A língua em frenesi

Pietro Costa: Poema ‘A língua em frenesi’

Pietro Costa
Pietro Costa
Card referente ao concurso da Capolat, no qual Pietro Costa participou sob o pseudônimo Chardonnay
Card referente ao concurso da Capolat, no qual Pietro Costa participou sob o pseudônimo Chardonnay

Em devoção, beijo a flor do Lácio
como quem profana um templo.
Com as sílabas, traço um laço devasso,
roçando o sentido nos lábios do tempo.

Quero degustar o idioma
até que ele gema em metáfora,
e o prazer, em pleno sintoma,
seja vírgula suspensa,
entre o fôlego e a ânfora.

Sou amante reincidente da palavra,
incurável de semântica e pulsão,
perfil que em vogais se escancara
e em consoantes morde o coração.

Quero atravessar a língua
com Cecília, leve e abissal,
perder-me no labirinto de Clarice,
onde o pensamento sangra o essencial,
e arder com Hilda, no clímax
da volúpia mística e visceral.

Mas também ouvir Adélia
rezando o chão com carne e fé,
sentar-me à mesa de Carolina
onde a fome é o que a língua é,
e aprender com Conceição
que a memória escreve o que a vida quer.

Quero a língua viva, indócil,
na dor e na delícia de ser inteira:
feliz não por promessa fácil,
mas por combustão, fogueira,
até que o último suspiro
seja o poema
em sua forma derradeira.

Pietro Costa

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A aurora que te lembra

Ella Dominici: ‘A aurora que te lembra’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada pela IA do Gemini – https://gemini.google.com/app/2597e09082a2befc?utm_source=app_launcher&utm_medium=owned&utm_campaign=base_all

E quando o sol enfim romper a noite, restará de ti apenas o rumor suave que a manhã carrega — o sopro que abandona os frutos, a claridade que se desfaz como cintilação nas folhas. Eu, apaixonado e cansado da própria febre, deixo que tua ausência se instale em mim como ouro tênue: relâmpago que não volta, sombra que respira. E nesse clarão que se dissolve, descubro que te amar é perder-te devagar, como quem bebe a luz até o último gesto do dia.

E quando a manhã chega, simples e sem cerimônia, descubro que ficou de ti apenas um jeito de luz na janela, um silêncio macio espalhado pela casa. Não é dor; é lembrança viva, dessas que aquecem devagar, como quem toca a água morna antes de mergulhar. Carrego tua ausência com a mesma ternura com que te buscava, e percebo — meio distraído, meio desarmado — que amar também é aprender a guardar o que não volta, e mesmo assim continuar esperando.

Ella Dominici

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Entre estilhaço e claridade

Ella Dominici: ‘Entre estilhaço e claridade’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada pela IA do Bing – 08 de maio de 2026,
às 9h15

A carne não é triste; é translúcida demais. Leu-se o mundo até que as páginas perderam peso e restou apenas o brilho nu entre uma palavra e outra, como se o sentido tivesse migrado para o intervalo. Algo chama — não o mar visível, mas o rumor que antecede a onda, a vibração que percorre o vidro antes da fratura.

 Há um cristal no centro do peito: não é pedra, é memória suspensa, luz coagida em forma. Quando a brisa o atravessa, não sopra — fende. E os fragmentos não caem; flutuam, cada estilhaço guardando um rosto incompleto, um gesto repetido, uma infância que ainda não terminou de acordar.

Não se foge da transparência; ela persegue. O navio é interno, feito de nervuras frágeis, e suas velas são silêncios estendidos sobre o abismo. Parte-se sem mover-se. O cristal, perplexo, não sabe se é ferida ou revelação. Mas quando a luz insiste — branca, impiedosa — compreende que não é o golpe que o quebra, e sim o excesso de claridade.

Então canta. Não som: refração. E no canto invisível do vidro algo se recompõe sem retornar ao que era. O mar não aparece; apenas pulsa dentro da transparência. E o coração, entre um estilhaço e outro, aprende a permanecer.

