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Jane Nash: Chronicle ‘Availability’

Jane Nash
Jane Nash
Pat Hunter (Nanna)
Pat Hunter (Nanna)

I rise at 4am as I have for the past 16 years but there’s no-one to call at this ungodly hour. I have ungodly needs. I’m tempted by Ouiji boards but in truth, I need to find me a necromancer. I fantasise about ayahuasca ceremonies that will let me speak to spirits of the dead, will let me see the dead not as they are but as they were at their best. Sadly this probably includes the darker souls who attach themselves to my memories. I only want to stand behind her and put my arms around her waist.

I am awake at 4.15am and I stare at the link we would use to chat about nothing. I regret my words carried so little of me. I am grateful to have been part of her jigsaw. I consider a mug of mugwort to help me escape this anchored state in these dark hours. But I am paralysed each morning when I wake. She is no longer available.

 Write a letter. Remember the good times. Talk out loud. Look at old photographs. None of this helps. None of them. These suggestions can’t soothe the knife in my stomach, splitting me open, spilling internal organs over the floor.  I bleed tears; pints and pints of tears. There is no end to the concrete, the inanimate nor the silence in the house. The birds sleep and the insects of the night have taken their respite before dawn.

I wait at 4.30am when I would have got an injection of laughter, of gossip, of love. No amount of life in the present fills the gap. I loved her unconditionally I was loved by her unconditionally. Where will I find that again? I don’t bother yearning for a replacement. There can be none.

I lie down at 4.45am. My pillow soaks up the lifeblood of grief. I can’t seem to get rid of the knot in my throat. I wonder whether, after all this time, I am being indulgent after all, it’s been more than the cycle of seasons. Wet, my mouth allows rivers flow over my face to enter the darkness of my insides. Perhaps I don’t want these feelings to go away but I would like to sleep through the night instead of being exhausted on waking from the lack of interaction.

I often dream of her. She looks younger, the grandmother of my childhood. We roam the sand dunes with her dog and my uncle who is four years older than me. I want to reach out to him but I am sure his grief takes a different form than mine. As much as I might want to exchange experiences, I know this is sacred, this silence, this pain through me. It’s mine, not for sharing, as is his.

Jane Nash

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O amor que o tempo não soube terminar

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘O amor que o tempo não soube terminar’

(Inspirada na canção Please Forgive Me)

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem gerada pelo ChatGPT

Nem todo amor precisa continuar para permanecer.
Alguns atravessam o tempo, mudam de forma… e ainda assim vivem dentro de nós.

Entre memórias, silêncios e reencontros, essa história revela que há sentimentos que não acabam — apenas aprendem a existir de outro jeito.

Havia algo nos anos 1990 que parecia suspenso no ar, como se o tempo respirasse mais devagar, permitindo que cada instante se impregnasse de significado.

            As tardes eram longas, atravessadas por rádios chiando, fitas cassete rebobinadas com caneta e promessas que não sabiam ainda o peso que carregariam no futuro. Era uma época em que o mundo começava a se abrir, mas os sentimentos ainda eram guardados com uma espécie de pudor antigo, quase sagrado.

            E foi nesse intervalo entre o analógico e o que viria depois que nasceu aquilo que jamais terminou de existir.

            Ele lembra do primeiro olhar como quem recorda um sonho recorrente. Não havia nada de extraordinário na cena, exceto o modo como o coração decidiu interromper sua rotina e bater fora de compasso.

            Era simples, quase banal, mas carregava uma densidade inexplicável. Talvez porque, naquela década, os encontros ainda não eram mediados por telas, e o acaso tinha mais autoridade do que qualquer algoritmo jamais teria.

            Ela tinha um jeito de sorrir que parecia negar o peso do mundo. E ele, ainda imerso em dúvidas juvenis, encontrou naquele sorriso um tipo de abrigo que não sabia nomear.

            Conversavam sobre tudo e nada, como se o tempo lhes fosse infinito. Falavam de filmes, de livros que talvez nunca leriam, de músicas que marcariam seus dias — e entre elas, uma em especial, que se infiltrava nas pausas do silêncio e nas lacunas do que não era dito.

            “Please forgive me“, tocava baixo, quase como uma confissão que nenhum dos dois tinha coragem de fazer em voz alta.

            E ali, entre versos que falavam de erro, arrependimento e amor persistente, eles construíam um território invisível, onde cada gesto ganhava um significado que o mundo exterior não compreendia.

            Havia uma espécie de ingenuidade naquele vínculo, mas também uma profundidade que só os encontros verdadeiros carregam.

            Porque, no fundo, amar nunca foi sobre saber — sempre foi sobre sentir.

            Mas o tempo, esse escultor impiedoso, começou a intervir.

            A década avançava, trazendo consigo suas mudanças. A modernidade insinuava-se nas pequenas coisas: novos aparelhos, novas formas de comunicação, novas urgências.

            E com ela, vieram também as distâncias — não apenas geográficas, mas existenciais. Cada um seguiu um caminho que parecia inevitável, como se a vida tivesse decidido que aquele encontro pertencia mais à memória do que ao futuro.

            Eles não brigaram. Não houve ruptura dramática. Apenas um afastamento lento, quase imperceptível, como o apagar de uma luz ao entardecer.

            E talvez tenha sido isso que mais doeu: a ausência de um fim claro.

            Porque aquilo que não se encerra continua existindo de alguma forma, insistindo em permanecer nos cantos da consciência.

            Os anos passaram.

            E com eles, vieram as responsabilidades, os erros, as escolhas que moldam quem nos tornamos. Ele construiu uma vida, como todos fazem. Trabalhou, amou outras vezes, errou outras tantas.

            Mas havia sempre uma espécie de eco, uma lembrança persistente que surgia nos momentos mais inesperados. Um cheiro, uma música, um entardecer específico — e lá estava ela, intacta no tempo.

            “Please forgive me, I can’t stop loving you…

            A canção surgia como um portal. E não importava quantos anos tivessem passado, bastava ouvi-la para que tudo retornasse com uma nitidez quase cruel.

            Não como saudade comum, mas como algo mais profundo — uma consciência de que certas conexões não obedecem às regras do tempo.

