A guerra em primeira pessoa

Ella Dominici discorre sobre memória, consciência e a reconstrução da condição humana

Ella Dominici
Ella Dominici
Fotografia em plano aproximado de uma flor cor-de-rosa de pétalas delicadas a crescer no meio de escombros e cinzas, em primeiro plano. Ao fundo, sob uma luz suave de nevoeiro ou fumo, avistam-se as ruínas destruídas de um edifício histórico com uma cúpula metálica esquelética, evocando uma atmosfera de desolação e resiliência.
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PREMISSA

“A verdadeira paz talvez não seja a ausência da guerra, mas a coragem de permanecer humano quando tudo parece conspirar contra a humanidade.”( Rute Ella Dominici)

A guerra costuma ser narrada pela história oficial através de mapas, tratados diplomáticos, estratégias militares e estatísticas. Conhecemos datas, números de vítimas e nomes de batalhas. Contudo, por trás de cada dado existe uma existência interrompida, uma memória fragmentada e uma consciência profundamente transformada pela violência.

Poucos acontecimentos revelam tão intensamente a fragilidade da condição humana quanto os conflitos armados. Eles não destroem apenas cidades, monumentos e fronteiras. Desorganizam a linguagem, silenciam afetos e alteram a forma como as gerações futuras compreendem a própria humanidade.

Este ensaio propõe deslocar o olhar da narrativa histórica para a experiência humana. A guerra deixa de ser observada apenas como um acontecimento coletivo para tornar-se experiência íntima, inscrita na memória de indivíduos, famílias e povos. É na primeira pessoa que a dor adquire rosto, voz e permanência.

A literatura ocupa, nesse contexto, um lugar singular. Enquanto a história registra acontecimentos, a literatura preserva aquilo que dificilmente pode ser quantificado: o medo, a ausência, a culpa, a esperança e a lenta reconstrução da dignidade humana. Ela transforma a memória em responsabilidade ética.

Ao refletir sobre Hiroshima, sobre as mulheres que sustentam a continuidade da vida e sobre a permanência das lembranças nas gerações seguintes, este texto não pretende oferecer respostas definitivas. Busca, antes, reconhecer que toda civilização depende da capacidade de recordar sem transformar a memória em instrumento de ódio.

Lembrar não significa permanecer aprisionado ao sofrimento, mas impedir que a violência seja naturalizada. Quando a memória permanece viva, ela se converte em consciência; quando a lucidez permanece desperta, torna-se possibilidade de paz.

 I — A Guerra em Primeira Pessoa

“Toda guerra começa quando o outro deixa de ser reconhecido como semelhante.”

Existe uma diferença profunda entre estudar uma guerra e sobreviver a ela. A primeira atividade pertence ao domínio da análise histórica; a segunda modifica irreversivelmente a percepção da existência. Nenhuma estatística consegue traduzir o instante em que uma criança compreende o significado da perda, nem o silêncio que permanece após o desaparecimento daqueles que davam sentido ao cotidiano.

A guerra rompe a continuidade da vida ordinária. O tempo deixa de ser organizado por projetos e passa a ser medido pela sobrevivência. Cada dia representa uma conquista incerta, cada despedida pode tornar-se definitiva, cada gesto cotidiano adquire inesperada dimensão ética.

Nesse contexto, a primeira pessoa deixa de ser mero recurso narrativo para transformar-se em lugar de resistência. Dizer “eu” significa afirmar que existe uma consciência que não foi completamente reduzida à lógica da destruição. A identidade sobrevive mesmo quando tudo ao redor parece destinado ao desaparecimento.

A literatura testemunhal tornou-se um dos maiores patrimônios da memória contemporânea exatamente porque restitui nomes, rostos e emoções às vítimas. Ao narrar a experiência individual, revela aquilo que permanece invisível nas descrições gerais da história: a singularidade da dor humana.

A guerra produz também deslocamentos interiores. Sobreviver implica conviver com lembranças fragmentadas, culpas silenciosas e perguntas sem resposta. O trauma não termina quando cessam os combates; prolonga-se na memória, influenciando relações familiares, escolhas pessoais e a maneira como novas gerações compreendem o passado.

Recordar, portanto, não significa cultivar ressentimento. A memória transforma-se em exercício de responsabilidade. Ela impede que a violência seja reduzida a simples acontecimento histórico e recorda continuamente que cada conflito nasce, antes de tudo, da recusa em reconhecer plenamente a humanidade do outro.

Assim, toda narrativa em primeira pessoa torna-se também uma narrativa coletiva. Ao escutar uma única voz, reconhecemos milhares de outras que permaneceram silenciadas pela destruição.

II — A Mulher em Primeira Pessoa

“Onde a guerra interrompe a vida, muitas mulheres preservam a memória.”

As guerras foram frequentemente narradas pelos vencedores, pelos generais e pelos líderes políticos. Entretanto, existe uma outra história, menos visível e igualmente decisiva: aquela preservada pelas mulheres.

Enquanto o conflito reorganiza fronteiras e estruturas políticas, mulheres sustentam aquilo que permanece essencial à continuidade da existência: o cuidado, a transmissão da memória, a preservação da infância e a reconstrução cotidiana da esperança.

Elas experimentam perdas múltiplas. Perdem companheiros, filhos, lares, estabilidade e, muitas vezes, a própria identidade construída antes da violência. Ainda assim, assumem silenciosamente o trabalho de reorganizar a vida quando os combates terminam.

Não se trata de idealizar a figura feminina, mas de reconhecer uma dimensão histórica frequentemente negligenciada. A memória coletiva de inúmeros povos foi preservada por relatos orais, diários, fotografias, cartas e gestos cotidianos mantidos sobretudo pelas mulheres.

A maternidade, compreendida aqui em sentido amplo como capacidade de proteger e transmitir a vida, converte-se em resistência ética diante da destruição. Mesmo quando tudo parece perdido, permanece o compromisso de impedir que o esquecimento complete aquilo que a guerra iniciou.

A literatura registra inúmeras personagens femininas que atravessam conflitos sem perder completamente a capacidade de compaixão. Elas não representam ingenuidade, mas coragem moral.

Ao narrar a guerra em primeira pessoa feminina, a literatura amplia nossa compreensão da violência. Ela mostra que a reconstrução de uma sociedade começa muito antes da assinatura de tratados diplomáticos.

III — A Modernidade e a Guerra em Terceira Pessoa

“A técnica amplia o poder humano; somente a consciência pode limitar seu uso.”

A modernidade proporcionou extraordinários avanços científicos, tecnológicos e econômicos. Contudo, o mesmo conhecimento capaz de prolongar a vida também produziu instrumentos de destruição jamais imaginados pelas gerações anteriores.

Ao longo do século XX, a guerra deixou de depender exclusivamente da coragem individual dos combatentes para tornar-se resultado de sistemas burocráticos altamente organizados. A violência passou a ser administrada por estruturas impessoais.

Hannah Arendt observou que o mal pode apresentar-se não apenas como manifestação de crueldade consciente, mas também como resultado da incapacidade de pensar criticamente sobre os próprios atos.