Ella Dominici




Palestinada

Arwa Ben Dhia: Poem ‘Palestinada’

Arwa Ben Dhia
Arwa Ben Dhia
magem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69fb05a4-78d4-83e9-bd41-0a78f340df7b
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/69fb05a4-78d4-83e9-bd41-0a78f340df7b

Motherland,
Womb of homelands,
Jewel of civilisations,
Cradle of religions,

How many wars have you endured!
May your scarred soil
Be covered with flowers!
May the scent of thyme fill the air!
May the olive tree endure!

Palestine, you are,
Palestine, you shall be —
Etched forever
Upon the map of our memories.

Arwa BEN DHIA

Translated from French into English

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O velho e os vermes

Eduardo Cesario-Martínez: ‘O velho e os vermes’

Eduardo Martínez – Foto por Irene Oliveira
imagem gerada por IA do Gemini

Hoje acordei como sempre. O costumeiro mau-humor, certamente herança de um antepassado calabrês, continua firme nos meus olhos profundos e na minha boca retorcida. Lavei o rosto na água gelada, que levou o último resquício de esperança de retornar para cama e esperar pela Senhora da Foice.

Minha esposa, que casou por imposição dos pais, miseráveis que eram, não suportaria tamanho martírio de se deitar ao meu lado, nem sequer uma vez mais. Por sorte, foi acometida por um câncer, que a tomou por completo. Recebi a notícia por uma enfermeira, que se deu ao trabalho de me ligar àquela hora da madrugada.

Foi sepultada num dia de sol, como se libertada da minha insuportável companhia. Lembro-me exatamente da feição de alento em seu rosto no dia de sua partida, dentro daquele caixão, que me custou os olhos da cara. Pálida, é verdade, mas serena. Quanto às maçãs, nada que um pouco de maquiagem não a fizesse mais corada na hora da despedida.

Eis que aqui estou, ainda cumprindo a minha sina, sem coragem de cortar os pulsos ou me atirar da janela. Segundo andar. Na certa, daria com a fuça naquele jardim repleto de rosas. Se pararia de respirar ou não, é mais uma dúvida que me corrói.

Ouço o barulho de crianças gritando lá embaixo naquele maldito parquinho. Aquele lugar deveria ser demolido. Que construam algo mais útil ali. Que seja uma repartição pública, mas que acabem logo com esse martírio. Não suporto gente miúda se esgoelando, como se vivesse uma felicidade que não existe.

Sinto o aroma do lixo apodrecido vindo da cozinha. Isso mesmo! Não o jogo fora há quase duas semanas. Por que faço isso? Hum! Bem, vou matar a sua curiosidade, antes que você me mate de tédio.
Deixo que os vermes, a maioria depositada por moscas, se deliciem com os restos de comida deixada de lado de propósito. Vermes precisam de alguém que lhe dê algo para comer.

Portanto, não me julgue por isso! Se a minha vizinha possui gatos, que mal tem se eu crio vermes? Certamente, você também tem lá as suas manias. Ou vai querer me enganar que a sua vida é recheada de pôneis coloridos?

Não pense você que sou um imundo. Pois não sou! Tomo banhos regulares, mas nada de exageros. Isso, por sinal, me faz lembrar de um momento da minha infância. Quer sabê-lo? Vou lhe contar, mas guarde segredo ou, então, seja mais um a falar mal de mim. Não me importo, assim como nunca liguei para todos os outros que me conheceram nesses meus quase 100 anos. Completo-os depois de amanhã.

Antes de entrar nos pormenores, devo lembrá-lo de que sou de uma enorme família, cheia de irmãos. Sou o segundo, logo abaixo de Judith, de uma prole de quase 15. Quase porque três não tiveram o desgosto de enxergar as trevas deste mundo. Que sejam 12, tanto faz. Uma longa escada de ano em ano, às vezes falhando um ou outro, dependendo do tempo das viagens do meu falecido pai ou, então, por conta de algum natimorto.

