Um último suspiro na Golden Gate Bridge

COLUNA  PSICANÁLISE E COTIDIANO

Bruna Rosalem: ‘Um último suspiro na Golden Gate Bridge’

Bruna Rosalem
Bruna Rosalem
Golden Gate Bridge - Imagem de domínio público
Golden Gate Bridge – Imagem de Domínio Público (www.publicdomainpictures.net)

Socorro, alguma alma, mesmo que penada.
Me empreste suas penas.
Já não sinto amor nem dor,
Já não sinto nada.

Socorro, alguém que me dê um coração, 
Que esse já não bate nem apanha.
Por favor, uma emoção pequena, 
Qualquer coisa.

Composição de Alice Ruiz, cantada por Arnaldo Antunes – Socorro/1998, Álbum ‘Um som’

Por indicação de um cinéfilo que admiro muito, resolvi assistir ao documentário americano A Ponte’ (The Bridge). É uma produção de 2006 dirigida por Eric Steel que retrata ao longo do ano de 2004, filmagens posicionadas em dois pontos ocultos diferentes da ponte Golden Gate em São Francisco, Califórnia, nos Estados Unidos, de pessoas das mais diversas idades, gêneros, etnias, culturas, classes sociais, que decidiram tirar suas vidas naquele lugar, mais do que em qualquer outro lugar do mundo. São dados realmente alarmantes: naquele ano, mais de 24 suicídios puderam ser registrados.

Além das terríveis e desoladoras cenas das pessoas se jogando da ponte, a equipe de produção gravou várias entrevistas com amigos, familiares e testemunhas tentando dar alguma explicação sobre as possíveis motivações que levaram seus entes queridos a desistir da vida. São histórias que perpassam por depressão, abuso de substâncias e transtornos mentais. 

A fala das pessoas próximas aos que cometeram suicídio parece expressar um grande e avassalador ponto de interrogação, pois jamais se saberá ao certo que fator ou fatores determinantes fizeram aqueles sujeitos não conseguirem vislumbrar nenhum tipo de saída para seus tormentos que não fosse a morte. Ainda mais triste é carregar sentimentos de culpa, remorso, impotência diante do que parecia ser inevitável. Os testemunhos que acompanhamos no documentário doem tanto quanto assistir ao momento do salto fatal. É angustiante pensar na vida dos familiares e amigos que muito pouco ou nada puderam fazer para impedir um fim tão trágico. Não importa quantos anos se passem, a pergunta sempre ecoa: Por que ele (a) não era feliz? Outras questões também surgem: O que fizemos para ele (a)? Onde erramos? Por que não vimos sinais? Por que não o (a) salvamos? São indagações que permanecem sem respostas.

Na época, o documentário provocou muita ira e indignação entre o público em geral, pois o diretor Eric Steel foi acusado de sensacionalismo por expor de forma tão crua um tema extremamente sensível. Polêmicas à parte, fato é que testemunhar pessoas se jogando da ponte, sem efeitos de borrões ou cortes, é realmente difícil de ver. Chega a ser indigesto. A vontade é de sair correndo e impedir o ato. Como espectadora, além da sensação incômoda de assistir uma pessoa real se jogar, pois você sabe que não é um ator ou atriz, nada foi possível fazer. A única coisa que resta é a reflexão sobre as muitas significações sobre vida e a morte. 

Uma pessoa em especial me marcou demais: um senhor vestido com roupas confortáveis como se tivesse saído para caminhar numa linda manhã de sol. Vestia bermuda e camiseta, tênis, boné e óculos de sol. O clima era ameno e havia uma brisa refrescante. Ele se aproximou da ponte sem nenhuma cerimônia, olhou rapidamente para baixo, transpassou as pernas para o lado de fora e, como num ato simples e trivial, deixou seu corpo cair. Seu boné e óculos voaram no ar. Confesso que esta imagem perdurou por dias em minha mente.

