Ella DominiciImagem criada por IA do Bing – 12 de dezembro de 2025,
O rio não é cenário. Ele fala — não em voz, mas em sinais. Seu fluxo, ora manso, ora urgente, traduz humores invisíveis, e quem permanece à sua beira aprende a escutá-lo pela percepção que atravessa a pele e alcança o interior da alma.
As margens murmuram histórias antigas; o vento traz respostas que ninguém formula; e o som da água, ao tocar pedras distintas, compõe significados que não cabem em palavras, mas em sensações.
O voo dos pássaros risca o céu como pequenas frases do alto; cada mudança de direção é aviso, cada pouso, uma pausa; cada revoada, um pensamento que se desprende do mundo.
Depois da chuva, a terra exala um cheiro quente, quase maternal, como se afirma que o tempo sempre guarda alguma fertilidade, mesmo quando se mostra hostil. A fragrância sobe devagar, criando um diálogo silencioso entre o visível e o que não se nomeia.
A paisagem inteira se comporta como consciência desperta, como se o mundo pensasse e aguardasse ser compreendido. E quem ali permanece, mesmo sem perceber, entra nesse movimento de leitura, onde cada detalhe — vento, água, folha, aroma — é frase de um texto maior, escrito pela própria existência.
Ella DominiciImagem criada por IA no Bing – 20 de março de 2025, às 07;30 PM
O vazio chegou primeiro. Antes do nome, antes da pele, antes do rosto que me ensinaram a chamar de meu. Fui menos que um nada, um quase-ser esperando a sorte do verbo.
Apaguei-me para caber no mundo. Deixei pegadas que não segui, vendi silêncios para comprar presença. E ainda assim, o resto de mim ficou insistindo em existir no que me faltava.
Houve um tempo em que fui todos, um eco na multidão dos que não sabem que são. E então, o traço. O risco. A marca. Era eu. Não um nome, não um número, mas um corte no papel do tempo.
Deixei o coro dos rostos repetidos. O coletivo me olhou como se eu traísse o pacto dos que preferem ser sombra. Mas a sombra não tem peso, não tem voz, não tem gravidade para sustentar-se.
E eu queria ser corpo, queria ser coisa que não se apaga. Queria ser o avesso da ausência, o nome que me veste sem caber em mais ninguém.
Diamantino BártoloA ordem. Valor da cidadania Imagem criada pela IA do Bing
O mundo, as nações, as comunidades, as famílias e os indivíduos, na sua esmagadora maioria, defendem, entre outros, os valores da: Ordem, Progresso e Paz –. Abordarei neste trabalho, independentemente dos meios para os alcançar, sendo certo que, se quanto aos conceitos poderão existir diferenças mínimas, outro tanto não acontece quanto aos meios para atingir os fins, havendo, em circunstâncias excecionais, necessidade de recorrer à guerra para se alcançar a paz e, com esta, a Ordem e o progresso.
Em boa hora, e sob a clarividência de cidadãos sábios, o Brasil escolheu dois daqueles valores para o seu lema nacional – Ordem e Progresso: «ORDEM E PROGRESSO é a simplificação de um lema positivista daquela ocasião, atribuído ao filósofo Augusto Conti, que dizia: «O Amor por princípio, a Ordem por base e o progresso por fim». Conta-nos a história que Benjamim Constant foi quem sugeriu este lema a Raimundo Teixeira Mendes, presidente do Apostolado Positivista do Brasil, um dos seguidores de Conti, e que foi o responsável pela ideia da nova Bandeira do Brasil. Com ele colaboraram o Dr. Miguel Lemos e o professor Manuel Pereira Reis, catedrático de astronomia da Escola Politécnica. O desenho foi executado pelo pintor Décio Vilares.» (GOVERNO PROVISÓRIO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL, Decreto nº 4, de 19 de novembro de 1889).
A cidadania passa, obrigatoriamente e em primeiríssima prioridade, por aqueles valores, sem a satisfação dos quais, todos os outros ficarão comprometidos e, dificilmente, serão alcançados. A defesa intransigente daqueles valores deve ser uma preocupação de todos os cidadãos, não apenas dos brasileiros.
A Ordem implica disciplina, respeito, hierarquia e segurança, a começar no próprio indivíduo, nas famílias e nas comunidades locais, nacionais e internacionais. De facto, é preciso ser-se extremamente disciplinado, no sentido de acatar, cumprir, e até, fazer cumprir, as normas jurídicas, sociais, religiosas, políticas e tantas outras que a sociedade impõe, desde logo: para uniformização de comportamentos; disciplina no relacionamento com os outros; no acesso a inúmeros bens e serviços; no desempenho profissional; na consideração devida a colegas e dirigentes.
Disciplina, também, no pensamento, para que, no auge das emoções, os juízos, as decisões e atitudes possam ser racionalmente ponderados e manifestados, respetivamente. Ordem, portanto, no relacionamento com os cidadãos, com as instituições, com a comunidade, no sentido do tratamento igual, determinado por critérios previamente estabelecidos, e assentes na convivialidade assertiva.
Obedecer à Ordem estabelecida, legítima e legalmente, entendida como um conjunto de normativos, que garante a segurança coletiva e individual, física e jurídica, privada ou pública, é um dever cívico e reflete o respeito pela autoridade instituída. É num ambiente de Ordem, disciplina e respeito que se pode avançar para o progresso, a todos os níveis, discricionariamente, o primeiro dos quais, o progresso material dos indivíduos, das famílias, das instituições e da sociedade. A atitude ordeira, enquanto característica essencial da pessoa civilizada, que facilita a resolução de problemas, poderá ser um primeiro contributo positivo.
A Ordem é muito mais respeitada, e praticada, numa comunidade livre e responsável, do que numa outra sujeita à ditadura político-repressiva. A liberdade é, portanto, a condição privilegiada da Ordem, nesta se inserindo toda a atividade humana, que visa o progresso em todos os domínios, incluindo a própria civilização.
Liberdade de expressão, de crítica, de ensinar e aprender, de fazer opções em diversas circunstâncias da vida, tudo isto, no respeito pela Ordem democrática Liberdade enquanto pressuposto da Ordem, esta como sustentação do Progresso e da Paz. O regime político-democrático, sendo frágil será, porventura, o grande promotor da Ordem, em liberdade responsável.
A Ordem, enquanto sinónimo de disciplina, respeito, segurança e hierarquia tornar-se-ia em obrigação, tendencialmente, ditatorial, se não fosse acompanhada de progresso, no sentido do desenvolvimento da pessoa humana, e da sua condição de vida.
Bibliografia
GOVERNO PROVISÓRIO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL, (1889). (DECRETO nº 4 de 19 de novembro de 1889, (Símbolos Nacionais: Bandeira). Sala das Sessões. (Teve modificações pela Lei nº 5.443, de 28 de maio de 1968, depois foi regulamentada pela Lei 5700 de 1º de setembro de 1971, capítulo III secção I, que sofreu alterações pela Lei 8421 de 11 de Maio de 1992. Também encontramos a regulamentação no decreto 70.274 de 9 de março de 1972).
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal