Lembro-me bem, escrevi meu primeiro poema com uma faca: na pistacheira, meu nome junto ao nome daquela garota: Bahtiyar + fulana = amor. Naquela época, não era difícil imprimir: faca, floresta e “guarda florestal — editor”.
Depois escrevi meu poema com carvão. Desenhei corações nas paredes, e flechas cruzadas atravessavam aquele coração. Depois, trocaram a faca por uma caneta. Naquela época, o guarda florestal não dizia nada, mas os editores encontravam cem desculpas. Aqueles editores que não conseguiam ser poetas tornaram-se editores por necessidade.
… O pastor disse: “Suas ovelhas deram cria!” Como eu tinha pressa de ver o cordeiro recém-nascido! Agora, não tenho pressa de comprar na banca o jornal em que meu poema foi publicado. Sei que o editor mudou alguma coisa.
Eu cresci. Os canalhas escreveram “poemas” com uma faca nas minhas costas. De fato, acertaram meu coração com uma flecha. Aquele guarda florestal já não existe, nem aquele pastor, nem aquele tempo, nem aquela amada, nem aquele amor, nem aquela pureza. Nem aquela floresta… Derrubaram aquela floresta e fizeram jornais. Mentiras são escritas nesses jornais, e são publicados os poemas daqueles que não conseguem ser poetas. Nesses jornais, somente o dia do mês está correto. Derrubaram aquela floresta e extraíram carvão. Devoram meus sonhos como se fossem espetinhos de carne.
Agora, a situação é esta: Bahtiyar + tristeza = tristeza ainda maior. Em suma, como um cordeiro órfão, sou um anjo. Esta ainda é uma boa situação — ninguém apontou uma faca para minha garganta. Meu primeiro amor permaneceu como uma ferida no tronco daquela árvore. Os opressores também a destruíram. Os muros que eu havia construído ao redor daquele coração desmoronaram; aqueles muros caíram sobre as lembranças.
… Devoram meus sonhos como se fossem espetinhos de carne. A fumaça deles me cegou. Não consigo encontrar um muro em que me apoiar para caminhar, mas, para mim, o mundo se tornou quatro paredes. E esqueci o tempo — graças a Deus, existem aqueles jornais. Olho para o dia do mês — o dia de um mês desconhecido, o dia de um mês desconhecido.
Um conto lindíssimo, com um tema muito forte: a perda de uma pessoa querida.
De uma forma muito sensível e consciente a autora nos coloca no cerne da situação por ela vivida, porém, de uma forma fictícia, para nos levar a uma reflexão sobre nossos sentimentos mais profundos em relação ao luto.
O choque da notícia, a negação, a aceitação e a saudade são abordadas com uma delicadeza ímpar.
Um conto lindo, que me emocionou demais!!
Eu super recomendo!
Leiam!
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SINOPSE
Este conto é uma homenagem à minha avó, Enedina.
Dividido em cinco partes que narram os estágios do luto, ‘(In)Quietude’ traz superstições e costumes nordestinos, dedicando músicas tão nossas em cada capítulo.
“Porque memórias não morrem, a menos que alguém as esqueça.”
SOBRE A OBRA
Esta obra, escrita em menos de uma semana, é uma homenagem para Dona Enedina, a avó da autora.
Ela nos conta que normalmente se sentia insegura com relação as suas escritas, mas com essa história foi tudo muito certo e simples.
No conto, ela não nos traz a história real de sua família, as personagens são fictícias apesar de que os sentimentos são dela.
Antônia imaginou a realidade de uma família formada apenas por mulheres onde a avó, que é o pilar principal, se foi e como irão continuar a partir dali. As personagens não têm nome e nem descrições físicas na intenção de que qualquer um possa se identificar.
SOBRE A AUTORA
Antônia Rainara
Antonia Rainara Oliveira Carvalho tem 21 anos, nascida em Sigefredo Pacheco, no Piauí.
Formada em Design Gráfico e trabalha como ilustradora.
AQUI TEM VIDA DEMAIS convida público infantil a pensar sobre a morte
O espetáculo de estreia da companhia teatral CASCA cria espaço de troca a partir das experiências de perda, luto, consciência sobre a morte e do medo da finitude da vida
O tabu de falar sobre a morte com crianças é deixado de lado na peça Aqui Tem Vida Demais, com dramaturgia de Bruno Canabarro e direção de Rodolfo Amorim. O espetáculo estreia no dia 8 de outubro no Sesc Ipiranga, onde segue em cartaz até 2 de novembro, com apresentações aos domingos e feriados, às 11h (sessões extras para grupos fechados acontecem nos dias 18 e 19/10).