            Ele começou a se perguntar se aquilo era amor ou apenas memória idealizada.             Afinal, o que permanece não é necessariamente o que foi real, mas aquilo que escolhemos preservar.

            No entanto, havia algo naquela lembrança que resistia à análise racional. Não era perfeita, não era romantizada demais — era simplesmente viva.

            E então, num daqueles acasos que parecem ensaiados pelo próprio destino, eles se reencontraram.

            Não foi como nos filmes. Não houve música ao fundo nem câmera lenta. Foi simples, quase comum. Um olhar que reconhece antes mesmo da razão compreender.  Um silêncio carregado de tudo o que nunca foi dito. E, no entanto, havia ali uma estranha familiaridade, como se o tempo tivesse dado uma volta completa apenas para colocá-los novamente frente a frente.

            Ela ainda sorria daquele mesmo jeito.

            Mas havia algo diferente. Não no sorriso em si, mas na forma como ele o recebia. Antes, era descoberta.

            Agora, era reconhecimento. E talvez essa seja a diferença fundamental entre o amor jovem e o amor que atravessa o tempo: o primeiro surpreende, o segundo confirma.

            Sobre a vida, sobre os caminhos que seguiram, sobre o que perderam e o que encontraram. E em meio a essas palavras, havia uma corrente invisível que os conectava ao passado. Não como um peso, mas como uma base — algo que, de alguma forma, nunca deixou de existir.

            Ele percebeu então que o tempo não havia apagado o que sentiram. Apenas havia transformado.

            Porque o amor, quando verdadeiro, não precisa permanecer constante para continuar sendo real.

             Ele pode mudar de forma, de intensidade, de presença — mas não desaparece completamente. Torna-se parte daquilo que somos, influenciando nossas escolhas, nossos medos, nossas esperanças.

            E naquele reencontro, não havia mais a urgência dos anos 90, nem a ingenuidade dos primeiros sentimentos.

            Havia algo mais profundo: uma aceitação tranquila do que foram e do que ainda poderiam ser, mesmo que de maneira diferente.

            A música, inevitavelmente, voltou a surgir.

  Please forgive me, if I need you like I do…

            Eles riram ao perceber como aquela canção ainda os atravessava. Não como antes, mas com uma nova camada de significado.

            Antes, era promessa. Agora, era memória. E, de certa forma, também era reconciliação.

            Porque talvez o amor não seja sobre permanecer juntos, mas sobre aquilo que permanece em nós, independentemente das circunstâncias.

            Ao se despedirem, não houveram promessas grandiosas. Não houveram tentativas de recuperar o que o tempo já havia transformado.

            Houve apenas um entendimento silencioso de que aquele encontro, mesmo interrompido, nunca foi em vão.

            Ele seguiu seu caminho com uma leveza diferente.

            Não porque tivesse recuperado algo perdido, mas porque finalmente compreendeu que certas histórias não precisam de continuidade para terem significado.             Elas existem como fragmentos de eternidade dentro de nós, lembrando-nos de quem fomos e, de alguma forma, de quem ainda somos.

            E assim, entre lembranças, músicas e o lento passar dos anos, ele entendeu que o amor — aquele amor dos anos 1990 — não havia terminado.

            Apenas havia aprendido a existir de outro jeito.

            Mas essa constatação não veio como um alívio imediato. Pelo contrário, trouxe consigo uma densidade nova, quase filosófica, como se o sentimento precisasse agora ser compreendido não mais pela emoção crua da juventude, mas por uma consciência amadurecida, atravessada pelo tempo, pelas perdas e pelas inevitáveis transformações do ser.

            Porque há uma diferença profunda entre sentir e compreender o que se sente.

            Na juventude, o amor se impõe. Ele não pede licença, não exige justificativa, não se preocupa com coerência.

             Ele simplesmente acontece, como um fenômeno natural, quase biológico, que toma o corpo e reorganiza o mundo ao redor.

            Já na maturidade, o amor se torna também um problema filosófico.

             Ele precisa ser interpretado, revisitado, questionado. E, ainda assim, escapa.

            Era isso que o inquietava.

            Como algo que aparentemente havia ficado no passado podia ainda pulsar com tanta presença no agora? Seria memória? Seria desejo? Ou haveria, de fato, uma dimensão do amor que transcende o tempo cronológico?

            A canção voltava, como sempre.

            Não mais apenas como trilha sonora de uma lembrança, mas como um texto, quase um tratado emocional condensado em poucos versos. Ele começou a ouvi-la com outro tipo de atenção, como quem tenta decifrar não apenas a música, mas a si mesmo através dela.

            Please forgive me, I know not what I do…

            Havia algo de profundamente humano nesse pedido. O reconhecimento da própria limitação.

            A consciência de que amar, muitas vezes, é agir sem plena compreensão das consequências. É errar, insistir, retornar. É desejar mesmo quando a razão aconselha o contrário.

            E então ele pensou: talvez o amor verdadeiro não seja aquele que acerta, mas aquele que persiste apesar do erro.

            Essa ideia o atravessou com força.

            Durante anos, ele havia tentado organizar sua vida sob a lógica da coerência. Escolhas racionais, caminhos previsíveis, relações que fizessem sentido dentro de um projeto de estabilidade.

             Mas aquele amor antigo — ou melhor, aquela presença contínua — desafiava essa estrutura.

             Não fazia sentido permanecer, mas permanecia. Não era útil, mas era essencial.             Não era atual, mas era vivo.

            E isso o levava a outra reflexão: nem tudo que é verdadeiro precisa ser funcional.

            Vivemos, pensou ele, numa época que exige utilidade de tudo — até dos sentimentos. Amar deve levar a algo: a uma construção, a uma família, a uma história contínua.

             Mas e quando o amor não leva a lugar algum, e ainda assim transforma tudo?

            Talvez esse seja o tipo mais raro de amor. Aquele que não se realiza externamente, mas que, por isso mesmo, se aprofunda internamente.

            Please forgive me, I can’t stop loving you…” novamente.

            Ele percebeu que essa frase já não era mais um lamento. Era quase uma constatação ontológica.

            Como se amar não fosse uma escolha, mas uma condição. Não algo que se inicia ou se encerra, mas algo que simplesmente é o que é em si mesmo.

