Clayton Alexandre Zocarato estreia a dramaturgia no ROL em um sensível manifesto sobre os nós do amor na era do MSN
Clayton A. Zocarato
Uma Nova Cortina se Abre no Jornal ROL!
O Jornal ROL abre suas cortinas digitais para uma estreia absoluta em suas páginas: a dramaturgia. Pela primeira vez, trazemos aos nossos leitores uma peça teatral contemporânea, escrita pelo talentoso colunista e autor Clayton Alexandre Zocarato.
Em “A última conexão – Peça em um único ato”, somos transportados em uma cápsula do tempo até o ano de 2006. Embalados pelos sons de Hoobastank e Avril Lavigne, reencontramos a atmosfera nostálgica dos primórdios da internet discada e das janelas de conversa do MSN.
Contudo, por trás do cenário que marcou uma geração, o autor costura um diálogo profundamente maduro e atemporal. Cruzando as angústias do amor juvenil com as vozes de grandes pensadores como Platão, Erich Fromm e Roland Barthes, a obra nos convida a refletir sobre os limites do afeto, as armadilhas das expectativas virtuais e a coragem necessária para se desatar de nós que já não nos prendem.
Acomode-se na poltrona, imagine o som da chuva ou dos carros lá fora e permita-se vivenciar este belíssimo ato.
MIGUEL, vinte e poucos anos, estudante de Filosofia e amigo de Lia.
CLARA, amiga dos dois, prática e observadora.
Cenário:
Uma sala pequena de apartamento, em São Paulo, no ano de 2006. Há um computador de mesa ligado à internet discada, uma pilha de CDs gravados, um telefone celular antigo, uma caneca de café frio e um aparelho de som. Pela janela, ouvem-se carros e, ao longe, o barulho de uma festa. No computador, a janela do MSN está aberta. A música “The Reason”, da banda Hoobastank, toca baixinho no aparelho de som. Nenhuma letra é reproduzida.
LIA está sentada diante do computador. Digita uma mensagem, apaga, torna a digitar. MIGUEL está no chão, encostado ao sofá, folheando um livro. CLARA entra com três copos de refrigerante.
CLARA: Se você apagar essa mensagem mais uma vez, o computador vai achar que está sendo rejeitado também.
LIA: Ele pelo menos não vai entender errado.
MIGUEL: Talvez entenda. As máquinas também têm seus dramas. A diferença é que não mandam mensagem às duas da manhã perguntando por que a gente sumiu.
LIA: Engraçado. Você diz isso como se nunca tivesse feito.
MIGUEL: Eu mandei uma mensagem uma vez.
CLARA: Uma vez por noite, durante duas semanas.
MIGUEL: Eu estava filosoficamente inquieto.
LIA: Você estava apaixonado.
MIGUEL: São estados parecidos, mas nem sempre compatíveis.
CLARA: E você, Lia, vai mandar ou não?
LIA: Não sei o que escrever.
CLARA: A verdade costuma ser um começo razoável.
LIA: “Oi, André. Eu gosto de você, mas percebi que talvez você só goste de mim quando está entediado.” Parece agressivo.
MIGUEL: Parece específico.
LIA: Ele aparece quando quer conversar, me conta tudo, pergunta o que eu penso, diz que sou importante. Aí, quando eu pergunto se a gente pode ser alguma coisa, ele diz que não quer estragar a amizade.
CLARA: E você acredita?
LIA: Acredito que ele não quer ficar comigo. O resto é que eu não consigo entender.
MIGUEL: Às vezes, não existe um resto escondido. Às vezes, a resposta é dolorosamente simples.
LIA: Eu sei. Só queria que ele dissesse isso sem me deixar esperando em frente a uma janela do MSN. O status dele ficou “ausente” há três horas. Eu sei que é ridículo, mas fico olhando.
CLARA: Não é ridículo. É triste, que é diferente.
LIA: A pior parte é que eu comecei a calcular. Se eu responder rápido, pareço desesperada. Se demorar, talvez ele ache que não me importo. Se eu não mandar nada, talvez sinta minha falta. Eu estou tentando transformar o amor numa estratégia de horário.
