Tia Gertrudes pouco conheci. Quer dizer, ainda guardo lembranças enevoadas daquela figura o quão taciturna pode ser alguém cuja magreza ultrapassasse as parcas carnes. Rabugenta que fosse, continuava da família.
Solteirona, vovó costumava dizer sobre a primogênita. Entretanto, a minha tia se recusava a carregar rótulos impostos pela sociedade, especialmente aqueles reverberados pelos lábios da própria mãe.
— Livre, mamãe. Livre!
— Você nasceu mulher, Gertrudes. Mulheres não são livres, jamais serão. É sina. Melhor que se aprume antes que seja tarde demais.
Minha avó tinha lá suas ideias, a maior parte reproduções do que aprendera, seja nos parcos anos nos bancos escolares, seja nas cacetadas que levou na lida com os homens. Não a culpo nem a eximo, coisas que não vivi por completo.
Talvez o hábito mais marcante de tia Gertrudes fosse a relutância em se deixar fotografar ao lado de quem quer que fosse, inclusive de parentes mais próximos e, em especial, de namorados de ocasião. Certa feita, fui eu o preterido.
— Mas, titia, sou eu, seu sobrinho favorito.
— A gente nunca sabe o dia de amanhã, Marquinhos.
É engraçado quando alguém me visita e eu, quando a prosa é boa, resolvo lhe mostrar alguns álbuns de família. Vez ou outra, um observador mais atento fica intrigado com aquela figura isolada em inúmeros retratos.
— É a tia Gertrudes, irmã de papai.
— E por que ela sempre aparece sozinha?
De vez em quando, sinto que algum espírito brincalhão me baixa e cisma em brincar com as verdades.
— Ah, é que a tia Gertrudes não gostava de ofuscar ninguém com a sua beleza estonteante.
Até hoje, ninguém ousou contrariar a minha resposta, que segue como veredito de um tempo que passou mais rápido do que eu esperava. Dizer que tia Gertrudes pudesse ofuscar alguém com a sua aparência pode parecer um absurdo, e não travo imbróglios desnecessários contestando tal hipótese. O que importa, o que importa de verdade é que ela, apesar de não estar há anos entre nós, continua sendo da família.
Taxa extra. Reunião de condomínio é ringue sem regras no escuro. Que até a mais elevada das almas perde as estribeiras, ninguém duvida.
— Ninguém aguenta, Eleonora!
— É o jeito, José. Você bem sabe que sou a última a querer taxa extra.
— Última? Eleonora, me poupe!
— Não precisa apelar pra ironia, Márcia. Fale na cara!
— Hum! É a verdade!
— A sua verdade, você quer dizer, né, Márcia?
Ernesto, ao fundo da sala, tentou controlar a língua para não arrumar imbróglios particulares. Já bastavam os coletivos. Taxa extra. Ele pensou no que poderia cortar nas despesas. De cara, trocaria o café, uma marca popular. E nada de almoçar fora. Levaria marmita para o trabalho.
— Então, meus amigos, o valor vai ser de duzentos e cinquenta e três reais.
— Dividido em quantas prestações?
— São dez parcelas de duzentos e cinquenta e três reais, Jorge.
— Não vai dar.
— O que não vai dar, Jorge?
— Você sabe que vivo da aposentadoria, Eleonora?
— Sorte a sua.
— O quê? Tá zombando da minha cara?
— E eu, Jorge, que nunca vou me aposentar? Como é que fico?
Não teve conversa. A taxa extra foi imposta.
Ernesto foi um dos últimos a deixar o recinto. Muito burburinho para nada. Leite. Sim, o homem cortaria também o leite. Há muito não usava fraldas. Leite pra quê? Não era bebê.
No elevador, Ernesto ouviu a indignação de Márcia e Lindaura. Vez ou outra, as moradoras encaravam o sujeito, talvez na esperança de incentivo. Nada! Nem mesmo uma mísera vogal.
A porta do elevador se abriu. As mulheres saíram sem se despedir. E, antes que a caixa de transporte prosseguisse a viagem, Ernesto ouviu parte da conversa, que parecia se desenrolar pelo corredor.
— A minha vontade era matar a Eleonora.
— Márcia!
— E não é?
— Pois estou nessa contigo, amiga.
O quê? Aquilo era sério? Ernesto pareceu estupefato. Que Eleonora era uma crápula, ele não carregava dúvidas. Que a síndica estava roubando o condomínio, bem, ele não tinha provas. Se bem que a falta de provas não o incentivava a colocar a mão no fogo por Eleonora. Mas assassinato? Aí, já era algo que extrapolava qualquer bom senso.
Abriu a porta do apartamento ainda atordoado pelo diálogo daquelas mulheres. Loucura. Ah, certamente palavras cuspidas da boca para fora. Será? Absurdo! Ou não?
Ernesto pegou o resto de leite da geladeira. Mal deu para uma xícara. Esquentou e fez o derradeiro pingado até que a furtiva sorte lhe desse as caras novamente.
