Diário de bordo do ontem

Pietro Costa: Poema ‘Diário de bordo do ontem’

Pietro Costa
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Card do poema Diário de Bordo do ontem - Pietro Costa
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Dores

Jacob Kapingala: Poema ‘Dores’

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Fotografia conceitual com iluminação suave e dramática de uma pessoa de perfil, com expressão de profunda saudade. Uma lágrima translúcida escorre por seu rosto, transformando-se sutilmente em partículas de luz dourada que flutuam no ar. Ao fundo, formas abstratas e translúcidas sugerem sorrisos e memórias afetuosas do passado, criando um contraste poético entre a tristeza e o conforto.
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Três legiões de dores me invadem,
Sempre que as memórias renascem,
E lembranças amargas me trazem,
Surrando meu corpo e quase que me partem.

De três para seis elas crescem.
Meu peito chora, as pernas tremem.
Essas lágrimas que agora caem,
São tão pesadas que meus olhos não conseguem,

Por isso é que no rosto elas descem,
Trazendo lembranças que não se esquecem,
De pessoas amadas que já se foram mas ainda vivem,
Nos nossos corações que sempre sentem,

As alegrias que nunca morrem,
E nem sequer envelhecem.
Pois os sorrisos do ontem,
Afagam as dores que dentro de nós se escondem.

Jacob Kapingala

Jacob Kapingala
Jacob Kapingala

Jacob Kapingala, 28, é natural da província de Huambo (Angola) e reside em Luanda. Estudou Pedagogia na Escola Missionária do Verbo Divino (Santa Madalena) e atualmente exerce a função de professor do ensino primário.

É escritor e poeta, com participação em algumas antologias e revistas literárias do Brasil e de Portugal.

Teve o desejo de colocar no papel aquilo que pensava somente em 2018, ano em que escreveu seus primeiros poemas. Porém, foi somente em 2019 que passou a se dedicar de corpo e alma à poesia.

É académico da CILA – Confraria Internacional de Literatura e Arte, da ABMLP – Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía e da Academia Virtual dos

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Ler. Escrever. Investigar. Trabalhar

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘Ler. Escrever. Investigar. Trabalhar’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
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Aconteceu na década de oitenta, do século passado, o gosto pela escrita, pela observação direta, com a minha própria envolvência, pela investigação científica e, naturalmente pelo trabalho, quatro pilares fundamentais para, de alguma forma, ter um pouco de proveito e, simultaneamente, ser útil à sociedade da qual faço parte.

Decorridas mais de quatro décadas, após a minha iniciação na escrita e no trabalho, consegui, ainda, colaborar com a comunidade em que estou inserido, cumprir com os meus deveres militares, incluindo uma comissão de serviço, no então “Ultramar”, o tão desejado “Império” que alguém queria construir, através de uma colonização, de triste memória. Segui uma carreira profissional numa das áreas de intervenção da Marinha Portuguesa.

Realizei um pouco do que então julgava ser minha obrigação, participei em várias comissões locais, fui e ainda sou, membro de algumas associações com interesse público-cultural, no contexto das ciências Sociais e Humanas. Tenho-me debruçado persistentemente na divulgação da língua portuguesa.

Claro que talvez pudesse ter sido mais útil ao meu país, e à minha terra, mas a vida nem sempre nos é favorável como todos nós desejamos, contudo, ainda assim, não me posso queixar, porque pelo menos realizei alguns dos meus sonhos: escrever um livro, (mas já lá vão dezanove) plantar uma árvore, casar, ser pai de duas filhas e agora, avô de cinco netos.

As fotos que escolhi, para justificar uma ínfima parte do que fiz na vida, têm exatamente essa finalidade. Qualquer outra interpretação, considerá-la-ei descontextualizada. Esta breve reflexão não é uma despedida, talvez um abrandar o ritmo das publicações.

Aproveito a oportunidade, apesar da antecedência, para desejar a todas as pessoas que me têm acompanhado ao longo destas décadas, lendo o que eu vou publicando, dando-me bons conselhos, ensinando-me a fazer melhor. Que dois mil e vinte e seis nos faculte muitas prosperidades. 

