Palavras clínicas
Loide Afonso: Poema ‘Palavras clínicas’


às 08:17 PM
Ainda não sei
O que dizer
Pra o mundo
Quando de ti
Perguntarem
Não faço a mínima ideia
Do que dizer
Pra mim
Na hora de dormir
Minha boca
Meus olhos
Minha pele
Não sei o que
Responder
Pra todos eles
Poxa! Penso em me calar.
De ti
Nunca mais falar
Olhar
Ou pensar
Mas o meu mundo mal sabe
O que eu sentia
Todas as vezes que me dizias, sou teu.
Loid Portugal
Meandros de rio
Ella Dominici: Poema ‘Meandros de rio’


O rio não é cenário.
Ele fala — não em voz, mas em sinais.
Seu fluxo, ora manso, ora urgente, traduz humores invisíveis,
e quem permanece à sua beira aprende a escutá-lo pela percepção que atravessa a pele
e alcança o interior da alma.
As margens murmuram histórias antigas;
o vento traz respostas que ninguém formula;
e o som da água, ao tocar pedras distintas, compõe significados
que não cabem em palavras, mas em sensações.
O voo dos pássaros risca o céu como pequenas frases do alto;
cada mudança de direção é aviso,
cada pouso, uma pausa;
cada revoada, um pensamento que se desprende do mundo.
Depois da chuva, a terra exala um cheiro quente, quase maternal,
como se afirma que o tempo sempre guarda alguma fertilidade,
mesmo quando se mostra hostil.
A fragrância sobe devagar, criando um diálogo silencioso
entre o visível e o que não se nomeia.
A paisagem inteira se comporta como consciência desperta,
como se o mundo pensasse e aguardasse ser compreendido.
E quem ali permanece, mesmo sem perceber,
entra nesse movimento de leitura,
onde cada detalhe — vento, água, folha, aroma —
é frase de um texto maior,
escrito pela própria existência.
Ella Dominici
Apagar-se é o preço de existir
Ella Dominici: ‘Apagar-se é o preço de existir’


às 07;30 PM
O vazio chegou primeiro.
Antes do nome, antes da pele, antes do rosto
que me ensinaram a chamar de meu.
Fui menos que um nada,
um quase-ser esperando a sorte do verbo.
Apaguei-me para caber no mundo.
Deixei pegadas que não segui,
vendi silêncios para comprar presença.
E ainda assim, o resto de mim ficou
insistindo em existir no que me faltava.
Houve um tempo em que fui todos,
um eco na multidão dos que não sabem que são.
E então, o traço. O risco. A marca.
Era eu.
Não um nome, não um número,
mas um corte no papel do tempo.
Deixei o coro dos rostos repetidos.
O coletivo me olhou como se eu traísse
o pacto dos que preferem ser sombra.
Mas a sombra não tem peso,
não tem voz,
não tem gravidade para sustentar-se.
E eu queria ser corpo,
queria ser coisa que não se apaga.
Queria ser o avesso da ausência,
o nome que me veste sem caber em mais ninguém.
APAGAR-SE É O PREÇO DE EXISTIR
Ella Dominici
Rotina
Evani Rocha: Poema ‘Rotina’


A poesia vem
Sorrateira
Dizendo coisas sutis
Da alma
Do âmago
E chega
Invade
A boca, os lábios
E os olhos da gente.
Nos expõe,
Nos desnuda
Nos desvela
Ao mundo…
A poesia escorre pelos dedos
Cai na palma da mão
Gota a gota,
Colhe uma flor
Exala o perfume
Das dores, das cores
Cala a saudade
Fala das despedidas
Sem abraços,
Dos laços desfeitos
Por nada, ou por tudo
Pela soma dos dias
Da rotina
Angustiante
Enfadonha
Que nos toma por inteiro…
E nos abandona
No leito, sem jeito
De abrir novamente
A cortina da vida!
Evani Rocha
Valores do amor
O tempo passa
Irene da Rocha: Poema ‘O tempo passa’


O tempo passa, e o tempo esvai,
Como um rio correndo para o mar,
Silencioso, sua essência se desfaz,
Deixando saudades a murmurar.
As horas perdidas, jamais alcançadas,
Levadas pelo vento, desaparecem,
O mundo reflete memórias veladas,
Enquanto as lembranças permanecem.
Procuro no tempo a humanidade,
A bondade que outrora ressoou,
Olhares de amor, sinceridade,
Dignidade que em nós habitou.
Era uma vez, em tempos distantes,
Quando ser eu mesmo bastava,
O mundo girava em versos vibrantes,
E a poesia minha essência marcava.
Nessa dança de dias e noites,
Onde o tempo não tinha senão,
Sonhos flutuavam em suaves açoites,
Esperança guiando a direção.
Na janela, o amor uma chama acendeu,
Iluminando o caminho a seguir,
Com fervor e emoção, então compreendeu,
Que eras tu meu destino a fluir.
Sob o céu estrelado, jurei o amor,
Com as mãos entrelaçadas em paz,
Em frente ao altar, senti o calor,
Da mais pura paixão que se faz.
Assim, o tempo que se esvaiu,
Deixou seu rastro de inspiração,
Pois em cada verso que o amor traduziu,
Encontrei minha eterna canção.
Irene da Rocha



