O Altar da hipocrisia

Ramos António Amine: ‘O Altar da hipocrisia’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada por IA do Grok - 02 defevereiro de 2026, às 09:45 PM - https://grok.com/imagine/post/8d3dced0-331a-49f0-9408-43a9deb2f69a
Imagem criada por IA do Grok – 02 defevereiro de 2026, às 09:45 PM – https://grok.com/imagine/post/8d3dced0-331a-49f0-9408-43a9deb2f69a

Toda sociedade forja os seus altares. Alguns são visíveis, feitos de pedra ou madeira, de púlpito e discurso moral. Outros são invisíveis, mas mais eficazes: sobrevivem da rotina diária, do cansaço coletivo, da indiferença, da neutralidade e da conveniência. É nesses altares que celebra-se diariamente a hipocrisia como excelência.

No altar da hipocrisia, a prostituta é oferecida em sacrifício. Não para a sua redenção, mas para sustentar a ilusão de que os que assistem ao teatro são puros. O seu cálice contém um vinho que só serve à autoridade. O seu corpo torna-se a caça simbólica das culpas alheias, a sua existência, um sinal conveniente de que o mal está sempre fora, nunca no centro do sistema.

A liturgia é conhecida. Condena-se em público o que se consome em privado. Defende-se a moral com a boca e viola-se com o desejo. O mesmo altar que exalta família, solidariedade e bons hábitos e nobres sentimentos sustenta-se sobre a exploração silenciosa daqueles que nunca tiveram acesso a nenhuma dessas promessas.

Nesse ritual, o cliente ajoelha-se apenas para rir da prostituta estendida nua no altar, nunca para assumir a culpa de ter aplaudido o sacrifício que ajudou a imolar. A autoridade ergue-se na neutralidade, legisla seletivamente e clama pela ordem ao que é apenas manutenção de privilégios. A sociedade aplaude, confortada pela distância cínica que construiu entre si e as suas próprias incoerências.

O altar da hipocrisia exige vítimas eternas: visíveis, mas não reconhecidas; abusadas e depois descartadas; toleradas na prática e julgadas no discurso. Precisa de corpos baldios para provar a própria virtude. Precisa de escândalos controlados para justificar a repressão e de pecadores confessos para esconder corrupções visíveis. Assim, a prostituta não é um acidente social, mas a substância preciosa do teatro moral.

No altar, ri-se da decadência, mas não se fala dos decadentes. Fala-se de escolhas, mas silencia-se a voz da prostituta que insiste em gemer mesmo em plena imolação. Fala-se de valores, mas ignora-se quem nunca teve condições para exigi-los. A hipocrisia não falha por ignorância; falha por cálculo.

Contudo, o altar começa a rachar quando a vítima recusa carregar sozinha o peso da culpa. Quando a prostituta levanta a voz, mesmo durante a comunhão dos ímpios, expõe as falsas promessas dos que sugam da sua própria miséria. Quando deixa de ser símbolo da decadência moral e passa a ser sujeito que ri da hipocrisia social. Nesse momento, o ritual perde eficácia e a moral encenada revela a sua própria decadência.

O verdadeiro escândalo não é o corpo da prostituta exposto no altar, mas a frieza com que a sociedade o contempla, revelando a sua incapacidade de assumir a própria hipocrisia, enquanto ainda exige cânticos silenciosos nos autos da santa feia. O altar da hipocrisia não precisa ser destruído pela força; basta retirar-lhe o silêncio cúmplice que o alimenta.

No fim, sobrevive uma verdade desconfortável: enquanto houver altares forjados à conveniência moral, haverá prostitutas sacrificadas em nome de uma excelência decadente. E talvez o maior ato ético do nosso tempo não seja erguer novos altares, mas recusar ajoelhar-se diante dos que já existem, pois a recusa é a virtude original do homem. Quem lê a história humana com a mesma frieza com que a ética da opulência observa a vítima, corrobora.