Nesse cenário, a literatura recupera aquilo que a burocracia tende a apagar: a singularidade humana. Ao devolver nomes às vítimas e sentimentos às estatísticas, rompe a impessoalidade produzida pelas grandes máquinas administrativas da guerra.

A técnica não possui, em si mesma, orientação moral. Ela amplia possibilidades. Cabe à consciência humana decidir se o conhecimento será utilizado para preservar ou destruir a vida.

A verdadeira modernidade talvez não resida apenas na capacidade de criar tecnologias cada vez mais sofisticadas, mas na maturidade de utilizá-las em favor da dignidade humana.

IV — Cartografia da Memória

“A memória não pertence apenas ao passado; ela orienta a responsabilidade do futuro.”

A memória constitui um dos fundamentos da identidade humana. Não é apenas um arquivo de acontecimentos, mas um processo vivo pelo qual indivíduos e sociedades interpretam a própria existência. Após os grandes conflitos do século XX, recordar tornou-se também um imperativo ético.

As guerras não terminam quando cessam os disparos. Permanecem inscritas nos corpos, nas narrativas familiares e na cultura dos povos. O trauma atravessa gerações, moldando percepções, medos e formas de compreender o mundo.

Paul Ricoeur observa que recordar exige responsabilidade. A memória precisa preservar a verdade sem alimentar o ressentimento. Esquecer completamente favorece a repetição da violência; permanecer aprisionado ao passado impede a reconstrução da vida.

A literatura torna-se espaço privilegiado dessa elaboração. Ela transforma lembranças em linguagem, oferecendo à dor um lugar de permanência que não se reduz à repetição do sofrimento. Assim, a memória deixa de ser apenas recordação e converte-se em compromisso com o futuro.

Cartografia da Memória — Os grandes massacres do século XX

Primeira Guerra Mundial (1914–1918): cerca de 20 milhões de mortos. Deixou uma Europa devastada e inaugurou a guerra industrial em larga escala. �

HISTORY · 1

Genocídio Armênio (1915–1917): aproximadamente 1,5 milhão de vítimas, considerado um dos primeiros genocídios do século XX. �

thoughtco.com

Segunda Guerra Mundial (1939–1945): entre 70 e 85 milhões de mortos, incluindo o Holocausto, o maior conflito da história humana. �

HISTORY · 1

Holocausto (1933–1945): cerca de 6 milhões de judeus assassinados, além de milhões de outras vítimas perseguidas pelo regime nazista. �

HISTORY

Hiroshima e Nagasaki (1945): aproximadamente 200 mil mortos entre vítimas imediatas e posteriores à radiação, marcando o início da era nuclear. �

HISTORY

Guerra da Coreia (1950–1953): cerca de 3 milhões de mortos, consolidando a divisão da península coreana. �

PubMed Central (PMC)

Guerra do Vietnã (1955–1975): aproximadamente 2 a 3 milhões de mortos, deixando profundas marcas humanas, ambientais e políticas. �

PubMed Central (PMC) · 1

Genocídio Cambojano (1975–1979): cerca de 2 milhões de vítimas, consequência do regime do Khmer Vermelho. �

thoughtco.com

Guerras dos Bálcãs (1991–1999): aproximadamente 140 mil mortos, marcadas por limpeza étnica e pelo massacre de Srebrenica. �

PubMed Central (PMC)

 Estima-se que mais de 100 milhões de pessoas tenham perdido a vida em guerras e conflitos do século XX, tornando-o o período mais violento da história contemporânea e um permanente chamado à responsabilidade ética e à preservação da memória. �

V — Hiroshima: Quando a Ciência Ultrapassou a Consciência

“O conhecimento alcança sua grandeza quando permanece inseparável da responsabilidade.”

Hiroshima permanece como um dos símbolos mais contundentes da capacidade humana de produzir destruição em escala inédita. Em poucos segundos, milhares de vidas foram interrompidas, e os efeitos físicos, psicológicos e ambientais prolongaram-se por décadas.

O episódio não representa apenas um marco militar. Ele inaugura uma reflexão permanente sobre os limites éticos do progresso científico. A inteligência técnica mostrou-se extraordinária; a consciência moral revelou-se insuficiente para impedir a devastação.

O Memorial da Paz de Hiroshima permanece como testemunho silencioso dessa responsabilidade histórica. Mais do que preservar ruínas, convida a humanidade a reconhecer que nenhum avanço científico pode ser separado de suas consequências humanas.

VI — Como a Flor de Hiroshima

“Hiroshima, mon amour”À Marguerite Duras

“À memória daqueles cuja ausência continua a ensinar a humanidade a florescer”

Uma bomba julgou estéril o solo da fertilidade. Apesar da devastação homicida, houve um impulso; na vila morta, célere, a vida.

A flor de Hiroshima floresce. Se apenas sobrevivesse, seria somente um símbolo biológico.

Mas florescer é um verbo da alma, metáfora da resiliência, a serenidade que ensaia novamente a vida.

A cinza acreditava possuir a última palavra. A flor respondeu em perfume: imagem singela  da extraordinária continuidade.

O perfume não tem corpo nem ocupa espaço. Não se deixa aprisionar; expande-se, transcende. E do massacre, gesto agreste, a poesia se consagra.

Não reconstrói edifícios, nem desfaz explosões. Não devolve os mortos às suas imensidões.

A flor não explica a tragédia, mas transforma suas dimensões.

A bomba definia a terra como o último vazio. A vida, porém, recusa o verbo desistir.

A consciência, em floração, renasceu na natureza, porque florescer é escolha da alma, e quando a  cinza imaginou ser a última palavra,

 A flor de Hiroshima poetizou o perfume na forma mais delicada de negar a violência.

O amor permanece em plena liberdade, sem fronteiras nem espaços definidos.

Persiste quando a matéria desaparece e o silêncio dialoga com as memórias que não cabem na linguagem:

colecionam perfumes que devolvem à humanidade, não os seus mortos, mas o fôlego que a dor acreditava ter extinguido.

Porque a matéria do absurdo torna-se cinza: o obscuro

mas  na alma o último verbo é florescer:

Hiroshima, mon amour.

Rute Ella Dominici

Epílogo — Eu, Sobrevivente

“Sobreviver é transformar a memória em responsabilidade.”

Não sobrevivi apenas às guerras inscritas na história. Sobrevivi às guerras silenciosas que atravessam consciências, fragmentam afetos e desafiam continuamente a condição humana.

Compreendi que a paz não se estabelece apenas pelo fim dos conflitos. Ela começa quando reconhecemos no outro a mesma dignidade que desejamos preservar em nós. Esse reconhecimento transforma a memória em compromisso ético e impede que a violência encontre no esquecimento um novo abrigo.

A literatura participa dessa reconstrução ao conservar aquilo que a destruição não consegue alcançar: a experiência humana. Enquanto houver quem escreva, leia e recorde, permanecerá viva a possibilidade de uma cultura fundada na responsabilidade, na compaixão e na esperança.

Talvez essa seja a mais profunda vocação da palavra: lembrar que, mesmo depois das maiores ruínas, a humanidade ainda pode escolher florescer.

