Prenúncio

Evani Rocha: Poema ‘Prenúncio’

Evani Rocha
Evani Rocha
Paisagem outonal, com folhas ao vento
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O vento passou trazendo o adeus.

Havia apenas um perfume no ar

E um burburinho nos arvoredos…

Era o prenúncio do fim!

Não houve pranto,

Nem estardalhaço.

Apenas uma palavra contida,

Que não havia mais sentido…

Somente os olhos tristes,

Perdidos num tempo distante…

Onde hoje é morada da saudade.

Daquelas crianças correndo no terreiro,

Da inocência refletindo nos sorrisos…

O vento passou e trouxe as últimas folhas do outono,

Frágeis e quebradiças…

Como as lembranças.

Como a solidão desta despedida.

Vestida de branco e cabelos em trança…

Acabou, como acabam todas as coisas

Estáveis ou fugidias…

Como acaba tudo que um dia foi real

E hoje é somente ausência.

Evani Rocha

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Sangue latino

Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘Sangue latino’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
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Foi numa noite de 1978, quando lá fui, levado pelas mãos de minha mãe, para a casa de uma tia. Durante aquelas infinitas partidas de buraco, minha tia começou a puxar conversa comigo, que estava afundado no sofá.

    — Gosta de música?

    — Sim.

    — Do quê?

    — Secos & Molhados.

    — Você tem os dentes separados. Aposto que canta que nem o Ney Matogrosso.

    Não sei quem venceu o carteado, mesmo porque nunca gostei de passar horas fazendo e recebendo sinais do parceiro sobre essa ou aquela jogada. Gostava de paciência, mas não as de uma fileira acima. Minha avó, que sempre foi o grande amor da minha vida, me ensinou outra, que possui duas fileiras nas laterais, cada uma com quatro grupos de cinco cartas.

    Além do baralho, minha avó possuía o hábito de tomar remédios. Eram tantos, que os vidrinhos se acumulavam dentro de uma gaveta na cozinha. De vez em quando, ela me dava um e dizia para ir brincar no quintal. E lá ia eu sorrindo aquele diastema, que me tornava único entre as crianças da rua. 

    Lembro-me de uma mangueira, que ficava mais ao fundo do terreno. Minha avó, certa vez, me disse que aquela era a minha árvore. Nem acreditei que aquele ser enorme fosse só meu. Tentei abraçar o tronco, mas meus braços de menino eram muito curtos. Além disso, a aspereza da casca me causava certo desconforto, que eu tentava disfarçar para não fazer com que a minha avó desistisse daquele gesto tão generoso. Uma árvore! Aos oito, o neto da dona Estelita possuía uma árvore.

    No final de 1992, logo depois de retornar para casa nas férias da faculdade, fui informado por minha mãe que vovó não estava bem de saúde. Meu avô havia nos deixado dois anos antes por conta de um câncer tão comum aos de sua geração de fumantes. Seja como for, dona Estelita requeria cuidados e, por isso, iria morar conosco. 

    Não me incomodei em dividir o quarto com vovó. Pelo contrário, ela sempre havia sido minha maior confidente. Agora, no entanto, os assuntos eram outros, inclusive de supostas namoradas, que nas minhas falas se tornavam muito mais interessantes e apaixonadas por mim. 

    Vovó sempre me falava que queria conhecer a menina que eu fosse escolher para ser minha futura esposa. Como se eu fosse um príncipe que pudesse escolher qualquer uma das garotas da faculdade. Mal sabia ela ou, então, fingia desconhecer a minha total falta de traquejo com as mulheres. Mas isso não era motivo para deixarmos de passar horas divagando sobre as minhas inúmeras pretendentes: Maria Júlia, Roberta, Lúcia, Ana Clara, Solange, Cíntia… 

    Eram tantas, que já não conseguia inventar tantos nomes. E, se eu repetisse algum, minha avó, sempre muito perspicaz, logo me dizia: “Outra Mariana? Essas moças não deixam o meu neto lindo em paz!” E ríamos madrugada adentro.

    Foi pouco depois da minha formatura que vovó nos deixou. Num dia chuvoso, como se toda a cidade chorasse a perda daquela mulher maravilhosa. Diante do caixão, seus olhos, mesmo fechados, pareciam enxergar a angústia que me tomava. Seu rosto sereno, entretanto, me transmitiu uma paz e a certeza de que logo estaríamos juntos novamente.