Ramos António Amine

Voltar

Facebook




O cálice da prostituta

Ramos António Amine: Conto ‘O cálice da prostituta’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagen criada por IA da Meta
Imagem criada por IA da Meta – 27 de janeiro de 2026, às 20h04

A sociedade oferece à prostituta um cálice amargo e exige que ela o beba em surdina. Não se interessa em saber se ela tem sede, nem se é o vinho que ela prefere. Apenas a observa, de longe, e moraliza o acto. O cálice é pesado, mas a sentença é suave demais para quem nunca escolheu tocá-lo.

Esse cálice não ostenta prazer, como gostam de insinuar os hipócritas que a condenam. Contém medo, fome, dívidas, violência, abandono e um futuro hipotecado antes mesmo de ser sonhado. É o cálice da sobrevivência num mundo que transforma aflições em crimes e vítimas em estúpidas.

Quando a prostituta bebe o cálice, a sociedade lava as mãos. Afirma-se pura, intacta, moralmente superior. Mas esquece que foi ela quem preparou o vinho, quem forjou o copo, quem empurrou a mão trêmula que o ergueu. O cálice nunca foi escolha individual; foi imposição histórica.

Há uma feia liturgia nesse ritual. A prostituta é sacrificada diariamente para que a ordem social continue ostentando pureza. O cliente chupa das tetas de quem a sociedade finge desprezar; a autoridade sobrevive de impostos, fecha os olhos e prega bons costumes; a retórica pública condena aquilo que o desejo privado sustenta.

O cálice da prostituta denuncia, assim, uma verdade incômoda: a moral dominante não é ética, é opulência. Julga o corpo exposto, mas protege as estruturas que o expõem. Escandaliza-se com a carne da prostituta estendida no altar da hipocrisia, mas normaliza a dignidade roubada.

Beber esse cálice não inocenta ninguém. Apenas evidencia a brutalidade de um sistema que exige sacrifícios humanos para manter intacta a sua opulenta civilizada. A prostituta não é vítima por vocação divina, mas por abandono social. Não é pecadora por escolha, mas por coerção social.

E, ainda assim, ela resiste. Cada vez que a prostituta recusa a culpa que lhe foi imposta, o cálice treme. Cada vez que transforma dor em voz, sobrevivência em denúncia, o vinho derrama-se. O ritual falha. A hipocrisia expõe-se.

O cálice da prostituta não precisa ser bebido para sempre. Ele pode ser quebrado. Mas isso exigiria que a sociedade olhasse para si mesma sem perucas, admitisse a própria participação no sacrifício e aceitasse que a salvação, caso exista, não virá da condenação dos corpos vulneráveis, mas da transformação das estruturas que os tornam repulsivas.

No fim, o cálice permanece sobre o altar da hipocrisia, não como símbolo de culpa da prostituta, mas como prova da decadência moral de quem o colocou ali.

Ramos António Amine

Voltar

Facebook




A prostituta ressuscitada

Ramos António Amine: ‘A prostituta ressuscitada’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada por IA do Grok - 21 de janeiro de 2021, às 07:45 PM - https://grok.com/imagine/post/80c83328-2e66-4bc9-8a23-f5c0d2bef7ab
Imagem criada por IA do Grok – 21 de janeiro de 2021, às 07:45 PM – https://grok.com/imagine/post/80c83328-2e66-4bc9-8a23-f5c0d2bef7ab

A sociedade foi programada para dar respostas rápidas a problemas complexos. Rotular alguém de prostituta tornou-se, ao longo do tempo, uma dessas respostas fáceis, uma forma insípida de encerrar qualquer debate sobre injustiça, estupros precoces, desigualdade, pobreza, violência e exclusão social. O rótulo basta. O contexto histórico deixa de importar.

A prostituta ocupa um lugar tão trivial quanto contraditório na ordem social. É visível, mas não reconhecida; abusada, mas descartada; tolerada na prática, condenada no discurso. Ela denuncia aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e depois pune quem cai neles.

Ninguém ousa questionar como ela chegou ali. A pergunta que vem à tona é sempre por que não sai. Como se sair fosse apenas uma questão de vontade e não de oportunidades. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a pobreza não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram plenamente.