Que este trabalho encontre leitores capazes de reconhecer que, mesmo diante da devastação da matéria , a literatura continua sendo uma forma de preservar a humanidade.

Dossiê Cultural

Referências bibliográficas

Hannah Arendt — Eichmann em Jerusalém.

https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788571649620/eichmann-em-jerusalem

Primo Levi — É Isto um Homem?

https://rocco.com.br/produto/e-isto-um-homem

John Hersey — Hiroshima

https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535902792/hiroshima

Companhia das Letras (catálogo)

https://www.companhiadasletras.com.br

Editora Vozes

https://www.vozes.com.br

Editora Record

https://www.record.com.br

Nova Fronteira

https://www.novafronteira.com.br

Todavia

https://todavialivros.com.br

Editora Unicamp

https://www.editoraunicamp.com.br

Sugestões culturais

Anne Frank House

https://www.annefrank.org

Elie Wiesel Foundation

https://eliewieselfoundation.org

Hiroshima Peace Memorial Museum

https://hpmmuseum.jp/?lang=eng

UNESCO – Hiroshima Peace Memorial

https://whc.unesco.org/en/list/775

Nagasaki Atomic Bomb Museum

https://nabmuseum.jp/en

Auschwitz-Birkenau Memorial

https://www.auschwitz.org/en

United States Holocaust Memorial Museum

https://www.ushmm.org

IMDb – Hiroshima mon amour

https://www.imdb.com/title/tt0052893

Filmografia Sugerida

Obras audiovisuais recomendadas para complementar o ensaio “A Guerra em Primeira Pessoa: Memória, consciência e a reconstrução da condição humana”.

Hiroshima mon amour

Direção: Alain Resnais (1959)

Reflexão sobre memória, amor e trauma após Hiroshima.

https://www.imdb.com/title/tt0052893

Schindler’s List

Direção: Steven Spielberg (1993)

Holocausto, memória e responsabilidade ética.

https://www.imdb.com/title/tt0108052

The Pianist

Direção: Roman Polanski (2002)

Sobrevivência durante a Segunda Guerra Mundial.

https://www.imdb.com/title/tt0253474

Grave of the Fireflies

Direção: Isao Takahata (1988)

Infância e devastação provocadas pela guerra.

https://www.imdb.com/title/tt0095327

Waltz with Bashir

Direção: Ari Folman (2008)

Memória, trauma e conflito contemporâneo.

https://www.imdb.com/title/tt1185616

The Thin Red Line

Direção: Terrence Malick (1998)

Dimensão filosófica da guerra.

https://www.imdb.com/title/tt0120863

Come and See

Direção: Elem Klimov (1985)

Impactos psicológicos da guerra.

https://www.imdb.com/title/tt0091251

Rute Ella Dominici

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Retratos de tia Gertrudes

Uma misteriosa figura familiar e sua persistente recusa em dividir os retratos do passado

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Uma cena rústica e nostálgica vista de perto. Sobre uma mesa de madeira envelhecida, encontram-se dois grandes álbuns de recortes abertos que exibem fotografias antigas a preto e branco de várias pessoas. Sobre a mesa estão também espalhados uma fotografia solta de uma mulher, uns óculos de leitura, um pequeno ramo de folhas secas, um bilhete com texto manuscrito, um naperão de renda e uma chávena. Ao fundo, uma janela de madeira rústica e aberta enquadra uma paisagem campestre serena com colinas verdes, palmeiras e algumas casas sob um céu ligeiramente nublado.
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Tia Gertrudes pouco conheci. Quer dizer, ainda guardo lembranças enevoadas daquela figura o quão taciturna pode ser alguém cuja magreza ultrapassasse as parcas carnes. Rabugenta que fosse, continuava da família. 

    Solteirona, vovó costumava dizer sobre a primogênita. Entretanto, a minha tia se recusava a carregar rótulos impostos pela sociedade, especialmente aqueles reverberados pelos lábios da própria mãe.

    — Livre, mamãe. Livre!

    — Você nasceu mulher, Gertrudes. Mulheres não são livres, jamais serão. É sina. Melhor que se aprume antes que seja tarde demais.

    Minha avó tinha lá suas ideias, a maior parte reproduções do que aprendera, seja nos parcos anos nos bancos escolares, seja nas cacetadas que levou na lida com os homens. Não a culpo nem a eximo, coisas que não vivi por completo.

    Talvez o hábito mais marcante de tia Gertrudes fosse a relutância em se deixar fotografar ao lado de quem quer que fosse, inclusive de parentes mais próximos e, em especial, de namorados de ocasião. Certa feita, fui eu o preterido.

     — Mas, titia, sou eu, seu sobrinho favorito.

    — A gente nunca sabe o dia de amanhã, Marquinhos.

    É engraçado quando alguém me visita e eu, quando a prosa é boa, resolvo lhe mostrar alguns álbuns de família. Vez ou outra, um observador mais atento fica intrigado com aquela figura isolada em inúmeros retratos.

    — É a tia Gertrudes, irmã de papai.

    — E por que ela sempre aparece sozinha?

    De vez em quando, sinto que algum espírito brincalhão me baixa e cisma em brincar com as verdades. 

    — Ah, é que a tia Gertrudes não gostava de ofuscar ninguém com a sua beleza estonteante.

    Até hoje, ninguém ousou contrariar a minha resposta, que segue como veredito de um tempo que passou mais rápido do que eu esperava. Dizer que tia Gertrudes pudesse ofuscar alguém com a sua aparência pode parecer um absurdo, e não travo imbróglios desnecessários contestando tal hipótese. O que importa, o que importa de verdade é que ela, apesar de não estar há anos entre nós, continua sendo da família.

Eduardo Cesario-Martínez

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Memorial do holocausto em Berlim

Eliana Hoenhe Pereira caminha entre as almas e memórias do cinzento labirinto de Berlim

Eliana Hoenhe Pereira
Eliana Hoenhe Pereira
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Não são simples blocos 

ocos, sem fotos, 

tampouco cinzentos e sem documentos.

Eles possuem almas intensas, memórias e histórias. 

Pela manhã de um dia nublado percorri calada 

os seus caminhos intricados.

A cada passo um significado 

que me fazia sentir e refletir

sobre as sombras de um tempo

que ali estava como lembrete.

Bastante comovente!

Eliana Hoenhe Pereira

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Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia

Alexandre Rurikovich Carvalho

Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia Conhecer, preservar e legar às futuras gerações a grandeza da Amazônia

Alexandre Rurikovich Carvalho
Alexandre Rurikovich Carvalho
A imagem criada por IA, reúne símbolos da história, cultura, natureza e identidade amazônica: a  arquitetura histórica representa o patrimônio e a memória; a majestosa paisagem dos rios traduz a  grandiosidade da Amazônia; a vitória-régia, a arara, a onça-pintada e o boto-cor-de-rosa evocam sua  extraordinária biodiversidade. Ao centro, a Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia  simboliza o reconhecimento e a valorização desse imenso legado. A composição também apresenta  a identificação do autor, Prof. Dr. Alexandre Rurikovich Carvalho, e a presença do Jornal Cultural  ROL, veículo responsável pela publicação do artigo.

