A renovação ética em tempos de divisão

Taghrid Bou Merhi

‘A renovação ética em tempos de divisão: como a palavra reconstrói o mundo’

Taghrid Bou Merhi
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Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/69f17bf2-5150-83e9-bdf6-59df1b503674
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Em tempos em que os mapas se fragmentam e as distâncias entre o medo e o discurso se estreitam, o mundo parece entrar em uma nova fase de partilha: partilha de geografias, de riquezas, de narrativas e até mesmo da própria definição da verdade. As lealdades se distribuem como se distribuem os interesses, e as fronteiras são traçadas dentro da linguagem antes de serem desenhadas sobre a terra.

Nesse clima tenso, a questão já não é apenas política ou cultural — ela se torna, em sua essência, ética: como o ser humano pode recuperar o equilíbrio dos valores em um tempo dominado por paixões, interesses e visões conflitantes? Daí nasce a necessidade de uma renovação ética que não se reduza a um discurso moralizante nem se limite a slogans genéricos, mas que se manifeste como uma transformação profunda da consciência individual e coletiva — uma reconstrução do ser humano a partir de dentro.

A partilha não é um conceito neutro; ela implica uma distribuição de poder e de sentido. Quando os povos dividem a terra, dividem também a história, a memória e os símbolos que a acompanham. Quando as comunidades compartilham narrativas, as verdades se multiplicam a ponto de se confrontarem, e a voz única se fragmenta em estilhaços de vozes. Essa realidade cria um estado de rigidez moral, em que os princípios se tornam instrumentos de defesa e a diferença passa a ser percebida como ameaça. Em tais momentos, não basta apegar-se aos valores herdados; é preciso questioná-los, interrogar suas raízes e libertá-los do uso utilitário que esvazia seu significado.

A renovação ética não significa substituir superficialmente um sistema por outro, mas retornar às perguntas fundamentais: o que é justiça? O que é responsabilidade? Quais são os limites da liberdade quando ela se cruza com a liberdade do outro? Essas questões ocuparam os filósofos ao longo dos séculos, e, a cada época turbulenta, novas respostas emergiram. Após as guerras europeias, o filósofo alemão Immanuel Kant escreveu sobre o dever moral como um compromisso interior baseado no respeito do ser humano por si mesmo e pelo outro.

Seu projeto não era mera especulação racional, mas uma tentativa de estabelecer um critério que transcendesse interesses imediatos. A ideia do “imperativo categórico” surgiu como um convite a agir de modo que a ação pudesse ser universalizada — um comportamento cuja legitimidade provém de sua possibilidade de se tornar regra comum entre os seres humanos.

Cerca de um século e meio depois, em meio ao colapso dos valores europeus nas duas guerras mundiais, o filósofo francês Emmanuel Levinas apresentou uma concepção ética distinta, colocando a responsabilidade pelo outro como origem de todo sentido. Ele não partiu de uma lei abstrata, mas do rosto do outro, cuja presença se impõe como um chamado ético impossível de ignorar. Em tempos de divisão, quando grupos se cristalizam em identidades rígidas, recordar o rosto do outro torna-se um ato de resistência contra a objetificação e a exclusão.

A literatura também não permaneceu distante dessa inquietação ética. Nos romances de Fiódor Dostoiévski, o conflito entre o bem e o mal se desenrola no interior da alma humana, em contextos sociais marcados por desigualdade e angústia espiritual. Suas personagens vivem em ambientes turbulentos, onde a responsabilidade individual é constantemente posta à prova: pode o ser humano justificar seu erro pelas circunstâncias? A renovação nasce da confissão ou da punição? Suas obras revelam que a transformação ética começa quando o indivíduo enfrenta a si mesmo com honestidade dolorosa.

Albert Camus, por sua vez, abordou a moralidade em um mundo absurdo. Em seu romance “A Peste”, a epidemia torna-se metáfora do mal coletivo e da prova da consciência. As personagens não dispõem de certezas metafísicas que as tranquilizem, mas escolhem a solidariedade e a ação. A renovação ética aparece, assim, como um gesto cotidiano, uma insistência no sentido em meio ao absurdo.

Em outro contexto, o pensador indiano Rabindranath Tagore escreveu sobre a unidade entre o ser humano e a natureza, defendendo a superação do egoísmo nacional em direção a um horizonte mais amplo de humanidade. Sua visão não era política no sentido restrito, mas espiritual e cultural: a renovação começa pela reconciliação entre o eu e o mundo. Em tempos de disputa por poder e recursos, seu chamado à abertura e à tolerância soa como um convite ao reequilíbrio interior.