A prostituta é imediatamente concebida como símbolo de decadência moral. Entretanto, a verdadeira decadência revela-se na hipocrisia social que absolve o cliente e condena a prostituta; que beija em surdina a boca da prostituta, mas a julga em voz alta. Nesse cenário, a prostituição nunca é causa, mas corolário de um mundo que preferiu vender tudo, inclusive a dignidade humana.

É nesse ponto que se dá a ressurreição.

A prostituta ressuscita quando cansa de ser apenas produto e passa a ser voz. Quando reconhece que há um sistema que a empurrou para a quinta dos ímpios e deixa de ser mero objeto de excitação ou repulsa dos próprios ímpios. Ressuscita quando descobre que a vergonha que lhe cobre o rosto nunca foi criação sua, mas obra de uma sociedade incapaz de assumir as próprias incoerências.

Essa ressurreição nada tem a ver com religião, muito menos com mito. É social e política. É o renascer de uma consciência que, ao longo do tempo, foi mantida refém de uma estrutura que sobreviveu do silêncio cúmplice. É a recusa em carregar sozinha o peso da culpa de uma autoridade que aplaude a exclusão e, depois, condena os seus efeitos para deles se afastar.

Em essência, a prostituta nunca esteve morta. Morta estava a sensibilidade coletiva que escolheu condená-la sem compreender a sua história. Morta estava a ética que exige pureza e inocência de quem nunca teve escolhas, enquanto normaliza a corrupção moral de quem pode pagar para sugar as tetas da prostituta.

A prostituta ressuscitada não pede salvação. Solicita humanidade. E, ao fazê-lo, interpela-nos com uma pergunta desconfortável, mas necessária: quem, afinal, precisa de salvação: ela ou a sociedade que a forjou?

Ramos António Amine

Voltar

Facebook




Bárbara dos Prazeres

Maze Oliver: ‘Bárbara dos Prazeres’

Maze Oliver
Maze Oliver
Imagem criada por IA do Grok

A história de Bárbara Vicente de Urpia aconteceu no século dezenove. O cenário, a praça 15, centro do Rio de Janeiro.

Conta-se que a belíssima Bárbara foi uma imigrante portuguesa que viveu uma vida de luxo, horror e mistério. Reza a lenda, que Bárbara matou com as próprias mãos, o RICO marido português, ao se apaixonar por um belo negro, ex escravo. Para esconder as provas do crime, botou fogo na mansão onde morava e foi viver sua paixão em outro lugar. Tempos depois, o amante morreu em uma briga de rua, por ciúmes de Bárbara. Atormentada com o ocorrido, ela voltou para o centro da cidade. Porém agora pobre, virou prostituta!

Ali, viveu seu reinado. Foi a mulher mais disputada do Arco do Teles. Anos mais tarde, devido à idade e as doenças que adquiriu na profissão, perdeu a beleza e o encanto. Foi quando iniciou sua saga para recuperar a juventude. Acreditando no poder da magia, passou a fazer rituais macabros! Se banhava, com sangue de clientes e também das criancinhas que ela raptava da Roda dos enjeitados, na Santa Casa de Misericórdia.

A fama de Bárbara se espalhou pelo lugar, gerando pânico e terror! A polícia passou a caçar a vampira, mas foi inútil. Ela sempre se escondia, como num passe de mágica. Um dia, Bárbara simplesmente desapareceu! Ninguém sabe o que aconteceu e até hoje, o Arco do Teles é mal-assombrado. Os visitantes ouvem à noite o choro das criancinhas e as gargalhadas de uma mulher.

Esta é a lenda urbana mais famosa do Rio de Janeiro-Colonial, Bárbara dos Prazeres, a Bruxa Vampira do Arco do Teles.
Como alguns sabem, sou Psicanalista e esta lenda urbana faz parte da minha pesquisa sobre psicopatas e serial Killers.

Apresentada com performance e leitura dramatizada no Memorial dos Autonomistas, na minha estada em Rio Branco-Acre (15.11.2025), por ocasião do aniversário de dez anos de fundação da Sociedade Literária Acreana-SLA e 88 anos da AAL.

Versão por Maze Oliver (adaptação de outras versões).