            E então surgiu uma ideia ainda mais inquietante: e se o amor não pertencesse ao tempo?

            Se tudo o que vivemos está submetido ao tempo — nascimento, crescimento, declínio — talvez o amor seja uma das poucas experiências que desafiam essa lógica.             Não porque ele não mude, mas porque ele não desaparece completamente. Ele se transforma, se dilui, se reconfigura, mas não se anula.

            Ele se torna parte da estrutura do ser.

            Nesse ponto, a lembrança dela já não era mais apenas pessoal. Era quase simbólica.

            Representava não apenas um encontro específico, mas a possibilidade de um tipo de conexão que ultrapassa circunstâncias. Ela se tornava, em sua memória, menos uma pessoa concreta e mais uma ideia viva — a ideia de que é possível tocar o outro de maneira irreversível.

            E isso o levou a uma pergunta inevitável: quantas pessoas carregamos dentro de nós sem percebermos?

            Talvez sejamos feitos não apenas do que vivemos, mas de todos os encontros que nos atravessaram profundamente.

            Pessoas que, mesmo ausentes, continuam operando silenciosamente em nossas escolhas, em nossos medos, em nossas formas de amar.

            Nesse sentido, ninguém vai embora completamente.

            E talvez seja por isso que a saudade dói de um jeito tão específico. Não é apenas a falta do outro — é o confronto com uma parte de nós mesmos que só existia na presença daquele outro.

            A música, mais uma vez:

            Please forgive me, if I need you like I do…

            Agora, essa necessidade não era mais literal. Não se tratava de querer a presença física, o reencontro constante, a reconstrução de algo perdido.

            Era uma necessidade mais sutil e, ao mesmo tempo, mais profunda: a necessidade de reconhecer que aquilo existiu e que continua existindo de alguma forma.

            Porque negar seria empobrecer a própria experiência de vida.

            Ele começou então a perceber que o reencontro não tinha sido sobre retomar, mas sobre legitimar. Como se ambos, ao se verem novamente, tivessem autorizado a memória a deixar de ser apenas nostalgia e se tornar compreensão.

            E há algo de profundamente libertador nisso.

            Quando deixamos de lutar contra o passado e passamos a integrá-lo, ele perde seu peso e ganha sentido. Não como algo que nos prende, mas como algo que nos compõe.

            Ainda assim, havia uma melancolia inevitável.

            Não a melancolia desesperada da perda, mas uma melancolia lúcida, quase serena. A consciência de que algumas coisas são belas justamente porque não permanecem da forma como começaram.

            Porque, se permanecessem, talvez se tornassem comuns, previsíveis, desgastadas.

            O tempo, nesse caso, não destruiu — refinou.

            Transformou o amor vivido em algo mais amplo: uma espécie de sensibilidade, uma abertura para o mundo, uma capacidade maior de sentir.

            E isso o levou a uma última reflexão, talvez a mais difícil de aceitar: nem todo amor é feito para ser vivido plenamente no plano concreto.

            Alguns existem como experiência formadora, como acontecimento interno, como marca. Não são histórias para serem continuadas, mas para serem compreendidas.

            E, paradoxalmente, são essas que mais permanecem.

            “Please forgive me…

            Dessa vez, ele não ouviu a frase como um pedido dirigido a ela. Mas a si mesmo.

            Perdoar-se por não ter entendido tudo na época. Por não ter sabido nomear o que sentia. Por ter deixado escapar algo que só mais tarde compreenderia em sua profundidade.

            Mas também por ter vivido.

            Porque, no fim, não há erro em sentir intensamente. O erro, talvez, esteja em tentar reduzir o amor a algo que ele não é: simples, linear, controlável.

            O amor é excesso. É transbordamento. É aquilo que escapa.

            E naquele instante — já distante dos anos 1990, mas ainda atravessado por eles — ele finalmente aceitou que algumas histórias não precisam de conclusão.

            Elas continuam.

            Não no mundo visível, não nas rotinas compartilhadas, não nas promessas cumpridas.

            Mas no pensamento, na memória, na forma como vemos o mundo depois delas.

            E isso, de alguma forma, é uma forma de eternidade.

            A canção terminou.

            Mas, como sempre, deixou algo no ar.

            Não um vazio — mas uma presença silenciosa.

            Como o próprio amor.

            E foi nesse silêncio, mais eloquente do que qualquer palavra, que algo novo começou a se insinuar dentro dele.

             Não era a repetição da saudade, nem o retorno de uma dor antiga. Era diferente.  Mais suave, mais luminoso, quase como se o sentimento, depois de atravessar tantos anos e tantas formas, estivesse finalmente encontrando um modo de existir sem ferir.

            Porque há um momento — raro, mas possível — em que o amor deixa de ser ausência e se torna possibilidade.

            Ele não soube identificar exatamente quando essa mudança começou. Talvez tenha sido no instante em que deixou de perguntar “e se tivesse sido diferente?” E passou a se perguntar e se ainda puder ser, de outro modo?”.

            Essa pequena inflexão no pensamento abriu um espaço inesperado, como uma janela em uma casa antiga que, por muito tempo, permaneceu fechada.

            E pela primeira vez em muitos anos, a lembrança dela não veio acompanhada de peso, mas de leveza.

            Ele voltou a pensar naquele reencontro.

            No modo como os olhares se sustentaram sem pressa. Na forma como o tempo, por alguns instantes, pareceu suspenso — não como nos anos 1990, quando tudo era intensidade e descoberta, mas agora como um reconhecimento tranquilo, quase sereno, de algo que havia resistido.

            E se aquilo não fosse apenas passado?

            Essa pergunta, que antes pareceria ingênua, agora se apresentava com uma dignidade inesperada. Não como ilusão, mas como hipótese. Não como fuga da realidade, mas como abertura para ela.

            Porque, afinal, o que define o tempo de um sentimento?

            A cronologia ou a verdade que ele carrega?

            Ele começou a perceber que talvez tivesse sido rígido demais ao interpretar a própria história.

             Como se o amor só pudesse ser válido dentro de certos formatos: início, meio, continuidade. Como se tudo aquilo que escapasse desse modelo estivesse condenado à categoria de inacabado”.

            Mas e se o inacabado não for ausência de sentido — e sim excesso?