RESUMO 

A Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia, instituída pela Federação  Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), constitui uma  distinção de caráter cultural, acadêmico e honorífico destinada a reconhecer  personalidades cujas trajetórias, obras, pesquisas, iniciativas e ações tenham  contribuído para o conhecimento, a valorização, a preservação e a difusão do  patrimônio histórico e cultural da Região Amazônica.

A instituição da honraria parte  da compreensão de que a Amazônia não representa apenas um extraordinário  patrimônio natural, mas também um vasto universo de culturas, memórias,  conhecimentos tradicionais, manifestações artísticas, expressões linguísticas,  práticas sociais, celebrações, saberes e modos de vida construídos historicamente  por diferentes povos e comunidades. No Brasil, a Constituição Federal de 1988  reconhece como patrimônio cultural os bens de natureza material e imaterial  relacionados à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da  sociedade brasileira (BRASIL, 1988).

No contexto amazônico, manifestações como as  expressões orais e gráficas dos Wajãpi e o Círio de Nazaré demonstram a dimensão  universal da cultura produzida e preservada na região (UNESCO, 2003, 2013). A  Comenda pretende, assim, contribuir simbolicamente para o reconhecimento  daqueles que dedicam sua atuação à salvaguarda, pesquisa, documentação,  transmissão e valorização desse patrimônio.

Palavras-chave: Amazônia. Patrimônio cultural. Cultura amazônica. Memória.  Preservação. Patrimônio imaterial.  

1. INTRODUÇÃO 

A Amazônia ocupa lugar singular na história cultural, ambiental e humana do Brasil e  do mundo. Associada frequentemente à extraordinária dimensão de sua  biodiversidade e de seus ecossistemas, a região também abriga uma enorme  diversidade de povos, comunidades, línguas, tradições, conhecimentos,  manifestações artísticas, práticas religiosas, modos de produção, formas de  organização social e relações historicamente construídas com a natureza. 

Falar em Patrimônio Cultural da Amazônia, portanto, significa compreender a região  para além de sua dimensão paisagística ou ambiental. Significa reconhecer que rios,  florestas, cidades, sítios arqueológicos, edificações históricas, objetos, documentos e  paisagens convivem com patrimônios imateriais constituídos por conhecimentos,  técnicas, narrativas, celebrações, músicas, danças, artes, culinária, artesanato,  religiosidade, oralidade e modos tradicionais de viver. 

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) destaca que o  patrimônio cultural brasileiro compreende bens materiais e imateriais, incluindo  formas de expressão, modos de criar, fazer e viver, criações científicas, artísticas e  tecnológicas, documentos, edificações, sítios e outros espaços de valor histórico,  artístico, arqueológico, paisagístico, ecológico e científico (IPHAN, [s.d.]a). 

É nesse contexto que a Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e  Artes (FEBACLA) institui a Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia,  concebida como instrumento honorífico de reconhecimento e valorização daqueles  que dedicam sua trajetória à cultura, à ciência, à educação, à literatura, às artes, à  pesquisa histórica e à preservação da memória amazônica. 

A iniciativa está sintetizada pelo lema: 

“Conhecer, preservar e legar às futuras gerações a grandeza da Amazônia.” 

A frase expressa três dimensões fundamentais: conhecimento, preservação e  transmissão. Não se preserva adequadamente aquilo que não se conhece; e aquilo  que é preservado precisa ser transmitido às novas gerações para que permaneça  vivo como memória, identidade e patrimônio. 

2. A INSTITUIÇÃO DA GRANDE COMENDA PATRIMÔNIO CULTURAL DA  AMAZÔNIA 

A Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia nasce no âmbito institucional  da FEBACLA como uma distinção destinada a conferir reconhecimento público e  honorífico a pessoas que tenham contribuído significativamente para a valorização do  patrimônio cultural amazônico. 

Sua criação está fundamentada em uma concepção ampla de cultura, na qual o  patrimônio não se limita a monumentos, museus ou edificações históricas. O  patrimônio também está presente na memória coletiva, nos conhecimentos  transmitidos entre gerações, nas expressões artísticas, nas tradições orais, nas  celebrações e nas formas de relacionamento entre comunidades, território e  natureza.

A Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, de  2003, compreende esse patrimônio como práticas, representações, expressões,  conhecimentos e técnicas reconhecidos pelas comunidades e transmitidos entre  gerações, sendo continuamente recriados em sua relação com o ambiente, a história  e a própria comunidade (UNESCO, 2003). 

A Comenda, portanto, procura acompanhar essa compreensão contemporânea do  patrimônio cultural: um patrimônio vivo, dinâmico e permanentemente recriado pelas  sociedades. 

Trata-se de uma honraria de natureza cultural, acadêmica e honorífica, não  constituindo, por si só, título estatal de patrimônio cultural nem substituindo os  mecanismos oficiais de tombamento, registro ou reconhecimento previstos pela  legislação brasileira. Seu propósito é homenagear e reconhecer trajetórias e  contribuições no campo da cultura e do conhecimento. 

3. FINALIDADES E OBJETIVOS DA COMENDA 

A Grande Comenda possui como finalidade central reconhecer aqueles que  contribuem para o conhecimento e a valorização da Amazônia em suas múltiplas  dimensões. Entre seus objetivos, destacam-se: 

I – reconhecer personalidades que tenham prestado relevantes contribuições à  cultura amazônica; 

II – valorizar pesquisas históricas, antropológicas, arqueológicas, científicas e  culturais relacionadas à Amazônia; 

III – reconhecer escritores, artistas, professores, pesquisadores, intelectuais,  produtores culturais e agentes da preservação da memória; 

IV – incentivar o conhecimento sobre o patrimônio material e imaterial da Região  Amazônica; 

V – valorizar manifestações culturais tradicionais e contemporâneas; 

VI – reconhecer iniciativas destinadas à documentação, preservação e difusão da  memória amazônica; 

VII – estimular a transmissão dos conhecimentos culturais às novas gerações; VIII – promover o reconhecimento da diversidade cultural existente na Amazônia; IX – valorizar a produção literária, artística e científica dedicada à região; 

X – contribuir para a conscientização acerca da importância da preservação do  patrimônio cultural amazônico. 

Nesse sentido, a Comenda não se limita à celebração de um passado. Ela também  reconhece aqueles que trabalham no presente para garantir a continuidade da  memória no futuro.

4. A QUEM É DESTINADA A HONRARIA? 

A Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia é destinada a personalidades  que tenham desenvolvido atuação relevante relacionada à cultura, à memória, à  pesquisa, à educação, às ciências, às letras e às artes, especialmente quando essa  atuação contribui para a valorização do patrimônio amazônico. 

Podem ser contemplados, conforme os critérios estabelecidos pela FEBACLA,  historiadores, pesquisadores, professores, escritores, artistas, intelectuais,  acadêmicos, jornalistas, produtores culturais, gestores culturais, pesquisadores  independentes, documentalistas e demais personalidades que apresentem trajetória  relacionada à valorização do patrimônio cultural (FEBACLA, 2026). 