A filosofia árabe contemporânea também abordou essa questão sob diversas perspectivas. O pensador marroquino Mohammed Abed Al-Jabri propôs uma crítica da razão árabe e sua reconstrução sobre bases racionais, afirmando que qualquer renascimento ético exige a desconstrução das estruturas mentais que perpetuam o fechamento. O filósofo libanês Charles Malik, que participou da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, via na dignidade humana o alicerce de qualquer projeto ético moderno. Esses esforços demonstram que a renovação não é ruptura com a tradição, mas leitura crítica que abre novos horizontes.

Na era digital, a crise ética assume novas formas. A verdade se dispersa entre plataformas, e a opinião se converte em mercadoria. Nesse cenário, a honestidade torna-se uma responsabilidade ainda mais pesada. O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa recorda que a liberdade de expressão não é privilégio, mas compromisso. O escritor e o jornalista não podem se refugiar na neutralidade quando a dignidade humana está em jogo. A renovação ética implica redefinir a relação entre liberdade e responsabilidade, entre o direito de falar e o dever de verificar.

O trabalho também ocupa lugar central nesse debate. O Dia Internacional dos Trabalhadores destaca a dignidade das mãos que constroem, cultivam e cuidam. Em um mundo onde a riqueza é distribuída de forma desigual, reconhecer o valor do trabalho é um ato ético. O filósofo alemão Karl Marx identificou na alienação do trabalhador um sintoma de desordem moral na estrutura econômica. Sua análise não era apenas econômica, mas crítica à perda da humanidade em um sistema que transforma o indivíduo em instrumento de produção. Sob essa perspectiva, a renovação ética exige repensar as condições de justiça social.

A questão ambiental igualmente integra esse processo. O Dia Internacional da Biodiversidade nos lembra que a relação entre humanidade e planeta não é mera exploração, mas responsabilidade. O filósofo alemão Hans Jonas formulou o “princípio da responsabilidade” voltado às gerações futuras, defendendo uma nova ética capaz de reconhecer a fragilidade do mundo natural. Em tempos de crise climática, a renovação ética torna-se uma necessidade existencial ligada à preservação da vida em todas as suas formas.

Diante desses exemplos, torna-se evidente que a renovação ética não nasce de decretos, mas de transformações sutis na consciência. Ela começa quando o indivíduo compreende que sua identidade não anula a humanidade compartilhada, que sua força não legitima a dominação e que sua pertença não justifica a exclusão. Em tempos de divisão, pode ser tentador apegar-se ao interesse imediato; contudo, a história mostra que sociedades que negligenciam sua dimensão ética mergulham em ciclos de violência difíceis de romper.

Literatura, filosofia e ciência não são esferas isoladas da vida cotidiana, mas laboratórios de sentido. Quando um poeta escreve sobre a dor do outro, redistribui a luz sobre áreas esquecidas da consciência. Quando um cientista reflete sobre o impacto de nossas escolhas no planeta, coloca diante de nós um espelho do futuro. Quando um filósofo questiona justiça e liberdade, abre caminhos para reconstrução.

A renovação ética, portanto, não é luxo intelectual, mas condição para a sobrevivência do sentido em um mundo fragmentado. É um percurso que exige coragem para reconhecer erros, disposição para escutar e capacidade de imaginar um mundo que acolha a diferença sem convertê-la em conflito permanente. Talvez não transforme rapidamente os mapas políticos, mas transforma o ser humano que os desenha.

Ao final, permanece a pergunta suspensa no espaço da reflexão: se o mundo divide terras, riquezas e narrativas, seremos capazes de compartilhar também a responsabilidade e reconstruir uma ética comum que salve nossa humanidade da erosão ou permitiremos que a partilha se converta em fratura irreversível?

Taghrid Bou Merhi

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Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo: 'A justiça, na partilha da riqueza, é parte integrante do bem-estar'

Diamantino Lourenço R. de Bártolo

A justiça, na partilha da riqueza, é parte integrante do bem-estar

Uma sociedade justa, solidária e livre, certamente facilita o aumento da riqueza material do maior número dos seus cidadãos, desde que bem cedo na vida de cada um, se criem as condições para uma consciencialização coletiva de solidariedade e de justiça.