            E se algumas histórias permanecem abertas não porque falharam, mas porque não cabem em um único ciclo?

            A ideia o inquietou, mas também o aqueceu.

            Porque, ao pensá-la, ele não sentia mais apenas nostalgia. Havia algo de vivo, algo que apontava não para trás, mas para frente. Como se o passado, em vez de encerrar possibilidades, estivesse, na verdade, alimentando novas formas de existência.

            A música voltou, quase como se acompanhasse essa transformação interna.

            Please forgive me, if I need you like I do…

            Mas agora, havia um detalhe diferente: ele não ouvia mais essa frase como um apego ao que foi.

            Havia nela um pedido que também era convite. Como se o amor, mesmo transformado, ainda encontrasse caminhos para se manifestar.

            E então ele pensou nela — não como lembrança fixa, mas como presença possível no presente.

            Onde estaria agora? O que sentiria? Será que também carregava aquele mesmo eco? Ou teria seguido de forma mais leve, deixando tudo no passado?

            Essas perguntas já não doíam.

            Elas tinham, curiosamente, um tom de esperança.

            Porque, pela primeira vez, ele não precisava que as respostas confirmassem nada.

            Bastava saber que o vínculo existiu — e que, de alguma forma, ainda vibrava.

            E talvez fosse isso que o amor amadurecido oferece: não a necessidade de possuir, mas a capacidade de reconhecer.

            Reconhecer que houve verdade. Que houve encontro. Que houve transformação.

            E que isso, por si só, já é extraordinário.

            Ainda assim, algo dentro dele ousava ir além.

            Não como insistência, mas como delicadeza.

            E se o reencontro não tivesse sido apenas um fechamento, mas um recomeço silencioso?

            Ele se lembrou do último olhar que trocaram ao se despedirem. Havia ali uma pausa — breve, quase imperceptível — mas carregada de algo que não se disse. Não era arrependimento. Não era urgência. Era… possibilidade.

            Uma possibilidade tímida, quase envergonhada de existir.

            Mas real.

            E foi nesse ponto que ele compreendeu algo essencial: a esperança não precisa ser grandiosa para ser verdadeira.

            Às vezes, ela se apresenta em gestos mínimos. Em pensamentos que persistem.             Em uma música que insiste em voltar. Em um nome que, mesmo não sendo dito, continua habitando o silêncio.

            Ele não sabia se voltariam a se encontrar.

            Não sabia se o tempo, novamente, cruzaria seus caminhos de forma concreta. Mas isso já não era o mais importante.

            Porque, de alguma forma, eles já haviam se reencontrado em um nível mais profundo — aquele onde o passado deixa de ser distância e se torna presença integrada.

            E, ainda assim, havia espaço para o futuro.

            Um futuro que não precisava repetir o que foi, nem corrigir o que não aconteceu.  Um futuro que poderia simplesmente acolher aquilo que permanece.

    Please forgive me, I can’t stop loving you…

            Dessa vez, ele sorriu ao ouvir.

            Não havia mais conflito nessa frase.

            Amar não era mais um problema a ser resolvido, nem uma memória a ser superada. Era uma condição tranquila, quase serena, como quem aceita a própria história sem resistência.

            E, curiosamente, foi essa aceitação que abriu espaço para algo novo.

            Porque quando deixamos de nos prender ao que deveria ter sido, começamos a perceber o que ainda pode ser.

            Ele passou a caminhar com outra disposição.

            Os dias, antes atravessados por uma nostalgia difusa, começaram a ganhar uma tonalidade diferente.

             Não era euforia, nem expectativa exagerada. Era uma espécie de abertura — uma sensibilidade renovada para o encontro, para o acaso, para aquilo que a vida ainda poderia oferecer.

            E isso incluía, inevitavelmente, a possibilidade de revê-la.

            Mas, se isso acontecesse, não seria mais como antes.

            Não haveria a urgência da juventude, nem o medo de perder. Haveria algo mais raro: a escolha consciente de estar.

            Porque o amor que atravessa o tempo aprende uma coisa fundamental — ele deixa de ser necessidade e se torna presença.

            E presença não se impõe. Ela se oferece.

            Talvez, pensou ele, o verdadeiro reencontro ainda não tenha acontecido.

            Talvez tudo até agora tenha sido apenas preparação.

            Não no sentido de destino inevitável, mas de maturidade suficiente para que, se um novo encontro acontecer, ele seja vivido de forma inteira — sem as interrupções do medo, da imaturidade ou da falta de compreensão.

            E, se não acontecer, ainda assim estará tudo bem.

            Porque o amor já cumpriu seu papel mais profundo: transformá-lo.

            Ainda assim, ele não negava — havia um desejo suave, quase silencioso, de que a vida lhes desse mais uma chance. Não para repetir o passado, mas para reinventá-lo.

            Para olhar novamente, mas com outros olhos.

            Para tocar, mas com outra consciência.

            Para amar, não apesar do tempo, mas através dele.

            A noite caiu devagar, como nos anos 1990.

            E, por um instante, ele teve a sensação de que o tempo não era uma linha, mas um círculo — onde certos encontros não se perdem, apenas aguardam o momento certo de se revelar novamente.

            A música, como sempre, encontrou seu caminho de volta.

            Mas dessa vez, não trouxe apenas memória.

            Trouxe futuro.

            E, no silêncio que se seguiu, ele percebeu que o amor — aquele amor — já não era apenas saudade.

            Era também esperança.

Clayton Alexandre Zocarato

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A Verdadeira Dor

Bianca Agnelli
‘Entre primos e memórias: O caos irresistível de
A Verdadeira Dor’

Card da matéria sobre o filme ' 'Entre primos e memórias: O caos irresistível de A Verdadeira Dor'
Card da matéria sobre o filme ‘ ‘Entre primos e memórias: O caos irresistível de A Verdadeira Dor’

Gosto quando o cinema fala de solidão, de vidas errantes, de personagens complicados e de coisas difíceis. E quando consegue falar disso com leveza, para mim, é sempre um sim.

