Vekinha mineirinha virou princesa!

Descubra, com Verônica Moreira, o que acontece quando o jeitinho mineiro de uma menina sonhadora cai para dentro das páginas de um clássico conto de fadas

Verônica Moreira
Verônica Moreira
Capa do livro infantil "Vekinha: A mineirinha que virou princesa", de Verônica Moreira. Ao centro, uma jovem princesa sorridente com vestido cor-de-rosa e coroa dourada, cercada por gnomos de jardim, com um castelo ao fundo.
Imagem criada pelo ChatGPT

Era uma vez…

Na cidade de Caratinga (Minas Gerais), havia uma menina muito bonita e simpática chamada Vekinha, todos a conheciam e sabiam o quanto ela era sonhadora. Chamavam-na de Mineirinha, porque ela tinha o dom de cativar a todos com seu jeitinho mineiro de ser.

Vekinha tinha um sonho lindo: sonhava ser uma princesa bailarina e ter asas cintilantes como de borboletas. Isso, porque ela queria voar muito alto, tão alto quanto pudesse. Ela queria conhecer melhor a cidade onde vivia.

Ela nunca havia subido no topo das montanhas, e havia um lugar que ela adoraria conhecer de perto: o topo da pedra Itaúna.

Sempre ouviu seus irmãos dizerem que era o lugar mais alto da cidade e, lá de cima, dava pra ver todas as belezas da região; a praça das palmeiras, o coreto do jardim, o monumento Menino Maluquinho e até a estátua do cantor caratinguense Agnaldo Timóteo.

Acontece, que Vekinha era muito sonhadora, e isso é o que movia seu coraçãozinho. “Afinal” – pensava ela -, “tudo que eu quiser, eu posso fazer, basta eu acreditar que é possível!”

Vekinha gostava muito de sua amiga Kaká. Elas se divertiam e trocavam livros. Amavam ler histórias de fada e princesas, rainhas e reis, barões e baronesas e todas essas histórias de realeza.

Elas decidiriam ir à biblioteca Municipal de Caratinga e pegar um livro muito interessante que fala de uma princesa que se chama Branca de Neve. A pobre princesa do livro foi vítima de inveja de sua madrasta malvada.

Às meninas decidiram ler o livro para depois compartilhar a história e o que aprenderam. Isso, porque, ao ler uma história, cada pessoa tem uma interpretação daquilo que leu.

Vekinha chegou em casa com o livro na mão e disse para sua mamãe Conceição:  − Mamãe, vou começar a ler este livro da Branca de Neve e os Sete Anões. Vou para o meu quartinho e não quero ser interrompida, tá certo?

A mãe de Vekinha ficou feliz, afinal, a leitura desenvolve a criatividade, a forma argumentativa, melhora nossa comunicação e ainda nos ajuda a compreender muitas coisas.

− Ah, Vekinha! Claro que você pode ficar no seu quanto, vou cuidar para que ninguém a incomode.

No seu quarto, Vekinha começou a ler a história, cheia de acontecimentos curiosos. Ela chegou na parte em que o caçador corre atrás de Branca de Neve na floresta e, de repente, no decorrer da leitura, Vekinha pegou no sono e deixou o livro cair no chão …

O quarto da menina se transformou em um cenário estranho. Havia uma floresta com uma casa bem pequena. Na casa moravam sete anões, sete homenzinhos simpáticos.

Vekinha se levantou da cama e caminhou até a porta da casinha pequena. Quando entrou numa sala muito apertadinha, viu um dos homenzinhos deitado no sofá. Ela se aproximou e percebeu que ele estava bravo. Muito bravo! Tanto, que seu rosto  ficou vermelho, como se fosse soltar fogo pelas ventas.

Vekinha perguntou: − Olá, nobre senhorzinho, poderia me dizer por que você está bravo assim?

O pequeno homem lhe respondeu:

 − Claro que posso! É que acabei de chegar em casa e mais uma vez deu tudo errado! Todos os dias pela manhã, eu subo para escalar a pedra Itaúna e, às vezes, uso cordas para tentar chegar ao topo, mas ao chegar quase lá, fico totalmente frustrado, pois minhas pernas são curtinhas e sempre permaneço a um passo para chegar e as cordas nunca são suficientes Acredito que eu preciso de uma ajudinha.

