O gosto do Marcos Rey

Bastou um gesto de gentileza espontânea para desarmar o homem mais temido do bairro e abrir as portas de um mundo inesquecível

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Fotografia realista de um bairro residencial brasileiro. Em primeiro plano, um menino está sentado num degrau de pedra a ler atentamente um livro antigo de capa gasta. Ao seu lado, um homem idoso de expressão séria, vestindo camisa xadrez e calças escuras, segura uma sacola de compras e observa-o. Ao fundo, numa rua residencial com carros antigos estacionados e uma grande amendoeira, outras crianças jogam futebol. A iluminação é natural sob um céu parcialmente nublado.
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Nunca imaginei que eu teria nem um minuto sequer com o Seu Urias, um tipo que sempre me pareceu a própria expressão de carranca. E era, pelo menos aos olhos de todos ali na rua, especialmente para as crianças e adolescentes.

    — Mamãe, por que ninguém gosta do Seu Urias?

    — Carlinho, isso não é verdade.

    — A senhora gosta dele?

    — Eu?

    — É.

    — De jeito nenhum! Que velho mais desagradável.

    Aconteceu numa manhã, talvez de domingo ou feriado. Sei apenas que não era dia de escola. Seu Urias vinha da quitanda da dona Lúcia, carregava duas sacolas abarrotadas. Quando ele estava a poucos metros, nossos olhares se cruzaram. Eu, por impulso, me ofereci para ajudá-lo. Coisa toda que fazemos quando deixamos o raciocínio de folga.

    — Muita gentileza sua. Carlinho, né?

    — Sim, senhor.

    — Filho da dona Joana, né?

    — Sim.

    — Boa mulher. Você é um menino de sorte.

    Seu Urias, assim que deixei a sacola na cozinha, tirou a carteira do bolso e sacou uma nota de cinco reais. Recusei.

    — Ah, entendi. Hombridade, né?

    Sem entender o que aquilo significava, assenti com a cabeça. Seu Urias me observou por um momento e, em seguida, foi até a sala, de onde retirou um livro da estante.

    — Gosta do Marcos Rey?

    — Quem?

    — Marcos Rey. Ele escreveu este livro maravilhoso. Conhece?

    Seu Urias me entregou aquele exemplar de “O mistério do cinco estrelas”. Um tanto gasto, para dizer a verdade.

    — Carlinho, livro bom é livro carcomido.

    Mais uma palavra que eu precisaria descobrir o significado.

    — Sim, senhor.

    — É seu, mas tem uma condição.

    Olhei desconfiado para aquele homem, praticamente um estranho.

    — E qual é a condição, senhor?

    — Que leia e depois me conte se gostou. Combinado?

    — Combinado.

    Apertamos as mãos como dois cavalheiros e corri de volta para a rua, onde os meus amigos continuavam jogando bola. Preferi me sentar debaixo da amendoeira. Abri o livro e, pela primeira vez, me embrenhei no mundo do Marcos Rey.

    Perdi a hora, mamãe me gritou:

    — Carlinhos, o almoço tá pronto!

    Nem estava com fome, mas sempre soube que não era de bom tom desobedecer a dona Joana. Corri em sua direção e entrei esbaforido.

    — Ei, o que é isso aí nas suas mãos?

    — Marcos Rey, mamãe.

    — O quê?

    — Foi o Seu Urias que me deu.

    — E o que aquele velho queria com você?

    — Nada, mamãe. Eu me ofereci para ajudar a carregar as compras. Então, ele me deu o Marcos Rey.

    — Hum!

    Talharim à bolonhesa. Até hoje é o meu prato favorito. Mesmo assim, as páginas do Marcos Rey me pareceram muito mais saborosas.

    Terminei de ler “O mistério do cinco estrelas” na madrugada. Adormeci e, não duvido, devo ter sonhado com a trama. Pena que nunca me lembro dos sonhos, deve ser coisa de família. Minha mãe sempre me disse que sonhos são coisas de grã-fino.

    Quando acordei, já era quase meio-dia. Havia um movimento estranho na rua. Assustado, fui até a minha mãe, que me contou o motivo:

    — Foi pra onde, mamãe?

    — Morreu, Carlinhos. Morreu.

   Seu Urias, soube mais tarde, enfrentava uma doença terrível há anos: câncer nos pulmões. Resistiu o quanto pôde. Não teve velório, não teve enterro nem despedida. A única filha, Lorena, honrou o pedido do pai: viajou para o Rio de Janeiro e jogou as cinzas na praia de Copacabana. 

Eduardo Cesario-Martínez

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Um certo Edmundo Donato

Descubra a história por trás do jornalista que sonhava em viver da literatura e marcar gerações.

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Não era de briga, ainda mais depois da última surra que levou quando ainda estava nos primeiros anos na escola.  Se aquilo fazia parte do mundo masculino, ele preferiu seguir pelo caminho da literatura e, desde então, embrenhou-se entre páginas amareladas dos livros da estante do avô. 

          Começou por volumes da Coleção Vaga-Lume, quando se apaixonou pelas obras do escritor Marcos Rey: O mistério do cinco estrelas, O rapto do garoto de ouro e Um cadáver ouve rádio. Que mundo era aquele? Não teve dúvida e arriscou-se a abrir o coração para o avô.

            — Quero ser escritor.

            — Hum! Já falou isso pros seus pais?

            — Papai talvez não diga nada, mas mamãe vai me matar.

            — Por quê?

            — Porque quer me ver advogado ou médico.

            — Não.

            — Não?

            — Não perguntei isso. Por que quer ser escritor?

            Edmundo Donato pensou, pensou, pensou… 

            — Não posso?

            — É óbvio que pode.

            — Então?

            — Então, o quê, Edmundo?

            — Então, quero ser escritor. 

            Os anos seguintes foram de muitas descobertas. Edmundo passou por vários autores. Apaixonou-se por alguns, mas invejava apenas um: Afonso Henriques de Lima Barreto. Tanto é que enfrentou a mãe diante do pai mudo.

            — Mamãe, quero ser jornalista.

            — Jornalista, Edmundo? Quer morrer de fome? 

            — De fome não morro, mamãe.

            — E você acha que vai ter a mim e seu pai durante toda a vida.

            — Não, mamãe.

            — E por que é então que você diz com tanta certeza que não vai morrer de fome, meu filho?

            — Antes morro de desgosto entre processos e agulhas, mamãe.

            Edmundo virou jornalista. Não chegou a morrer de fome, mas longe de degustar caviar. Suficiente para ter uma vida pouco acima do modesto, o que, aos seus olhos, era mais do que satisfatório. No entanto, faltava-lhe algo.

               Durante uma conversa com um colega de redação, no Bar do Bosco, na 709 Norte, em Brasília, Edmundo levantou a questão que o frustrava.

                — Sabe, Bartô, quero ser escritor.

                — Nem sabia que você escrevia, Edmundo.

                — Um pouco.

                — E do nada você quer virar escritor?

                — Não é do nada. Virei jornalista por causa do Lima Barreto.

                — Pois eu virei por causa do José Seabra.

                — Excelente referência. Mas eu queria ser que nem o Lima.

                — Logo tu?

                — E por que não eu?

                — Nunca que você vai ser que nem o Lima Barreto.

                — Tá! Mas me dê uma razão. Uma única razão!

                — Edmundo, tu é um arregão!

                 — Alto lá, meu amigo! Arregão não!!! Cauteloso.

Eduardo Cesario-Martínez

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