Maze Oliver

Voltar

Facebook




Mariposas e borboletas

Sergio Diniz da Costa: Crônica ‘Mariposas e borboletas’

Sergio Diniz
Sergio Diniz
Imagem gerada com IA do Bing ∙ 23 de setembro de 2024 às 4:30 PM

O centro das cidades, nos dias úteis e no horário comercial, concentra uma quantidade significativa da população que, em sua roda-viva diária, dirige-se ao trabalho, às compras, para realizar algum negócio específico ou, ainda, simplesmente, como alguns aposentados, sentar nos bancos da praça para prosear ou apreciar a movimentação das pessoas.

 Eu sempre gostei de andar pelas ruas do centro da minha Sorocaba. Principalmente após a aposentadoria e, com ela, me dedicar exclusivamente à carreira literária.

 Uma das vantagens de não precisar mais ‘matar um leão por dia’ ─ prática essa metaforicamente incorreta, aliás! ─ é, justamente, ter a liberdade de se fazer o que mais gostamos. No meu caso, observar as pessoas, tentando captar o que pensam ou sentem. Um verdadeiro trabalho de ‘investigador da alma humana’!

Há algum tempo, comecei a observar uma, em particular. Uma mulher! Postada sempre na mesma esquina, da mesma rua. Todavia, sem qualquer produto visível, supostamente sendo colocado à venda.

Idade imprecisa, nem jovem ou velha, demais.

O corpo, muito longe do que, hoje, parece ser ─ ou fazem-nos acreditar que o seja ─ o ‘ideal’, ditado pela Moda.

As roupas, aparentemente de grife nenhuma e um tanto quanto exíguas, deixando à mostra um pouco mais aquilo que pessoas mais recatadas e conservadoras considerariam ‘aceitável’.

O rosto, carregado com uma maquiagem feita sem arte, talvez por ter sido produzida com produtos baratos ou por pura falta de conhecimentos desse ofício.

O rosto, refletindo um brilho no olhar que me pareceu enigmático, e um sorriso que, num primeiro momento, me pareceu malicioso.

E ali, na mesma esquina, da mesma rua do centro, ela parece mais um detalhe da paisagem urbana. Um detalhe que, provavelmente, poucos notam ou se detêm nele.

O olhar brilhante e o sorriso, misteriosos, maliciosos, porém, aos poucos foram me mostrando que se detinham em algumas pessoas em especial: os homens!

Ao ter essa percepção, finalmente percebi a realidade de sua presença: ela era o próprio produto colocado à venda! E, imediatamente, lembrei-me da primeira vez que ouvi um adjetivo aplicável a esse tipo de mulher: ‘mariposa’!

Mariposa! Mariposa!… Uma mariposa ali, no centro da cidade.

E em plena luz do dia!

Passei, então, a refletir sobre a palavra e do inseto que a representa. E me lembrei de uma aula de Biologia, quando estudávamos os insetos.

As mariposas ─ as de maior tamanho, também conhecidas como ‘bruxas’ ─, fazem parte da ordem científica Lepidoptera, que significa ‘asas escamosas’. O nome deriva das escamas que caem das asas em forma de pó quando tocadas. A maioria delas tem hábitos noturnos.

Lembrei-me, também, que as mariposas têm muito em comum com as borboletas. Ambas fazem parte da mesma ordem científica e começam suas vidas como lagartas famintas antes de se transformarem em suas versões adultas, voadoras. E ambas se alimentam do néctar das flores.

As mariposas e as borboletas, todavia, têm algumas diferenças. Uma delas é o comportamento das mariposas de voar em círculo em torno das luzes (fototaxia), particularmente as artificiais, comportamento esse ainda não totalmente explicado pela ciência.

Ademais, há diferenças, entretanto, de natureza simbólica. A borboleta é considerada o símbolo da transformação, da felicidade, da beleza, da inconstância, da efemeridade da natureza e da renovação. E, para a psicanálise moderna, é o símbolo do renascimento. A mariposa, por sua vez, por ser um inseto geralmente de hábitos noturnos, simboliza a morte, bem como a força destruidora da paixão.