Vekinha compreendeu e disse para o anão que, dá próxima vez, iria com ele para ajudá-lo.

O anão agradeceu e perguntou o que ela estava fazendo ali.

−  Estou apenas lendo este livro e, de repente, vim parar aqui dentro dessa história! − respondeu, ainda confusa com aquela situação.

Vekinha perguntou:

− Qual é o seu nome?

Ele disse:

− Zangado, menina. E o seu nome?

− Meu nome é VEKINHA, senhor anão

− Seja muitíssimo bem-vinda, menina! Gostei de você!

− Ah, obrigada senhor Zangado, também gostei de conhecê-lo, mas você poderia me dizer como faço pra voltar pra minha casa?

− Pra voltar para a sua casa eu não sei menina, mas você pode passar a noite aqui e me ajudar a escalar a pedra Itaúna amanhã. Se eu conseguir, prometo que a ajudo a voltar para casa.

Vekinha achou melhor não contrariar o anãozinho, porque, afinal, ele já estava zangado.

− Combinado… Eu fico aqui e amanhã bem cedo o ajudo. Vekinha ficou surpresa, pois não imaginava que numa floresta tão grande poderiam alcançar aa pedra Itaúna qu, até então só existia em sua cidade. Será só uma coencidência? Pensou ela…

De repente, Vekinha ouviu um ronco muito alto vindo da varanda da casinha e foi se aproximando para ver o que era. Avistou outro homenzinho, outro anão. Assustada, ela exclamou:

− Outro homenzinho!

Zangado disse a ela que não precisava ter medo, o anão era seu irmão, Soneca, que vivia dormindo por todo lugar, pobrezinho, mal conseguia trabalhar, pois vivia com sono. Vekinha achou melhor não acordá-lo, mas ele deu um pulo como se estivesse fingindo, e questionou:

− Quem é essa menina estranha? De onde veio essa criatura?

Zangado respondeu:

− Calma, Soneca, é só uma amiguinha que acabei de conhecer e que vai se hospedar aqui em casa até amanhã de manhã!

Como zangado era muito bravo, Soneca não o contrariou.

− Tá bom, pode ficar menina, mas não faça barulho, porque eu preciso dormir.

Vekinha saiu de fininho, “pé por pé” e viu uma porta que levava para um corredor. Viu uma cadeira de balanço e nela estava mais um homenzinho. Ela se aproximou, enquanto ele acariciava um gatinho, e perguntou:

− Você gosta de animaizinhos?

O homenzinho, assustado, pulou da cadeira e disse:

− Quem é você?

Vekinha chegou bem perto, acariciou sua barba enorme, e esclareceu:

 − Não se assuste, amiguinho, eu sou hóspede do senhor Zangado, e o vi sentado na cadeira. O senhor parecia tão bonzinho, que deu até vontade de lhe dar um abraço.

Dengoso se derreteu todo e, com às bochechas avermelhadas, disse a Vekinha:

 − Ah, menina! Perdoe esse meu jeito desajeitado. Pode ficar à vontade. Sinta-se em casa. Mas eu posso fazer um pedido?

− Claro que sim, senhor!

− Poderia fazer um cafuné na minha barba?

Vekinha se aproximou novamente e o acariciou com suas mãos de fada.

Dengoso ficou todo empolgado com o jeitinho doce da hóspede e a convidou para tomar um café. Foram à cozinha e, chegando lá, encontraram mais dois anões, que, ao vê-la, deram um salto da mesa e, com olhos arregalados, perguntaram:

− Quem é essa criatura desengonçada?

 Vekinha se chateou, e questionou:

− Desengonçada, eu? Respeitem-me, por favor! Sou apenas uma menina do interior, não precisam me ofender. Desengonçada eu não sou!

Dengoso, tomando as dores da menina, disse aos irmãos:

− Calma gente, essa é a Vekinha, ela veio parar aqui por acaso, mas não tem onde dormir. Podemos hospedá-la esta noite, afinal, lá fora está muito frio, e olhem como ela é frágil, pode pegar um resfriado e morrer!

