Machado de Assis

Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho

‘Machado de Assis: fundador da tradição literária brasileira e patrono das letras nacionais’

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Retrato do escritor Machado de Assis, capturado em 1890 pelo fotógrafo Marc Ferrez, revela uma figura de postura serena e olhar introspectivo. A composição sóbria e a iluminação suave destacam a profundidade psicológica do maior nome da literatura brasileira. Created with GIMP

RESUMO

O presente artigo analisa a relevância de Machado de Assis como principal nome da literatura brasileira, destacando sua trajetória, suas principais obras, sua contribuição para a consolidação do Realismo no Brasil e seu papel na fundação da Academia Brasileira de Letras. A pesquisa, de caráter bibliográfico, evidencia a singularidade de sua produção literária, marcada por profunda análise psicológica, ironia e crítica social. Discute-se, ainda, o reconhecimento de Machado como Patrono da Literatura Brasileira, considerando seu impacto duradouro na formação da identidade cultural nacional. Conclui-se que sua obra transcende o tempo, permanecendo atual e essencial para a compreensão da literatura e da sociedade brasileira.

Palavras-chave: Machado de Assis; Literatura Brasileira; Realismo; Academia Brasileira de Letras; Patrimônio Cultural.

1 INTRODUÇÃO

A literatura brasileira encontra em Machado de Assis seu maior expoente. Sua obra representa um marco na consolidação de uma tradição literária autônoma, crítica e universal. Nascido em 1839, no Rio de Janeiro, Machado construiu uma trajetória intelectual singular, superando limitações sociais e econômicas por meio de uma intensa dedicação às letras.

Inserido em um contexto histórico de profundas transformações sociais, políticas e culturais no Brasil do século XIX, o autor acompanhou a transição do Império para a República, bem como as mudanças nas estruturas sociais decorrentes do fim da escravidão. Tais elementos influenciaram diretamente sua produção literária, conferindo-lhe densidade crítica e refinamento analítico.

A originalidade de sua escrita manifesta-se na capacidade de explorar a complexidade da psicologia humana, aliada a um estilo marcado pela ironia, pelo ceticismo e pela sutileza narrativa. Machado de Assis rompeu com modelos literários tradicionais, introduzindo inovações formais que anteciparam características da literatura moderna.

Além disso, sua obra revela um profundo diálogo com a tradição literária europeia, ao mesmo tempo em que constrói uma identidade genuinamente brasileira, evidenciando tensões sociais e morais presentes na sociedade de sua época. Essa dualidade contribui para a universalidade de sua produção, tornando-a objeto de estudo em diversas partes do mundo.

Este estudo tem como objetivo analisar a importância de Machado de Assis para a literatura brasileira, destacando sua produção literária, sua atuação institucional e seu legado cultural. Busca-se, ainda, refletir sobre a atribuição do título de Patrono da Literatura Brasileira, compreendendo-o como resultado de sua influência estética e intelectual.

2 A TRAJETÓRIA DE MACHADO DE ASSIS

Machado de Assis teve origem humilde, sendo filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira. Autodidata, desenvolveu-se intelectualmente por meio do contato com livros e do convívio com intelectuais da época.

Órfão de mãe ainda na infância e enfrentando dificuldades financeiras ao longo de sua juventude, Machado encontrou na leitura e na escrita caminhos de ascensão intelectual e social. Frequentou tipografias e livrarias, ambientes que contribuíram significativamente para sua formação cultural. Seu primeiro contato com o meio literário deu-se por meio do trabalho como aprendiz de tipógrafo, função que lhe permitiu acesso direto aos textos e ao universo editorial.

Ao longo de sua trajetória, exerceu diversas atividades, incluindo a de funcionário público, cargo que lhe garantiu estabilidade e possibilitou maior dedicação à produção literária. Paralelamente, colaborou com jornais e revistas, espaços nos quais publicou crônicas, poemas e contos, consolidando sua presença no cenário intelectual do Rio de Janeiro.

Sua carreira literária iniciou-se sob influência do Romantismo, com obras que valorizavam elementos sentimentais e narrativas mais tradicionais. Nesse período, destacam-se romances como Ressurreição (1872) e A Mão e a Luva (1874), que evidenciam ainda certa vinculação aos modelos estéticos vigentes.

Contudo, foi com sua transição para o Realismo que alcançou maturidade artística, revolucionando a literatura nacional. A publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) representa um divisor de águas em sua obra e na literatura brasileira, ao introduzir uma narrativa inovadora, marcada pela ironia, pela fragmentação e pela quebra da linearidade temporal.

Machado de Assis destacou-se também por sua capacidade de analisar criticamente as relações sociais, expondo contradições da elite brasileira do século XIX. Sua escrita revela um olhar atento às questões de poder, interesse e dissimulação, frequentemente exploradas por meio de narradores complexos e pouco confiáveis.

Outro aspecto relevante de sua trajetória é sua atuação como cronista, gênero no qual demonstrou grande sensibilidade para captar o cotidiano e as transformações da sociedade carioca. Suas crônicas, publicadas em periódicos da época, constituem importante registro histórico e cultural.

Além de sua produção literária, Machado desempenhou papel fundamental na institucionalização da cultura no Brasil. Sua participação ativa na vida intelectual do país consolidou sua posição como uma das figuras mais influentes de seu tempo.