A distinção pode alcançar tanto aqueles que atuam diretamente nos territórios  amazônicos quanto pessoas que, em outras regiões, desenvolvem pesquisas,  publicações, projetos ou iniciativas voltadas à divulgação e preservação da cultura  amazônica. 

Também merece destaque a possibilidade de reconhecimento de diferentes áreas do  conhecimento. A Amazônia pode ser estudada pela História, Geografia, Antropologia,  Arqueologia, Sociologia, Filosofia, Literatura, Artes, Educação, Ciências Ambientais e  diversas outras áreas. Essa característica reforça o caráter interdisciplinar da  honraria. 

5. O PATRIMÔNIO CULTURAL AMAZÔNICO 

O patrimônio cultural amazônico é constituído por uma extraordinária diversidade de  referências materiais e imateriais. Entre suas manifestações encontram-se: 

• sítios arqueológicos; 

• cidades e conjuntos históricos; 

• fortificações; 

• edificações religiosas e civis; 

• acervos documentais e museológicos; 

• paisagens culturais; 

• conhecimentos tradicionais; 

• línguas e tradições orais; 

• mitologias e narrativas; 

• festas e celebrações; 

• músicas e danças; 

• artesanato; 

• culinária tradicional; 

• conhecimentos sobre plantas e recursos naturais; 

• modos tradicionais de produção; 

• técnicas artesanais; 

• manifestações religiosas; 

• expressões artísticas; 

• literatura oral e escrita; 

• memória das comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e demais  grupos formadores da sociedade amazônica.

O IPHAN ressalta que o patrimônio imaterial está relacionado aos saberes, ofícios,  modos de fazer, celebrações, formas de expressão e lugares que abrigam práticas  culturais coletivas. Esse patrimônio é transmitido de geração em geração e  constantemente recriado pelas comunidades (IPHAN, [s.d.]b). 

A Amazônia constitui, nesse sentido, um espaço privilegiado para compreender a  relação entre cultura, território, memória e natureza. 

6. A IMPORTÂNCIA DA CULTURA AMAZÔNICA PARA O BRASIL

A cultura amazônica integra de maneira fundamental a identidade cultural brasileira. 

A formação histórica da região produziu uma sociedade marcada pelo encontro e  pela interação entre diferentes povos e tradições. Povos indígenas, populações  ribeirinhas, comunidades tradicionais, afrodescendentes, migrantes e outros grupos  participaram, em diferentes momentos históricos, da construção de um patrimônio  cultural profundamente diversificado. 

A cultura amazônica manifesta-se tanto nas grandes celebrações urbanas quanto nas  práticas cotidianas das comunidades. Está presente na música, na literatura, na  culinária, nas festas populares, no artesanato, nas narrativas tradicionais e na  maneira pela qual diferentes comunidades interpretam e se relacionam com o  ambiente. 

O próprio trabalho de identificação desenvolvido pelo IPHAN demonstra a amplitude  dessa diversidade. No Norte do país, existem projetos de inventário relacionados,  entre outros, aos bois-bumbás do Médio Amazonas, às referências culturais  indígenas do Alto Rio Negro, ao Marabaixo, ao Círio de Nazaré, à farinha de  mandioca, às cuias do Baixo Amazonas, ao carimbó, ao Sairé e ao Mercado Ver-o 

Peso (IPHAN, 2026). 

A cultura amazônica, portanto, não é uma realidade única ou homogênea. Ela é  formada por múltiplas Amazônias culturais, cada qual portadora de experiências,  memórias e formas próprias de expressão. 

7. A AMAZÔNIA COMO PATRIMÔNIO DE INTERESSE DA HUMANIDADE

A importância do patrimônio amazônico ultrapassa as fronteiras brasileiras. 

A Convenção da UNESCO de 1972 reconhece que a deterioração ou  desaparecimento de bens culturais e naturais constitui empobrecimento do  patrimônio de todos os povos do mundo (UNESCO, 1972). Essa perspectiva ajuda a  compreender por que a preservação da cultura amazônica possui dimensão  universal. Quando uma tradição desaparece, não se perde apenas uma manifestação  local, mas também uma forma particular de compreender a história, a natureza, a  sociedade e a própria existência humana. 

Um exemplo expressivo é o patrimônio cultural dos Wajãpi, no Amapá. As  expressões orais e gráficas Wajãpi foram inscritas pela UNESCO na Lista  Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A organização  destaca que seus sistemas gráficos e orais refletem uma visão de mundo e  constituem mecanismos de transmissão de conhecimentos sobre a vida comunitária  (UNESCO, [s.d.]a).

Outro exemplo é o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, realizado em Belém, no Pará,  reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em  2013 (UNESCO, 2013). A celebração reúne práticas religiosas, expressões culturais  e uma grande participação social. 

Esses exemplos demonstram que a Amazônia também participa da construção do  patrimônio cultural reconhecido internacionalmente. 

8. CULTURA, MEMÓRIA E IDENTIDADE 

Preservar o patrimônio cultural é também preservar memória e identidade. 

A memória coletiva permite que as sociedades compreendam sua trajetória e  reconheçam as experiências acumuladas ao longo das gerações. Ela estabelece  vínculos entre passado, presente e futuro. O patrimônio cultural funciona, portanto,  como uma espécie de ponte entre gerações. 

Um conhecimento tradicional transmitido por um mestre a um jovem; uma festa  popular repetida anualmente; uma técnica artesanal ensinada dentro de uma família;  uma narrativa transmitida oralmente; uma música aprendida pelos mais novos; um  documento histórico preservado em um arquivo: todos esses elementos participam  da construção da memória social. 

Por isso, a salvaguarda do patrimônio cultural não significa simplesmente conservar  objetos antigos. Significa criar condições para que conhecimentos, práticas e  referências culturais possam continuar existindo e sendo transmitidos. 

9. O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO AMAZÔNICO 

A educação possui papel essencial nesse processo. Não existe preservação cultural  duradoura sem conhecimento. A escola, as universidades, os centros de pesquisa,  os museus, as academias, os arquivos, as instituições culturais e as próprias  comunidades desempenham funções complementares na transmissão da memória. 

A educação patrimonial permite que crianças, jovens e adultos compreendam que o  patrimônio cultural não pertence somente aos especialistas. Ele também pertence às  comunidades que o produzem, praticam, preservam e transmitem. 

Nesse sentido, a Grande Comenda também pretende valorizar professores e  educadores que utilizam a cultura amazônica como instrumento de aprendizagem e  formação cidadã. Conhecer a história da Amazônia significa compreender parte  essencial da própria formação histórica e cultural do Brasil. 

10. A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA E DA DOCUMENTAÇÃO 

Outro aspecto fundamental é a pesquisa. A documentação histórica, a produção  acadêmica, os inventários culturais, os registros audiovisuais, os arquivos digitais, os  estudos antropológicos e arqueológicos e a produção bibliográfica são instrumentos  essenciais para a preservação da memória.

O IPHAN desenvolve instrumentos específicos para identificação e salvaguarda do  patrimônio cultural imaterial, entre eles o Inventário Nacional de Referências  Culturais (INRC) e o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI) (BRASIL,  2000). 