Voltando dessa ‘aula de reminiscências’, observei, mais uma vez, aquela mulher. Olhei mais atentamente para seu rosto. E, de repente, tive a impressão de que aquele olhar ainda detinha um brilho, mas era uma cintilação diferente, distante. E o sorriso já não mais me parecia malicioso, porém, ingênuo.

Nesse momento, parecia que não via mais uma mariposa, mas uma lagarta; uma lagarta que talvez um dia poderia ter escolhido se transformar numa borboleta. Uma borboleta leve, multicolorida, admirada!

E a única luz, em direção à qual voejaria, seria a do sol.

Aquela esquina, daquela rua, seria tão somente um lugar por onde ela passaria e, momentaneamente, pousaria, até que algum transeunte, um poeta a notasse.

E sobre ela escreveria ‘O Poema da Libertação’!

Sergio Diniz da Costa

Contatos com o autor

Voltar

Facebook




Solo Gabri[ELAS]

Com direção de Malú Bazán, solo Gabri[ELAS] estreia no Sesc Avenida Paulista dia 12 de janeiro 

Cena do espetáculo Gabri[ELAS]
Cena do espetáculo Gabri[ELAS]
Divulgação

Espetáculo com texto de Caroline Margoni marca encontro entre atriz Fernanda Viacava com a obra e a vida da ativista e prostituta Gabriela Leite

Fotos de Cassandra Mello 

A identificação e as inquietações de uma atriz com a figura de Gabriela Leite (1951-2013), a primeira mulher a lutar pelos direitos das prostitutas no Brasil, é mote do solo Gabri[ELAS], que estreia em 12 de janeiro de 2024 no Sesc Avenida Paulista. O espetáculo segue em cartaz até 4 de fevereiro, com apresentações às sextas e aos sábados, às 20h30, e, aos domingos, às 18h30.

O trabalho, estrelado por Fernanda Viacava, dirigido por Malú Bazán, escrito por Caroline Margoni e com pesquisa e curadoria de Elaine Bortolanza, registra e reativa a memória de Gabriela Leite, ultrapassando a barreira das ruas e do estigma, ao falar sobre prostituição na perspectiva do desejo e da liberdade sexual de todas as mulheres. 

“O feminismo abordado por prostitutas é recente e pouco visível. A prostituta sempre foi, e ainda é, objeto de representação nas artes, geralmente de um ponto de vista estereotipado, vitimizador ou romantizado. Neste sentido, por que não tornar visível e compartilhar esse legado de mais três décadas de luta, a partir de suas próprias vozes e narrativas?”, questiona a pesquisadora e ativista Elaine Bortolanza.

“Para contar essa história elaborada a partir da vida e das provocações deixadas por uma puta mulher, optei pela fricção, pela soma, pela coexistência de vozes e elementos, como uma forma de abarcar múltiplos tempos, corpos, vivências e histórias narradas no palco. Assim, esse solo teatral, foi se transformando em um experimento cênico-sensorial com muitas mulheres ‘em cena’, pois sim, somos muitas”, provoca a diretora Malú Bazán. 

“Encontros que se desdobram em outros encontros. Elos com elas. Desafio de fazer uma personagem real, ser o motor, pesquisar, instigar, seduzir as pessoas para contar a história dessa puta mulher e esse nosso encontro que tem me transformado muito. Um encontro que mudou meu jeito de olhar e me colocar na vida”, revela a atriz Fernanda Viacava, que a partir da leitura da autobiografia “Filha, mãe, avó e puta” sentiu vontade de trazer Gabriela de volta para o teatro. 

Na percepção da autora da dramaturgia, “Gabriela pegou a palavra pelo chifre e atravessou fronteiras. A cada passo, foi conhecendo um país tomado por mulheres como ela. E foi aí que descobriu a própria voz. Uma prostituta destemida, inteligente e que fala! É ousadia demais. Para ela, não é profissional do sexo, é puta. Não é garota de programa, é puta. Não é prostituta, é puta. Quatro letras que, quando unidas, se aproximam do objetivo pelo qual Gabi sempre lutou: domar o estigma.” 