Dessa forma, sua trajetória não se limita à ascensão pessoal, mas reflete também a construção de um projeto literário sólido, que contribuiu decisivamente para a formação da identidade cultural brasileira. Sua vida e obra permanecem como exemplo de talento, disciplina e profunda compreensão da natureza humana.

3 A OBRA MACHADIANA E A CONSOLIDAÇÃO DO REALISMO

A obra de Machado de Assis é marcada por inovação formal e profundidade psicológica. Entre suas produções mais relevantes destacam-se: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899).

Essas obras introduzem uma narrativa inovadora, com ruptura da linearidade, uso de narradores não confiáveis e diálogo direto com o leitor. Além disso, Machado desenvolve uma crítica social sofisticada, abordando temas como hipocrisia, poder, relações sociais e subjetividade.

A publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas inaugura uma nova fase da literatura brasileira, não apenas pelo conteúdo, mas pela forma. O narrador defunto rompe com convenções tradicionais, permitindo uma abordagem mais livre e irônica dos acontecimentos, além de estabelecer uma relação direta e provocativa com o leitor.

Em Quincas Borba, Machado aprofunda reflexões filosóficas por meio do Humanitismo, teoria fictícia que satiriza correntes positivistas e revela a crueldade subjacente às relações humanas. A trajetória do personagem Rubião exemplifica a fragilidade da razão diante das ambições e ilusões sociais.

Já em Dom Casmurro, o autor constrói uma das narrativas mais complexas da literatura mundial, explorando a memória, a dúvida e a subjetividade. A ambiguidade em torno da possível traição de Capitu permanece como um dos maiores enigmas literários, evidenciando a maestria de Machado na construção de narradores pouco confiáveis.

Além dos romances, os contos machadianos constituem parte essencial de sua obra. Textos como O Alienista e A Cartomante revelam sua habilidade em condensar, em narrativas breves, profundas reflexões sobre a natureza humana e as instituições sociais. Em O Alienista, por exemplo, observa-se uma crítica à pretensão científica e ao autoritarismo disfarçado de racionalidade.

A linguagem machadiana caracteriza-se pela economia verbal, pela precisão estilística e pelo uso recorrente da ironia. O autor utiliza recursos como metalinguagem e quebra da quarta parede, aproximando-se do leitor e questionando a própria construção do texto literário.

Segundo Candido (2004), Machado de Assis é responsável por conferir maturidade à literatura brasileira, ao introduzir uma perspectiva crítica e universalizante. Sua obra ultrapassa o contexto nacional, dialogando com questões humanas atemporais.

Bosi (2006) destaca que o realismo machadiano não se limita à representação objetiva da realidade, mas incorpora uma dimensão psicológica e filosófica que o distingue de outros autores do período. Tal característica contribui para a permanência e atualidade de sua obra.

Dessa forma, a produção literária de Machado de Assis não apenas consolida o Realismo no Brasil, mas também redefine os limites da narrativa, influenciando gerações posteriores e posicionando-se como referência fundamental na literatura mundial.

4 A FUNDAÇÃO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

Em 1897, Machado de Assis participou da fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL), tornando-se seu primeiro presidente. Inspirada na Academia Francesa, a instituição teve como objetivo valorizar a língua portuguesa e promover a literatura nacional.

A criação da ABL ocorreu em um contexto de busca por afirmação cultural e identidade nacional, no período pós-Império e início da República. Intelectuais da época reconheciam a necessidade de uma entidade que consolidasse a produção literária brasileira e estabelecesse parâmetros de prestígio e legitimidade para as letras nacionais.

Machado de Assis desempenhou papel central nesse processo, não apenas como idealizador, mas como figura de consenso entre os escritores de sua geração. Sua reputação intelectual e sua postura conciliadora contribuíram para a união de diferentes correntes literárias em torno de um projeto comum.

A Academia foi estruturada com base em quarenta cadeiras, cada uma ocupada por um membro efetivo e associada a um patrono, em homenagem a nomes relevantes da literatura brasileira. Esse modelo reforça a ideia de continuidade e tradição literária, vinculando passado e presente em um mesmo espaço simbólico.

Durante sua presidência, Machado de Assis atuou de forma discreta, porém eficaz, priorizando a estabilidade institucional e o fortalecimento da ABL como referência cultural. Sua liderança foi marcada pela sobriedade e pelo compromisso com a valorização da literatura como instrumento de reflexão e identidade nacional.

A ABL passou a desempenhar importante papel na normatização da língua portuguesa no Brasil, bem como na promoção de debates literários e culturais. Ao longo do tempo, consolidou-se como uma das mais importantes instituições culturais do país.

Além disso, a Academia contribuiu para a profissionalização do escritor e para o reconhecimento social da atividade literária, conferindo maior visibilidade aos autores e às suas obras. Esse processo foi fundamental para a consolidação de um sistema literário brasileiro mais estruturado.

A participação de Machado de Assis na fundação da ABL reforça seu compromisso com a institucionalização da cultura e com o desenvolvimento das letras nacionais. Sua atuação ultrapassa a dimensão individual de escritor, inserindo-o como agente ativo na construção do campo literário brasileiro.