Depois dessa experiência, permanece o convite a revisitar as razões que te faz viver, o que te fortalece, o que te mobiliza, o que, no fundo, te faz vencer a morte.

Certa vez escutei de uma paciente que lidava com a morte de perto, dizia ela, pois trabalhou por muitos anos em Unidade de Tratamento Intensivo, as conhecidas UTI´s. Afirmava com veemência: “Eu fazia de tudo para salvar uma pessoa! Queria o suspiro de vida! Aí sim eu me sentia bem. Porém, logo depois me perguntava: por que esta pessoa quer tanto viver?”.

Se pensarmos, é realmente uma questão pertinente. Deixo o convite à reflexão em aberto.

Bruna Rosalem

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O vazio

COLUNA PSICANÁLISE E COTIDIANO

Bruna Rosalem: ‘O vazio’

Bruna Rosalem
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O vazio
Imagem criada pela IA do Bing

Vazio. Na definição do dicionário Houaiss: “Que não contém nada, apenar ar”. “Que falta fundamento, valor, substância, realidade.”. “Ausência de conteúdo, oco, vão.”. “Falta de saciedade, sentimento de insatisfação.”. Curiosamente, vazio também nomeia uma parte do boi, muito utilizada em churrascos, “o vazio da carne”.

Numa outra ótica bem diferente, temos o lugar de vazio do analista numa sessão de manejo psicanalítico. Aquele que faz semblante do morto, o que permite ao sujeito escutar-se em sua própria história.

Várias definições tentam significar esta palavra e trazer algum sentido. Nas ciências exatas, por exemplo, na Matemática, temos o conjunto vazio. Na Física, a ideia de vácuo, ou ainda, o espaço não ocupado por matéria.

Se utilizarmos vazio enquanto metáfora, teremos uma série de possibilidades em que esta palavra pode ser aplicada: “Estou me sentido vazia, oca por dentro, uma tristeza sem fim.”, “Meu estômago está vazio, sinto fome!”; “Acho que minha vida está vazia, não tenho sonhos, desejos, nem propósitos…”.

Paradoxalmente, a palavra vazio sugere ausência, mas ao colocá-la em cena, ela se presentifica. Anne Frank, adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto que ficou famosa pela publicação póstuma de seu diário, dizia: “Aquele vazio, aquele vazio enorme está sempre presente.”. Isso demonstra que não há como escapar desta sensação, certamente em algum momento de nossas vidas sentiremos este tal vazio que, para cada sujeito, se inscreve e se expressa de maneira singular.

Há ainda aquele sentimento de angústia que nos toma, entrecorta a carne, deixa o coração apertado, como uma espécie de ‘rombo’ no peito, um vazio na alma.

No luto, é muito comum sentir a sensação do nada, de oco. Perder alguém muito querido e amado deixa essa sensação, como se algum conteúdo fosse arrancado do corpo. É como ter a carne dilacerada, destruída, restando apenas buracos, lacunas.

A sensação de vazio muitas vezes pode tornar a existência insuportável. E por   mais que lutemos para ocupar este espaço em que ‘o nada’ existe (soa até contraditório), não há o que ser preenchido, já que o vazio enquanto metáfora, é uma tentativa de apalavrar a dor de sentir que algo perdeu o sentido, o brilho, o fervor, a excitação.

Consciente disso, é possível que o vazio se torne objeto de investigação para o sujeito abrir-se para o desconhecido, para o enigmático inconsciente com vistas a possíveis elaborações.

O vazio é um sentimento inevitável em nossa história, a questão é como lidaremos com algo tão presente e tão visceral. Precisaremos mergulhar pelas profundezas de suas raízes… quem sabe.