Os irmãos concordaram, e responderam:

– Então tá bom, mas somente esta noite, mas temos uma condição: você fica, mas vai preparar o jantar…

Vekinha respondeu:

− Eu faço o jantar, não tem problema! 

De repente, o homenzinho soltou um espirro: atchim!

−  Você está gripado ? − perguntou Vekinha. − Quer que eu faça um chá?

O anão respondeu:

− Não precisa de chá, eu me chamo Atchim, e por isso eu espirro assim!

−  Ah, prazer, senhor Atchim!

− O prazer é todo meu, querida! Agora você pode se sentar que eu mesmo irei servir o seu café.

Vekinha se sentou e, percebendo que o outro anão estava muito calado, decidiu perguntar o seu nome:

−  Como você se chama?

O homenzinho respondeu. morrendo de rir:

−  Eu sou o Feliz, e estou muito contente por tê-la aqui na nossa casa. Vou até cantar uma música para alegrá-la:

Vekinha feliz, lá,lá lá lá lá!…

Se quiser podemos dançar!!

Me concede essa dança, princesa?

Vekinha ia se levantar para dançar com seu feliz cavalheiro anão, quando, de repente, ouviu um grito:

− Nem pensem em levantar-se dessa mesa! Não é hora de jantar. Vamos tomar o nosso café, porque precisamos trabalhar bem cedo. E você, mocinha, precisa cozinhar, portanto, tome logo esse café!

− Quem é você, senhor? −  perguntou Vekinha.

− Eu sou o Mestre. Aqui ninguém faz nada sem minha permissão, e eu não dei permissão para você dormir aqui, exceto se você me pedir com muito jeitinho. Aliás, implore!

− Eu não vou implorar! −  disse Vekinha.

− Então, vá embora! – gritou Mestre, bravo.

O outro anão ouvia a conversa e veio do quintal, dizendo:

−  Acalme-se Mestre! Nós não podemos deixar esta menina solta na floresta, pois as feras podem devorá-la, e isso seria muita maldade da nossa parte. Devemos dar abrigo a esta menina, mas somente esta noite!

Todos concordaram, e Vekinha agradeceu o simpático senhor anão, perguntando seu nome.

Ele disse: meu nome é Dunga. Seja muito bem-vinda à nossa casinha, e agora vamos tomar café.

− Certo. E onde está a cafeteira?  − perguntou Vekinha. Porém, quando, olhando para a pia, percebeu que o café foi coado numa meia suja e “chulezenta”, disse imediatamente:

− Eu não vou tomar esse café e nem vocês irão! Vou fazer um café novo, mas antes me arrumem uma agulha e um pano limpinho.

Os anões buscaram agulha, linha e um pano limpo. Vekinha cortou com a tesoura e fez um coador de café, costurou e, finalmente terminando a obra, foi até o fogão, ferveu a água e passou o café no coador novinho que fez para os anões. Eles ficaram muito gratos e, juntos, beberam aquele delicioso café, feito pelas mãos de uma mineira de “mão cheia”.

Vekinha nasceu no interior de Minas Gerais, na cidade que ela amava e que se chamava Caratinga. A cidade era conhecida por ser uma região muito importante para a produção do café, e, por isso, todos amam o café mineiro.

Os anões ficaram tão felizes, que convidaram Vekinha para morar com eles para sempre, mas Vekinha agradeceu dizendo que ama muito sua família e não poderia ficar longe nem um dia mais.

Os anões compreenderam e fizeram de tudo para agradar a menina, afinal, nunca haviam provado um café tão saboroso quanto o café de Vekinha.

A noite veio chegando e, enquanto Vekinha cozinhava um guisado de chuchu com pedacinhos de carne de boi, arroz, feijão preto e um anguzinho à moda mineira, os anões ficaram cheios de água na boca com o cheirinho da comida de Vekinha, que fez todo com muito amor, afinal, os anões a tratavam com muito carinho; inclusive, arrumaram a melhor cama da casa para ela pernoitar.

E chegou o grande momento! Vekinha chamou todos para jantar, deliciando-se com aquele guisado. Depois que estavam todos de barriga cheia, Vekinha leu uma história muito bonita sobre um “Menino Maluquinho”, personagem do livro de Ziraldo Alves Pinto, que foi um grande escritor e cartunista que morou na cidade de Vekinha, na amada Caratinga.