MIGUEL: Como se o coração fosse uma prova de múltipla escolha e a gente só precisasse marcar a alternativa certa.
CLARA: E, mesmo assim, você está estudando para a prova.
LIA: Estou. Porque não quero perdê-lo.
MIGUEL: Você já sabe que não tem o que perder?
LIA: Tenho a amizade.
CLARA: Tem a amizade que existe ou a amizade que você espera que um dia vire outra coisa?
LIA fica em silêncio. A música termina. O aparelho de som passa para outra faixa: “Complicated”, de Avril Lavigne.
LIA: Às vezes eu penso que ele gosta de mim, só não sabe dizer. Ele tem medo. Talvez eu esteja sendo injusta.
MIGUEL: Pode ser. Mas existe uma diferença entre tentar compreender alguém e construir, sozinha, uma explicação que mantenha você presa.
LIA: Você fala como se fosse fácil.
MIGUEL: Não é. Eu passei um ano gostando de uma pessoa que me dizia que eu era “especial”. Eu achei que “especial” significava “escolhido”. Depois descobri que, para ela, significava “amigo que conserta o computador”.
CLARA: Você consertou?
MIGUEL: Consertei. O computador. Não a situação.
LIA: E o que você fez?
MIGUEL: Fiquei triste. Depois parei de fingir que a tristeza era uma prova de amor.
LIA: Como assim?
MIGUEL: Eu achava que, se doesse muito, então era verdadeiro. Como se sofrer fosse uma espécie de certificado. Mas sofrimento não prova que alguém nos ama. Às vezes, só prova que estamos tentando segurar uma coisa que o outro não está segurando.
CLARA:Erich Fromm escreveu que amar não é apenas sentir; é também uma prática, uma capacidade que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Não é uma fórmula para obrigar alguém a corresponder. É quase o contrário: amar alguém também é reconhecer que essa pessoa pode não nos escolher.
LIA: Reconhecer isso não faz parar de doer.
CLARA: Não. Só impede que a dor vire desculpa para continuar pedindo uma coisa que o outro não quer dar.
MIGUEL: Platão, no Banquete, apresenta o amor como desejo que nos move em direção à beleza e ao que julgamos bom. Mas, quando a gente se apaixona, às vezes põe toda a beleza numa pessoa só. Ela vira o céu inteiro. Então, se ela fecha a janela, parece que acabou o universo.
LIA: É fácil falar de beleza quando não é você esperando uma resposta.
MIGUEL: Você tem razão. Platão não está aqui para olhar o status do André.
CLARA: E talvez o problema nem seja pensar no amor como algo que nos eleva. O problema é esquecer que a pessoa amada não é uma ideia. É alguém real, com desejos próprios, limites, contradições e o direito de não sentir o mesmo.
LIA: Eu transformei o André numa resposta.
CLARA: Talvez. Você vê nele o que ele faz, mas também o que espera que ele venha a fazer.
LIA: Quando ele me liga, eu sinto que sou a pessoa mais importante do mundo. Quando some, fico achando que não sou nada.
MIGUEL: É muito poder para uma pessoa só receber.
LIA: Eu não queria dar esse poder. Aconteceu.
CLARA: Aconteceu porque você é humana. Mas agora pode escolher o que faz com isso.
LIA: E se eu escolher errado?
MIGUEL: Vai doer também. A vida não oferece uma escolha sem risco, só escolhas que a gente consegue sustentar.
LIA: Você ainda acredita no amor romântico?
MIGUEL: Acredito que ele existe. Só não acho que seja uma espécie de destino que absolve tudo. Tem gente que usa “amor” para justificar ciúme, invasão, controle, promessa quebrada. Como se sentir muito desse o direito de fazer qualquer coisa.
CLARA: O amor romântico pode ser bonito, mas não é automaticamente justo. A gente cresceu vendo histórias em que insistir vira prova de amor e o “não” da outra pessoa vira obstáculo a ser vencido. Na vida real, um “não” não é o primeiro capítulo de uma perseguição. É um limite.