Bruna Rosalem

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Liderança, saúde emocional e psicanálise: livro aproxima do trabalhador as ideias de Freud e de seu sucessor Lacan

Um a cada três trabalhadores brasileiros apresenta sintomas de depressão ou ansiedade; leitor pode compreender como alinhar saúde emocional ao desenvolvimento intelectual

Capa do livro
Capa do livro

Mesmo tendo escrito teorias há décadas, Freud e Lacan continuam sendo objetos de estudo e referências na psicanálise. Com o objetivo de tornar a compreensão mais simples e estimular conceitos de relacionamento e liderança, Fabiana Ratti lança em 16 de setembro a obra “Café com Freud e Lacan”, um livro capaz de levar o leitor mais leigo a compreender assuntos complexos da psicanálise de forma simples e aplicá-los na vida pessoal e profissional.

Um estudo realizado pela Zenklub sobre saúde mental e bem-estar do trabalhador brasileiro, realizado com mais de 600 mil clientes e usuários, demonstrou que 32% das pessoas têm sintomas moderados e moderados/graves de ansiedade e 36% das pessoas têm sintomas moderados e moderados/graves de depressão.

Para Freud, o líder possui um papel essencial para o bom funcionamento de um grupo. É o líder que une um grupo, graças a sua posição, ocupando um local importante no inconsciente de seus membros.

“Nas páginas são apresentados e discutidos termos psicanalíticos que levam à construção da liderança, políticas de relacionamento nas empresas e na vida pessoal. Se cada um tem uma impressão digital, uma singularidade, cada pessoa tem condição de propor, direcionar e liderar. Porém, existem impedimentos psíquicos que inibem e deixam o ser humano alienado, sem utilizar muitos de seus potenciais, o que pode ser compreendido na obra de Freud”, explica Fabiana Ratti, psicanalista e mestre em psicologia pela PUC-SP.

Ainda segundo a autora, a sociedade não está conseguindo se realizar, mostrar seus talentos e características, e assim fica imersa em sintomas de ansiedade, TOC, stress, burnout, e até tentativas de suicídio levam as pessoas à sintomatologia, ao invés de um ‘saber-fazer’ com suas características e habilidades. “No livro quero mostrar como utilizar conceitos psicanalíticos na prática cotidiana, como aplicá-los no trabalho e como o emocional pode jogar no mesmo time do intelectual”, afirma.

Após mais de 25 anos prestando atendimentos para médicos, advogados, empresários e CEO’s, a Fabiana aproxima as teorias de Freud e Lacan ao mercado de trabalho, exibindo contribuições acessíveis do neurologista e psiquiatra para o cotidiano do mundo corporativo.

Alguns dos temas aprofundados no decorrer da obra são:

Narcisismo, sinais e características;

Tempo Lógico, o real, simbólico e imaginário;

Liderança e a busca do eu ideal e idealizado;

Satisfação a médio e curto prazo;

Ansiedade e doenças psíquicas.

A busca pelo inconsciente e o entendimento do líder

Apenas nos anos 1990 que a discussão sobre saúde mental nas empresas ganhou força. O livro “Inteligência Emocional”, de Daniel Coleman, iniciou uma discussão que se expandiu nos últimos anos e mostrou que tanto empregadores quanto empregados deveriam dar uma atenção especial ao tema.

Sabendo que o consciente individual representa apenas 20% da mente, Fabiana acredita ser fundamental não excluir mais o inconsciente e torná-lo acessível. Afinal, emoções bem direcionadas podem ajudar e muito as organizações, enfatizando que a razão não pode ser aplicada em 100% dos casos, tampouco emoções descontroladas devem ditar o ritmo das tomadas de decisões.

“No mundo corporativo, somos ensinados e treinados a desenvolver um raciocínio lógico e cartesiano. Somos desestimulados a usar a ‘intuição’ que, na verdade, é o nosso inconsciente querendo nos dar uma direção. Esse inconsciente, localizado no maior computador já inventado, tem uma capacidade de processar dados muito superior a qualquer ferramenta. Ou seja, se qualquer pessoa considera importante tomar decisões baseadas em dados, necessariamente deveria saber escutar e acreditar no inconsciente”, comenta Felipe Guis Monteiro, head de gestão de investimentos na Empiricus/ BTG Pactual.