Dessa forma, a Academia Brasileira de Letras representa não apenas uma instituição cultural, mas também um legado do projeto intelectual machadiano. Sua existência está diretamente associada à visão de Machado de Assis sobre a importância da literatura na formação da sociedade.

5 MACHADO DE ASSIS COMO PATRONO DA LITERATURA BRASILEIRA

O reconhecimento de Machado de Assis como Patrono da Literatura Brasileira decorre não apenas da excelência estética de sua obra, mas também de sua centralidade na constituição de um sistema literário nacional. Sua produção representa um ponto de inflexão na história das letras brasileiras, ao articular forma, conteúdo e reflexão crítica de maneira inovadora e universalizante.

Do ponto de vista teórico, a consagração de Machado pode ser compreendida à luz do conceito de sistema literário proposto por Antonio Candido (2006), segundo o qual a literatura se consolida quando há a articulação entre autor, obra e público em um contexto cultural estruturado. Nesse sentido, Machado de Assis não apenas produziu obras de elevado valor estético, mas também contribuiu para a maturidade desse sistema no Brasil, atuando como elo entre tradição e inovação.

Além disso, a crítica literária destaca que o autor foi responsável por deslocar o eixo da narrativa brasileira de uma perspectiva meramente descritiva para uma abordagem analítica e introspectiva. Roberto Schwarz (2000) observa que a obra machadiana revela as contradições da sociedade brasileira do século XIX, especialmente no que se refere às relações entre liberalismo e escravidão, evidenciando tensões estruturais que permanecem relevantes.

A noção de patrono, nesse contexto, ultrapassa o caráter simbólico e assume uma dimensão fundacional. Machado de Assis torna-se referência paradigmática, não apenas por sua obra, mas por estabelecer padrões de qualidade estética e densidade crítica que orientam a produção literária posterior. Sua escrita inaugura uma tradição de reflexão sobre a subjetividade, a moral e as estruturas sociais, influenciando diretamente autores das gerações seguintes.

Sob a perspectiva da teoria da recepção, conforme Jauss (1994), a permanência de Machado de Assis no cânone literário se explica pela capacidade de sua obra de dialogar com diferentes horizontes históricos de leitura. Seus textos permitem múltiplas interpretações, renovando-se continuamente diante de novos contextos e abordagens críticas.

Ademais, a universalidade de sua produção pode ser compreendida à luz de uma estética da ambiguidade, na qual o autor evita conclusões definitivas e estimula a participação ativa do leitor na construção do sentido. Essa característica aproxima Machado de Assis de tradições literárias modernas e o insere no cenário da literatura mundial.

Bosi (2006) ressalta que o autor atinge um nível de refinamento estilístico e densidade reflexiva que o coloca em posição singular na literatura brasileira, sendo frequentemente comparado a grandes nomes da literatura universal. Tal reconhecimento reforça sua condição de patrono, entendido como figura fundadora e orientadora de uma tradição.

Além disso, sua atuação na fundação da Academia Brasileira de Letras contribui para consolidar sua posição institucional, ampliando sua influência para além do campo estritamente literário. Machado de Assis torna-se, assim, não apenas um autor canônico, mas também um agente estruturador da cultura letrada no Brasil.

Portanto, o título de Patrono da Literatura Brasileira atribuído a Machado de Assis sintetiza um conjunto de fatores que envolvem excelência estética, inovação formal, densidade crítica e atuação institucional. Sua obra permanece como referência incontornável, sendo fundamental para a compreensão da literatura brasileira e de suas relações com a sociedade.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Machado de Assis ocupa lugar singular na literatura brasileira. Sua obra, marcada pela originalidade, profundidade e crítica social, constitui um marco fundamental na formação da tradição literária nacional.

A fundação da Academia Brasileira de Letras e sua atuação como intelectual reforçam sua importância histórica. O título de Patrono da Literatura Brasileira sintetiza o reconhecimento de sua contribuição inestimável.

Conclui-se que Machado de Assis permanece atual e indispensável, sendo referência obrigatória para estudos literários e para a compreensão da cultura brasileira.

Ademais, sua produção literária continua a suscitar novas interpretações críticas, evidenciando a riqueza e a complexidade de seus textos. A pluralidade de leituras possíveis demonstra a vitalidade de sua obra e sua capacidade de dialogar com diferentes contextos históricos e sociais.

Nesse sentido, Machado de Assis consolida-se como autor cuja relevância ultrapassa os limites de sua época, projetando-se como referência permanente no cenário literário nacional e internacional. Sua escrita, ao problematizar as relações humanas e as estruturas sociais, contribui para o desenvolvimento de uma consciência crítica no leitor.

Por fim, reconhecer Machado de Assis como Patrono da Literatura Brasileira é reafirmar o valor da literatura como instrumento de reflexão, memória e identidade cultural. Sua obra permanece como legado duradouro, essencial para a compreensão da formação intelectual do Brasil e para o fortalecimento das letras nacionais.

REFERÊNCIAS

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Ática, 1997.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática, 1997.

ASSIS, Machado de. Quincas Borba. São Paulo: Ática, 1997.

ASSIS, Machado de. Papéis avulsos. São Paulo: Ática, 1994.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 2004.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. São Paulo: Global, 2004.

JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo: Ática, 1994.

MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides: breve história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.

MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2001.

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.

SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho

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O sabor suculento da traição e o ego faminto

Clayton Alexandre Zocarato

‘O sabor suculento da traição e o ego faminto’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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às 18:05 PM

A traição tem um gosto curioso. Não é doce, não é amargo — é um tempero proibido que só interessa a quem está espiritualmente subnutrido. Quem trai, muitas vezes, mastiga o mundo como se estivesse saboreando um prêmio, um troféu de vitória pessoal. Mas essa sensação suculenta dura pouco: é como fruta madura demais, que explode na boca e, segundos depois, deixa apenas o cheiro da própria imaturidade.

Pessoas mal resolvidas consigo mesmas encontram na traição um espelho torto. Em vez de enxergarem suas próprias fissuras, veem, por alguns instantes, uma imagem melhorada de si. Lao-tsé alertava que quem conquista os outros é forte, mas quem conquista a si mesmo é poderoso”. O traidor faz justamente o contrário: tenta conquistar o mundo para não perceber que não conquistou nada dentro de si. Ele se infla, mas continua oco.

Há, na traição, um tipo de euforia infantil. É como se o ego dissesse: vejam, ainda posso ser desejado!, enquanto varre para baixo do tapete a própria incapacidade de lidar consigo. O escritor indiano Rabindranath Tagore dizia que não há óculos capazes de corrigir a visão de quem se recusa a enxergar”. A traição, portanto, é uma tentativa desesperada de ajustar a própria miopia emocional usando lentes emprestadas de outra pessoa.

A música também não perdoa esse tema. Da crueza de ‘Back Stabbers’ do The O’Jays às confissões afiadas de Pitty em ‘Me Adora’, a cultura popular vive repetindo a mesma melodia: quem trai não está falando sobre o outro — está, na verdade, tentando berrar alguma verdade sobre si. A traição é o refrão desafinado de quem não aprendeu a se ouvir.

Na literatura, Machado de Assis já sabia disso quando desenhou personagens que se alimentam das próprias contradições. Ele mostrava que o traidor é muitas vezes um autor frustrado escrevendo sua narrativa de poder, tentando compensar a pequena autoridade que tem sobre a própria vida. Não é sobre amor. É sobre vaidade.

O pensamento oriental costuma tratar o ego como um animal inquieto que, quando não treinado, morde a própria cauda achando que captura algo valioso. Buda ensinava que o desejo é a raiz do sofrimento”. Assim, a traição se revela como um desejo desgovernado que não leva ao prazer duradouro, mas à eterna sensação de vazio — o tipo de vazio que só cresce quanto mais se tenta preenchê-lo com aventuras rápidas e promessas quebradas.

Clayton Alexandre Zocarato

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Os nossos, os outros: ‘O vergalho’

Elaine dos Santos: “Os nossos, os outros: ‘O vergalho’”

Elaine dos Santos
Elaine dos Santos
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às 10:04 PM

Não ousaria tecer digressões sobre a obra literária produzida por Machado de Assis na exiguidade de um breve ensaio, mas os seus textos são fonte constante de inspiração para refletir sobre o ser humano e a nossa sociedade.

Recentemente, na região central do Rio Grande do Sul, houve um crime (creio que é a palavra mais adequada), em que um agricultor, lenhador, teria investido contra a polícia ambiental e foi morto com três tiros – as imagens foram captadas por câmeras de segurança interna da propriedade, mas nem todas as ações ficam claramente evidenciadas.

A primeira impressão que emergiu (parafraseando Chapolin Colorado: “Quem poderá nos salvar” se a polícia mata? Teria havido uma denúncia feita por vizinhos de desmatamento ilegal, teria sido mera coincidência a presença da polícia ambiental na propriedade. O agricultor teria se agitado, investido contra os dois policiais com um machado.

A segunda questão, que me foi posta pela esposa de um ex-aluno, foi: por que nos choca tanto a morte de um igual se, no Brasil, pessoas são mortas diariamente pelas forças de segurança, quer seja por tiros dirigidos diretamente a elas ou por balas perdidas em tiroteios?

De imediato, o capítulo “O vergalho”, do romance ‘Memórias póstumas de Brás Cubas‘, considerado a primeira obra realista de Machado de Assis, veio à memória.

O narrador seguia pela rua e ouviu os impropérios ditos por um homem ao seu escravo. Achegou-se e encontrou o seu ex-escravo Prudêncio, já alforriado, a bater sem medida em um escravo que adquirira. Solicitou que Prudêncio perdoasse o escravo, o que ele fez sem demora, demonstrando resquícios da submissão absolutamente servil.

Brás Cubas seguiu o seu caminho e passou a tecer reflexões sobre a cena que assistira, sobre a (re) duplicação da violência e ponderando que Prudêncio, que fora seu escravo, cobrava com juros a violência que sofrera.

O Brasil é um país forjado na força, na violência. Os portugueses quando aqui chegaram, quando começou o efetivo povoamento, por volta de 1530, principiaram uma verdadeira chacina do povo indígena que não se resignava à escravidão. Por outro lado, inúmeras mulheres indígenas foram sexualmente violentadas, nasceram mestiços sem pai.