O ponto de partida do texto é a memória viva de Gabriela precursora, no Brasil e na América Latina, de um pensamento e um ativismo na luta em defesa das mulheres prostitutas. “Tornar visível ao público esse arquivo vivo é uma maneira de compartilhar, sobretudo com as mulheres, um encontro consigo mesmas, valorizando a importância de seus desejos, narrativas e lutas, como autoras e protagonistas de suas próprias histórias”, acrescenta a curadora Elaine Bortolanza.

Quem foi Gabriela Leite?

Nascida em 1951, em São Paulo, Gabriela se tornou a principal referência na luta em defesa dos direitos das prostitutas no Brasil. Estudante da USP e frequentadora do Bar Redondo com a turma da contracultura nos anos 70, durante a ditadura militar, trocou a faculdade de Ciências Sociais pela prostituição, primeiro em sua cidade, depois em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, onde viveu até a sua morte em 2013.

Gabriela foi a primeira mulher a se apresentar publicamente como prostituta. Isso aconteceu no I Encontro de Mulheres de Favelas e Periferia, organizado em 1983 pela vereadora Benedita da Silva, do PT. “Foi um rebu! Uma prostituta que se diz prostituta! Aí começou toda uma onda”, disse a ativista em sua autobiografia.

Alguns anos depois, ela conhece Lourdes Barreto nos encontros da Pastoral da Mulher Marginalizada e, juntas, tramam a organização da Rede Brasileira de Prostitutas, o primeiro movimento em rede da categoria, que conta com representantes de todas as regiões do Brasil. A criação deste movimento em rede teve como marco o I Encontro Nacional de Prostitutas: “Mulher da vida, é preciso falar”, realizado no Rio de Janeiro, em 1987, que teve o encerramento no Circo Voador com a presença e apoio de vários artistas, como Elza Soares, Martinho da Vila, Lucélia Santos, Norma Bengell, entre outros.

A ativista ainda fundou em 1992 a ONG Davida e, em 2005, criou a grife Daspu, uma passarela de luta concebida para dialogar com a sociedade, por meio da arte e da cultura, os estigmas relacionados às prostitutas.

Ela ainda foi a primeira mulher na América Latina a iniciar o trabalho de organização da categoria, a partir da desconstrução de representações socialmente aceitas sobre a prostituição, dando-lhe novos sentidos ao estigma que atravessa todas as mulheres, e buscando o seu reconhecimento como trabalho. Gabriela morreu em 2013, vítima de um câncer de pulmão.

Um pouquinho sobre o processo criativo

O espetáculo começou a ser gestado em 2019 por quatro mulheres artistas-ativistas: Fernanda Viacava, atriz que vem pesquisando a puta no teatro desde 2014; Malú Bazán, diretora de teatro e artista que pesquisa o feminino; Elaine Bortolanza, pesquisadora na área, ativista do movimento de prostitutas e diretora da DASPU de 2013 a 2022; e Caroline Margoni, roteirista e pesquisadora que atua nas áreas de psicanálise, mulheres e criminologia. 

A pesquisa iniciou com a leitura das duas autobiografias de Gabriela Leite, “Eu, mulher da vida” (1992) e “Filha, mãe, avó e puta” (2009), assim como da “Puta autobiografia de Lourdes Barreto (2023),  e valorizou sobretudo a memória e o acervo histórico Davida, que integra desde 2012 o Arquivo Estadual do Rio de Janeiro (APERJ), junto ao Observatório da Prostituição – projeto de pesquisa e extensão do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR-UFRJ), sob coordenação de Soraya Silveira Simões. 

O grupo Mulheres da vida, junto a pesquisa e curadoria de Elaine Bortolanza e criação audiovisual de Cassandra Mello, acessou os arquivos de vídeo dos encontros nacionais e estaduais, fotografias, áudios do acervo histórico  e atual do movimento, além de promover encontros com amigos,  familiares de Gabriela e as companheiras que fizeram parte da sua trajetória de vida e de luta.

“Nós, mulheres da vida, tecemos juntas esse monólogo como um mosaico de narrativas e escritas de mulheres, construído nesse processo de pesquisa e curadoria do acervo histórico. Criamos uma espécie de crochê de narrativas”, revela a autora Caroline Margoni.  Gabriela amava essa arte e dedicava muito de seu tempo ‘crochetando’, diz Elaine, pesquisadora e amiga de Gabriela.