Tudo começou quando contava com três ou quatro anos. Não estou certo, talvez tivesse sido pouco antes, pouco depois. Detalhes sem qualquer relevância. Minha mãe, com uma barriga gigantesca, carregava um dos meus irmãos. As pernas inchadas, os pés parecendo patas de elefantes, mamãe se arrastava pelo quintal pendurando trapos, a maior parte encardida, no longo varal. Judith e eu aos seus pés, como dois carrapatos tentando sugar o máximo de sangue daquela força bruta de total ignorância.

— Judith, minha filha, quer ver o seu irmãozinho aqui na barriga da mamãe?

Minha mãe levantava um pouco a blusa e falava para Judith encostar um dos olhos no seu umbigo. Minha irmã obedecia e abria aquele sorriso, como se descobrisse algo que jamais vislumbrei. Em seguida, mamãe me puxava pelo braço e me mandava fazer o mesmo. E, por mais que eu abrisse e fechasse meus olhos, nunca consegui enxergar além da sujeira depositada no umbigo da minha mãe.

Esse costume foi passado para os filhos subsequentes, que foram jogados neste mundo. Meus irmãos, talvez cúmplices de mamãe, sempre responderam com aquele sorriso de felicidade em seus rostos. Fui tomado por sentimentos, ora de incapacidade, ora de inveja, ora de profundo ódio, até que, pouco antes dos 18, deixei-me cair no mundo. Nunca mais os vi.

Dos 18 aos quase 100, eis que estou aqui. Não me arrependo de nada que fiz ou deixei de fazer. No entanto, também não sinto orgulho da minha jornada de vida. Bem sei que, não tarda, serei eu o devorado pelos vermes que cultivo.

Eduardo Cesario-Martínez

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Cordel das memórias que vão e ficam

Márcio José Zacarias: ‘Cordel das memórias que vão e ficam’

Márcio José Zacarias
Márcio José Zacarias
Imagem criada pela IA do ChatGPT

Introdução

O Alzheimer é uma doença silenciosa.

Ele não chega como uma tempestade repentina, entretanto como uma névoa lenta que vai cobrindo os caminhos da memória. Primeiro desaparecem pequenas coisas: datas, nomes e objetos esquecidos sobre a mesa. Depois, pouco a pouco, histórias inteiras começam a se apagar.

Para quem vive a doença, a memória se torna um território incerto. Para quem acompanha de perto — filhos, netos, companheiros e cuidadores — nasce um outro aprendizado: o de amar para além das lembranças. Quando as palavras falham, restam os gestos, o toque e uma amorosa presença.
O cordel a seguir reúne diferentes vozes de uma mesma família diante dessa travessia. Cada estrofe revela um olhar sobre a perda da memória e, ao mesmo tempo, sobre aquilo que permanece. Porque, mesmo quando as lembranças se desfazem, algo essencial continua vivo: o afeto.

É sobre as memórias que partem e sobre aquelas que insistem em ficar que este cordel se constrói.

Cordel das Memórias que Vão e Ficam

Eu sou a filha mais velha,
Ele foi luz da minha vida,
Sabia todas as datas,
Cada história repetida.
Hoje pergunta meu nome
Com a voz meio perdida.

Eu sou o filho que aprendeu
Com ele todo o serviço,
Martelo, prego e madeira
Não tinham nenhum feitiço.
Hoje perde as próprias chaves
E diz que foi sumiço.

Sou a esposa companheira
De quarenta anos de caminho,
Ele sabia meus gostos
Sem eu falar baixinho.
Hoje me chama ‘senhora’
Como quem chama um vizinho.

Sou o neto que aprendeu
A soltar pipa no vento,
Vovô contava histórias
Que duravam muito tempo.
Agora esquece o final
No meio do pensamento.

Sou a irmã de infância
Do terreiro e pé no chão,
Brincamos de bola e roda
Debaixo do mesmo verão.
Hoje ele sorri pra mim
Mas não sabe quem eu sou não.