Aliás, esse modo de agir acabou encontrando eco exatamente entre os senhores de engenho, que emprenhavam as suas melhores escravas para, com os filhos mestiços delas, aumentarem a mão de obra nas fazendas. Há registros que se pode buscar na própria História oficial, que escravos homens eram escolhidos para engravidar escravas mulheres para que nascessem crianças mais saudáveis para o trabalho.

Mentalmente, revisito a História do Rio Grande do Sul, que foi feita sob o lombo de cavalos, o estado mais meridional do Brasil, um dos últimos a ser ocupado, região em que vivo na atualidade.

Primeiro, vieram bandeirantes que expulsaram jesuítas portugueses. Quando os jesuítas espanhóis estabeleceram os Sete Povos das Missões, era o tempo dos tropeiros paulistas que vinham em busca do gado para produzir charque e das mulas para o transporte nas Minas Gerais. Nesse caso, valiam-se das mulheres indígenas como empregadas, como amantes, abandonando-as quando partiam, muitas delas encontrando-se grávidas.

A violência entre nós, como ao escravo Prudêncio, que pertencera a Brás Cubas, faz parte do imaginário social. Nos últimos anos, parece ter sido banalizada, bem como a morte – mas a morte do outro: do negro, do homossexual, da mulher. Que estranha sociedade formamos que somente a morte ‘do nosso’, do branco, do agricultor, do reconhecido como trabalhador, consegue nos assustar, comover?

Hoje, como nos tempos de doutorado, quando analisamos o romance ‘O matador‘, de Patrícia Melo, eu tenho medo dessa sociedade. Enquanto comentávamos a obra de Patrícia Melo, uma colega disse: “Mas eles (os pobres, os nascidos na periferia) não têm apego à vida!” Outra colega replicou: “Como tu consegues afirmar isso? Eles, os outros, também tiveram uma mãe que os amou, sonhos que se frustraram, desejos não realizados.” Somos, enfim, todos humanos. Por que essa relação sempre tão violenta e tão ‘comum’?

Elaine dos Santos

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Um certo Joaquim Maria

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Um certo Joaquim Maria’

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Não descarto a possibilidade de já ter esbarrado com aquele homem, que, em idade, provavelmente regulava com a do meu falecido pai. Talvez me deixei ser enganado pela maneira austera de se vestir. Seja como for, era mais velho do que eu e um tanto mais moço do que meu avô, que mal cheguei a conhecer. 

          Pois lá estava o dono de cavanhaque tão distinto, apesar de bastante popular por aqueles tempos. Sóbrio, parecia mordiscar metodicamente cada salgado folhado diante de si. Alguns goles longos na limonada. Não tardava, voltava o olhar vago em busca de possível aconchego. 

          Tive ímpeto de me fazer notado. Caminhei alguns passos em sua direção, o olhar fixo, mas, assim que o meu alvo se virou, também o fiz, mas em outra direção, como se procurando alguém com quem tivesse marcado um encontro. Pura interpretação de ator medíocre, coisa que sempre fui. Por sorte, alguém ao fundo da Confeitaria Colombo acenou para mim. 

          A princípio, não reconheci aquele rosto, até que me aproximei. Era tia Maricota, irmã mais moça de meu pai. Ela estava acompanhada da filha, Maria de Lourdes, que, para meu alívio, havia desistido de firmar compromisso justamente comigo. Na verdade, nunca acreditei em amores entre primos, muito antes de saber que os frutos podem não vir saudáveis. 

          As duas bebiam chá, enquanto dois quindins repousavam docemente sobre a mesa. Quando menino, era meu quitute favorito. No entanto, homem quase feito, buscava sofregamente pelo sal na comida. Se bem que, de vez em quando, pegava um naco de cocada e o levava à boca, talvez como lembrança de tempos de criança. 

        O garçom se aproximou. Fiz o mesmo pedido do dono do cavanhaque distinto, certamente na ânsia de me aproximar dele. As parentas sorriram, como se percebessem como aquele garoto de outrora havia crescido. Devolvi o sorriso, enquanto tentava cofiar o ralo bigode, que teimava cultivar, apesar da quase total falta de pelos. 

          — Que coincidência, Julinho.

          — Não entendi, tia.

          — A limonada e o folhado.

          — Não gosta?

          — Você bem sabe que sou mais afeita a doces.

          — Já sou crescido para doces.

          — Percebe-se, Julinho.

       — Mas a senhora estava falando sobre coincidências. Que coincidências?

          — Reparou que você fez o mesmo pedido do Joaquim Maria?

          — O escritor?

          — Sim. Ele está sentado logo ali. Você passou por ele. Não percebeu, Julinho? 

       Olhei para trás e fingi espanto. Na certa, tia Maricota e Maria de Lourdes não desconfiaram da minha pequena mentira ou, por sorte, guardaram segredo para evitar pendengas desnecessárias. 

          — Onde estava com a cabeça, que nem notei tamanha presença?

         Minha prima riu e o pequeno ruído chamou a atenção do mais distinto cliente da confeitaria. Trocamos olhares e, num ímpeto de mocidade, ergui a taça de limonada. Ele fez o mesmo, o que me encheu de regozijo. 