Entender essa relação do inconsciente é essencial para desenvolver a parceria do emocional com o intelectual para que todos joguem no mesmo time. Tida como uma das 10 habilidades para o profissional do futuro, entender as próprias emoções e compreender como lidar com elas em diversos momentos, além de conseguir usá-las em seu favor, é de fundamental importância para qualquer um que deseja se destacar no mercado atual.

SERVIÇO

Lançamento da obra “Café com Freud e Lacan”

Data e horário: Sábado, dia 16/09, a partir das 19h30

Endereço: Vinícola Campestre – Av. Pedroso de Morais, 1047 – Pinheiros, São Paulo – SP, 05419-001

Sobre a autora

Graduada em psicologia pela Faculdade de Psicologia da PUC em São Paulo, Fabiana Ratti é psicanalista lacaniana e atende em consultório particular desde 1998.

Fez sua formação de psicanálise pelo Instituto de Psicanálise Lacaniano e, em 2014, concluiu seu mestrado em psicologia clínica pela PUC-SP. Ao longo dos anos, em paralelo com os estudos, se dedicou à clínica, atendendo e supervisionando instituições do terceiro setor.

Em 2019 formou a Rede de atendimento Psicanalítico Lacaniano – UNBEWUSSTE. Essa Rede dá suporte a algumas instituições e empresas, atendendo pessoas do Brasil todo, online e presencial.

Fabiana Ratti oferece aulas de Freud e de Lacan que são vendidas pela plataforma sympla.com.br e tem como diferencial a didática e a simplicidade para falar de conceitos complexos. A Clínica Psicanalítica Unbewusste está abrindo vagas para Formação de Analista com leituras, supervisões, atendimentos e discussões clínicas.

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Bruna Rosalem: 'A Baleia (2022): sobre o pesar da existência

Bruna Rosalem

PSICANÁLISE E COTIDIANO

A Baleia (2022): sobre o pesar da existência  

Ao olhar aquele enorme homem esparramado em seu sofá, com dificuldades para andar, fazer gestos simples como alcançar algum objeto mais longe, locomover-se, respirar, que engasga quando chora ou ri, o sentimento que parece surgir ao presenciar esta cena cotidiana é de um imenso incômodo, mal-estar, estranhamento.

No longa A Baleia (2022), acompanhamos um professor de literatura, Charlie, praticamente entregue à obesidade mórbida que o aflige há alguns anos, desde que o companheiro, seu ex-aluno, tirou a própria vida. Além de sentir-se constantemente culpado pela tragédia, ainda precisa lidar com outros pesos em sua consciência: o do próprio corpo e o afastamento de sua filha Ellie aos oito anos de idade, quando Charlie decide abandonar a família para viver com o namorado.

A trama nos provoca nuances de emoções o tempo todo. Consegue misturar o belo e o repugnante durante as cenas. Ora é possível sentir empatia e carinho por Charlie, pois ele é doce, amável, gentil. Ora raiva, indignação e revolta por sua resistência em buscar melhorar sua maneira de encarar a vida, de ter mais amor próprio e olhar para si com apreço.

Ao mesmo tempo que Charlie, por um lado, como professor de literatura, exprime tamanha sensibilidade com os ensaios escritos pelos seus alunos, os ajuda, os orienta, faz apontamentos, é dedicado, lê com eles passagens dramáticas, poéticas, agarra-se a um ensaio em especial, que mais à frente do filme, trata-se de uma produção feita pela sua filha; por outro lado, ele demonstra aspereza e teimosia em aceitar ajuda de sua amiga enfermeira que suplica a ele que vá ao hospital, pois seu estado de saúde é crítico. Prefere entregar-se a comilança desenfreada deixando o ambiente sujo, fétido, desorganizado. Mal consegue assear-se, seu apartamento é sempre escuro e sufocante.