LIA: Mas e o amor platônico? Todo mundo fala como se fosse um amor puro, sem interesse, quase superior.
MIGUEL:“Platônico” virou nome para gostar de alguém que não corresponde. Mas isso não é exatamente o que Platão quis dizer. O amor filosófico não precisa ser um amor distante, impossível, sem corpo. Pode ser um desejo que nos faz sair de nós mesmos e buscar compreender o outro e o mundo.
CLARA: Só que, às vezes, chamamos de “platônico” aquilo que não conseguimos viver de verdade. A distância parece segura. A pessoa fica perfeita porque não precisa dividir a pia, cancelar planos, ter mau humor ou dizer que não quer nada com a gente.
LIA: Então o amor imaginado é mais fácil?
CLARA: Mais controlável. Não necessariamente mais bonito.
MIGUEL: Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, observa como quem ama vive interpretando sinais: a demora, a palavra, a ausência, o ponto final de uma mensagem. Olha para uma tela e tenta descobrir nela o próprio valor.
LIA: Parece que ele escreveu sobre o MSN.
MIGUEL: Escreveu antes. O sofrimento é antigo; a tecnologia só mudou o cenário.
CLARA: Antes, a pessoa esperava o telefone tocar. Agora espera o sinal de “digitando”.
LIA: E, quando aparece, o coração dispara. Aí a mensagem some. A pessoa desiste de escrever e você passa cinco minutos imaginando o que quase foi dito.
MIGUEL: O silêncio sempre teve espaço para a imaginação. A internet só colocou um relógio ao lado dele.
CLARA: E uma lista de contatos para você conferir se a pessoa está online com todo mundo, menos com você.
LIA: Quando ele aparece online e não fala comigo, parece que está escolhendo não me escolher diante dos meus olhos.
MIGUEL: Essa frase é terrível.
LIA: Mas é o que parece.
CLARA: O sentimento é real. A conclusão talvez não seja toda a realidade.
LIA: Como é que separa uma coisa da outra?
CLARA: Não separa de uma vez. Você pergunta o que sabe e o que está imaginando. Sabe que ele não quer uma relação? Ele já disse isso?
LIA: Disse que não quer namorar agora.
MIGUEL: E disse que quer ficar com você?
LIA: Não.
CLARA: Então há uma resposta, ainda que não seja a que você gostaria.
LIA: Eu queria que ele tivesse coragem de ser direto.
MIGUEL: Talvez também precise de coragem para ouvir o que ele já está dizendo.
LIA: Você sempre consegue transformar uma frase cruel em uma frase inteligente.
MIGUEL: É um mecanismo de defesa. Minha mãe chama de “falar difícil para não chorar”.
CLARA: A minha chama de “pegar o copo e lavar depois”.
LIA ri, pela primeira vez. O telefone toca. Ela olha para o aparelho, mas não se mexe.
CLARA: Não vai atender?
LIA: Não é ele. Ele mandaria mensagem.
MIGUEL: E se fosse?
LIA: Eu atenderia. É isso que me assusta.
CLARA: Você não precisa fingir indiferença. Só precisa decidir o que aceita.
LIA: Eu aceito conversar. Aceito gostar dele. Não aceito continuar me oferecendo em parcelas, esperando que um dia ele perceba que já me tem inteira.
MIGUEL: Isso parece uma frase que você deveria escrever.
LIA: Parece uma frase que eu queria acreditar.
CLARA: Então comece por ela.
LIA: E se eu perder a amizade?
CLARA: Talvez você perca a fantasia de que a amizade está equilibrada. Isso não é a mesma coisa.
LIA: Você acha que eu devo mandar a mensagem?
CLARA: Acho que você deve escrever o que precisa dizer sem tentar controlar a resposta.
MIGUEL: E sem colocar a responsabilidade pela sua vida inteira nas mãos dele.
LIA: Vocês são péssimos conselheiros. Ninguém está prometendo que vai dar certo.
CLARA: Conselheiro bom não promete final feliz. Só tenta evitar que você se abandone para manter alguém por perto.