         Não tardou, meu companheiro de limonada saiu do recinto. Tive vontade de ir até ele para cumprimentá-lo, mas minhas pernas bambas não me permitiram. Entretanto, assim que o garçom recolheu a taça do Joaquim Maria, chamei-o. Tomei-lhe a taça das mãos e coloquei uma nota graúda no bolso da camisa. E, antes que alguém percebesse, apesar dos olhos espantados das minhas parentas, que a tudo viram, a escondi no bolso interno do meu paletó. 

       Pois bem, eis que estou aqui sentado na sala da minha casa, cercado de netos barulhentos. Em frente, na ampla estante de mogno, lá está aquela taça, que me custou o dinheiro que não possuía na época, mas que, ainda hoje, me é tão cara.

Eduardo Cesario-Martínez

Sobre o autor

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez

Eduardo Cesario-Martínez é um premiado escritor carioca, que há quase três anos mora em Porto Alegre, cidade pela qual é apaixonado.

Seu primeiro livro, o romance “Despido de ilusões”, 2004, figurou entre os mais lidos do CCBB. “57 Contos e crônicas por um autor muito velho” é seu mais recente livro.

Seus contos e crônicas são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP. É cronista/contista do jornal Notibras (https://www.notibras.com/site/) e do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).

Divide a editoria Café Literário do Notibras com o poeta e escritor Daniel Marchi e com a jornalista e poeta Cecília Baumann.

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Verdade, reapresentação da realidade, ponto de vista?

Elaine dos Santos:

‘Verdade, reapresentação da realidade, ponto de vista?

Elaine dos Santos
Elaine dos Santos
https://pixabay.com/vectors/girl-anime-blue-hair-pieces-mind-8880111/
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Talvez, uma das tarefas mais difíceis de um professor de Literatura, tanto no ensino médio quanto no curso de graduação em Letras, seja ensinar o conceito de mimesis, conforme definida por Aristóteles, em sua ‘Poética’.

Em palavras bem corriqueiras, mimese é uma reapresentação da realidade que o artista faz. Vá lá, grosseiramente, uma cópia – ou, ainda, uma tentativa de cópia daquilo que ele viu (ressalve-se que eu adverti: é uma definição grosseira).

Eu costumava colocar uma cadeira em cima de uma classe e perguntava o que os meus alunos viam. A resposta era uma só: cadeira. Eu dizia que não. O revide era imediato: “Que é professora, ‘tá’ querendo inventar a roda?”

Principiava, então, a explicação: fomos ensinados a ver aquele objeto como cadeira, em sua totalidade, mas o que vemos são partes daquele objeto, raros alunos enxergavam, por exemplo, o assento.

Eis o papel do artista: desvelar aquilo que as demais pessoas não enxergam, não percebem. Ele reapresenta a realidade, sob uma nova ótica. Pode ser que muitos mortais, como nós, não entendamos as obras de Anita Malfatti ou de Picasso, mas a realidade está reapresentada ali.

Falta, para a maioria da população, é conhecimento para entender, ler, analisar obras artísticas de um modo geral. Experimente ‘ler’ os quadros de Van Gogh e desfrute a beleza daquelas obras. Por que nos deliciamos tanto com as obras de Machado de Assis?

Este escrito surgiu de uma conversa banal: “A senhora não sabe a verdade sobre os fatos!” E a senhora, no caso a professora de Literatura, questionou-se: “Qual verdade? O teu ponto de vista sobre a cadeira? E se a verdade estava justamente sobre o assento, nenhum de nós conseguiu alcançá-la?

Se a obra literária, em particular, os romances, que são mais difundidos hoje em dia, reapresenta a realidade, convém pensar a realidade sob diversos prismas, pontos de vista e nem sempre aquilo que eu sei corresponde, em sua integralidade, aos fatos decorridos.

Tivemos uma eleição polarizada e eivada por ‘Fake News‘; já, em 2022, uma parte da população estava mais atenta e, ontem, eu li a história de um candidato a prefeito que estaria sendo acusado de algo que não prometeu: a promessa estaria gravada em áudio. O meu sinal de alerta soou: uso de inteligência artificial?

Encerro, pois, misturando alhos com bugalhos (que era o meu propósito desde o início): estamos preparados para ver além da totalidade, esmiuçar a verdade e enxergar o assento da (minha) cadeira usada em sala de aula para meus alunos analisarem, ou ainda cremos que a verdade é una, apenas um grupo a detém, enquanto os outros devem ser silenciados?

Prof.ª Dr.ª Elaine dos Santos

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115 Anos da morte de Machado de Assis: relembre as obras do escritor

Um dos maiores nomes da literatura nacional também ganhou destaque nas últimas décadas com publicações em inglês, alemão e castelhano

Capa da edição bilíngue de 'Dom Casmurro' pela Editora Landmark
Capa da edição bilíngue de ‘Dom Casmurro’ pela Editora Landmark

É evidente que Machado de Assis é um dos maiores nomes da literatura brasileira, mesmo 115 anos após a sua morte em 1908. Entre suas obras mais conhecidas estão: Dom Casmurro, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas e contos famosos, como O Alienista. 

Neto de pessoas escravizadas que foram alforriadas, Joaquim Maria Machado de Assis foi criado numa família pobre e não teve uma instrução regular, porém, devido ao seu interesse pela literatura, conseguiu se instruir por conta própria. 