Sou o médico que explica
Com cuidado e precisão:
Não é teimosia ou preguiça,
Nem falta de atenção.
É a memória se apagando
Como vela no lampião.

Sou a cuidadora da casa
Que o ajuda todo dia,
Banho, remédio e conversa
Com calma e companhia.
Mesmo sem lembrar de tudo
Ele ainda sente alegria.

Somos a família inteira
Aprendendo outra lição:
Amar mais devagarinho
Com paciência e coração.
Quem perde suas memórias
Precisa mais de união.

E eu sou aquele que esquece
No silêncio da jornada,
Os nomes fogem de mim
Como ave assustadas.
Mas quando seguram minha mão
Sei que não perdi nada.

Márcio José Zacarias

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Ninguém entra duas vezes no mesmo rio

Paulo Siuves: ‘Ninguém entra duas vezes no mesmo rio’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA do Gemini - 19 de fevereiro de 2026, às 16h25
Imagem criada por IA do Gemini – 19 de fevereiro de 2026, às 16h25

Saí de casa e vi um ônibus passar.
Não era só um ônibus.
Era uma cápsula do tempo.

Painel digital, porta automática, câmera interna, letreiro de LED.
Só o motor barulhento não mudou —
continua o nosso velho e bom busão.

Quase nada nele parecia com os que passavam quando eu era moleque.
Os de antes gemiam, tremiam, soltavam fumaça,
tinham bancos duros e janelas que se abriam à força.
Hoje tem ar-condicionado.

Quarenta anos de tecnologia entre um veículo e outro —
e, mesmo assim, a rua era a mesma.
O ponto era o mesmo.
O asfalto era o mesmo.
Só eu não era.

O que passa pela retina é presente.
O que passa pela memória é outra cidade.
Outro corpo.
Outro tempo.
Outro eu.

Há coisas que mudam fora da gente.
Outras mudam dentro.
E há aquelas que mudam a gente por dentro.

De tempo em tempo, alguém surge lá dentro.
Um outro eu — mais ranzinza, mais cansado.
Enquanto o anterior permanece ali,
em suspensão,
esperando para ver o que vai acontecer.

Ser arguido por alguém no espelho é rotina.
Um sujeito que me encara como se fosse testemunha de um crime que eu não lembro de ter cometido.
Um desaforo íntimo.
Um confronto sem plateia.
Às vezes penso: como é que eu ainda não dei um soco naquele sujeito?

Os que morreram dentro de mim não me incomodam.
O que fumava, por exemplo — já foi tarde.
Morreu no fim de 2009.
Esses eu enterrei em silêncio.
Esses descansam.

O problema são os outros.
Os que se recusam a morrer.
Os que voltam como requerentes da própria existência.
Os que batem à porta da consciência pedindo explicação.
Os que me confrontam toda vez que o espelho acende.

E a mão…
Essa mão que amanhece sem pedir licença.
Eu olho e não reconheço a pele.
Não é a pele que eu lembro.
Não tinha tantas rugas.
Não tinha tantas histórias.
Minha memória guarda uma mão lisa — de quinze, talvez vinte anos.
Não essa pele quase sexagenária que agora habito como se fosse de outro endereço.

Às vezes não parece envelhecimento.
Parece troca de identidade sem aviso prévio.
Como se eu tivesse sido atualizado sem ler os termos do contrato.

Acho que é exatamente isso:
não somos feitos de um tempo só.
Somos sobreposições.
Camadas, pessoas.
Versões em conflito.
Arquivos vivos.

E, como a cidade, a gente muda de pele sem pedir permissão à memória.
O corpo vira outro prédio.
O rosto vira fachada velha.
O olhar vira outra rua.
E a gente caminha dentro de si como quem visita um museu sem placas.

No fim, eu acho que não envelheci.
Só acordei num corpo que ainda estou aprendendo a habitar —
enquanto versões antigas de mim continuam andando alguns passos atrás,
me olhando, em silêncio,
como quem pergunta:
“foi isso que você fez com a vida que a gente sonhou?”

Paulo Siuves

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