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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Sangue latino

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Sangue latino’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem gerada pelo ChatGPT em 07/07/2026, às 21h06 - https://gemini.google.com/share/43933c0c2547?skid=6fef1acf-87b4-47c4-b100-9bb7e9cc8556
Imagem gerada pelo ChatGPT em 07/07/2026, às 21h06 – https://gemini.google.com/share/43933c0c2547?skid=
6fef1acf-87b4-47c4-b100-9bb7e9cc8556

Foi numa noite de 1978, quando lá fui, levado pelas mãos de minha mãe, para a casa de uma tia. Durante aquelas infinitas partidas de buraco, minha tia começou a puxar conversa comigo, que estava afundado no sofá.

    — Gosta de música?

    — Sim.

    — Do quê?

    — Secos & Molhados.

    — Você tem os dentes separados. Aposto que canta que nem o Ney Matogrosso.

    Não sei quem venceu o carteado, mesmo porque nunca gostei de passar horas fazendo e recebendo sinais do parceiro sobre essa ou aquela jogada. Gostava de paciência, mas não as de uma fileira acima. Minha avó, que sempre foi o grande amor da minha vida, me ensinou outra, que possui duas fileiras nas laterais, cada uma com quatro grupos de cinco cartas.

    Além do baralho, minha avó possuía o hábito de tomar remédios. Eram tantos, que os vidrinhos se acumulavam dentro de uma gaveta na cozinha. De vez em quando, ela me dava um e dizia para ir brincar no quintal. E lá ia eu sorrindo aquele diastema, que me tornava único entre as crianças da rua. 

    Lembro-me de uma mangueira, que ficava mais ao fundo do terreno. Minha avó, certa vez, me disse que aquela era a minha árvore. Nem acreditei que aquele ser enorme fosse só meu. Tentei abraçar o tronco, mas meus braços de menino eram muito curtos. Além disso, a aspereza da casca me causava certo desconforto, que eu tentava disfarçar para não fazer com que a minha avó desistisse daquele gesto tão generoso. Uma árvore! Aos oito, o neto da dona Estelita possuía uma árvore.

    No final de 1992, logo depois de retornar para casa nas férias da faculdade, fui informado por minha mãe que vovó não estava bem de saúde. Meu avô havia nos deixado dois anos antes por conta de um câncer tão comum aos de sua geração de fumantes. Seja como for, dona Estelita requeria cuidados e, por isso, iria morar conosco. 

    Não me incomodei em dividir o quarto com vovó. Pelo contrário, ela sempre havia sido minha maior confidente. Agora, no entanto, os assuntos eram outros, inclusive de supostas namoradas, que nas minhas falas se tornavam muito mais interessantes e apaixonadas por mim. 

    Vovó sempre me falava que queria conhecer a menina que eu fosse escolher para ser minha futura esposa. Como se eu fosse um príncipe que pudesse escolher qualquer uma das garotas da faculdade. Mal sabia ela ou, então, fingia desconhecer a minha total falta de traquejo com as mulheres. Mas isso não era motivo para deixarmos de passar horas divagando sobre as minhas inúmeras pretendentes: Maria Júlia, Roberta, Lúcia, Ana Clara, Solange, Cíntia… 

    Eram tantas, que já não conseguia inventar tantos nomes. E, se eu repetisse algum, minha avó, sempre muito perspicaz, logo me dizia: “Outra Mariana? Essas moças não deixam o meu neto lindo em paz!” E ríamos madrugada adentro.

    Foi pouco depois da minha formatura que vovó nos deixou. Num dia chuvoso, como se toda a cidade chorasse a perda daquela mulher maravilhosa. Diante do caixão, seus olhos, mesmo fechados, pareciam enxergar a angústia que me tomava. Seu rosto sereno, entretanto, me transmitiu uma paz e a certeza de que logo estaríamos juntos novamente.

Eduardo Cesario-Martínez




Tan cerca que no me ves

Adriana Rodríguez

Poema ‘Tan cerca que no me ves’

Adriana Rodríguez
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Camino tus huellas,
senderos de piedra y papel,
bisagras de viento aturdido
colándose por las grietas,
el hambre, el frío
y una gota de fe.

Camino por tus miradas,
cortinas de ventanas
con cristales rotos
que cortan mi lengua,
sangrando de las huellas
los ojos, las manos y la piel.

Camino por tus yemas,
lunares de tierra,
a la sombra del barro
que cubre con memorias
las horas que no fueron,
los tiempos de mañana,
la nostalgia del ayer.