Em 1860, passou a colaborar para o ‘Diário do Rio de Janeiro’ e é dessa década que datam quase todas suas comédias teatrais e ‘Crisálidas’, um livro de poemas. Em seguida, Machado de Assis teve acesso à literatura portuguesa e inglesa e, na década seguinte, publicou uma série de romances, sendo reconhecido pelo público e crítica. 

Até então a produção literária do escritor era marcadamente romântica, mas na década seguinte sofreu uma grande mudança estilística e temática, iniciando o movimento realista no Brasil com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e as obras Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899), este considerado como a sua obra-prima.

Nesse período, a ironia, o pessimismo, o espírito crítico e uma profunda reflexão sobre a sociedade tornam-se as principais características da escrita do autor, que também abrange poemas, contos, traduções e peças teatrais. 

No início do século XX, após fundar a Academia Brasileira de Letras e perder a esposa Carolina (com quem se casou em 1869), passou a isolar-se e a sua saúde se deteriorou. Dessa época, datam os seus dois últimos romances: ‘Esaú e Jacó’ e ‘Memorial de Aires’.  

Machado de Assis morreu em sua casa no Rio de Janeiro no dia 29 de setembro de 1908 e o seu enterro foi acompanhado por uma multidão. Mesmo após um século, o escritor segue sendo admirado não apenas pelos brasileiros, tendo edições de Memórias Póstumas de Brás Cubas publicadas em alemão, castelhano e inglês. 

No Brasil, a Editora Landmark possui livros em capa dura e edições requintadas de Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Além de ser a primeira editora a lançar edições bilíngues (Português-Inglês) das obras Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas e Machado de Assis no país.

Abaixo, relembre algumas obras de um dos maiores escritores do Brasil: 

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Publicado pela primeira vez entre março e dezembro de 1881 numa revista brasileira, no formato de folhetim, a história de Brás Cubas revolucionou a literatura brasileira através da subversão dos padrões literários da época. Com a adoção de um número grande de capítulos, muitos deles curtos, e uma linguagem própria que o aproxima das primeiras manifestações modernistas do século seguinte. 

O livro tem como marcas um tom cáustico e é o primeiro de um novo estilo dentro da obra de Machado de Assis, apresentando audácia e inovação temática dentro do cenário literário nacional. Além de apresentar uma crítica sobre a sociedade burguesa do Rio de Janeiro do século XIX, Brás Cubas reconta e reconstrói a sua vida, os seus amores e os seus fracassos, ao mesmo tempo em que revela os labirintos da alma humana.  

Dom Casmurro

Esse é um dos livros mais conhecidos do autor e foi escrito de modo que admite sentidos diversos – mesmo incompatíveis entre si –, uma vez que o narrador pode ou não estar deturpando os acontecimentos de sua vida. Devido a presença de um narrador que não é confiável, a conclusão final sobre a história de Bentinho e Capitu fica a cargo do leitor. Capitu realmente traiu Bentinho com Escobar ou Bento Santiago estava imaginando coisas?

O livro confirma o olhar crítico que o autor estendia sobre toda a sociedade. Trazendo a temática do ciúme, o livro provoca polêmica em torno do caráter de uma das principais personagens femininas da literatura brasileira. Essa ambiguidade é uma das características marcantes de Machado de Assis, que explora as contradições da mente humana e a subjetividade da realidade.

Quincas Borba

Parte do movimento literário intitulado realismo – que se propõe a analisar as relações humanas de forma mais real –, o livro conta a história de Rubião, um professor de matemática que herda toda a fortuna de seu amigo, o excêntrico filósofo Quincas Borba. Após a morte do amigo, Rubião passa a viver uma realidade completamente diferente, cercado de luxo, e se torna objeto de manipulação por parte de seus “amigos”.

Por meio de personagens e diálogos complexos, o autor questiona a noção de progresso e de sucesso material, levando o leitor a refletir sobre a natureza humana e as consequências de nossas ações. Essa é uma obra que mescla drama, sátira e ironia, características marcantes do estilo literário de Machado de Assis.

Os livros estão disponíveis na Amazon, nas principais livrarias do país e no site oficial da Editora Landmark, clicando aqui.

Sobre a Landmark

A Editora Landmark vem desde sua criação desenvolvendo sua linha editorial com o intuito de trazer ao público-leitor brasileiro o acesso à boa literatura, seja ela nacional ou estrangeira. Deste modo, desenvolvemos linhas editoriais com textos e imagens que se complementam através de projetos elaborados especialmente para oferecer ao leitor cultura, entretenimento e momentos de lazer.

Estas linhas desenvolvidas apresentam-se em ficção brasileira, ficção estrangeira, crítica literária, ensaios sobre História e Filosofia, análise e apresentação de textos originais sobre os principais formadores da Sociedade Brasileira.

Apresenta também novas versões, sempre em edições bilíngues, para grandes textos e obras da Literatura Universal, ampliando com isso a oportunidade do público brasileiro no acesso aos textos originais de grandes autores, muitas vezes esquecidos ou deixados em segundo plano, mas essenciais na formação do espírito crítico. Saiba mais em:  editoralandmark.com.br

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Esaú e Jacó, de Machado de Assis

Elaine dos Santos: Artigo ‘Esaú e Jacob, de Machado de Assis’

Foto da colunista Elaine dos Santos
Elaine dos Santos
Machado de Assis
Machado de Assis. Crédito: Shutterstock
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Machado de Assis é um dos autores mais laureados da Literatura brasileira.

