O quinto sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O quinto sinal’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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Acolhido pelo padre no santuário, o miúdo deparou-se com uma realidade inusitada, tal como o pai se deparara aquando da sua transferência da lavra para o garimpo: muitas crianças órfãs de futuro sob o amparo do santuário. Logo à entrada, pediram-lhe que se desfizesse da mochila, o autêntico abrigo da única herança que trouxera da quinta dos ímpios: o livro Cândido, de Voltaire. Aceitou desprender-se da mochila, mas levou consigo o livro, atitude que deixou boquiabertas as demais crianças do santuário.

Foi então apresentado às outras crianças, mas não conseguiu libertar-se do primeiro erro da sua existência: não conseguia dizer o seu nome, não por devaneio, mas porque, de facto, nunca o tivera desde a sua aparição ao mundo. Deram-lhe abrigo, mas também as treze regras do santuário. Ficou particularmente atento à quinta regra: “não se salva fora do santuário”. Questionou-se em silêncio, como guardião de avisos ignorados: que salvação é essa que só existe aqui? Novo naquele espaço, decidiu guardar as suas interrogações para o momento da refeição, acreditando que encontraria respostas junto das outras crianças famintas de futuro.

Deram-lhe roupa adequada, exigida pela dignidade do santuário. Mas permanecia ainda nu de identidade. Essa nudez entristecia-o, pois às outras crianças fora-lhes forjada alguma forma de pertença.

O padre, responsável pelo santuário, o mesmo que o acolhera, lisonjeado com o gesto de amparo, decidiu reunir-se de imediato com os dois diáconos para lhes comunicar a situação do novo miúdo. Revelou que o encontrara na rua, desalojado, e que o acolhera em nome da humanidade. Da reunião resultou a missão de lhe fabricar uma identidade nova, capaz de o afastar rapidamente do passado, tal como se afastara da mochila.

Enquanto discutiam a nova identidade do miúdo, a mãe nunca deixara de pensar no filho. Porém, a sua missão presente consistia em encontrar o monge que a enganara no primeiro encontro no prostíbulo, logo após a sua conversão  à prostituição. Missão quase impossível, pois o monge havia redimensionado os seus apetites carnais, evitando novos encontros no prostíbulo e preferindo sugar as tetas das prostitutas no mosteiro.

Ainda assim, a mãe não desistia de o procurar. Até ao dia em que recebeu um cliente cujo odor lhe pareceu semelhante ao da injustiça do garimpeiro que matara o pai do miúdo, no garimpo. Ninguém reconheceu ninguém. Mas uma sensação antiga de injustiça atravessou-a, levando-a a envolver-se com o garimpeiro disfarçado de cliente. O propósito tornara-se cristalino: extrair verdades sobre a morte do pai do miúdo e preparar, a partir delas, uma vingança contra a quinta dos ímpios.

O miúdo foi crescendo, longe da quinta dos ímpios, onde o pai fora morto pela ganância dos garimpeiros após encontrar ouro de valor ímpar, e longe da mãe, agora prostituta ressuscitada.

No santuário, ninguém estava autorizado a falar do passado, muito menos em voz alta, pois os responsáveis acreditavam que a repetição da memória despertaria consciências de resistência. Contudo, esqueciam-se de que o passado não tem lugar: está sempre no presente.

Nos primeiros dias, o miúdo foi-se ajustando ao novo ar do santuário. Teve contacto com grandes escritores que a basílica guardava, mas nunca se imaginou sem o Cândido nas mãos. Um dia, movido pela mesma curiosidade que o guiara quando catava lixo na rua, o seu abrigo anterior, deparou-se com um livro cuja capa ostentava o título A Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset. Leu as primeiras páginas com atenção, mas não conseguiu terminá-lo, pois o sino da capela soou anunciando a adoração do Santíssimo Corpo do Senhor. Afinal, era numa quinta-feira. Ainda assim, manteve a esperança de reencontrar o livro após a adoração.

Esta foi a sua primeira prestação serviçal a Deus após ter crescido sem Ele: primeiro na quinta dos ímpios e depois na rua. Assim, foi-lhe confiada a missão de segurar o incensário, tal como acontecera outrora na quinta, antes da fuga com a mãe.