A distribuição equitativa dos bens materiais pelos cidadãos, quando tais riquezas são património, ou o produto de todos, constitui um imperativo universal, que as pessoas, as instituições e o Estado devem assumir. A distribuição das riquezas (materiais) quaisquer que sejam, conjuntamente com riquezas de natureza subjetiva, como a felicidade, a beleza, a religião e outras, em tudo o que for possível distribuir, seguramente contribuirá para um certo bem-estar geral e individual.

É claro que as elites, e o Estado é uma elite, no conjunto dos cidadãos que integram os seus diversos órgãos, têm uma posição que: tanto pode ser ajudar a reduzir as diversas misérias; como a agravá-las, sendo insensato e, em muitas situações injusto, excluir ou pretender acabar com tais elites, nem esse é o objetivo do presente trabalho, muito menos o pensamento do seu autor.

A distribuição da justiça implica, necessariamente, regras bem definidas e em todos os bens, que devem ser aplicadas, o contrário, conduziria à arbitrariedade, à parcialidade e, concomitantemente, à injustiça. Riquezas materiais e imateriais estão sujeitas, na sua distribuição, a critérios, habitualmente em função de binómios: existência-necessidade e situação-disponibilidade, também aqueles, assentes em valores ético-morais: liberdade, segurança, propriedade privada, solidariedade, paz, felicidade, obedecem a tais regras na distribuição, que em relação a determinadas riquezas são estabelecidas pelo Estado, pelas instituições, e/ou pelo próprio cidadão, de onde resulta que: «As regras da justiça prescrevem, inclusive, o respeito à liberdade.» (GOMES, 2000: 54).

O direito à justiça, nas suas múltiplas aplicações, não apenas no seu sentido mais divulgado, a justiça dos tribunais, mas em todas as dimensões da vida humana, constitui, por si só, uma riqueza insubstituível e que a par de outras, como a graça de Deus, a saúde, o trabalho, entre, ainda, muitas outras de diversificada natureza, que podem ser mais ou menos desejadas, definem o grau de desenvolvimento e bem-estar de uma comunidade, ou de uma pessoa.

Na circunstância, a justiça na distribuição da riqueza é parte integrante desse mesmo bem-estar, porque as pessoas, consideram-se objeto de um tratamento igual, face àquelas que são iguais, perante a lei. Exigir uma justiça igualitária, indistintamente da situação, necessidade, mérito e contributo de cada um para o bem-comum, tornar-se-ia numa autêntica injustiça, mas viver numa sociedade justa, tendo a justiça como valor orientador, para a distribuição de todas as riquezas materiais e imateriais, implica sólida preparação de todos os intervenientes da sociedade, e a todos os níveis de intervenção comunitária, o que eleva a justiça ao grau de outros valores superiores, porque: «A justiça representa um ideal de hierarquia superior». MACHADO, 1983:55).

A Justiça distributiva das riquezas materiais, e/ou imateriais, deve ser uma prática corrente em todas as elites, cujo exemplo e expoente máximos, se consubstanciam nos detentores dos cargos públicos do aparelho de Estado, seguindo-se, imediatamente, todos os agentes que, de alguma forma, têm um papel a um nível idêntico.

A par de outras medidas político-sociais-económicas, a distribuição justa das riquezas, por todos produzidas, impõe-se como um desígnio universal, que urge iniciar-se, desde já, como o principal contributo para acabar com as maiores chagas que envergonham a humanidade, dotada de recursos nunca antes disponibilizados, mas cada vez mais são manipulados e usufruídos por algumas elites.

Cada pessoa viverá, apenas, uma ínfima parte do tempo que a humanidade terá e já teve. Prepare-se, então, o futuro das gerações que sentem constantes dificuldades, e enfrentam as mais cruéis injustiças. Isto é o mínimo que as atuais gerações, nos diversos poderes: familiar, educacional, formativo, político, empresarial, económico, financeiro, cultural, religioso, têm o dever ético-moral de fazerem.

 

Bibliografia

 

GOMES, Maria Cristina Leite, (2000). “Johm Stuart Mill: Felicidade, Justiça e Liberdade, in: Phrónesis, Campinas: PUC-Pontifícia Universidade Católica, Vol. 2 (1) pp. 49-61, jan./jun., 2000

MACHADO, J. Baptista, (1983). Introdução ao Direito e ao Discurso Legitimador. Coimbra: Livraria Almedina

 

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

 

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