A Real Pain (A Verdadeira Dor) aborda exatamente esses temas existenciais – e o faz com aquela elegância imperfeita das pessoas que falam de sentimentos importantes fingindo que não estão falando de nada sério. Dirigido e escrito por Jesse Eisenberg, que também interpreta um dos protagonistas, o filme nos leva a refletir sobre algumas questões emocionalmente complexas. A genealogia, por exemplo: quem disse que é sempre algo feliz? Spoiler: quase nunca é.

Descobrir onde sua avó viveu pode ser menos épico do que você imaginava – e mais… decepcionante. Ou pelo menos é assim para Benji (Kieran Culkin) e David (Jesse Eisenberg), dois primos opostos que embarcam em uma viagem à Polônia para homenagear a avó falecida. A missão parece simples: honrar as raízes familiares. A realidade, como tantas vezes acontece, é bem mais contorcida.

Benji é um vulcão que ainda não decidiu se vai explodir ou não; David é aquele que organiza tudo, inclusive as emoções, como se fossem e-mails a arquivar. Observá-los interagir é como ver um elástico se esticando: dois extremos que se atraem e se repelem, oscilando entre sarcasmo e afeto, irritação e cumplicidade. Ao acompanhar essa peregrinação emocional, você inevitavelmente reconhece uma parte dessa dinâmica em algum relacionamento seu: o caos contra a compostura, a risada que mascara o desconforto e a paciência sendo levada ao limite.

Entre um tour guiado, um hotel que parece gritar “tapetes tristes e luzes brancas demais”, e uma série de momentos de convivência estranhamente ternos e disfuncionais, o filme constrói um diálogo invisível entre os protagonistas e revela um vínculo mais profundo do que ambos gostariam de admitir – narrado através de gestos, silêncios e frases cortadas. Porque certos afetos nunca são ditos de verdade: apenas escapam, como fumaça por uma janela mal fechada.

E então chegamos ao cerne da questão – àquela pergunta que talvez fosse melhor não fazer: qual é o seu direito à felicidade? E se, mesmo tendo todo direito e toda oportunidade, você simplesmente não conseguisse ser feliz?

David é o homem “estabilizado”, com esposa e filhos, que seguiu todas as instruções do manual. Benji é a faísca – o homem imaturo que tropeçou em vícios, depressão e dor, e ainda por cima ri disso.

A felicidade, neste filme e na vida real, é caprichosa, às vezes ausente, e quase sempre difícil de segurar. Sabemos que ela não se distribui com base em méritos ou currículos emocionais, e o filme nos leva a refletir sobre quanto a memória transgeracional pesa nisso: o que significa ser neto de sobreviventes, e como as gerações seguintes herdam (e muitas vezes rejeitam) esse passado.

A interpretação extraordinária e genuína de Kieran Culkin, com seu Benji adorável e igualmente problemático, lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator Protagonista na 97th Academy Awards deste ano.

Para escrever o filme, Eisenberg declarou ter se inspirado em experiências familiares e pessoais, especialmente no tema da memória judaica e nos laços entre irmãos. Um experimento cuidadosamente conduzido – e premiado no Sundance Film Festival 2024, onde recebeu o Waldo Salt Screenwriting Award na seção U.S. Dramatic.

O filme também levou dois prêmios no British Academy of Film and Television Arts (BAFTA): Melhor Ator Coadjuvante para Kieran Culkin e Melhor Roteiro Original para Jesse Eisenberg.

Na direção, Eisenberg escolhe uma leveza que não suaviza, mas aprofunda. Ele usa a Polônia não como cartão-postal, mas como um lugar de memória viva – cheio de arestas, silêncios e uma história que resiste à ordem. A visita ao campo de concentração não é um clímax retórico: é uma pausa em que a realidade se impõe em toda a sua gravidade, sem música nem palavras, em uma sequência inesquecível que nos mantém presos à tela em silêncio.

Eisenberg assina um filme compacto – 90 minutos de precisão cirúrgica – mas cheio de fissuras emocionais, ritmos desalinhados e ironia cuidadosamente medida. Ele não busca a catarse: a evita com elegância. Assim, em vez de um final feliz, nos entrega um aftertaste: uma sensação agridoce que permanece na boca como uma lembrança teimosa, daquelas que não desaparecem depois dos créditos finais.

A Real Pain não pretende curar ninguém. Convida-nos, sobretudo, a permanecer nesse ponto desconfortável onde a memória encontra a ironia, onde o riso não apaga a dor – apenas a torna suportável. Porque existir não é fácil, e certos dramas existenciais são, sim, um privilégio dos afortunados. E porque – sejamos honestos – nem toda viagem tem um destino. Algumas terminam exatamente onde começaram: dentro de nós, com aquela sensação precisa de que a vida, com todas as suas complicações, é mesmo… uma verdadeira dor.

Bianca Agnelli

Tra cugini, fermate perse e memoria transgenerazionale: L’irresistibile caos di A Real Pain

A Real Pain affronta proprio questi temi esistenziali, e lo fa con quella grazia sghemba delle persone che parlano di sentimenti importanti fingendo di non farlo davvero. Diretto e scritto da Jesse Eisenberg, che interpreta anche uno dei protagonisti, il film ci fa riflettere su giusto un paio di questioni emotivamente complesse. La genealogia, per esempio: chi l’ha detto che è sempre una cosa felice? Spoiler: non lo è quasi mai.

Scoprire dove viveva tua nonna può rivelarsi meno epico di quanto potessi immaginare e più… deludente. O almeno lo è per Benji (Kieran Culkin) e David (Jesse Eisenberg), due cugini agli antipodi che intraprendono un tour in Polonia per rendere omaggio alla loro nonna defunta. La missione è semplice: onorare le radici familiari. La realtà, come spesso accade, è più contorta.

Benji è un vulcano che non ha ancora deciso se esplodere o no; David è quello che mette ordine e controlla le emozioni come fossero email da archiviare. Guardarli interagire è come osservare un elastico che si tende: due estremi che si attraggono e si respingono, oscillando tra sarcasmo e affetto, irritazione e complicità. Osservandoli in questo pellegrinaggio emotivo, ti ritrovi a riconoscere almeno un pezzetto di quella dinamica in qualche tua relazione passata; il caos contro la compostezza, la risata che nasconde il malessere e la pazienza messa a dura prova.