O homem puxou uma das cadeiras da mesa da cozinha e acomodou o fatigado corpo. Duzentos e cinquenta e três reais. Que afronta! De onde iria tirar tamanha quantia do seu já minguado orçamento? Voltar a trabalhar era impossível. Com tantas dores instaladas em cada junta do corpo, acabaria internado. E os remédios? De onde tiraria dinheiro para pagar os remédios?
Quando sorveu o primeiro gole, tudo lhe pareceu tão óbvio. E por que não? Sim! Ele se juntaria a Márcia e Lindaura. Um plano. Eles só precisariam de um plano. Pensou, pensou, pensou até que a voz lhe saiu mais alta do que o planejado:
— O elevador!
Ernesto tapou os lábios, arregalou os olhos e sorriu. O maldito elevador vivia dando problemas mesmo. Uma fenda entre o elevador e o piso, algo tão corriqueiro. E lá iria a pobre Eleonora beijar o fundo do poço. Gargalhou.
Levantou-se, foi até a sala, pegou um livro de poesias na estante, A verdade nos seres, de Daniel Marchi. Esparramou-se no sofá e, entre gargalhadas abafadas, leu páginas espaçadas. Adormeceu.
No dia seguinte, Ernesto despertou com o burburinho nos corredores. Vozes nervosas persistiam. Ele tentou ignorá-las até que a curiosidade o levou a abrir a porta. Lá estavam José, Ruth e Soraia ruminando palavras. Ernesto colocou metade do corpo para fora.
— Ei, José, o que aconteceu? Por que estão tagarelando tão cedo?
— A Eleonora, Ernesto.
— E o que tem ela?
— Não soube?
— Não soube o quê, José?
— Ela foi encontrada no fosso do elevador. Pobre mulher, não resistiu.
Ernesto foi tomado por um misto de culpa e dúvida. Será? Não, ele não teve qualquer coisa com aquilo. Mas e a Márcia e a Lindaura? Teriam aquelas duas roubado o seu pensamento? Não, não, não. Essas coisas não acontecem. Não mesmo! Será?
Naquele mesmo dia, Ernesto encontrou as duas mulheres. Seus olhares se cruzaram. Nada foi dito, porém, os três sentiram que havia um acordo implícito. E o silêncio foi o caminho escolhido por todos.
Linda! Pele alva, pura, imaculada… Cabelos pretos esvoaçando ao vento. Seu sorriso lindo cativa e domina; Seu olhar expressivo atrai a quem o fita. Jeito moleque em corpo de mulher. Seus lábios convidam a um beijo longo e doce… Sua energia, extremamente dominante, provoca intensa atração. Aproximar-se demais é certeza de ser envolvido pela paixão. Não há como evitar. Ela exala um perfume que embriaga os sentidos e enternece o coração… Sua voz, como o canto das mitológicas sereias, hipnotiza e quebra qualquer resistência… A atração é inevitável e ela tem consciência do poder natural que possui de ser apaixonante. O tempo passou… Não foi mais vista… Nenhuma notícia sobre ela se ouviu. Por onde andará?
Tem-se a sensação de que tudo é conhecido, mas o caminho na floresta nunca termina. A direção parece perfeita, mas a pequena embarcação não chega à margem. As trilhas no deserto não são desconhecidas, mas, por mais que se caminhe, não se chega à fronteira. Assim é a vida dos seres humanos. É uma selva impenetrável, um vasto oceano que se estende até o horizonte. Uma infinidade de areia que se alonga até a linha do céu. É um encantamento mágico, feito de miragens entretecidas e místicas. E o homem, um caminhante desnorteado, continua vagando, tendo perdido o seu caminho.
Nagaraju Ramaswamy
Original (Telugu): Nagaraju Ramaswamy Tradução: Elanaaga
A Befuddled Wayfarer
One feels as if everything is known, but the path in the forest never ends. Direction seems perfect, yet the dinghy doesn’t get ashore. The tracks in the desert are not unknown, but no amount of treading takes you to the frontier. Such is the life of humans. It’s an impenetrable jungle, a vast ocean spread to the horizon. Infinite sand stretched to the skyline. A magic spell it is, of woven, mystical mirages. And man, a befuddled wayfarer, keeps roaming, having lost his way.
Nagaraju Ramaswamy
Original (Telugu): Nagaraju Ramaswamy Translation: Elanaaga
Nagaraju Ramaswamy
Nagaraju Ramaswamy nasceu na Índia, em 9 de setembro de 1939. É engenheiro eletricista de profissão.
Após uma longa trajetória profissional na Índia, Nigéria, Gana, Omã e Arábia Saudita, aposentou-se há muitos anos e atualmente reside nos Estados Unidos.
Sua obra compreende 14 livros em télugo e três em inglês. Sua tradução para o télugo da coletânea de poemas “Sunstone”, de Octavio Paz, lhe trouxe reconhecimento. A tradução da poesia de John Keats também merece destaque. Igualmente dignos de menção são “The Great Void”, “Wings of Musings” e “Blue Pleasance”.