Na vida de Charlie parece não haver espaço para luz, esperança ou salvação. Ele apenas sobrevive e passa os dias relembrando o passado, comendo e evitando as pessoas. Apesar de lecionar na modalidade on-line, ou seja, mesmo tendo uma tela que o separa fisicamente de seus alunos, ele desliga a câmera para não revelar sua condição.

Tentativas de ajudá-lo vão surgindo ao longo da narrativa, além da amiga enfermeira que o visita diariamente, há a presença regular de um rapaz que busca convertê-lo aos ensinamentos bíblicos e de um entregador de pizza, que todos os dias deixava duas pizzas grandes na porta de Charlie sem nunca poder vê-lo. O garoto tenta se aproximar, fazer contato, porém sem sucesso. É orientado pelo homem a pegar o dinheiro na caixa de correios e sair.

Sua filha Ellie expressa tempestuosa revolta contra o professor, pois carrega um sentimento de rejeição torturante ao ser trocada pelo amante de Charlie logo tão criança. Cresceu sem nunca sentir a presença de um pai. Insulta-o, agride-o com palavras, deixa bem claro que, agora adolescente, não precisa mais dele, afinal Charlie não consegue nem ao menos ficar em pé sem a ajuda do andador. Numa das cenas mais angustiantes do filme, Ellie com ódio, desafio o pai a ir até seu encontro, incita-o, provoca-o com xingamentos, zombaria. Ele até tenta, mas desaba logo em seguida, quebrando os móveis ao seu redor.

Entre idas e vindas de pessoas que vão até sua casa, sua amiga cuidadora, a ex-esposa, o rapaz da igreja, o entregador de pizza, sua filha, Charlie segue os dias entre conflitos diários, tentativas de reaproximação com Ellie, momentos de conversa e choro  com a única amizade que preserva, graças à insistência por parte dela que ainda nutre esperanças de que ele se encaminhe para o hospital. Mesmo a enfermeira dizendo que seus dias estavam contados, que ele definitivamente viria a óbito até o final da semana, Charlie segue mantendo seu propósito: aguentar até onde puder, mesmo sentindo terríveis dores do peito, agonizando aos poucos, buscando o ar que quase não entra mais em seus pulmões, até que tudo se acabe de vez.

O último ato do longa nos deixa com esta imagem: Ellie, à porta, lendo para ele seu ensaio que tanto Charlie admirava (falava da história de Moby Dick), enquanto reúne todas as forças de seu pesado corpo para levantar do sofá sem o apoio do andador, na tentativa de caminhar até ela. Uma cena belíssima de redenção em meio ao caos do ambiente e a expressão de dor de Charlie. Dor em todos os sentidos: de seu imenso corpo que impede os movimentos e tranca a respiração e dos sentimentos devastadores que o acompanharam nesse tempo de reclusão.

Mais uma vez, a narrativa do filme consegue ser delicada e perturbadora. Mergulhamos na aflição de Charlie e sofremos com ele na tentativa fracassada de libertá-lo daquele corpo que o aprisiona. Ao se deixar levar pela doença, ele encerra a sua história. Talvez assim, possa sentir plenitude ao menos uma vez: da leveza de sua alma.

Bruna Rosalem

Psicanalista Clínica

@psicanalistabrunarosalem

www.psicanaliseecotidiano.com.br

 

 

 

 

 

 




Bruna Rosalem: 'Baile de máscaras. Qual é a sua?'

Bruna Rosalem

COLUNA COTIDIANO E PSICANÁLISE

Baile de máscaras. Qual é a sua?

Se você pudesse vestir uma fantasia agora, qual seria? Um super- herói ou uma super-heroína, quem sabe? Alguma profissão que use traje específico: bombeiro, policial militar, astronauta, chefe de cozinha? Ou ainda, criar a sua fantasia ironizando algum acontecimento histórico, satirizando fatos da política, entre outras possibilidades. O que importa é usar a criatividade.