Tra un tour guidato, un hotel che sembra urlare «tappeti tristi e luci troppo bianche», una serie di momenti di convivenza bizzarra e teneramente disfunzionale, il film costruisce un dialogo invisibile tra i due protagonisti e mostra un legame più profondo di quanto entrambi vorrebbero ammettere, raccontato attraverso gesti, silenzi e battute smozzicate… perché certi affetti non si dicono mai davvero: si lasciano trapelare, come fumo da una finestra chiusa male.

E poi arriviamo dritti al punto, alla domanda che forse sarebbe meglio non porsi: quanto diritto hai di essere felice? E se, pur avendone ogni diritto e possibilità, semplicemente non ci riuscissi

David è l’uomo sistemato, con moglie e figli, quello che ha seguito le istruzioni alla lettera. Benji è la scheggia, l’uomo immaturo che nella vita è inciampato nelle dipendenze, nella depressione e nel dolore, e ci ride pure. 

La felicità, in questo film e nella vita reale, è capricciosa, a volte assente, e in ogni caso difficile da tenersi stretta. Sappiamo che non si concede in base a meriti o curriculum emotivi, e siamo spinti a chiederci quanto la memoria transgenerazionale incida su essa: interrogarci su cosa significhi essere nipoti di sopravvissuti, e su come le vite successive ereditino (e spesso rifiutino) quel passato. L’interpretazione straordinaria e sincera che Kieran Culkin ci ha servito con il suo adorabile ed altrettanto problematico Benji, gli è valsa l’Oscar come migliore attore protagonista ai 97th Academy Awards di quest’anno.

Eisenberg, per la scrittura del film, ha dichiarato di essersi ispirato a esperienze familiari e personali, in particolare al tema della memoria ebraica e dei legami tra fratelli. Un esperimento sapientemente condotto, direi, che è stato premiato al Sundance Film Festival 2024, ottenendo il Waldo Salt Screenwriting Award nella sezione U.S. Dramatic.  

Anche ai British Academy of Film and Television Arts (BAFTA) il film ha ricevuto due premi: quello per il Miglior Attore Non Protagonista a Kieran Culkin e per la Migliore Sceneggiatura Originale a Jesse Eisenberg.  

Eisenberg, alla regia, sceglie una leggerezza che non alleggerisce ma approfondisce. Usa la Polonia non come cartolina ma come luogo di memoria viva – pieno di spigoli, silenzi, e storia che non si lascia mettere in ordine. La visita al campo di concentramento non è un climax retorico: è una pausa di realtà che si impone in tutta la sua gravità, senza musica né parole, in una sequenza memorabile di scene che ci tiene silenziosamente incollati allo schermo.

Eisenberg firma un film compatto – 90 minuti di misura chirurgica – ma denso di crepe emotive, ritmi sbilanciati e ironia ben dosata. Non cerca la catarsi: la evita con eleganza. E così, invece di un lieto fine, ci regala un aftertaste: una sensazione agrodolce che rimane in bocca come un ricordo ostinato, di quelli che non svaniscono dopo i titoli di coda.

A Real Pain non vuole guarire nessuno. Ci invita piuttosto a stare in quel punto scomodo dove la memoria incontra l’ironia, dove le risate non cancellano il dolore ma lo rendono sopportabile. Perché esistere non è facile, e certe seghe mentali restano privilegio dei fortunati. E perché – diciamolo – non ogni viaggio ha una destinazione. Alcuni finiscono dove cominciano: dentro di noi, con quella sensazione puntuale che la vita con tutte le sue complicazioni sia, sì, una vera seccatura. 

Bianca Agnelli

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Nossos carnavais passados

Verônica Moreira: Crônica ‘Nossos carnavais passados’

Verônica Moreira
Verônica Moreira
No centro, Conceição Imaculada da Silva Moreira, mãe da autora
No centro, Conceição Imaculada da Silva Moreira,
mãe da autora

Era o período do Carnaval em Caratinga. Eu sempre gostei dessa festa popular, mas tinha certa aversão a me fantasiar. Talvez porque nunca pudesse escolher minha própria fantasia. E, infelizmente, meus pais eram fãs de maquiagem, algo que eu não suportava! Às vezes, até apreciava as fantasias que escolhiam para mim, porém detestava essa ideia de usar a tal maquiagem. Todo Carnaval era uma verdadeira peça de teatro: lá íamos nós, agradando a todos, mas não a nós mesmos. Eu, apenas uma menininha, de cabelos compridos e pernas finas, desfilando por horas na Avenida Catarina Cimini, onde aconteciam os desfiles.

Minha mãe adorava desfilar, e eu achava incríveis os vestidos que ela usava, cada ano com um modelo diferente, porém todos luxuosos, com lantejoulas e pedras. Alguns eram enfeitados apenas com penas de ganso, e como eram maravilhosos!

Acredito que, no último desfile da Mangueira em Caratinga, minha mãe vestiu uma fantasia e saiu como destaque na ala das baianas, e eu ficava encantada com o entusiasmo dos meus pais. No entanto, esse desfile teve um significado especial para nós, irmãos, e vou explicar o motivo…

Naquela época, a população de Caratinga era muito animada, e tínhamos um vizinho que era mestre da escola de samba, localizado na conhecida Rua dos Cavacos. Por algum motivo que ainda gostaria de descobrir, a rua recebeu esse apelido. Sinto-me mais curiosa do que nunca. Talvez, somente agora, ao escrever sobre os carnavais da minha cidade, perceba a importância de conhecer a história de cada rua, cada cidade e praça da nossa região.

Mas, continuando, esse vizinho era conhecido como Manga e era responsável pela direção das escolas de samba em Caratinga. Não sei se esse nome era um apelido ou seu verdadeiro nome, mas ele fazia um trabalho incrível e homenageava personalidades da nossa cidade.

Conceição Imaculada da Silva Moreira
Conceição Imaculada da Silva Moreira

Ele era um talentoso sambista, cantor e compositor responsável por interpretar as músicas entoadas em nossos carnavais. Durante um momento do samba, apresentado com entusiasmo pela bateria da escola e brilhantemente vocalizado por nosso amado Manga, uma bela homenagem foi feita a Ziraldo Alves Pinto e João Caetano do Nascimento. Deixo aqui registrado um trecho dessa maravilhosa composição:

“João Caetano do Nascimento
Revive seu tempo de glória,
Partiu para a eternidade,
E o seu nome aqui ficou oh, oh, oh, oh…
Em nossa escola de samba, este é o tema que o poeta inspirou.”
Oh, oh, oh, oh, oh, oh…

“Ah, Ziraldo Alves Pinto, um personagem que enaltece o Carnaval.”