Eduardo Cesario-Martínez




Tan cerca que no me ves

Adriana Rodríguez

Poema ‘Tan cerca que no me ves’

Adriana Rodríguez
Adriana Rodríguez
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Camino tus huellas,
senderos de piedra y papel,
bisagras de viento aturdido
colándose por las grietas,
el hambre, el frío
y una gota de fe.

Camino por tus miradas,
cortinas de ventanas
con cristales rotos
que cortan mi lengua,
sangrando de las huellas
los ojos, las manos y la piel.

Camino por tus yemas,
lunares de tierra,
a la sombra del barro
que cubre con memorias
las horas que no fueron,
los tiempos de mañana,
la nostalgia del ayer.

Camino por el sonido
de una voz que calla,
que mira de espaldas
la sonrisa fingida,
la misericordia disfrazada,
yendo de puntas
sobre almohadas
que se han hecho de roca.

Camino por el aroma
de los deshechos del mundo,
mirando un segundo
un cesto lleno de sobras,
una ceguera cargando zozobra,
mil y unas palabras
ahogadas entre adoquines de asfalto.

Camino por las puertas
que se cierran de prisa,
por las horas más frías
y el invierno largo.
Camino extendiendo la mano,
elevando plegarias
y mordiendo los labios.

Camino y camino despacio
por todo este mundo
del que vecino he quedado.

Adriana Rodríguez

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A hora do pão de queijo

Eduardo Cesario-Martínez

Conto ‘A hora do pão de queijo’

Eduardo Cesario-Martínez
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Todos, ainda me lembro, acertavam os relógios assim que o delicioso cheiro do pão de queijo da dona Adélia tomava a rua. Quatro horas da tarde! E ninguém se atrevia a questionar tamanha precisão. Até o padre Horácio sabia que aquela hora era sagrada. Tanto é que, como de costume, ia ter com a senhora um tanto de minutos antes. 

          O sacerdote nem chegava a bater à porta da antiga casa da esquina, pois o arrastar daquelas sandálias sob a batina o anunciava. Um sorriso o recebia assim que ele subia o último vão da pequena escada.

          — Que bom que o senhor chegou a tempo de provar o pão de queijo que acabei de retirar do forno.

          Se era verdade ou não, sei lá, mas corria à boca pequena que aqueles dois possuíam algo além do apreço pelo pão de queijo. Não que fosse algo falado logo ali na pequena praça defronte à igreja. Era mais uma coisa de olhares e sorrisos maliciosos do povo, que não tinha coisa melhor para fazer ou, então, fruto da natureza tão própria dos humanos. 

          Padre Horácio, assim que a porta lhe era aberta, estendia o braço para dona Adélia, que lhe pousava os lábios sobre aquela mão quase tão alva como farinha de trigo. Isso acontecia tanto ao entrar como ao se despedir. E, quando estava de volta à calçada, o religioso pegava um pente de chifre de boi e o deslizava sobre os cabelos quase negros, se não fosse por duas mechas brancas próximas às orelhas. Aquilo, aliás, era mais um mote para o falatório maldoso.

          Enquanto menino, não atentava para tais conversas. Pensava apenas naquele pão de queijo, cujo cheiro inebriava minhas narinas infantis. Na verdade, apenas quando me tornei homem feito é que tive o prazer de degustar um ou dois. Confesso que não o achei nem melhor nem pior do que os demais que já havia comido. Seja como for, é uma parte da minha infância que gosto de lembrar, ainda mais porque era justamente quando a meninada começava a sair para se divertir na rua.

          Adorava brincar de queimada, principalmente quando não ficava no time da Fernanda, uma garota bem magrinha, cujos olhos me causavam arrepios. E, todas as vezes que ela arremessava a bola, eu me deixava ser queimado apenas para olhá-la soltando aquela gargalhada tão gostosa.

          — Te queimei de novo, Carlinhos!

          E lá ia eu para o outro lado. Fingia-me emburrado, enquanto sentia meu coração palpitar dentro do peito. Coisas de menino, cuja voz começava a engrossar. Todavia, jamais consegui fazer com que a Fernanda me fitasse de maneira especial. Isso, aliás, ela fazia, ainda que discretamente, para o Toninho, que morava justamente na casa ao lado da minha. 