LIA volta ao computador. A janela do MSN continua aberta. Ela começa a digitar, mas dessa vez não apaga. Lê em voz alta enquanto escreve.
LIA: “André, gosto de você e queria uma relação que fosse mais clara e recíproca. Entendi que você não quer isso comigo. Não estou escrevendo para mudar sua resposta. Preciso me afastar um pouco, porque continuar esperando está me fazendo mal. Espero que você compreenda.”
MIGUEL: É honesto.
CLARA: E não acusa.
LIA: Nem implora.
MIGUEL: Você pode ainda querer que ele responda “esperei a vida inteira por isso”.
LIA: Posso. Não sou uma estátua de sabedoria. Uma parte de mim ainda quer que ele leia e perceba que me ama.
CLARA: Não precisa expulsar essa parte. Só não deixe que ela escreva a mensagem por você.
LIA posiciona o cursor sobre o botão de enviar. Hesita.
LIA: Amar alguém é aceitar que ele seja livre?
MIGUEL: Também. E aceitar que você seja livre para sair.
CLARA: O amor real não é menos bonito por ter limites. Talvez seja mais difícil justamente porque o outro não existe para completar a nossa história do jeito que imaginamos.
LIA: Então o amor filosófico seria aprender a amar sem transformar o outro em propriedade?
MIGUEL: E o amor romântico, quando amadurece, talvez seja tentar viver isso sem apagar o desejo, o corpo, o ciúme, a insegurança. Não deixar que essas coisas governem tudo, mas também não fingir que elas não existem.
CLARA: Amar não é ser perfeitamente generoso. É perceber quando o medo está falando por nós e tentar não fazer do outro refém desse medo.
LIA: E ser rejeitado?
MIGUEL: É descobrir que alguém não pode ou não quer caminhar com você. Não é descobrir que você não merece ser amada.
LIA: Eu sei que essa frase é verdadeira. Só ainda não consigo senti-la.
CLARA: Tudo bem. Às vezes, a gente precisa atravessar uma verdade antes de conseguir morar nela.
LIA respira fundo e clica em “enviar”. O computador faz um ruído discreto. Ela continua olhando para a tela, mas não atualiza o status de André.
LIA: Foi.
MIGUEL: Foi.
CLARA: E agora?
LIA: Agora não sei.
CLARA: Essa é uma resposta honesta.
LIA: Eu pensei que, quando mandasse, ia me sentir corajosa.
MIGUEL: E se sentir triste não cancela a coragem.
LIA: Eu queria que amor fosse uma coisa simples. Duas pessoas se encontram, gostam uma da outra e pronto.
CLARA: Às vezes acontece. Mas mesmo aí tem conta para pagar, família para visitar, mau humor, medo, trabalho, silêncio. O amor não tira a gente do mundo. Acontece dentro dele.
MIGUEL: E o mundo dos anos 2000 está cheio de novidades que prometem aproximar todo mundo. Celular, MSN, Orkut, mensagens a qualquer hora. Mas estar conectado não é o mesmo que estar junto.
LIA: A gente vê a pessoa online e acha que tem acesso a ela.
CLARA: A tela mostra presença. Não promete intimidade.
MIGUEL: E uma foto no Orkut não revela a vida inteira de ninguém. Só mostra o que a pessoa escolheu colocar ali.
LIA: Como uma versão melhorada de nós mesmos.
CLARA: Ou uma versão que espera ser escolhida.
LIA: Talvez eu também tenha feito isso. Tentei ser a pessoa que ele queria: ouvi as bandas de que ele gostava, fingi não me importar quando ele cancelava, respondi “tudo bem” quando não estava tudo bem.
MIGUEL: Para ser amada, você tentou ficar fácil de amar.
LIA: E esqueci de perguntar se eu ainda gostava de mim daquele jeito.
CLARA: Essa é a pergunta que muda a conversa.
LIA: Não sei se vou conseguir me afastar.
MIGUEL: Você não precisa resolver o resto da vida hoje. Só não precisa desfazer o que acabou de dizer por causa de cinco minutos de saudade.