A pesquisa permite registrar manifestações que muitas vezes não estão  documentadas, compreender seus significados e contribuir para que conhecimentos  importantes não sejam perdidos. Nesse contexto, pesquisadores e instituições  acadêmicas desempenham papel estratégico na construção de uma memória  amazônica plural, científica e socialmente responsável. 

11. A SIMBOLOGIA DA GRANDE COMENDA 

A própria concepção visual da Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia  procura reunir símbolos associados à riqueza cultural e natural amazônica. A  medalha apresenta elementos da fauna, da flora, da paisagem, da história e da  cultura da região, articulados à identidade institucional da FEBACLA. 

Entre os elementos representados encontram-se referências à vitória-régia, às aves  amazônicas, à onça-pintada, ao boto, à vegetação tropical, às paisagens fluviais e a  elementos arquitetônicos e históricos da Amazônia. O verde e o dourado  empregados na composição remetem, simbolicamente, à natureza, à riqueza, à  vitalidade e à solenidade da distinção. 

A simbologia procura expressar uma ideia fundamental: a Amazônia é  simultaneamente natureza, história, cultura, memória e humanidade. 

12. RECONHECER PARA PRESERVAR 

Uma honraria cultural não substitui políticas públicas de preservação, pesquisas  científicas ou instrumentos jurídicos de proteção. Sua contribuição situa-se em outro  campo: o do reconhecimento simbólico e da valorização social. 

Reconhecer uma pessoa que dedicou décadas à pesquisa da cultura amazônica  significa também chamar a atenção para a importância daquela pesquisa.  Homenagear um escritor que dedicou sua obra à Amazônia significa reconhecer a  literatura como instrumento de preservação da memória. Distinguir um professor que  promove a cultura regional significa valorizar a educação como mecanismo de  transmissão cultural. Reconhecer um artista, artesão, pesquisador ou agente cultural  significa afirmar que a produção cultural constitui parte fundamental da memória  coletiva. 

Dessa forma, a Comenda pode ser compreendida como uma distinção de  reconhecimento e valorização, inserida no campo da cultura e da memória. 

13. UM COMPROMISSO COM AS FUTURAS GERAÇÕES 

O lema da honraria “Conhecer, preservar e legar às futuras gerações a grandeza  da Amazônia”, estabelece uma concepção de patrimônio como legado. O  patrimônio não pertence exclusivamente ao passado; ele é recebido das gerações  anteriores, reinterpretado no presente e transmitido às gerações futuras. 

Esse processo exige responsabilidade. Cada geração recebe uma parcela da  memória construída anteriormente e possui o compromisso de não permitir que essa  memória seja apagada pelo esquecimento.

No caso da Amazônia, esse compromisso assume dimensão particularmente  relevante diante da extraordinária diversidade cultural existente na região. Preservar  essa diversidade significa reconhecer que existem diferentes maneiras de produzir  conhecimento, interpretar o mundo, organizar a vida comunitária e estabelecer  relações com o território. A salvaguarda do patrimônio cultural é, portanto, também  uma forma de respeito à diversidade humana. 

14. A GRANDE COMENDA COMO INSTRUMENTO DE VALORIZAÇÃO CULTURAL 

A Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia representa, assim, uma  iniciativa de valorização daqueles que trabalham pela cultura, pela memória e pelo  conhecimento. Sua instituição pela FEBACLA pretende criar um espaço honorífico  dedicado ao reconhecimento de trajetórias que, direta ou indiretamente, contribuam  para a preservação do legado amazônico. 

A honraria poderá alcançar diferentes campos de atuação, respeitando a pluralidade  característica do patrimônio cultural: Ciências, Letras, Artes, Educação, História,  pesquisa, produção cultural, memória, patrimônio, documentação e difusão cultural. 

Seu significado ultrapassa a entrega de uma medalha. A distinção procura registrar  publicamente uma trajetória e afirmar a importância social da cultura como elemento  de identidade, conhecimento e continuidade histórica. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A instituição da Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia representa uma  iniciativa de valorização cultural voltada ao reconhecimento de pessoas que  contribuem para o conhecimento, a preservação e a difusão do patrimônio  amazônico. 

A Amazônia constitui muito mais do que um território de extraordinária riqueza  natural. É também espaço de memória, conhecimento, diversidade, criatividade e  produção cultural. Seus povos e comunidades construíram ao longo de gerações  conhecimentos, tradições, expressões artísticas, formas de organização social e  relações particulares com o território e a natureza. 

A experiência brasileira e os instrumentos internacionais de salvaguarda demonstram  que patrimônio cultural material e imaterial são dimensões complementares da  memória das sociedades. O IPHAN reconhece que o patrimônio imaterial é  transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades, enquanto a  UNESCO destaca sua relação com identidade, continuidade, diversidade cultural e  criatividade humana (IPHAN, [s.d.]b; UNESCO, 2003). 

Nesse cenário, reconhecer aqueles que dedicam suas vidas à pesquisa, à educação,  à literatura, às artes, à ciência e à preservação da memória amazônica constitui uma  forma de afirmar a importância desses trabalhos. 

A Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia, portanto, apresenta-se como  uma distinção de natureza cultural, acadêmica e honorífica, cujo propósito  fundamental é celebrar o compromisso com o patrimônio e estimular sua valorização.

Seu lema sintetiza essa missão: “Conhecer, preservar e legar às futuras gerações a  grandeza da Amazônia.” 

• Conhecer é compreender. 

• Preservar é proteger a memória. 

• Legar é assegurar continuidade. 

E, ao reconhecer aqueles que trabalham nessas três dimensões, a honraria reafirma  que preservar a cultura amazônica é também preservar uma parte significativa da  memória cultural do Brasil e do patrimônio cultural da humanidade. 

REFERÊNCIAS 

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de  1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em:  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 1 out.  2026. 

BRASIL. Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000. Institui o Registro de Bens  Culturais de Natureza Imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro, cria o  Programa Nacional do Patrimônio Imaterial e dá outras providências. Brasília, DF:  Presidência da República, 2000. Disponível em:  

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3551.htm. Acesso em: 1 out. 2026. 

BRASIL. Decreto nº 7.387, de 9 de dezembro de 2010. Institui o Inventário Nacional  da Diversidade Linguística e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da  República, 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007- 2010/2010/Decreto/D7387.htm. Acesso em: 1 out. 2026. 

FEBACLA – FEDERAÇÃO BRASILEIRA DOS ACADÊMICOS DAS CIÊNCIAS,  LETRAS E ARTES. Grande Comenda Patrimônio Cultural da Amazônia:  documento institucional de criação e regulamentação da honraria. Rio de Janeiro:  FEBACLA, 2026. 

IPHAN – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL.  Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural: Patrimônio Imaterial. Brasília, DF: IPHAN,  [s.d.]a. Disponível em: http://por.iphan.gov.br/. Acesso em: 1 out. 2026. 

IPHAN – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL.  Patrimônio Imaterial. Brasília, DF: IPHAN, [s.d.]b. Disponível em:  http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/234. Acesso em: 1 out. 2026. 