Os sete anões ficaram deslumbrados com a história e queriam ouvir mais histórias, mas Vekinha já estava morrendo de sono. Quando, finalmente, adormeceu no sofá, os anões, com muita dificuldade por serem muito pequenos, levaram-na pra cama e a deitaram, indo cada um pra sua caminha, pois, no dia seguinte, teriam que trabalhar bastante e Vekinha precisava voltar para sua casa.

Os anões, por sua vez, ficaram imaginando como seria essa cidade de Vekinha, sabiam que a culinária era maravilhosa, já que nunca haviam provado uma comida tão saborosa como a dela. Dormiram, sonhando com a possibilidade de um dia poderem conhecer mais dessa cidade maravilhosa.

No dia seguinte, Vekinha acordou cedo e fez novamente o café, mas percebeu que os anões não estavam em casa. Saiu pela floresta, gritando: Mestre! Dunga! Atchim! Soneca! Feliz! Dengoso! Zangado! Cadê vocês todos! Venham tomar café!

Os anões desceram da montanha às pressas e foram ao encontro de Vekinha, tomaram o café e comeram pão de queijo que acabavam de sair do forno, sairam satisfeitos com tamanha gostosura e disseram pra Vekinha  ficar quietinha dentro de casa até o horário do almoço, que eles voltariam para ajudá-la a ir pra casa dela.

Disseram ainda:

− Vekinha, não abra a porta para ninguém, não temos amigos por aqui, mas temos um inimigo, na verdade, uma bruxa muito má que tentou matar a Branca de Neve. Isso foi há muito tempo. Branca de Neve também era nossa hóspede, e igualmente perdida na floresta e a bruxa veio, disfarçada como uma velhinha e deu uma maçã envenenada para ela, de modo que, ao comer a maçã, Branca de Neve entrou em um sono profundo. Todavia, graças a um príncipe que a beijou, o feitiço da bruxa foi desfeito e a Branca de Neve se casou com o príncipe e foi feliz para sempre!

Portanto, VEKINHA, como a Branca de Neve foi morar no reino com o príncipe, nós iremos adotar você como nossa princesa!

Vekinha se sentiu muito emocionada, de forma que às lágrimas de felicidade começaram a escorrer por sua face. Os anões a abraçaram e eles se alegraram juntos. Vekinha, então, disse para os anões que não se preocupassem, pois ela nem gostava de maçã; ela amava comer  era amoras e ficaria atenta caso alguém quisesse lhe oferecer algo para comer.

Os anões foram até a floresta e fizeram uma coroa para Vekinha com folhas de amoras. A coroa ficou linda e Vekinha ficou muito feliz por ter sido coroada como Princesa do Reino da Floresta e protetora do meio-ambiente e  das riquezas culturais de sua Minas Gerais.

Os sete anões voltaram ao trabalho e Vekinha resolveu deitar e dormir um pouco. Adormeceu rapidamente ouvindo o cantar dos passarinhos na janelinha do quarto dos anões. De repente, ouviu um grito: Vekinha!!!

− Acorda menina, você já está atrasada pra ir pra escola, deve ter lido o livro inteiro durante a noite, não é possível!

Vekinha acordou, olhou em volta e não viu mais a casinha na floresta. Percebeu que já estava novamente em casa e que precisava se apressar, pois queria contar pra sua amiga Kaká o que havia acontecido com ela naquela noite. Era como se ela tivesse entrado naquela história.

Feliz com o que aconteceu, Vekinha indagou: “será que fui mesmo coroada e agora sou uma princesa?” Ao sair às pressas, Vekinha tomou uma xícara de café na cozinha e se despediu da mãe,  com a mochila e o livro na mão.

A mãe perguntou:

− Conseguiu ler o livro todo, Vekinha?

− Não mamãe, eu não li o livro todo, mas pude viver uma grande aventura com o pouco que li, mas depois te conto tudo! Bença, mamãe. Tô indo pra escola; ah, se encontrar uma coroa com folhas de amoras, a senhora guarda pra mim com muito carinho. Até mais, mamãe. Até mais, amiguinhos! 

Verônica Moreira

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