E porque a adoração eucarística é o momento que exige maior entrega, o miúdo, tão incauto quanto era, não conseguiu permanecer muito tempo de joelhos. Levantou-se em plena adoração, facto que chamou a atenção de todos, incluindo dos dois diáconos, cujos rostos se transformaram de imediato, como se diante deles surgisse uma profanação.

Cessada a adoração, o miúdo, na sua inocência, correu apressadamente para a biblioteca do santuário, com a esperança de rever o livro que não terminara. Estava tomado pela urgência de o ler.

Para sua surpresa, o livro fora retirado da estante habitual. O que o miúdo não sabia era que, no primeiro contacto com a obra, o bibliotecário, um dos ex-lavradores da quinta dos ímpios, o vira e imediatamente informara o diácono que se encontrava próximo. Do diácono nascera a decisão de retirar o livro da biblioteca, como se temesse uma rebelião dentro do santuário.

Essa atitude, longe de passar despercebida, afiou ainda mais as inquietações do miúdo. Contudo, como sempre, decidiu mantê-las em silêncio, tal como a mãe mantivera em silêncio a ideia de fuga da quinta dos ímpios.

Entretanto, os diáconos, já incapazes de suportar a intrepidez do miúdo, decidiram falar com o padre. Para isso, esperaram que anoitecesse.

Após a última refeição do dia e a oração da noite, aquela que invocava o anjo da guarda, os miúdos foram deitar-se, na esperança de ver o amanhecer em paz, para iniciarem as atividades de lavoura dentro do santuário.

Um dos diáconos não esperou pela digestão do padre e começou a bombardeá-lo com uma sopa de questões:

– Padre, o senhor sabe que esse miúdo é tão intrépido que pode precipitar a queda do cálice do santo altar?

– Não vejo nada de estranho nele – respondeu o padre.

– Não diga isso, reverendo. O miúdo parece intransigente. Lembra-se de que não quis permanecer de joelhos na última adoração eucarística?

– Lembro-me. Mas não houve nada de grave. É novo e poderá habituar-se aos procedimentos do santuário. Acreditem.

– E se não o fizer? – rematou o outro diácono.

– Confio que o miúdo se ajustará ao ar do santuário.

– Caso contrário, terá de mandá-lo para o seminário. Lá aprenderá o que é a vida, de facto – disse o outro diácono.

– O seminário é vocação. Ele deve decidir ir para o seminário. Caso contrário, poderá desistir pelo caminho. O seminário recorda-se tristemente de gente assim – respondeu o padre.

– Reverendo, esse miúdo parece esconder algo inquietante. O senhor conhece o seu passado?

Do lado do padre veio um silêncio ensurdecedor.

Enquanto conversavam, o miúdo escutara tudo, pois não tinha o hábito de dormir cedo, até porque estivera a reler as últimas páginas de Cândido.

Percebeu imediatamente que falavam dele. Mas não se importou. Na manhã seguinte, decidiu ajudar os colegas na lavra da horta do santuário.

Foi então que soube que a maioria dos seus colegas eram filhos de garimpeiros e outros de lavradores da quinta dos ímpios. Porém, desconheciam o paradeiro dos seus progenitores. Ali, ninguém se lembrava das origens, apenas sabiam que as tinham.

Num desses dias, o miúdo foi escalado para servir o santo altar. Ensaiara quase toda a semana, pois a disciplina litúrgica era rígida e exigia precisão nos gestos para não tropeçar com o incensário.

A missa seria presidida pelo vigário-geral da diocese, conhecido pelo gesto de reclamar o ofertório da acção de graças. A informação espalhou-se rapidamente. A comunidade paroquial convidou as circunvizinhas. As leituras foram distribuídas entre as comunidades.

Chegou o domingo. Era de ramos. A paróquia estava apinhada de gente. Vieram os ímpios de todos os tipos, incluindo os filhos da quinta, os lavradores e os garimpeiros da quinta, a prostituta ressuscitada e a amiga que lhe emprestara a roupa de estreia do prostíbulo, os compradores de ouro do garimpo, os cães fardados, o monge e o dono do prostíbulo, e os fiéis em geral.