          Cheguei a ter ódio daquele garoto. Um intrometido, que impediu que eu desfrutasse o primeiro amor da minha vida. Por ironia, viramos melhores amigos dois anos após. E, confesso, fui eu que me aproximei por ciúme e despeito, pois ele e Fernanda se tornaram namorados. Tal comportamento doentio ou, ao menos, contraditório, também fez com que a menina dos meus sonhos se tornasse minha grande confidente. 

          — Você gosta de alguém, Carlinhos?

          — Sim.

          — E eu posso saber quem é?

          — É segredo.

          — Hum. Você está me deixando curiosa. Eu conheço essa sortuda?

          Eu não sabia onde enfiar a minha cara, ainda mais diante daqueles olhos tão inquisidores, daqueles lábios maravilhosamente delineados. Menti descaradamente.

          — Não conhece. É uma menina que conheci numa festa. A gente ficou, mas ela preferiu terminar.

          — Por quê?

          — Ah, ela me disse que estava gostando de outro cara.

          — Qual o nome dela?

          — Por que quer saber?

          — Porque sou curiosa e também sou sua melhor amiga.

          — Mara.

          — Mara? Eu conheço uma Mara. Como ela é?

          — Magra, um pouco alta.

          — Da minha altura?

          — Por aí.

          — Qual a cor dos cabelos dela?

          — Ruiva.

          — Ruiva? Não é possível!

          — Por quê?

          — Não é possível que existam duas Maras, magras, altas e ruivas. Eu conheço essa sua namorada!

          Fiquei estático. Não sabia o que falar. Tentei convencê-la de que era óbvio que existiam duas Maras, magras, altas e ruivas. Falei até que era bem provável que existissem dezenas de garotas assim. Que nada! Como fui burro em inventar que namorava uma Mara, magra, alta e ruiva. 

          Lembro-me de que, na noite daquele dia, levei muito tempo para pegar no sono. Morria de medo de ser pego naquela mentira tão deslavada. E, pior, justamente pela Fernanda, a garota mais linda da minha rua. E se aquela história se espalhasse? Os supostos comentários me perseguiram por dias: “Você viu o Carlinhos? Pois é, tá inventando que ficou com a Mara, aquela ruiva amiga da Nanda!”, “Ah, o Carlinhos nunca nem beijou uma garota!”, “O Carlinhos mente que nem sente!”

          Não sei se a Fernanda se esqueceu da nossa conversa ou, então, preferiu não tocar mais no assunto. Por conta disso, meu medo foi se esvaindo, até que, por fim, nem eu me lembrava. Isso até a semana passada, quando, após quase 20 anos, esbarrei com o amor da minha infância na entrada do cinema. A princípio, não me dei conta da sua presença, até que ela tocou meu ombro.

          — Carlinhos! Não é possível! Há quanto tempo!

          — Nanda! 

          A minha antiga confidente me deu um abraço apertado e nos beijamos no rosto. Naquele instante, muitas coisas passaram pela minha mente. O que ela fazia da vida? Morava perto? Será que ela estava solteira? Tais pensamentos, todavia, viraram fumaça assim que ela chamou uma amiga, que carregava um enorme saco de pipoca e dois copos de refrigerante.

          — Lembra da Mara?

          Apenas sorri. Finalmente, depois de tantos anos, fui conhecer o meu antigo caso que nunca existiu. Mara, magra, alta e ruiva. Aliás, como era linda!

          Apesar do cinema praticamente lotado, conseguimos sentar juntos. Não por sorte, mas porque a Nanda convenceu um rapaz a trocar de lugar comigo. Fiquei entre aquelas duas mulheres maravilhosas por quase três horas de filme. Depois, convidei as duas para irmos a uma cafeteria ali perto. Por sorte, elas aceitaram.

          Sentamos à mesa mais ao canto e fizemos nossos pedidos, praticamente idênticos, caso não fosse pelo cappuccino da Fernanda. Para acompanhar, pedimos pão de queijo.

          — Carlinhos, você se lembra da dona Adélia e do padre Horácio?

          — Aqueles pães de queijo fizeram história.

          Entre lembranças e risadas, aqueles momentos foram os melhores da minha vida, que, na verdade, havia se tornado muito chata. É que me tornei gerente de um banco, mal saía com mulheres. Não por culpa delas, é que eu me transformara num homem desinteressante. Isto é, até que, após oferecer carona a Fernanda e Mara, agarrei-me à minha derradeira esperança. Como a Fernanda morava mais perto, a deixei primeiro em casa. Em seguida, quando voltei ao carro, ganhei um beijo inesperado.