LIA: Você acha que o amor pode voltar depois de uma rejeição?
MIGUEL: Pode nascer outra coisa. Pode continuar existindo carinho. Pode haver amizade, se os dois conseguirem construí-la sem usar o outro como sala de espera. Mas não dá para exigir que o sentimento obedeça a um plano.
CLARA: E não dá para chamar qualquer vínculo de amizade só para não admitir que ainda espera mais.
LIA: Vocês estão acabando com todas as minhas ilusões.
MIGUEL: Estamos tentando não acabar com você junto.
LIA se afasta do computador. Vai até o aparelho de som e troca o CD. Começa “Amor I Love You”, de Marisa Monte. Ela sorri, mas não canta.
CLARA: Essa música ainda funciona.
LIA: Funciona porque parece que alguém sabe seu fim…
Palavras que o vento não pronuncia, sussurros de versos que se leem eternos. Teus lábios recitam tormenta e fogo, minhas letras choram com o amor ao tempo. Pretensiosos, credes conhecer-nos. Mas a flor que olha para o sol e cresce em silêncio, pode ser um amor proibido cujo calor derrete meu tormento. O caminhar sem rumo pelo teu sopro, pode significar que desejo outro mundo, ser invisível… deixar o presente, esse segundo sinistro, que fecha sua sombra sobre o romantismo lento. Sim, desnudamos nossa alma com cada verso. A dor, nós a convertemos em poemas, baladas de carícias e dilemas, segredos de sombra lidos sob a falsa lâmpada da certeza. Uma borboleta que voa? Uma alma que se vai sem garantir que volte. O orvalho da manhã? Lágrimas que nunca serão vistas nem perguntadas. Uma flor sobre a tua lápide? Desterrado do meu coração, esquecido para onde quer que eu vá. Nunca garantais conhecer um poeta. Versos criados a partir do barro, leves voam presenteados em direção ao céu. Música que rega com sua melancolia os prados verdes. Escuridão sem medo, mel que adoça la luz do caminho e cura as feridas daquele que caminha sem esquecer, e lembra o caminho que nos há de levar sem sucumbir à tentação de olhar para trás. Somos poetas: criadores de magia e de tormentas. Somos poetas; não temos que confessar nossa tristeza. Não desejamos que nos compreendam; somos poetas. Nossa essência não vos deve pureza, simplesmente, saboreai cada palavra e fazei-a vossa. Não deixeis que morra a rosa eterna que cada alma encerra com sua própria condena.
Anteontem conversava com um ex-aluno sobre como ensinar os estudantes a escrever poesia. Pensar em uma maçã para praticar a escrita já é algo totalmente ultrapassado.
Sugeri que, em vez disso, começássemos deixando que eles tirassem algumas fotos. Mas como tirar boas fotos? Tirar de qualquer jeito não funciona. Que tal assim: no mesmo lugar, em momentos diferentes, tirar fotos nos instantes que despertarem mais sentimentos.
Por exemplo — naquele momento estávamos sentados dentro do McDonald’s. Para ser honesto, este McDonald’s dentro do conjunto habitacional não tem nada de diferente de qualquer outro McDonald’s no mundo.
O que quero dizer é que, seja na Quinta Avenida em Nova York ou no Oxford Circus em Londres, nenhum deles é diferente; em todos você sempre verá mães atarantadas puxando os filhos, com os braços cheios de mantimentos, entrando e saindo, passando da primeira foto para a segunda foto, e então desaparecendo na terceira foto — no final de tarde de um dia de outono do ano passado, quando saí do Cemitério do Père-Lachaise, o McDonald’s na esquina me atraiu. Enquanto eu mordia aquele hambúrguer de sabor padrão que parecia feito de cera de abelha, uma mãe jogou o filho no assento na minha frente e estacionou um carrinho de bebê ao lado.
Na segunda foto, o céu de Paris começava a escurecer; de um lado o cansaço, do outro a fome.
Enquanto eu bebia meu refrigerante, a criança me olhava com curiosidade.
Ah, não, olhava para o livro de presente do Happy Meal nas minhas mãos. Podia-se escolher entre o livro e o brinquedo; mas os brinquedos são iguais no mundo inteiro, enquanto os livros… afinal, livros ilustrados em francês são raros em Hong Kong. Eu pretendia dar ao meu próprio filho, e também guardar para mim.
Na terceira foto, a luz do dia já se apagara totalmente, e ao empurrar a porta para sair, o vento frio da noite de outono soprava lá fora — o ex-aluno temia que, assim que os estudantes pegassem os celulares, só quisessem jogar videogame, esquecendo-se completamente de observar o entorno e tirar as fotos.
Eu também tinha consciência disso, mas não há outro jeito. Se não estiverem dispostos a observar, sentir e pensar, como falar de escrita? Lembrei-me daquela mãe enquanto comprava o lanche infantil, e de como o seu filho estava concentrado no livro em minhas mãos, na minha batata frita e no meu refrigerante, ou talvez também tenha notado a mim, um asiático sentado na sua frente, também como a paisagem de uma fotografia.
Meu filho está lendo o livro dela; de vez em quando levanta a cabeça para olhar para mim e para o meu ex-aluno, que incrivelmente ainda estamos conversando sobre como ensinar a escrever poesia.
Meu filho ganhou recentemente uma câmera fotográfica em miniatura de presente; durante a viagem a Tóquio, tirou fotos por toda parte até lotar o cartão de memória.
E se os alunos não souberem descrever com palavras as fotos que tiraram? Sugeri que simplesmente jogassem para a IA escrever. Não tem problema, afinal é apenas um exercício: “Três Fotos”, um exercício para observar, um exercício para sentir aqueles instantes e a passagem do tempo.
Essa passagem do tempo e a eternidade — como o Cemitério do Père-Lachaise, como três anos atrás, à noite, no McDonald’s em frente ao Panteão de Paris, comendo e conversando com alunos sobre o futuro acadêmico, como hoje, três anos depois, em que cada um de nós já tomou seu próprio rumo.
Antes da terceira foto, ou daqui em diante, para nunca mais nos reencontrarmos.
21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, é uma data que marca a construção de mobilizações para a Inclusão Social de Pessoas com Deficiência, conscientização da luta anti-capacitista e celebração destes movimentos. A luta pelos direitos humanos da Pessoa com Deficiência é histórica e tem seu grande marco em 1948 com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Apesar de ter sido oficializada em 2005 com a lei Nº 11.133, a data é marcada por reivindicação do Movimento pelos Direitos das Pessoas com Deficiência (MDPD) desde 1982. O Censo 2022 do IBGE aponta que o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência com dois anos ou mais de idade, representando 7,3% da população.
Principais Dados e Estatísticas
• Gênero: do total de pessoas com deficiência, 8,3 milhões são mulheres e 6,1 milhões são homens.
• Idade: idosos com 60 anos ou mais formam 45,4% desse grupo. A incidência cresce com a idade, indo de 2,2% na faixa de 2 a 4 anos até 27,5% entre pessoas com 70 anos ou mais.
• Tipos mais comuns: dificuldades visuais e motoras (para caminhar ou subir degraus) lideram os registros.
• Autismo: levantamento identificou 2,4 milhões de pessoas com autismo no país (1,2% da população), com maior incidência entre crianças de 5 a 9 anos.
• Educação e Trabalho: cerca de 63,1% das pessoas com 25 anos ou mais com deficiência não concluíram o ensino fundamental. O nível de ocupação no mercado de trabalho para esse grupo é de 26,6%, contra 60,7% das pessoas sem deficiência.
A presença de personagens com deficiência (PcD) nas literaturas passou por grandes transformações ao longo dos séculos. Antigamente, muitas obras utilizavam a deficiência como uma metáfora moral, punição ou símbolo de superação extrema.
Hoje, as literaturas contemporâneas buscam retratar a pessoa com deficiência a partir de uma perspectiva mais realista, humana e complexa, onde a condição faz parte da identidade do personagem, mas não define toda a sua história. A representação de personagens com deficiência nas literaturas evoluiu de estereótipos trágicos ou heroicos para retratos mais complexos e humanos.