Em tempos de festa carnavalesca, o que não falta é ousadia e coragem para vestir-se de maneira inusitada, engraçada e até polêmica para talvez ‘abandonar’, nem que seja por alguns dias, o nosso ‘quem somos de verdade’. Parece que nestes momentos tudo é possível. Quem é tímido, permite-se ficar extrovertido, quem já se comunica e interage facilmente, é a oportunidade de extravasar ainda mais.

Encobertos por máscaras e fantasias, deixamos o ‘eu real’ de lado para incorporar e realizar, muitas vezes, as vontades mais secretas, escondidas sob o manto diário do homem e da mulher cordial.

Se, por um lado, somos barrados por leis, regras, crenças e freios, que não nos deixam expressar o que sentimos, por outro lado, por sermos, nas profundezas de nosso inconsciente, natos transgressores, precisamos destes impedimentos para viver minimamente em sociedade e conseguirmos transitar, trabalhar em equipe e conviver com tantas pessoas diferentes cotidianamente, como se diz, sem ‘perder a linha’. Embora nem sempre isso aconteça, contudo nos esforçamos para cumprir as ordens.

Já fantasiados e mascarados, a história é outra. As atitudes tomam outros contornos. O que era só brincadeirinha, torna-se incomodo ou aceitável. Depende da interpretação. Arrisca-se mais. Pode dar certo ou muito errado. O “sem querer, querendo” parece ter livre acesso.

Na batida dos trios elétricos, a direção é seguir em frente, desfilando pelas ruas ou nos bailes, fazendo semblantes, caras e bocas, dançando sem parar, cantando a plenos pulmões, rindo de tudo, falando alto, não pensando em nada (se é que é possível), apenas atentando à música, sentindo a vibração dos instantes que se seguem, animando-se como se não houvesse o amanhã.

Neste compasso (ou seria descompasso) parece que não é à toa que as festas duram praticamente cinco dias ininterruptos. Haja energia e disposição.

Porém, uma hora tudo acaba. Virá pó, na quarta-feira de cinzas.

As rotinas diárias retornam ao seu fazer corriqueiro, banal.

Jornadas de trabalho a cumprir. Trânsito. Horários e agendas cronometradas. Dia após dia, o super-homem volta a ser o cidadão comum. A odalisca já não dança mais. O colorido desaparece em meio a paisagem cinzenta e esfumaçada das grandes cidades.

O tímido volta a esboçar sua introspecção. E para o festeiro, acabou o dinheiro.

Todos retornam ao seu posto de gente ‘normal’.

Sem as máscaras e as fantasias, veste-se novamente o manto da cordialidade, da politicagem, do sorriso enviesado e acovardado pelo julgamento. Grafado no manto, em letras garrafais: “o que vão pensar de mim se eu fizer tal coisa, falar isso ou aquilo?”.

Essa virada chega até a ser brusca. Dos dias permissivos, de liberdades totais (ou quase isso) para condutas, muitas vezes, moralizantes, condenatórias e inquisidoras.

Muda-se o tom da conversa. Os semblantes caem. Os corpos se enrijecem.

A personagem da festa deixa de existir. Agora, só o ano que vem.

Retorna o ‘eu de verdade’. Mas quem é ele, de fato?

Afinal, que máscaras realmente estamos a vestir?

Bruna Rosalem

Psicanalista Clínica

@psicanalistabrunarosalem

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Bruna Rosalem: 'Boate Kiss: a tragédia que completa 10 anos com muita dor e sem respostas'

Bruna Rosalem

COLUNA PSICANÁLISE E COTIDIANO

Boate Kiss: a tragédia que completa 10 anos com muita dor e sem respostas

Este ano de 2023, todo o Brasil, especialmente a cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul, relembra após dez anos, uma das maiores tragédias de nossa história: a morte de centenas de jovens ocorrida na fatídica noite de 27 de janeiro de 2013 na boate Kiss.