IPHAN – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL.  Patrimônio Imaterial no Amapá: Arte Kusiwa, Pintura Corporal e Arte Gráfica  Wajãpi. Brasília, DF: IPHAN, [s.d.]c. 

IPHAN – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL.  Patrimônio Imaterial no Pará. Brasília, DF: IPHAN, [s.d.]d. 

IPHAN – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL.  Projetos realizados de identificação de bens culturais imateriais. Brasília, DF:  IPHAN, 2026.

UNESCO – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A  CIÊNCIA E A CULTURA. Círio de Nazaré (The Taper of Our Lady of Nazareth) in  the city of Belém, Pará. Intergovernmental Committee for the Safeguarding of the  Intangible Cultural Heritage. Paris: UNESCO, 2013. 

UNESCO – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A  CIÊNCIA E A CULTURA. Convention concerning the Protection of the World  Cultural and Natural Heritage. Paris: UNESCO, 1972. 

UNESCO – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A  CIÊNCIA E A CULTURA. Convention for the Safeguarding of the Intangible  Cultural Heritage. Paris: UNESCO, 2003. 

UNESCO – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A  CIÊNCIA E A CULTURA. Oral and graphic expressions of the Wajapi. Intangible  Cultural Heritage. Paris: UNESCO, [s.d.]a.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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Ceniza y Miel

Carlos Javier Jarquín:
Presentación de la novela ‘Ceniza y Miel’, de Tatiana Serrano – A cobertura completa do lançamento literário que uniu a sensibilidade de Julieta Dobles e a força da nova literatura costarriquenha

Logotipo da sedção O Leitor Participa
Tatiana Serrano (izquierda) y Julieta Dobles Yzaguirre, durante la presentación de la novela Ceniza y Miel (Uruk Editores), el pasado lunes 21 de septiembre, en el Museo Dr. Rafael Ángel Calderón Guardia, en San José, Costa Rica. Foto cortesía de Tatiana Serrano

Na última segunda-feira, 21 de setembro, a partir das 18h, foi apresentado oficialmente o romance Ceniza y Miel (Uruk Editores, 2026), da autora costarriquenha Tatiana Serrano, no Museu Dr. Rafael Ángel Calderón Guardia, em San José.

Durante a apresentação, a comentarista foi a poeta costarriquenha Julieta Dobles Yzaguirre. Em sua intervenção, ela destacou que Ceniza y Miel “merece ser lido com calma e desfrutado com tempo, pois faz as delícias de todo tipo. Com uma capa tão divertida e louca quanto o romance — obra da artista plástica e visual costarriquenha Marcia Salas, que acabou de chegar e está aqui presente —, o livro chama imediatamente a atenção de seus possíveis leitores”.

Ela também expressou sua admiração e comentou:

É surpreendente que sua autora consiga escrever a história da família Patay usando um narrador-testemunha que mal iniciou a adolescência. O garoto Tomás, mais conhecido como Tomasito, cujo sobrenome Patay vem de sua mãe, é filho de uma das filhas do avô. Seu pai foi ausente em sua vida e nunca o reconheceu; então, o avô, no final, se compraz em saber que esse menino tem o sobrenome Patay e vai seguir adiante com a família, embora não tenha sido reconhecido pelo pai… Mas realmente me surpreendeu que uma escritora jovem que publica seu primeiro romance alcance tal grau de experiência vital para o leitor, a ponto de este conseguir se lançar de cabeça na leitura e ler com a avidez com que eu li. Eu o li em pouquíssimos dias. Entre os personagens criados pela autora, plenos de significado, podemos reconhecer alguns protótipos comuns em nossa sociedade, tanto entre os homens quanto entre as mulheres do romance…”.

Tatiana Serrano, muestra la portada de su novela Ceniza y Miel (Uruk Editores, 2026). Foto cortesía de Tatiana Serrano
Tatiana Serrano, muestra la portada de su novela Ceniza y Miel (Uruk Editores, 2026). Foto cortesía de Tatiana Serrano

Prezada Tatiana: Qual é a temática central abordada em Ceniza y Miel e a que público o romance se dirige?
Ceniza y Miel introduz o leitor no universo da família Patay. Este é um clã onde a vida e a morte, os afetos, a memória e os vínculos familiares convivem com naturalidade, ternura, humor e ironia. Através de personagens cativantes, contradições reconhecíveis e um equilíbrio entre humor, ternura e ironia, a obra reflete sobre aquilo que herdamos e sobre as histórias familiares que moldam nossa identidade. Esta é uma história construída ao redor daquilo que herdamos, das pessoas que nos precederam e dos relatos familiares que, de uma maneira ou de outra, terminam formando parte de quem somos.

Ceniza y Miel é direcionado a pessoas que desfrutam de histórias sobre os vínculos, a memória, as famílias e as marcas que as gerações anteriores deixam em cada uma das pessoas que conformam esse grupo social. O romance se conecta especialmente com quem aprecia personagens marcantes, contradições humanas e um humor que acompanha inclusive os momentos difíceis.

Ceniza y Miel é o seu primeiro romance. Que impressões você tem recebido dos seus primeiros leitores e o que significou para você esta estreia no gênero do romance?
Os leitores têm sido muito generosos na recepção do romance. Muitos se aproximaram para comentar que a obra lhes pareceu refrescante, amena e agradável. Um dos aspectos em que a maioria coincide é que se trata de um romance diferente do que está no mercado e das propostas literárias habituais. Comentam que se conectam com a história desde o início e que o final se mostra cativante. Destacam que os personagens permanecem com eles. Existe uma coincidência entre os leitores de que o romance é percebido como natural, crível, contando com verossimilhança e sentido.

Carlos Jarquín con la portada de Ceniza y Miel (Uruk Editores, 2026), Foto: 23 de septiembre de 2026. Cortesía de Carlos Jarquín.

Desde sua apresentação inicial no marco da Feira Internacional do Livro da Costa Rica, Ceniza y Miel chamou a atenção de leitores e meios culturais. O jornal La Nación o incluiu entre as “Cinco joias imperdíveis” da Feira Internacional do Livro, enquanto o Semanario Universidad o destacou entre três romances de mulheres publicados pela Uruk Editores.

Esta estreia no gênero do romance significou uma experiência muito importante para mim, porque Ceniza y Miel é construído a partir de treze relatos interconectados. Cada capítulo se sustenta como um episódio completo, mas a soma das histórias conforma o romance da família Patay; cada capítulo é uma porta para um momento determinado no clã. Gosto de concebê-lo como um prato no qual cada capítulo traz um aroma, um sabor e uma cor particular, mas todos juntos produzem uma explosão de sabores.

Escolhi uma estrutura fragmentada porque as memórias não são lineares. Além disso, um mesmo acontecimento pode se transformar em uma história completamente diferente dependendo de quem o lembre ou o conte. Por isso, a unidade do livro não é cronológica: constrói-se a partir dos personagens, dos vínculos familiares e dos elementos que reaparecem ao longo do romance. Escrever um romance a partir de relatos interconectados foi uma aposta ambiciosa, porque eu queria conservar a intensidade do conto, um gênero que me apaixona por sua precisão, sua contenção e pela escolha muito consciente de cada palavra, e ao mesmo tempo aproveitar as liberdades do romance, que permite construir o efeito com pequenos golpes acumulativos.

