Mediocridade

Entre incomodos e reflexões, um mergulho nas contradições humanas

Mediocridade e outros contos reflexivos.
Mediocridade e outros contos reflexivos

Em sua coletânea de contos, Victor de Almeida Daud, ou somente Vc Daud, propõe uma leitura intensa, marcada por um olhar profundo sobre o comportamento e as relações humanas.

Nem toda leitura chega para confortar.

Algumas vêm para provocar, questionar… e até causar um certo desconcerto.

Mediocridade, de Vc Daud, pela Editora Coerência, habita exatamente esse lugar.

Nascido em São Paulo, o autor construiu uma trajetória diversa, passando pela comunicação, pela engenharia civil e pela área financeira, até se dedicar à escrita, às artes e ao ensino.

E talvez seja justamente essa vivência múltipla que dê à sua escrita esse olhar atento, quase inquieto, sobre as pessoas e suas relações.

Vc Daud
Vc Daud

Nascido em São Paulo, o autor construiu uma trajetória diversa, passando pela comunicação, pela engenharia civil e pela área financeira, até se dedicar à escrita, às artes e ao ensino.

E talvez seja justamente essa vivência múltipla que dê à sua escrita esse olhar atento, quase inquieto, sobre as pessoas e suas relações.

A construção da obra também chama atenção.

O primeiro conto, mais longo, nasce de experiências do autor em viagens.

Os textos seguintes vêm de uma tentativa de romance que acabou se transformando em histórias independentes.

Já o último conto surge como um experimento, com uma estrutura mais fragmentada e reflexões curtas.

Essa mistura dá ao livro um ritmo próprio, quase como se cada parte revelasse uma faceta diferente do mesmo olhar.

Mais do que contar histórias, Vc Daud parece interessado em olhar para dentro de seus personagens, entender suas motivações, seus medos, suas fragilidades.

Em muitos momentos, o que importa não é o que acontece, mas o que se sente.

E é justamente aí que a leitura pode causar estranhamento.

Porque Mediocridade não suaviza.

Não busca agradar.

E não tem receio de expor aquilo que, muitas vezes, preferimos não encarar.

Mas talvez seja exatamente essa a sua proposta.

Ao fugir do óbvio e abraçar o desconforto, o livro convida o leitor à reflexão, mesmo que isso venha acompanhado de incômodo.

Mediocridade é o tipo de obra que não passa despercebida.

Que provoca reações diferentes em cada leitor.

E que, de alguma forma, permanece.

Uma leitura para quem se permite ir além do conforto, e se abrir para aquilo que provoca, questiona e faz pensar.

REDE SOCIAL DO AUTOR

MEDIOCRIDADE

SINOPSE

Sete histórias, o mesmo narrador: um homem que insiste em enxergar o mundo pelas frestas, misturando desejo e frustração até que cada episódio banal se transforme numa autópsia emocional.

É aí que um supermercado vira palco de pequenos desastres íntimos, uma balconista desperta um entusiasmo tão improvável quanto breve, um cruzeiro revela tudo aquilo que ele fingiu não notar sobre si mesmo e sobre quem escolheu amar…

Com ironia ferina, autoconsciência incômoda e zero paciência para os jogos afetivos da vida adulta, esse narrador-personagem revisita momentos que não deveria ter vivido, mas viveu, assim como sentimentos que tentou ignorar, mas o perseguem.

Ao expor suas contradições com brutal honestidade, ele acaba revelando algo inquietante: talvez seja impossível rir das próprias misérias sem, no fundo, reconhecer o quanto elas nos moldam.

Assista a resenha do canal @oqueli no YouTube

OBRAS DO AUTOR

Mediocridade e outros contos reflexivos.

Carta de um anarquista de Vc Daud

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Resenhas da colunista Lee Oliveira




A Era da Mediocridade

Sergio Diniz da Costa: Artigo ‘A Era da Mediocridade’

Sergio Diniz
Sergio Diniz
Imagem criada por IA da Meta - 07 de fevereiro de 2026, às 17:01 PM - https://www.meta.ai/create/950795214788859
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Para as pessoas que têm mais de 30 anos, o final do século XX e o início do século 21 representam um divisor de águas no que diz respeito ao conhecimento, visto sob um ângulo geral.

O aprendizado humano, até os primeiros momentos da internet, se restringia aos livros impressos. E qualquer pesquisa mais rigorosa demandava a consulta em mais de um livro. Para o estudante, o pesquisador, portanto, a redação de um texto mais complexo demandava um tempo maior e, muitas vezes, com gastos, na hipótese de ter que adquirir um ou mais livros. E, quando se fala em livros, há de se incluir o velho e bom dicionário.

A partir do meado da década de 1990, a aquisição de conhecimentos foi amplamente facilitada por meio da internet, bastando a pesquisa por meio de empresas multinacionais que oferecem serviços online e softwares para download, a exemplo do Google, conforme já apontamos na crônica ‘O conhecimento num clicar do mouse’.[1]

Não obstante essa abertura extraordinária para as pesquisas em geral, e os ‘tira-dúvidas’, em particular, o que se tem visto atualmente é uma ‘Era da Mediocridade’. E aqui, há de se observar o real significado da palavra ‘mediocridade’. Segundo o dicionário Houaiss (2001, p. 1878), mediocridade significa: 1. Situação, posição mediana, entre a opulência e a riqueza; modéstia 2 pej.  Insuficiência de qualidade, valor, mérito; pobreza, banalidade, pequenez 3 p.us. justa medida;  moderação 4 por met. Pessoa ou conjunto de pessoas sem talento, medíocres. E o mesmo dicionário aponta como etimologia da palavra, o latim mediocritas ‘medida, moderação, mediania, meio’.