O que era para ser uma festa com muita diversão, música boa, descontração, até mesmo um descanso para a maioria daqueles estudantes universitários atarefados com as demandas de seus cursos, transformou-se na pior noite de suas vidas.

Familiares das vítimas que faleceram e os sobreviventes até hoje sofrem com as perdas e os traumas que deixaram marcas irreversíveis em seus corpos e mentes, modificando de vez seu cotidiano. Depois da tragédia, não só tiveram que reunir forças para enterrar seus entes queridos, como também organizar novas maneiras de viver com as sequelas das queimaduras, dos gases tóxicos inalados, além de longos períodos de reabilitação para voltar a caminhar, a exemplo de uma garota que perdeu parte de sua perna e de um rapaz que teve grande parte do corpo queimado.

Na verdade, a batalha estava apenas começando. Laudos técnicos das equipes da Política Civil e do Corpo de Bombeiros apontavam que aquele lugar apresentava inúmeras irregularidades quanto ao funcionamento do espaço, portas de emergência insuficientes, dificuldades para, numa emergência, evacuar o local; e o mais grave de tudo, a espuma que revestia o teto da boate era extremamente tóxica e altamente inflamável. Segundo autoridades, jamais aquele material poderia ter sido utilizado em lugares fechados. Inacreditáveis sucessões de erros e negligências.

Naquela noite, a banda de músicos contratada para tocar e divertir o pessoal, em um dado momento, utilizou uma espécie de fogos de artifício para compor seu show. Bastaram apenas alguns minutos para o teto pegar fogo e as chamas se alastrarem rapidamente. Demorou mais alguns minutos para que todos aqueles jovens percebessem a gravidade da situação.

Neste panorama assustador, dois fatores foram culminantes para que a tragédia da boate Kiss ganhasse contornos ainda mais perturbadores: a toxidade da espuma e o impedimento de saída por parte dos seguranças. Os gases venenosos não só vitimaram os jovens dentro do local como também momentos depois que muitos deles conseguiram sair de lá, ou seja, mesmo em meio ao caos e ao desespero que só aumentava, tornando a situação mais agoniante, quem conseguia escapar, acabava morrendo por intoxicação na calçada ou a caminho do hospital. Somado a isso, a hiper lotação daquela noite junto ao fechamento das portas pelos seguranças a mando dos donos que só permitiriam a saída mediante pagamento da comanda. Certamente, configurava-se assim, um cenário infernal e difícil de imaginar tamanha angústia daquelas pessoas que buscavam a todo custo salvar suas vidas.

Ao todo, 242 almas perdidas e mais de 600 feridos. Números alarmantes, incompreensíveis para todos que acompanhavam diariamente o desfecho desta história e que até os dias atuais está pendente. Os réus chegaram a ser condenados no ano de 2021, porém o júri foi anulado pela 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) após aceitar os recursos apresentados pelas defesas. Ou seja, não há ninguém condenado por essa tragédia, ninguém pagando sua sentença, nenhuma das famílias das vítimas sentindo ao menos algum senso de justiça. Uma espera que não tem fim. Tormento e tristeza que nos é impossível expressar em palavras.

A jornalista e escritora, vencedora do Prêmio Jabuti, Daniela Arbex, reconstruiu de maneira sensível e brilhante, os acontecimentos daquela noite e seus desdobramentos no livro “ Todo dia a mesma noite: a história não contada da boate Kiss”, narrativa esta que inspirou a mais recente minissérie de mesmo nome na plataforma de streaming Netflix. Ambas histórias contadas tanto pela via escrita quanto encenada são ótimas referencias para conhecermos mais a fundo este evento marcante.

Ficamos, enquanto seres humanos que sofrem, choram e sentem dor, aguardando por algum desenrolar desta trama cruel. Que nos traga ao mesmo um singelo acalento para os nossos corações que continuam a bater junto com as famílias na esperança de justiça e por dias melhores. A vida continua. Não podemos parar.

Força para quem fica. Paz para quem já se foi.