Seu livro mais recente em télugo, “Kavana Kokilalu”, reúne ensaios notáveis e detalhados sobre antigos poetas ingleses. A obra serve como um guia de consulta para os apreciadores da poesia inglesa.
Seus textos continuam sendo publicados em periódicos locais e nas redes sociais, como Facebook, WhatsApp, entre outras. Recebeu alguns prêmios e distinções por sua contribuição à literatura.
O inusitado dentro do coletivo
O coração tem razões que a própria razão desconhece… e o transporte público também
Entediada de ficar em casa, Salete decidiu, logo após tomar café, ir fazer uma visita à Paula, uma amiga que acabara de se separar. Não se sabe se houve traição ou, então, seriam meras incompatibilidades de convivência. O problema é que, já devidamente acomodada no banco do seu velho Chevette, girou a chave e nada do carango dar sinal de vida.
Salete girou duas, três, quinze vezes. E não era falta de gasolina, pois fazia apenas dois dias que ela enchera o tanque. Sem tempo de chamar um mecânico, resolveu se aventurar a andar de ônibus desde que trocara a minissaia por um emprego no Banco do Brasil.
Telefonou para Paula e disse que iria se atrasar. Aproveitou para saber qual o ônibus que passava mais perto. A colega lhe disse para pegar um táxi, que era mais rápido, mas Salete, talvez por economia, talvez por desejar um pouco de aventura, declinou.
— Creio que será até bom relembrar os tempos de pobretona.
— E por acaso ficou milionária e está escondendo o jogo?
— Sou bancária e não banqueira, Paula.
Já no ponto, Salete ficou atenta aos ônibus que chegavam e partiam, até que, finalmente, surgiu o seu. Um pequeno frio na barriga ao subir os degraus, pura falta de costume. Cumprimentou o motorista, um sujeito de bigode grosso e aparente educação. Em seguida, nova saudação, agora para o cobrador. Pagou-lhe, passou a roleta e, ainda perdida, escolheu um lugar no fundo do coletivo. Sentou-se.
Salete buscou alguma distração olhando através da janela, mas duas vozes aflitas chamaram sua atenção. Era um casal, ao menos foi a impressão que teve, pois a conversa era carregada de sentimentos.
— Você promete?
— Vou ver se consigo, meu amor.
— Ah, mas ontem você disse que iria.
— Vou tentar. Te ligo antes do almoço. Pode ser?
— Mas você promete?
— Tá. Preciso descer no próximo ponto.
O homem, antes de se levantar, deu um breve beijo nos lábios da mulher ansiosa por saber se a tal promessa se cumpriria ou não. Salete sorriu, como se desejando o mesmo para a conhecida de última hora, apesar de nem saber do que se tratava, muito menos quais eram os nomes dos pombinhos.
Voltou os olhos para fora do ônibus, quando viu o homem, passos apertados, indo em direção a uma padaria. Trabalharia ali ou, não era impossível, teria entrado apenas para comer algo ou comprar cigarros antes de ir para o emprego?
Quando ainda tentava desvendar aquele mistério, eis que um rapaz, 10 ou 15 anos mais jovem, entrou no ônibus e foi se sentar justamente ao lado da bonitona que queria porque queria que o marido (?) lhe prometesse algo que permanecia uma incógnita para Salete. E foi aí que algo inesperado aconteceu, como se quisesse provar que Blaise Pascal, filósofo e matemático francês do século XVII, não estava enganado: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
— Você é louco!
— Louco por você, meu amor!
— Por que não esperou na outra parada? Você sabe que o Ademir sempre desce aqui.
— Um pouquinho de perigo é bom pra apimentar a paixão.
Beijaram-se, beijaram-se, beijaram-se, que Salete imaginou que talvez aqueles dois, certamente amantes, pensassem que estavam em uma boate ou num quarto de motel.
— Para! Não dá pra esperar?
— Desculpe, Cíntia. É que estava com saudade.
— Também, tolinho. Ah, vem cá, Júlio!
Salete, boquiaberta, tentou buscar algo fora do ônibus para disfarçar seu espanto. Óbvio que não iria falar nem sequer meia vírgula, mas não queria provocar constrangimento aos enamorados. Constrangimento? Será que aqueles dois sabiam o que era isso? Ela levou a mão à boca e sorriu sem provocar barulho.
Três pontos adiante, desceu quase em frente ao prédio da Paula. Conversaram por quase duas horas. Enquanto a agora separada falava mal do ex-marido, Salete não conseguia deixar de se lembrar do ocorrido dentro do coletivo. Tanto é que, durante quase um mês, visitou a amiga, não somente com o intuito de consolá-la, mas principalmente de reencontrar aquele trio inusitado.
Nunca mais viu qualquer um dos envolvidos. Teria Ademir descoberto a traição? Ou Cíntia teria fugido com Júlio? Se ao menos ela tivesse a oportunidade de encontrá-los… Que fossem felizes. Era o que Salete desejou do fundo do coração.