De conformidade com o site ‘Significados’, medíocre “é aquele ou aquilo que está na média entre dois termos de comparação, ou seja, que não é bom nem mau, que não é pequeno nem grande etc. Por exemplo: ‘Um livro medíocre’. Aponta, também, que “ser medíocre significa não ter qualidades ou habilidades suficientes para se destacar naquilo que se propõe a fazer, seja na vida pessoal ou profissional. Uma pessoa medíocre é vulgar, tem poucas qualidades, é uma pessoa pobre do ponto de vista intelectual.” [2]

Os apontamentos acima remetem a nossa experiência na qualidade de revisor de livros e organizador de antologias. No que diz respeito à revisão de livros, tivemos a oportunidade de revisar um livro de 400 páginas de textos acadêmicos jurídicos num espaço de tempo de apenas 9 dias; outro, de cunho literário, com mais de 700 páginas num período de apenas 15 dias. Por outro lado, um livro de apenas 145 páginas em 30 dias, realizando em torno de 1.700 alterações! E um caso mais grave: um livro já publicado de pouco mais de 200 páginas – previamente revisado, segundo a autora – que chegou até nós para uma nova revisão. E fizemos em torno de 1.200 alterações!

Quanto à organização de antologias, uma constatação preocupante: muitos coautores com currículos que expressam uma participação em várias academias (inclusive do exterior) e exibindo títulos e prêmios literários, mas cujos textos refletem desconhecimento básico da redação, a exemplo da pontuação gramatical, uso da crase, concordância verbal e nominal, sintaxe etc.

Não bastasse o desconhecimento das regras básicas, a falta de intimidade com o significado das palavras. Exemplos dessa deficiência, o uso de ‘desapercebido’ (que não está preparado; sem munições, provisões; desaparelhado, desmunido), em vez de ‘despercebido’ (que não se percebeu; não observado, não notado); ‘ir de encontro a’ (expressa confronto, traz sentido de oposição, contra, e até de choque), em vez de ‘ir ao encontro de’ (exprime concordância, seguir na mesma direção, no mesmo sentido, estar a favor); ‘ao invés de’ (ao contrário de, ao inverso de”, usado nas orações que exprimem situações contrárias, exata oposição. Ex.: frio/calor; noite/dia), sendo o correto ‘em vez de’ (em lugar de, em substituição de. Ex.: Em vez de ir ao teatro, foi ao cinema).

Não bastasse o objetivo que alguns escritores têm de mostrar-se erudito, o que podemos observar da nossa prática literária é o desejo irreprimível de divulgação pública nas mídias sociais, publicação de livros e, atualmente, a participação em várias antologias, como se isso fosse uma garantia de qualidade da atividade literária. Ao contrário, a busca da tão desejada ‘imortalidade literária’ jamais será expressa tão somente pela quantidade dos escritos, mas, sobretudo, pela qualidade. E a qualidade não se reflete apenas pela observância do que já se assinalou até agora. Outro ‘ingrediente da fórmula’ da boa escrita está na cultura geral do escritor, ao lado, evidentemente, da cultura literária propriamente dita.

Tudo o que se expôs, contudo, se assemelha a um castelo de cartas que até mesmo uma brisa pode derrubar, se o escritor não for, antes de mais nada, um leitor voraz de livros, desde os primeiros anos escolares! Nessa perspectiva, o pensamento do poeta Carlos Drummond de Andrade: “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas, por incrível que pareça, a quase totalidade não sente esta sede.”[3] A reflexão do grande poeta mineiro é incontestável, porquanto, se o escritor não sente sede pela leitura, dificilmente a saciará em relação a seus leitores.

Finalizando estes apontamentos, deixamos um pensamento nosso, formulado pela constatação de que, dentre os erros mais comuns nos textos e livros que temos revisado, a pontuação é o sinal mais malferido: “A pontuação, na urdidura de um texto, é como a espada nas mãos de um bárbaro, ou o florete nas mãos de um esgrimista”.

[1] COSTA, Sergio Diniz da. O conhecimento num clicar do mouse. Jornal Cultural ROL. 15 de maio de 2018. Disponível em: < http://www.jornalrol.com.br/sergio-diniz-da-costa-o-conhecimento-num-clicar-do-mouse/>. Acesso em: 1º de junho de 2022.

[2] Significados. Disponível em: https://www.significados.com.br/mediocre/>. Acesso em: 31 de maio de 2022.

[3] MATTOS, Gabriela. Saiba o que pensavam os principais autores do mundo sobre o hábito da leitura. Estante Virtual – Blog. 21.02.2022. Disponível em: <https://blog.estantevirtual.com.br/2022/02/21/10-citacoes-de-grandes-autores-sobre-a-leitura/?gclid=Cj0KCQjwnNyUBhCZARIsAI9AYlH3dSR4NyNHE3zJRqZt7hPglp1zwHlArYruKp-wDO-WUfDZOnsiD00aAsv4EALw_wcB>. Acesso em: 1º de junho de 2022.

Sergio Diniz da Costa

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