A ideia de montar a peça surgiu em 2019, quando os idealizadores Bruna Betito e Bruno Canabarro, que dão aulas para crianças há muitos anos, conversavam sobre seus estudantes e suas surpreendentes histórias. O projeto nasce justamente de um desses casos: um dos alunos de Bruna mandou para ela um áudio falando sobre um infeliz incidente que o fez matar “sem querer” um peixinho ao jogá-lo na privada.
Depois de se divertirem com essa narrativa tragicômica, eles se concentraram em organizar diversos materiais literários e audiovisuais que pudessem ajudar na construção da dramaturgia. Um ano depois, o mundo foi afetado por uma pandemia e o Brasil, sufocado por tantas mortes. Assim, o projeto tomou outros rumos com a impossibilidade de ser montado naquele contexto.
O elenco, além de Betito e Canabarro, conta com a participação de Paula Spinelli. Em cena, ainda estão Gabi Queiroz e Demian Pinto / Clara Kok (stand-in), que interpretam as canções originais da peça ao vivo.
Aqui Tem Vida Demais! é um espetáculo para todas as idades, todas as infâncias, todas as pessoas vivas que sabem que a morte existe e pode estar por perto. Também permite que se criem espaços de trocas, diálogos, imaginação e fantasias a partir da perda, do luto, da consciência sobre a morte, do medo… sentimentos naturais quando tratamos da finitude da vida.
A trama conta a história dos irmãos Maria e Mário, crianças que precisam lidar com a morte sozinhas, longe de casa. Na tentativa de compreender o porquê se morre, o que acontece quando se morre e por que há tanta morte pela vida, as crianças acabam por ter que encarar a Morte de frente, cara a cara, em diversas faces, até conseguirem elaborar o luto, a perda e a descoberta do fim.
Num jogo entre o seguir-em-frente e o olhar-para-trás, as duas crianças embarcam numa ousada tarefa de buscar pistas que revelem o que é isso de algo ou alguém, PUF, desaparecer.
Sem partir das questões religiosas que estão coladas socialmente à ideia de morte, o espetáculo propõe que os espectadores criem as próprias ideias sobre o que é morrer, para onde vai quem morre e as infinitas possibilidades de ressignificação que podemos criar sobre a Terra.
Contudo, Aqui Tem Vida Demais! não vai em busca da Morte para desvendá-la ou enfrentá-la, ao contrário, apresenta caminhos para que nos concentremos na vida, no encontro com a novidade e a gravidade que é viver, enxergando que há vida, sim, mesmo no escuro.
FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Bruno Canabarro
Direção: Rodolfo Amorim
Elenco: Bruna Betito, Bruno Canabarro e Paula Spinelli
Música ao vivo: Gabi Queiroz e Demian Pinto / Clara Kok (stand-in)
Música original: Gabi Queiroz e Demian Pinto (música) / Bruno Canabarro (letra)
Cenário: Rodolfo Amorim
Figurinos, adereços e bordados no cenário: Felipe Cruz
Flores de tricô: Rodrigo Carvalho e Frida Braustein Taranto
Iluminação e operação de luz: Daniel Gonzalez
Identidade visual e animações: Fernanda Zotovici
Vídeo mapping: Vic Von Poser
Preparação de elenco: Antônio Januzelli
Consultoria em psicanálise: Rafael Costa
Contrarregragem e cenotécnica: Lucas Asseituno
Bonecos: Edson Gon
Objetos cênicos: Zé Valdir
Direção de produção: Andréa Marques
Produção executiva: Fani Feldman
Assistente de produção: Bruna Betito
Fotografia: Camila Rivereto
Idealização: Bruna Betito e Bruno Canabarro
Realização: Sesc SP
SERVIÇO
Aqui Tem Vida Demais
Temporada: 8 de outubro a 2 de novembro, aos domingos e feriados (12/10 e 2/11), às 11h. Apresentações extras acontecem nos dias 18 e 19/10, às 10h e às 15h (apresentação para grupos agendados)
Sesc Ipiranga – Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga
Ingressos: R$ 25,00(inteira), R$ 12,50 (meia-entrada) e R$ 8,00 (credencial plena). Crianças até 12 anos não pagam.