 Ele é considerado o grande nome do Realismo no Brasil , tendo escrito romances consagrados como ‘Memórias póstumas de Brás Cubas‘ , a história contada por um defunto-autor ou um autor-defunto, e ‘Dom Casmurro‘ , a emblemática história da traição ou não de Capitu (o que menos importa é se ela traiu, o enigma é a grande chave do romance).

No entanto, eu gosto muito de outro romance, trata-se de ‘Esaú e Jacó‘.

No livro do ‘Gênesis‘ , portanto, na Bíblia sagrada, encontramos a história primeira de Esaú e Jacó, que foram filhos de Isaque e Rebeca, netos de Abraão. Esaú, o primogênito, era um caçador habilidoso, enquanto Jacó mantinha uma vida simples e seguia as ordens do Senhor. Isaque demonstrava amar Esaú; Rebeca parecia amar mais Jacó.

Na verdade, desde a concepção, Rebeca percebera um conflito entre os irmãos:

E as crianças lutaram juntas dentro dela; e ela disse: Se é assim, por que estou assim? E foi consultar o Senhor. E o Senhor disse para ela: Duas nações estão em teu ventre e dois tipos de pessoas serão separadas de tuas entranhas; e um povo será mais forte do que o outro; e o mais velho servirá ao mais jovem (GÊNESIS: 25, 22-23).

Esaú, de toda forma, nasceu primeiro, contudo, certa feita, faminto, propôs trocar a progenitura por um prato de comida junto a seu irmão Jacó.

Segundo os estudiosos da tradição cristã. Esaú mostra um grande desapego com os desígnios divinos e mesmo com as tradições humanas, afinal, o filho primogênito é aquele que herda a liderança da família e a autoridade do pai. Quando Isaque, o pai, já estava velho e cego, Rebeca articula para que ele abençoe Jacó com o direito da primogenitura.

Muitos historiadores destacam a impulsividade, a imprudência e o egoísmo de Esaú, contudo, é preciso também ressaltar que o espírito enganador de Jacó aparece no episódio em que, com a ajuda da mãe, recebe a benção da progenitura do pai.

O que se ressalta, para refletir sobre o romance ‘Esaú e Jacó’, de Machado de Assis, é o caráter da gemelaridade, a convivência relativamente fraterna, mas também os espíritos, os gostos, os desejos que se opõem entre os dois personagens centrais da narrativa.

‘Esaú e Jacó’, o romance de Machado de Assis, foi lançado em 1904 e traz o Conselheiro Aires como narrador e personagem – com isso, para quem lida com Literatura num plano profissional, fica claro que se tem uma visão parcial dos fatos: a visão de uma personagem.

O Conselheiro Aires é um observador privilegiado, pois interage com Natividade, a mãe dos gêmeos Pedro e Paulo, protagonistas do romance e que têm temperamentos opostos em tudo. Assim, há um interessante jogo entre semelhanças (eles são gêmeos) e oposições.

Pedro é monarquista (a Monarquia foi suplantada em 1889) e estuda Medicina no Rio de Janeiro; Paulo é republicano e decidiu-se por estudar Direito em São Paulo. Porém, ambos se apaixonam por Flora, o que acirra a rivalidade entre ambos.

Parece claro que o narrador traz a luta ideológica dominante no período entre monarquistas e republicanos – cá estamos diante da Literatura como representação de uma sociedade e do ideário que se acha presente nela – é bom que se diga que Flora não se decide por nenhum dos irmãos, o que evita a opção por um dos sistemas de governo.

Haveria, ademais, uma metáfora sobre a própria política, que interessaria apenas para alguns, mas que é capaz de gerar inimizades entre irmãos. Natividade, a mãe, consegue que, por um ano, os dois irmãos mantenham uma relação fraterna, porém, a sua morte desencadeia novas brigas, a inimizade retorna.

Não nos olvidemos, contudo, que os anos finais do século XIX e o princípio do século XX, foram marcados pela modernização do país. A capital federal, o Rio de Janeiro, desde 1903, tinha um novo prefeito, Pereira Passos , que foi responsável por sua transformação, no que ficou conhecido como ‘Bota-Abaixo‘ ; vivia-se a Bèlle Èpoque à brasileira , tanto em Manaus, como no Rio de Janeiro e em São Paulo, especialmente; entre outros aspectos.

Dessa forma, faz-se possível inferir também que Pedro fosse a metáfora do Brasil do século XIX – do Brasil que se deixava para trás. Ele, inclusive, traz o nome dos imperadores, enquanto Paulo representava o Brasil de um novo século, que seria palco de grandes transformações.

Alguns estudiosos identificam um tom melancólico no romance. É certo que Machado de Assis já havia atingido a maturidade literária e que ultrapassara a idade de 60 anos (1904 é também o ano de falecimento de sua esposa, Carolina , mas a obra é rica, “saborosa” e merece ser lida, ainda mais se considerarmos os tempos de polaridade ideológica.

Elaine dos Santos

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