e saber quando a mediação não é o caminho adequado.

A mediação privada não deve ser utilizada para silenciar conflitos, produzir acordos a qualquer preço ou conferir aparência de normalidade a relações marcadas pela violência.

Ao contrário: quando adequadamente compreendida, ela reafirma que autonomia não existe onde há coerção; consenso não existe onde há medo; e diálogo não pode ser confundido com submissão. Isso também nos leva a uma reflexão sobre a cultura da pacificação.

Pacificar não significa simplesmente fazer com que as pessoas parem de discutir. Pacificação verdadeira pressupõe respeito, segurança, reconhecimento de direitos e possibilidade real de escolha.

Em determinados contextos, a melhor intervenção do profissional da mediação pode ser justamente não mediar.

Reconhecer esse limite não representa fracasso. Representa competência, ética e compromisso com uma cultura de paz que não seja construída sobre o silêncio de quem sofreu violência.

O Agosto Lilás, portanto, não deve ser apenas um período de campanhas e manifestações simbólicas. Deve ser uma oportunidade para aprimorarmos práticas profissionais, ampliarmos a informação, fortalecermos redes de proteção e qualificarmos cada vez mais os espaços de acesso à justiça.

Na mediação privada, especialmente, precisamos compreender que acolher não significa substituir a vontade da pessoa; proteger não significa decidir por ela; e promover o diálogo não significa obrigá-la a dialogar.

Há momentos em que a escuta é o primeiro passo para a autonomia. Há momentos em que o silêncio é um pedido de proteção. E há momentos em que dizer “não” à mediação é, justamente, uma forma de dizer “sim” à dignidade.

Que o lilás de agosto não seja apenas uma cor. Que seja um compromisso!

Um compromisso com relações sem violência, com profissionais preparados, com instituições responsáveis e com uma sociedade capaz de compreender que a paz verdadeira jamais pode ser construída à custa da segurança, da liberdade ou da dignidade de alguém.

Porque, diante da violência doméstica, o primeiro consenso que precisamos construir é aquele que nenhuma mulher deveria precisar negociar: o direito de viver em segurança.

Adriana Rocha

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