Entre as pessoas que contribuíram para o processo de pesquisa dramatúrgica, estão: Flávio Lenz, parceiro de vida com quem Gabriela se relacionou por mais de 20 anos e com quem fundou a ONG Davida e o Jornal Beijo da Rua; Maurício  Toledo, amigo mais antigo dela e companheiro da ONG Davida; Thaís Helena Leite, e Regina Leite, irmãs da ativista; Alessandra Leite, filha dela; Tatiany Leite, neta de Gabriela, com quem ela tinha uma relação muito próxima; Lourdes Barreto, amiga e a maior companheira de luta, fundadora do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará – GEMPAC (1990); Vânia Rezende, prostituta e ativista da região Nordeste, coordenadora da Associação Profissionais do Sexo de Pernambuco – APPS, parceira de luta da RBP;  Soraya Simões, professora do IPPUR/UFRJ e coordenadora do Observatório da Prostituição; e Laura Murray, professora do Núcleo de Políticas Públicas e Direitos Humanos na UFRJ e Diretora do filme Um Beijo para Gabriela.

“Este projeto abrange o universo da prostituição na sua complexidade, de modo a refletir sobre desafios colocados na sociedade a partir do estigma da ‘puta’, valorizando a memória e a luta coletiva dessas mulheres, seus feminismos, a organização dos movimentos de prostitutas. Ainda queremos celebrar as conquistas e o legado deixado por Gabriela Leite, os afetos vivos e as subjetividades e narrativas dessas mulheres, que reverberam em nossas próprias narrativas como criadoras”, afirmam as idealizadoras Fernanda, Malú, Carol e Elaine. 

“Depois desse período longo de pesquisa e conversas, se juntaram a nós mais muitas outras mulheres artistas. Mesmo se tratando de um monólogo, hoje somos 14 mulheres, entre criadoras e executoras desse trabalho, construindo essa narrativa e todas nós estamos em cena de alguma maneira.” ressalta a diretora Malú Bazán.

Sinopse

Gabri[ELAS] é um monólogo que parte do encontro da atriz Fernanda Viacava com a vida e a obra de Gabriela Leite, principal referência na luta em defesa dos direitos das prostitutas no Brasil. A atriz narra em primeira pessoa o encontro com Gabriela se reconhecendo com ‘elas’, as mulheres da vida, a partir das suas inquietações como mulher e como atriz. Uma busca que parte do corpo da prostituta e transborda para o corpo de qualquer mulher que deseja. 

FICHA TÉCNICA

Concepção e Idealização: Caroline Margoni, Elaine Bortolanza, Fernanda Viacava e Malú Bazán

Dramaturgia: Caroline Margoni 

Direção: Malú Bazán 

Elenco: Fernanda Viacava 

Direção Vocal Interpretativa: Lúcia Gayotto

Pesquisa e curadoria: Elaine Bortolanza

Memória e curadoria: Lourdes Barreto

Direção de Arte: Kabila Aruanda 

Trilha Sonora: Nina Blauth  e Girlei Miranda 

Música original: Nina Blauth

Criação audiovisual: Cassandra Mello (Teia Documenta)

Iluminação: Cristina Souto

Identidade Visual: Manuela Afonso

Fotos: Cassandra Mello

Produção Executiva: Baccan Produções, Kavaná Produções e Selene Marinho

Produção Geral: Clotilde Produções Artísticas

Administração da Temporada: André Roman

Realização: Sesc 

SERVIÇO

Gabri[ELAS]

Temporada: 12 de janeiro a 4 de fevereiro (com sessão extra no dia 25/1)

Às sextas e aos sábados, às 20h30; e aos domingos, às 18h30

Sesc Avenida Paulista – Av. Paulista, 119, Bela Vista

Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia-entrada) e R$ 12  (credencial plena)

Venda online em sescsp.org.br

Duração: 75 minutos

Classificação indicativa: 16 anos

Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

Voltar: http://www.jornalrol.com.br

Facebook: https://facebook.com/JCulturalRol/