Evolução Histórica
• Séculos passados: a deficiência aparecia ligada ao castigo divino, à superação extrema ou ao papel de coadjuvante amargurado (como Edward Rochester em Jane Eyre ou o pequeno Tim em Um Conto de Natal).
• Literatura contemporânea: há maior espaço para o protagonismo de pessoas com deficiência (PcD), mostrando suas dores, amores e rotinas sem cair no piegas. Leituras sobre inclusão ajudam a promover empatia e respeito.
A seguir alguns dos principais exemplos de personagens com deficiência nas literaturas, separados entre clássicos universais, literatura brasileira e sucessos contemporâneos.
1.Clássicos da Literatura Universal
Tiny Tim (Um Conto de Natal, de Charles Dickens – 1843): garoto que usa muletas devido a uma deficiência física. O personagem é historicamente debatido por acadêmicos da área de estudos da deficiência, pois Dickens o utilizou fortemente para despertar a piedade do leitor e a caridade social.
Edward Rochester (Jane Eyre, de Charlotte Brontë – 1847): após um trágico incêndio, o interesse romântico da protagonista fica cego e perde uma das mãos. Na literatura vitoriana, sua invalidez temporária era lida de forma controversa como uma espécie de “julgamento moral” ou redenção. Charlie Gordon (Flores para Algernon, de Daniel Keyes – 1959): protagonista possui uma severa deficiência intelectual. Ele é selecionado para passar por uma cirurgia experimental que aumenta drasticamente o seu QI, permitindo uma reflexão profunda e dolorosa sobre como a sociedade enxerga as capacidades mentais humanas.
2. Literaturas Brasileiras
O conto As Estrelas do Cego, de João da Câmara, 1900. O cego era um velho corcovado, trêmulo, com a face cheia de rugas cruzadas, como um pedaço de papel amachucado. O Conto A cega, de Viriato Corrêa, está no seu primeiro livro Minaretes, 1902. O conto A Caolha, de Júlia Lopes de Almeida, publicado em 1903.
Apólogo brasileiro sem véu de alegoria, de António de Alcântara Machado (de 1936 – no livro Mana Maria e contos avulsos) – onde o personagem com deficiência visual é flautista.
Infância, de Graciliano Ramos (de 1945 – narra memórias do autor, e a sua condição de criança cega é uma memória real e significativa, que moldou sua introspecção e sua relação com o mundo).
São Marcos, de Guimarães Rosa (de 1946 – o protagonista e narrador Izé fica temporariamente cego, perdendo a visão após zombçar do feiticeiro João Mangolô. A cegueira é provocada por um vodu, mas Izé recupera a visão ao rezar a oração de São Marcos e se aproximar da casa do feiticeiro, que retira a venda de um boneco, simbolizando a libertação do protagonista da maldição).
A partir desta divisão do pesquisador Jacob Twersky, investigamos obras a partir da terceira fase do Modernismo, Neste período, há As cores, de Orígenes Lessa (de 1960 – da coletânea intitulada Balbino, homem do mar.
E o conto
Em Amor, de Clarice Lispector (1960), o cego mascando chiclete é o elemento que causa uma epifania na personagem Ana. Embora não seja um personagem principal no sentido tradicional, a figura do cego funciona como um gatilho para a crise interior de Ana. Revelando a ela a crueza da vida e o contraste entre a sua existência mecanizada e a realidade pulsante.
O conto A Estrela Branca, publicado em Mistérios de Lygia Fagundes Telles, 1980 e, depois em Um Coração Ardente, 2012.
Estéticas Realistas e Modernistas: obras brasileiras do Realismo, Naturalismo e da terceira fase do Modernismo frequentemente trouxeram personagens com deficiências físicas ou transtornos mentais como um instrumento de crítica e denúncia social sobre as desigualdades e o abandono do Estado.
3. Literatura Contemporânea e Pop
E, na contemporaneidade, podemos citar: nas Literaturas Brasileiras: Até que a morte nos separe, de Ana Teresa Pereira, 2000.
