Leopoldo e o mendigo

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘Leopoldo e o mendigo’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Leopoldo era do tipo que não levava desaforo para casa, mesmo que aquilo lhe custasse rusgas permanentes com, por exemplo, um vizinho de porta. Que fosse daquele jeito, o sujeito não parecia se importar, apesar das aflições cada vez mais perenes, que chegavam sem qualquer cerimônia e se instalavam no coração.

            O sujeito sabia que aquela situação não era amiga da saúde e, por isso, buscou algumas alternativas para evitar descontroles por bobagens. Que guardasse energia para quando fosse realmente necessário como, por exemplo, salvar o planeta de um improvável ataque alienígena ou, então, enfrentar o ex-boxeador Popó, desde que fosse recompensado com alguns milhões para valer a pena a surra que iria levar. 

            Não podemos dizer que Leopoldo não tenha tentado, até porque Gabriela, namorada com longo histórico de paciência, testemunhou alguns fatos que, outrora, seriam estopins para crises histéricas do amado. Mas o fato que mudou definitivamente o jeito do rapaz de levar a vida aconteceu por acaso e, talvez pelo inusitado, vale aqui mencioná-lo.

            Estava o casal passando pelo Setor Comercial Sul, em Brasília, quando um mendigo, sentado na calçada, esticou a mão e pediu ajuda. Leopoldo, que não era de questionar necessidades alheias, abriu a carteira, mas não encontrou trocado.

            — Meu amigo, vou ficar te devendo. Só tenho uma nota de cem.

            O pedinte sorriu e, percebendo que daquele mato não saía cachorro, aguardou o próximo transeunte. Nisso, Leopoldo, assim que deu as costas para seguir seu caminho de mãos dadas com a namorada, arregalou os olhos e exclamou:

            — Não pode ser!

            — O que foi, meu amor?

            — Eu conheço aquele cara!

            Leopoldo retornou e, diante do necessitado, perguntou:

            — Camilo, é você?

            Pego de surpresa, o homem levou alguns segundos encarando Leopoldo.

            — Leopoldo! Não é possível! É você mesmo?

            — Sim, Camilo! Sou eu! Mas o que você está fazendo aqui? Olha, se você estiver mesmo precisando, estão aqui os cem reais.

            — Que nada! Pode ficar com o seu dinheiro. 

            Camilo se levantou e abraçou o amigo.

            — Leopoldo, e quem é a gatinha?

            — Ah, Camilo! Essa é a Gabriela, minha namorada.

           Apresentações feitas, Camilo disse que estava fazendo laboratório para viver um mendigo em um curta que seria filmado no mês seguinte. 

           — Que loucura!

            — Um pouco, Leopoldo. Mas vida de ator é assim mesmo. Aliás, vocês já almoçaram? 

            — Ainda não, mas…

            — Então, estão convidados pra almoçar comigo. Já ensaiei muito por hoje. 

           Lá foram os três para um restaurante ali perto. E o engraçado mesmo foi na hora de pagar a conta. O Camilo nem deixou o colega tirar a carteira do bolso.

            — Nananinanão, Leopoldo! Vocês são meus convidados. Além do mais, faturei bem hoje. Estou até pensando em largar a vida de ator pra virar mendigo profissional. 

             Por sorte ou destino, Camilo não trocou de profissão. O curta foi um sucesso, ele foi requisitado para viver o protagonista de um longa, pois um famoso diretor de cinema ficou impressionado com a sua atuação carregada de emoção e veracidade ao dizer o derradeiro texto antes dos letreiros começarem a subir:

            Sei que muitos de nós gostaríamos de enaltecer uma das qualidades mais nobres que uma pessoa pode possuir: o humor. Nunca perca seu humor, pois, apesar das perturbações que a vida nos oferece, com humor encontraremos mais soluções e menos problemas. O mundo é muito rude e, para vencê-lo, devemos mudar a estratégia.

Eduardo Cesario-Martínez




O velho, o café e o mendigo

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘O velho, o café e o mendigo’

Eduardo Cesario-Martínez
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O velho, cheio de dores, levantou mais cedo do que de costume. Não que não preferisse continuar na cama entregue aos sonhos, já que os pesadelos que o acompanham nos últimos tempos eram demais até mesmo para alguém que já passava dos 80. No entanto, a insistente dor nas costas não o permitia se manter deitado por mais que algumas horas.

            Acordou, olhou para o quarto vazio, o mesmo quarto onde dividira com Beatriz por mais de meio século. Brigas, logicamente, tiveram, mas não que o velho se recordasse exatamente de alguma. Talvez, uma em que a falecida tenha insistido tanto para que os dois fossem ao batizado do primeiro bisneto. Justamente no mesmo dia em que o Vasco decidia uma final de campeonato. 

            Foram e, durante a missa, o velho se mostrou extremamente ansioso para que tudo aquilo acabasse rapidamente para, então, poder voltar para casa. Demorou muito mais que o previsto e, ao retornarem, percebeu vários torcedores com a camisa do Gigante da Colina festejando. Frustração por não ter visto o jogo, mas um alívio pela conquista de mais um título.

            O velho arrastou seu corpo até a cozinha, onde ainda dava para sentir o suave perfume de Beatriz. Respirou aquele aroma e, apesar da lágrima que escorreu pelo canto do olho, pegou o pote de café, ainda da mesma marca que a esposa apreciava. Ele nem sabia se aquela era a melhor, já que quase nunca havia experimentado outra. Na verdade, não se recordava ou, possivelmente, não queria trair a memória da sua mulher. 

            Frustrado, o velho constatou que o café havia praticamente desaparecido do pote. Nem mesmo uma colherzinha, o que o obrigava a caminhar até o mercado da esquina para comprar mais. Com a roupa amarrotada, os cabelos desgrenhados, tratou apenas de calçar o chinelo e pegar o dinheiro sobre a mesinha de canto. 

            Já na rua, o velho praguejava silenciosamente, enquanto inúmeros transeuntes passavam quase esbarrando naquele corpo senil. Entrou e saiu do mercado sem se dar conta nem mesmo do preço, já que isso não importava, pois sempre levava a mesma marca. Pensou até em comprar dois pacotes, mas isso o faria cativo no apartamento pelo dobro do tempo. Levou apenas um, como sempre tinha feito por tantos e tantos anos.

            A sacola de plástico balançava conforme os passos capengas das frágeis pernas. O velho observou um ônibus vindo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pensou em se jogar na frente e acabar com tudo aquilo, mas não teve coragem. Observou um mendigo com a mão esticada e, talvez por impulso, despejou algumas pobres moedas. E, antes que pudesse se livrar daquela situação, ouviu a voz do maltrapilho: “Peço a Deus que estique o tempo do senhor!”

Eduardo Cesario-Martínez

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