Camino por el sonido
de una voz que calla,
que mira de espaldas
la sonrisa fingida,
la misericordia disfrazada,
yendo de puntas
sobre almohadas
que se han hecho de roca.

Camino por el aroma
de los deshechos del mundo,
mirando un segundo
un cesto lleno de sobras,
una ceguera cargando zozobra,
mil y unas palabras
ahogadas entre adoquines de asfalto.

Camino por las puertas
que se cierran de prisa,
por las horas más frías
y el invierno largo.
Camino extendiendo la mano,
elevando plegarias
y mordiendo los labios.

Camino y camino despacio
por todo este mundo
del que vecino he quedado.

Adriana Rodríguez

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Enquanto poeta falaremos

Florência Mário: ‘Enquanto poeta falaremos’

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Esta é a realidade

Porque nela contém dor e ódio angústia e memórias

Fechem as bocas e abram os ouvidos,

Porque o que eu vou contar é a verdade

São histórias esquecidas história negligenciadas

são histórias de opressão que causam depressão,

mas é preciso muita narração

É a pura realidade

São emoções, sensações, contos e história dor, ódio e tristeza

sentimentos de alguém que foi roubada a honra

honra é um dos bens mais precioso de uma mulher

Para alguns é só prazer mas para outros é tudo

Lembro-me de tudo como se fosse ontem

Tudo aconteceu muito rápido

Numa noite escura, o silêncio tomou conta ouvi passos e logo me escondi

O coração não parava de bater tic-tac, tic-tac ,como um relógio assombrado

A minha mente estava confusa

Quando eu acordei eu não me lembrava,

mas aos poucos, fui lembrando

e a memória era tão horrível que me faziam chorar um rio de lágrimas.

Florência Mário

Florência Mário
Florência Mário

Florência Mário, residente em Luanda. Frequenta a 9°classe no colégio Meury & Dores. A literatura surgiu de forma repentina. No momento gosta de escrever poesia e contos. Pretende se tornar uma grande escritora a nível nacional e internacional explorando outras áreas da literatura. Faz parte do projecto escrita criativa do mentor Tomás Eugénio Tomás.

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Availability

Jane Nash: Chronicle ‘Availability’

Jane Nash
Jane Nash
Pat Hunter (Nanna)
Pat Hunter (Nanna)

I rise at 4am as I have for the past 16 years but there’s no-one to call at this ungodly hour. I have ungodly needs. I’m tempted by Ouiji boards but in truth, I need to find me a necromancer. I fantasise about ayahuasca ceremonies that will let me speak to spirits of the dead, will let me see the dead not as they are but as they were at their best. Sadly this probably includes the darker souls who attach themselves to my memories. I only want to stand behind her and put my arms around her waist.

I am awake at 4.15am and I stare at the link we would use to chat about nothing. I regret my words carried so little of me. I am grateful to have been part of her jigsaw. I consider a mug of mugwort to help me escape this anchored state in these dark hours. But I am paralysed each morning when I wake. She is no longer available.

 Write a letter. Remember the good times. Talk out loud. Look at old photographs. None of this helps. None of them. These suggestions can’t soothe the knife in my stomach, splitting me open, spilling internal organs over the floor.  I bleed tears; pints and pints of tears. There is no end to the concrete, the inanimate nor the silence in the house. The birds sleep and the insects of the night have taken their respite before dawn.

I wait at 4.30am when I would have got an injection of laughter, of gossip, of love. No amount of life in the present fills the gap. I loved her unconditionally I was loved by her unconditionally. Where will I find that again? I don’t bother yearning for a replacement. There can be none.

I lie down at 4.45am. My pillow soaks up the lifeblood of grief. I can’t seem to get rid of the knot in my throat. I wonder whether, after all this time, I am being indulgent after all, it’s been more than the cycle of seasons. Wet, my mouth allows rivers flow over my face to enter the darkness of my insides. Perhaps I don’t want these feelings to go away but I would like to sleep through the night instead of being exhausted on waking from the lack of interaction.

I often dream of her. She looks younger, the grandmother of my childhood. We roam the sand dunes with her dog and my uncle who is four years older than me. I want to reach out to him but I am sure his grief takes a different form than mine. As much as I might want to exchange experiences, I know this is sacred, this silence, this pain through me. It’s mine, not for sharing, as is his.

Jane Nash

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