          — Carlinhos, ouço falar de você há tanto tempo, que é como se já nos conhecêssemos.

Eduardo Cesario-Martínez

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How to catch the moon

Jane Nash: Poetic prose: ‘How to catch the moon’

Jane Nash
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Bring out the scent of a lover so embossed into your olfactory memory that satiation is the only response.

Perhaps it’s from two flowers on sale out the front of the supermarket. Cut price for wilted cut flowers. Hope for a cloudless night and then summon the memories of watching films, holding hands, catching buses together and watching a very old cat nibble at a block of South American chocolate through silver and brown paper.

Look up into the heavens. Now listen for the promises of someone who never left the building – experiment with the words they said. ‘Leaf’ they wrote on a leaf. You should wear your hair up, you have a different face when it’s up. try writing it in third person now. The moon? Mr Moon, you mean?’

Bring the sound of a dog’s panting when smiling. Dogs do smile. Cats steal dark chocolate and dogs smile and pant in happiness.

Still standing outside, facing the empty sky, full of crystalline patterns from behind where the hidden sun exists until dawn.

Within the dreams of the tiniest of children lie the clues of where to find the magical net of luminous threads.

When you track down the illusive silver penny of the sky, when you lay your magical threads upon the obscured alabaster plate, they will quickly melt into its surface, crinkling into craters and bumpy lines quite visible on a cold cloudless night. Pull hard, fear only the speed at which you will succeed and capture it with exuberance, excitement and energy.

It must be renewable energy. I’ve brought down three already. They’re locked up in the toolshed, mounted on a very large cheese board. They’re magic and I really don’t need any more.

There’s a trade in moonbeams. Even if you manage to catch the moon and bring it home, you have to keep it shining in whatever case you keep it in or it will be unable to squeeze out the djinn tears which sparkle and bathe lovers, livestock left out and every rock trodden into each desert on the globe.

Jane Nash

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Hosanna

Ismaél Wandalika: Poema ‘Hosanna’

Soldado Wandalika
Soldado Wandalika
"Hosana! A gente canta com destreza. Há um poema na alma que alimenta o estômago da criança"
Hosana! A gente canta com destreza Há um poema na alma que alimenta o estômago da criança
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Hoje
trago traços cruzando as corridas de um amanhã coberto de hosanas
Preso na garganta de quem canta com esperança o hino que embala as almas
Enche o imo de nostalgia.

Quedas vêm como fortaleza de cada força empreendida na forja.
Pois o porão rejuvenesce as batidas do peito
E Deus conta os passos de um Soldado para abençoar sua trilha.

Hosana! A gente canta com destreza
Há um poema na alma que alimenta o estômago da criança
A cruz está pesada
Então deixa a música tocar e teremos forças pela manhã.

No fundo, ouço gritos que esperam a certeza na ponte esquina,
O ontem acredita que o amanhã será diferente
Então, recriamos uma Lambada para lembrar as lágrimas do caminho que trilhou a nossa gente
Gente forte ! Gente que vence e não teme

Hosanna
Entoada na aurora do dia
Ativa no coração alegria para vida
A força dará asas a quem permanecer na pista
Dando toques para elevar a fasquia
Deus não esquece o esquema da benção para a menina de seus olhos.

Hosanna!

Soldado Wandalika

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Nudez poética

Sergio Diniz da Costa: ‘Nudez poética’

Sergio Diniz
Sergio Diniz
A Pena, embebida na seiva azul, baila ao compasso de velha sonata
A Pena, embebida na seiva azul Baila ao compasso
de velha sonata
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As horas me chamam…

O Pêndulo da Inspiração badala versos

Versos divorciados de rimas.

A Pena, embebida na seiva azul,

Baila ao compasso de velha sonata

Gemendo canções nostálgicas.

Poeta das horas silenciosas

Sopro versos como infantes bolhas.

Desnudo minh’alma das máculas vespertinas.

Sou solitário poeta de seres encantados

Solitária câmara desfilando formas.

Criador e criatura, ao bafejo de sonhos.

Minha alma e minha Pena:

A nudez de meus versos se cobriu

Das recatadas vestes do amanhecer.

O poeta parte… derradeiro.

Sergio Diniz da Costa

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