Esses trechos de músicas encantadoras e inspiradas eram tocados com maestria pelas escolas de samba naquela época.

É sempre gratificante relembrar nossa cultura, e é por isso que destaco esse fragmento de canção, pois, naquele tempo, o Carnaval não era, ao menos em minha opinião, essa confusão que presenciamos hoje em dia nas grandes cidades.

Uma coisa que não me trazia alegria alguma era o fato de sermos obrigados a usar maquiagem. Meu pai, um tanto exagerado, insistia em pintar os sete filhos e, por ser bem branca, eu me sentia uma bruxa, com bochechas vermelhas e uma boca maior do que a do personagem Nazareno, da Escolinha do Professor Raimundo. Não era fácil, sinceramente.

A fantasia até era agradável; no último Carnaval, me vestiram como bailarina, com minha irmã mais nova. Éramos muito empolgadas na avenida, mas, assim que meus pais se afastavam, eu rapidamente removia toda aquela maquiagem, sempre fiz assim: deixava que fizessem, mas, assim que viravam as costas, eu tirava tudo. Pelo menos eu podia fazer isso. Não me esqueço do tanto que aguentávamos ficar sambando até o final da avenida e quando chegávamos no final, a sensação era de exaustão, misturado com satisfação, os pés até calejados e a bexiga em tempo de estourar.

O pior era com meus irmãos mais velhos, que, além de terem que usar maquiagem para representar personagens, também precisavam sambar sobre os carros alegóricos. Todos observavam e admiravam as magníficas fantasias, mas, nos rostos dos meus irmãos, a decepção era evidente. Não pelas fantasias, mas por terem o rosto coberto por uma maquiagem que os fazia se parecerem muito com os personagens que representavam: Adão e Eva, e São Jorge, o guerreiro.

Os carnavais em Caratinga, sem dúvida, eram os melhores. Eles me despertam uma mistura de saudade e decepção, devido às detestáveis maquiagens que éramos obrigados a usar. Mas era uma celebração que verdadeiramente representava a cultura da nossa região e do Brasil.

Hoje em dia, com as distorcidas formas de comemorar os eventos populares, nossa cultura, que sempre foi tão rica, não deveria estar ameaçada como vemos agora. Festas tão belas, celebradas com alegria e prazer, tornaram-se uma ocasião de desordem, imoralidade e desvalorização das nossas raízes. Que pena!

Verônica Moreira

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Pés descalços

Ivete Rosa de Souza: Crônica ‘Pés descalços’

Ivete Rosa de Souza
Ivete Rosa de Souza
Criador de Imagens no Bing. 5 de outubro de 2024, às 11:45 PM

Em minhas mais doces memórias, ainda me vejo correndo descalça. Brincava na rua até à noite, com meus irmãos, sem preocupações, sem que meus pais temessem algum perigo, só adentrava a casa somente quando minha mãe chamava,  mas meus pais não saiam à rua para nos impedir de ser crianças.

Muitas vezes descuidada na empolgação da correria, feri meus pés em espinhos, pequenos cacos de vidro. Simplesmente sentava-me  no chão, retirava o espinho e saia a correr, sem sentir dor.

Ainda tenho algumas cicatrizes dos cortes em  cacos de vidro. E me recordo dos sustos de minha mãe, quando era necessário ir ao pronto socorro, tirar um pedaço de vidro que teimosamente incrustrado, não querendo sair. Doía, mas me segurava, afinal a dor passaria, enquanto fazia esforço para não chorar, minha mãe se apiedava, e eu não levaria umas chineladas.

No dia seguinte, lá estava eu novamente, abandonando os chinelos ou tênis, largados na calçada. A liberdade de ter os pés libertos, sentindo a grama, a terra até mesmo o asfalto quente. Tudo valia a pena, o riso, as brincadeiras, a correria, eram  recompensados com o esquecimento desses pequenos acidentes.

Depois de crescida, tomei modos como diria minha mãe, e só andava descalça na areia, quando ia à praia, sentido as ondas molhando os pés sedentos de liberdade. Adorava ver as águas imensas apagando minhas pegadas.

Adulta, calcei meus filhos, preocupando-me que pudessem ferir seus pés. Chinelos, sapatos, tênis, tudo para proteger meus rebentos.

Já não tinham a liberdade ilimitada de outros tempos; brincar na rua, só com a supervisão dos pais. Ficar na rua até tarde noite adentro, nem pensar! Nesses novos dias, com a insegurança instaurada em todos os lugares, não tinha jeito.

Infelizmente os tempos mudaram, a inocência da infância, dos que têm mais de 50 anos, ficou no passado.

Atualmente, pés descalços são sinônimos de pobreza, são marcas dos desprovidos, dos indigentes, ou dos inocentes que ainda tentam dar os primeiros passos. Não é mais legado de liberdade da infância , de banhos de chuva, corridas na enxurrada, uma liberdade descontraída e privilegiada.

Agora tenho sapatos demais, que me levam a tantos lugares, mas eles nunca me levarão aonde fui quando tinha os meus pés descalços…

Ivete Rosa de Souza

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A Grande Fúria do Mundo

Paulo Siuves: Crônica ‘A Grande Fúria do Mundo’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
“…Pois sabemos que, ao fim, nos teus braços, seremos todos iguais, todos silenciosos, todos eternos na tua fúria serena.”
Imagem criada pela IA do Bing

Ah, Morte, és tu a eterna sombra que percorre as trilhas da vida! Na imensidão do viver, és o ponto final que a todos iguala. És a grande fúria do mundo, a inevitável tempestade que varre os sonhos e as esperanças, deixando atrás de ti o silêncio frio do vazio.

Tu, que decides o fim de todas as jornadas, vens com teu manto negro e teus olhos sem vida, apagando a chama da existência. Teu toque é gelado, arrepiando os vivos, teu abraço é a morada derradeira que a todos acolhe sem distinção. És a irmã sombria da vida, a companheira inseparável do tempo, que caminha ao lado dos mortais, lembrando-lhes constantemente da finitude de seus dias.

Em cada pôr do sol, no declínio das horas, vejo teu reflexo, Morte, na agonia dos últimos raios de luz. És a consumação de todos os momentos, o suspiro final que nos arranca da carne e nos devolve ao pó. Nos teus braços, acabam as dores e as delícias, acabam as lutas e as conquistas, e resta apenas o silêncio impenetrável do nada.

Oh, grande fúria do mundo, tua presença é um paradoxo cruel. És temida e desejada, repudiada e acolhida. No teu seio os cansados descansam, os atormentados encontram paz. Mas, ao mesmo tempo, és o terror dos corações, o fantasma que assombra os sonhos, a certeza que corrói a alma.

Tu, Morte, és a revelação do efêmero. Em teu nome, o homem constrói monumentos e cria memórias, na vã tentativa de se perpetuar além de ti. És o espelho em que se refletem todas as vaidades, a prova de que, diante de ti, somos todos frágeis, todos perecíveis.

No entanto, há quem te veja como a libertação suprema, o fim das amarras da existência. És a porta para o desconhecido, o portal para o infinito. Na tua escuridão, há quem encontre a luz, na tua ausência, há quem encontre a plenitude.

Ah, Morte, grande fúria do mundo, és o dilema insolúvel da vida. Na tua sombra, somos chamados a viver intensamente, a amar com urgência, a sonhar sem limites. És a adversária que nos impulsiona, a força que nos desafia a encontrar significado no breve lampejo de nossa existência.

E assim, enquanto caminhamos na tua direção inevitável, tentamos, em cada passo, fazer valer a jornada. Pois sabemos que, ao fim, nos teus braços, seremos todos iguais, todos silenciosos, todos eternos na tua fúria serena.

Paulo Siuves

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Sonhos, quintais e coisas desimportantes

O grupo de teatro ‘Os Companheiros’ apresenta o espetáculo ‘Sonhos,  quintais e coisas desimportantes’

Cena do espetáculo ''Sonhos,  quintais e coisas desimportantes'
Cena do espetáculo ‘‘Sonhos,  quintais e coisas desimportantes’

Um sonho foi o disparador para o encontro e a linguagem, majoritariamente, corporal foi a escolha para este trabalho. O espetáculo ‘Sonhos, quintais e coisas  desimportantes’ traz à cena três jovens atores, três corpos carregados de memórias,  sentimentos e sobrecarregados de questões, num convite à suspensão do tempo para a  escuta da vida. 

“A gente torce para não cair da corda bamba, para chegar em algum lugar em  segurança. No passado vimos tanta gente que não conseguiu se equilibrar, pessoas da  nossa família, e a vida segue depois que eles nos deixam. O nosso espetáculo eu  acredito ser sobre estar no meio dessa corda que vai pra lá e pra cá.“ 

Celso Stefano – Ator do espetáculo. 

Em um mergulho no passado eles exploram memórias e segredos e convidam a  experimentar a vivência de um tempo não linear, um passeio pela corda bamba e um  convite à sobrevivência. Abismos, lacunas, e esperança entrelaçados na fluidez do tempo  fazem parte desse enredo onírico, carregado de referências do poeta Manoel de Barros.  Uma viajem entre sonho e realidade, territórios que se fundem na fronteiras que se  dissolvem neste mundo distópico. 

Cena do espetáculo ‘‘Sonhos,  quintais e coisas desimportantes’

“ Quando se é criança, é muito legal ver uma formiga levando sua comida ou parar e  ficar olhando as estrelas no céu. A gente parou de olhar, Manoel de Barros ensina a  gente a voltar e enxergar as coisas de mais importância. “ 

Maria Helena – Diretora da peça. 

Obs.: texto chave de resumo sobre as discussões que o espetáculo se propõe abarca: Um  convite à um outro olhar para com a vida e o tempo, o que foi subtraído, o que fica e o  que ressignifica. 

Ficha técnica 

DIREÇÃO: Maria Helena Barbosa

ELENCO: Celso Stefano, Fabiano Amâncio e Jee México  

TRILHA SONORA: Wellington Ravazoli e Fernando Ravazoli 

FIGURINOS, ILUMINAÇÃO E CENOGRAFIA: Grupo Os Companheiros  PRODUÇÃO E ASSESSORIA DE IMPRENSA: Lelis Andrade  

PROVOCAÇÃO CORPORAL: Felipe Alduina 

FOTOGRAFIA E DESIGN GRÁFICO: Alexandre Valentim 

OFICINAS: “Práticas corporais em dinâmicas cênicas”, coordenado por Felipe Alduina , e “O teatro visual do objeto/imagem”, coordenado por Julio Scandolo. 

APRESENTAÇÕES: 

• 18 e 19/05 – Teatro Escola Mario Pérsico – 20h; 

• 25 e 26/05 – Espaço Cultural Du’ Arts – 20h; 

• 01 e 02/06 – Teatro de Bolso Tatiana Belinkg – 20h; 

• 08 e 09/06 – IGESC – Espaço Cultural – Sindicato dos Rodoviários Sorocaba e  Região – 20h 

Classificação: 14 anos. 

Entrada Gratuita. 

O espetáculo “sonhos, quintais e coisas desimportantes” é fruto do projeto “Corpo  Jardim” contemplado pelo edital Linc Sorocaba/2023 – Lei de incentivo à cultura do  município em 2023.  

Sinopse 

O espetáculo ‘sonhos, quintais e coisas desimportantes’ traz à cena três corpos jovens  carregados de inseguranças e abismos. Ávidos de um olhar de aconchego como nos  poemas, eles convidam à suspensão do tempo para a escuta, expõem suas memórias,  desejos e questões pertinentes ao desequilíbrio atual. Utilizam a palavra sem pronúncia  ou a despalavra como manifesto e potência para se reinventarem na solidão da era digital,  na pressão em se encaixar, na prisão do neoliberalismo e no mundo em guerra, numa  frágil fronteira entre sonho e realidade.

Teaser

https://drive.google.com/file/d/1LFlSj4wHCJrj4ewTcVay_cvu9C7PbPIW/view

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