Inexprimível
Bruno Marquês Areno: Poema ‘Inexprimível’


Se um dia precisei de coragem,
não foi para conquistar o mundo,
mas apenas para ser
o pouco que me cabia.
E falhei.
Falhei por descuido,
como quem deixa cair a própria vida
sem sequer ouvir o impacto.
Viver
não é senão a amarga doçura
de morrer lentamente.
Hoje, uma dor discreta.
Amanhã,
meia dúzia de sangues silenciosos
a correr por dentro,
sem testemunha.
Depois,
lágrimas em quantidade suficiente
para salgar o corpo inteiro
como se a tristeza
fosse o único modo de me conservar.
E então a voz cede.
Primeiro vacila.
Depois falha.
Por fim, esquece.
A boca desaprende o gemido.
E o gemido ainda que imperfeito,
ainda que desafinado
era o último instrumento
capaz de sustentar a dor.
Quando até isso se perde,
já não há tradução possível da dor .
E sem tradução,
a dor deixa de existir
porque deixa de ser dita.
E sem dor,
não há mais nada:
nem choro,
nem riso,
nem lágrima.
Nem sequer o corpo
para carregar o que resta de nós