No último dia 21 de setembro, você apresentou oficialmente Ceniza y Miel no Museu Dr. Rafael Ángel Calderón Guardia. O que significou para você apresentar seu livro neste museu?
As apresentações de obras sempre são um ápice dentro do processo de publicação que acompanha todo texto. São momentos desfrutados porque se trata de compartilhar com diferentes setores os detalhes da obra, desde o processo criativo até as decisões, seleções e a história da própria história. Apresentar Ceniza y Miel no Museu Dr. Rafael Ángel Calderón Guardia foi, além da apresentação de um livro em um espaço cultural, o encontro de um romance construído ao redor da memória, da família e das marcas do passado com um lugar que também resguarda a memória histórica.

Nessa apresentação, a poeta Julieta Dobles foi a comentarista da sua obra. O que representou para você contar com a voz e a leitura dela no lançamento do seu primeiro romance?

Contar com a voz e a leitura de Julieta Dobles na apresentação de Ceniza y Miel foi uma honra muito especial. Dona Julieta Dobles é uma das vozes mais reconhecidas e queridas da poesia costarriquenha contemporânea. O trabalho que ela desenvolveu através da formação em universidades e oficinas é fundamental. Sua trajetória literária, sua sensibilidade e sua contribuição contínua para a cultura nacional a convertem em uma figura de grande relevância dentro das letras costarriquenhas.

Ela dedicou sua vida à escrita, à docência e à reflexão poética, e sua obra faz parte essencial do panorama literário do país. Por isso, o fato de ela ler e comentar meu primeiro romance teve um significado profundamente emotivo e simbólico. Sua visão não apenas trouxe uma leitura sensível e generosa da obra, mas também acompanhou esta estreia a partir de um lugar de experiência, autoridade literária e proximidade humana. Para mim, sua presença representou uma espécie de boas-vindas ao gênero do romance por parte de uma escritora admirada, uma autora cuja palavra tem peso, memória e uma enorme legitimidade dentro da literatura costarriquenha.

Carlos Javier Jarquín

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Garota dos leques

Jane Nash:
Uma viagem nostálgica e esfumaçada aos tempos dourados dos salões de jazz, relembrando os paetês, as penas e o brilho eterno de uma antiga dançarina

Jane Nash
Jane Nash
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“Foi tudo meio arriscado”

O sorriso dela

Cercado por batom escarlate

Um toque do qual repousa em suas bochechasSeu contorno, instável

Envolve dentes rachados por finas linhas

“Parecíamos nuas”

Ela pisca um olho de pálpebra caída

A sombra azul brilhante

E cintilante

Aplicada de forma desajeitada sobre

A pele cheia de veias

Acima de uma velha máscara de cílios empelotada

Em algum lugar

Na memória esfumaçada ao fundo

De salões de jazz e trupe de dança

Modos da velha escolaAqueles dias em preto e branco

Somos deixados a imaginar

Os paetês e as penas

Desta que já foi uma dançarina

Garota dos leques.

Jane Nash

Fan Girl

‘It was all rather riské’
Her smile
Surrounded by scarlet lipstick
A dash of which sits upon her cheeks
Its outline, unsteady
Surrounds teeth cracked with fine lines

‘We looked naked’
She winks a hooded eye
The brilliant blue
sparkling eyeshadow
Clumsily applied over
Veined skin
Above bitty old mascara

Somewhere
In the smokey background memory
Of jazz halls and dancing troupes
Old school ways
Those black and white days
We are left imagining
The sequins and feathers
Of this once dancing
Fan girl.

Jane Nash

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Entre dois rios

Abdulla Issa:
Um canto de memória, guerra e identidade às margens do Eufrates

Abdulla Issa
Abdulla Issa
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Pelos antigos perfumes ainda agarrados às bordas das almofadas,
pela luz que desperta na crista de um galo ancestral, como se alguém tivesse testemunhado uma estrela caída sendo engolida pela luz do dia —
por aquilo que as cidades conquistaram, essas cidades que, tropeçando em direção a si mesmas, encontraram seu amanhã entre dois rios;
pela água nos suspiros das belas mulheres, temerosas de que Sherazade, despercebida, pudesse encontrar a imaginação do Imperador entre os espelhos;
pela memória da tinta nos livros, os exércitos de Hulagu foram lançados ao rio.

Como se pode amar uma cidade mais do que aqueles que a chamam de lar, estrangeiro?

Se por acaso encontrares Zubayda, diz-lhe: hoje, todo o poder está em suas mãos.
E eu vou encontrar Timur.

Não me importam as mulheres dos acampamentos, as escravas, as cativas, nem aquelas cujo fluxo mensal cessou.
Nunca sorri para um estranho sem que ele pudesse me ver.

Digo-lhe: Ó estrangeiro, por que te apressaste em me matar
e me deixaste como um cadáver para apodrecer, entre as treliças da filha de al-Jalabi e os muros da prisão de Abu Ghraib?
E eu quase te dei uma casa e uma escrava ao meu lado.

Esperamos até o meio-dia para tirar nossas fotografias hoje na Rua al-Mutanabbi,
onde o livro retorna do rio para sentar-se conosco nos cafés,
onde ouvimos a voz de al-Ghazali talhando seu sopro nos pulmões do ar e no muro da cidade;
onde os olhos das belas mulheres se transformam em florestas de palmeiras,
e nove reinos se erguem ao longo das duas margens do Eufrates.

E então vi o arauto anunciando:

Não foste tu quem disse: Ó touro deste céu,
e de todo céu — desce ao mais profundo abismo,
até encontrares a terra erguida sobre teus chifres por nossa causa,
e deixa-nos herdar a erva da imortalidade?

Não foste tu quem disse, antes que a escrita existisse, à filha da Senhora do Palácio:
Eu te amo.

Eu sou aquele que te concedeu dois pequenos riachos,
para que pudesses lavar o que quisesses — tuas pernas —
até que o meio-dia tecesse a cor do dia.

Não foste tu quem disse:

O rosto da cidade é água. E esta é a prova do meu suicídio —
retornei como aquele que, hoje,
encontra em ti a cura para a morte.

E, desde que dei minha palavra,
nenhuma alma pode ser salva se não acreditar em meu milagre:

que sou o guardião dos dois rios
e o guardião de tudo o que a natureza me deixou entre eles.

Não desperdiçarei a água de uma nuvem que cairá sobre meu reino onde quer que vague,
nem a areia que perdeu os mandamentos de seus ancestrais dentro daquela antiga imaginação do vento.

E não negocio a mim mesmo por nenhuma alma,
nem negocio aqueles que buscaram refúgio comigo durante a guerra
em troca da captura de povos que,
em nossos mitos, são nossos vizinhos.

Sou aquele que, quando liberto o barro entre os túmulos,
se curva no caminho diante de uma folha de capim
que envelheceu esperando por mim.

Tradução para o inglês: Najwa Juma

Abdulla Issa

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