Ponciá Vicêncio (Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo – 2003): protagonista herda características físicas e psicológicas de seu avô (como o andar curvado e o braço direito em punho), em uma narrativa densa que costura a saúde mental com o trauma histórico da escravidão no Brasil.
A personagem Dorinha, da Turma da Mônica, foi criada por Mauricio de Sousa, 2004. Ela foi inspirada na educadora Dorina Nowill e sua criação teve como objetivo sensibilizar as crianças para a questão da deficiência visual.
O Filho (O Filho Eterno, de Cristovão Tezza – 2007): baseado em fatos reais, o livro aborda de forma crua e honesta a relação de um pai descobrindo e aprendendo a lidar com a Síndrome de Down de seu filho recém-nascido.
Eternidade e o Desejo Inês Pedrosa O grande desafio, 2007. Narra a história de Clara, uma jovem professora portuguesa que decide voltar a Salvador anos após uma terrível experiência na cidade – ao tentar salvar das balas o homem que amava, levou um tiro que a deixou cega.
Como Eu Era Antes de Você (Jojo Moyes – 2012): traz Will Traynor, um homem que se torna tetraplégico após um acidente, gerando debates sobre autonomia e deficiência.
August “Auggie” Pullman (Extraordinário, de R. J. Palacio – 2012): um menino que nasceu com uma síndrome genética que gerou uma severa deformidade facial. A obra acompanha sua transição para uma escola regular e é amplamente utilizada para debater empatia e bullying.
Marcus (Mentira Perfeita, de Carina Rissi – 2016): protagonista tornou-se cadeirante após sofrer um acidente de moto. A trama aborda o seu desejo de independência e como ele lida com a superproteção da família enquanto vive um romance.
Olhando com Ritinha (de Sharlene Serra, 2018) narra a história de Ritinha (uma garotinha deficiente visual) que nos faz entender a sua forma de ver e perceber o mundo à sua volta. Fala dos recursos principais para sua aprendizagem e nos apresenta as combinações do Braile, sistema de leitura e escrita tátil. Uma história que nos faz acreditar ser a inclusão algo possível.
A Cega Era Eu de Eliane Brum, 2019. É um texto que narra a experiência da autora de se tornar cega ao encontrar um cego, Leniro, e como essa vivência a levou a explorar o universo dos deficientes visuais, questionando preconceitos e compreendendo o mundo por outras perspectivas, especialmente através da tecnologia e da leitura de um outro.
Nas Literaturas Africanas, o conto A MAKA DA VELHA SAMBA de Beni Dya Mbaxi, do livro Quando Não Olhas Para Trás, 2018.
Nas Literaturas Indígenas, o Velho Cego, um personagem que surge nos mitos Krahó, é discutida a sua relação com o surgimento do homem branco. Sua narrativa serve para refletir sobre a oposição entre meninos e a sociedade, e a consequente perda de sua inocência
Catarina (Interseção, de Vanessa Reis – 2024): escrito por uma autora que também é cadeirante, o livro quebra estereótipos ao colocar uma protagonista com deficiência física vivendo as aventuras e desventuras típicas de uma comédia romântica.
Vale destacarmos o trabalho realizado pela amiga Dinorá Couto Cançado (fundadora e presidente da AIAB- Academia Inclusiva de Autores Brasilienses – Blog: https://aiabbrasilia.blogspot.com). No próximo dia 21, haverá a 21 edição do Fórum Brasília, capital das leituras, com mais 5 novos projetos mapeados já chegando a 115. Posses de novos acadêmicos e o tão esperado resultado do PIEI: Prêmio Internacional de Espírito Inclusivo. A temática do PIEI desse ano “Vivências ou Memórias que constroem a cultura inclusiva no DF” gerou esse belo convite do RJ que promete desdobramentos incríveis nessa nova versão do PIEI (Projeto itinerante de espírito inclusivo).
Em versos sensíveis sobre a passagem do tempo e as marcas da ausência, Adriana Rodríguez canta as dores e as belezas de um amor que atravessou as estações