Bruna Rosalem

Psicanalista Clínica

@psicanalistabrunarosalem

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Bruna Rosalem: 'Você é capaz de ficar em silêncio?'

Bruna Rosalem

PSICANÁLISE E COTIDIANO

Você é capaz de ficar em silêncio?

O historiador francês Alain Corbin, em seu livro “A História do silêncio: do Renascimento aos nossos dias” nos presenteia com uma brilhante narrativa trazendo o silêncio como protagonista.

Ao longo da história retratada na literatura, o autor nos aponta a busca por momentos silenciosos, desde retirar-se para os cômodos da casa, como quartos, jardins, escritórios, pequenas bibliotecas particulares, até lugares como cemitérios, retiros, matas, em frente ao oceano, mosteiros, ou através de longas caminhadas solitárias, meditação e oração. Corbin nos apresenta como o silêncio é valorizado por escritores e artistas em geral, seja em um exercício de contemplação, ou a capacidade de ficar consigo mesmo e poder ouvir os próprios pensamentos, aquietar a mente e estimular a criatividade.

Embora vivenciar o silêncio nos remeta a ideia de não ouvir ruído algum, isso não é verdade. É impossível não escutar os sons a nossa volta. Barulho de carros na rua, de alguma obra na vizinhança, pessoas falando ao longe, buzinas, canto das aves, ranger de portas, som das ondas do mar, e uma infinidade de ruídos que conseguimos captar até mesmo inconscientemente através do sentido da audição.

Quando pensamos no que seria o silêncio, talvez estaríamos nos referindo à capacidade de ficarmos calados. Pode soar como algo tão simples, no entanto, principalmente para os mais extrovertidos, parece ser uma tarefa árdua. Já para os introvertidos, ficar sem falar, participa mais de seu cotidiano. Contudo, ainda assim, nos dias atuais ninguém está imune ao bombardeio de estímulos sonoros nos invadindo constantemente. Nos dá a impressão de que ao menor sinal de silêncio, este “lugar” que ele ocupa precisa ser preenchido.

Corbin no diz que atualmente é difícil fazer silêncio, o que nos impossibilita compreender essa palavra interior que acalma e satisfaz. A sociedade nos impõe ao ruído, fazendo parte de tudo em vez de escutarmos a nós mesmos, modificando a própria estrutura do indivíduo. E muitas vezes nos perdemos, quase que sufocados pela hipermediatização e permanente conexão com os diversos aparelhos tecnológicos que temos à disposição, a menos de um toque. Avalanches diárias de estímulos sem descanso. E quando o silêncio irrompe sem aviso, o tememos; nos apavoramos com a sensação do desconhecido que ele carrega consigo; passamos a receá-lo e a evitá-lo.

Felizmente, para muitos, o cair da noite parece abrir passagem ao imponente silêncio que pede licença para habitar, pelo menos por algumas horas. Na madrugada, o coração do silêncio bate mais forte, pulsando as mentes dos notívagos que admiram a vida noturna e conseguem produzir mais, pensar melhor, criar e contemplar.

Uns temem, outros veneram. Silêncio ensurdecedor. Silêncio acolhedor. Ora ameaçador. Ora doce, sutil e delicado.

Em certas ocasiões da vida, as palavras podem não ser suficientes para descrever o que nos angustia, por exemplo, então, exercer uma escuta íntima do silêncio, reencontrar-se em meio a presença silenciosa, na interioridade absoluta, pode nos permitir atravessar essa sensação, superando a palavra. Prestar atenção no peito que respira, no corpo que emana energia, na textura da pele, na beleza sensível do ser.

O silêncio pode ser de morte. Do fim trágico. Da ausência.

Mas também pode trazer acalento e paz. Companhia e sabedoria.

De alguma maneira ele existe e se manifesta. E é na singularidade de cada sujeito que ele toma forma, desenha contornos e ganha sentido.

Bruna Rosalem

Psicanalista Clínica

@psicanalistabrunarosalem

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