Ninguém reconheceu ninguém, pois todos estavam transfigurados e cada um atento aos seus próprios objectivos. 

O vigário estava concentrado no ofertório solene. Os ímpios procuravam o miúdo, a oferenda prometida pelos filhos da quinta. 

Os filhos da quinta procuravam a mãe do miúdo, a fugitiva. A mãe do miúdo procurava o monge, o desonesto. O monge procurava o incensário desaparecido na quinta dos ímpios, agora nas mãos do miúdo. Os cães fardados procuravam a prostituta ressuscitada. Os garimpeiros e os lavradores procuravam os seus filhos, acolhidos pelo santuário. Os fiéis não buscavam salvação: clamavam por humanidade. O miúdo queria entender a razão de tantos olhares desatentos.

Durante o ofertório solene, no momento em que o miúdo se aproxima do altar com o incensário, o monge reconhece imediatamente o objecto desaparecido da quinta dos ímpios. Não reconhece primeiro o miúdo, reconhece o incensário.

O monge perde momentaneamente a compostura.

A mãe, ao observar o monge perturbado, fixa finalmente o olhar nele.

Os filhos da quinta percebem a inquietação.

Os cães fardados observam os movimentos.

O vigário mantém-se concentrado no ofertório.

E o miúdo, sem compreender totalmente, sente pela primeira vez que todos os olhares convergem para si.

Nesse instante, o incensário toca o altar como quem toca o destino. O miúdo segura-o com a mesma leveza com que segurara Cândido, nas páginas da sua infância sem nome. O fumo sobe, mas não em paz: sobe como inquietação.

O silêncio que se segue não é litúrgico. É reconhecimento.

A mãe do miúdo, entre rostos transfigurados, sente algo que não sabe nomear. O monge também a vê. Não a reconhece de imediato. Mas o passado, esse que o santuário fingia não existir, começa a respirar dentro do espaço sagrado.

Os diáconos sentem a tensão antes de a compreenderem. O vigário mantém-se preso ao ofertório, como se os olhares desavindos pudessem impedir o cântico da acção de graças.

Até que o incensário vacila.

E cai.

O som do metal no chão não é apenas ruído. É ruptura.

O fumo espalha-se pelo altar, já não em direcção ao céu, mas em direcção aos homens. E por um breve momento, ninguém sabe se está diante de uma missa ou de um julgamento.

O miúdo olha à sua volta. Pela primeira vez, não são apenas olhares dispersos. São buscas. Todos procuram algo nele sem saber o quê.

E ele, que nunca tivera nome, percebe apenas isto: está no centro de algo que não escolheu.

Naquele domingo de ramos, o santo altar cheira mais a incêndio do que a incenso.

O cântico da acção de graças comove aos fiéis ao ponto de se juntarem à fileira das dançarinas que animavam a missa. Esse gesto desencadeia uma confusão generalizada, em que cada um tenta alcançar os seus próprios objectivos.

Foi nesse tumulto que o miúdo consegue escapar do santuário, sem o incensário, mas com a sua mochila, apesar de vazia, do livro que terá ficado no santuário.

Assim, se consumou o quinto sinal: quando no santo altar, o incenso deixou de ser oração e passou a ser memória.

Ramos António Amine

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O quarto sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O quarto sinal’

Ramos António Amine
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A fuga da mãe e do miúdo passou despercebida aos olhares impávidos dos filhos da quinta. Os ímpios encontravam-se em festa, apesar da confusão instalada no interior da tenda, que culminara na queda do cálice sobre o altar da hipocrisia.

Após o último gole do vinho que sustentava a celebração, o monge, com gestos incomuns, solicitou o incensário para a bênção final. Foi então que os ímpios se recordaram: o incensário havia sido levado pelo miúdo, logo após a bênção inicial.

O miúdo não estava presente. Nem a mãe.

Um silêncio denso instalou-se. Para quebrá-lo, ergueu-se um assobio, um só, suficiente para convocar todos os cães fardados.

Vieram as filhas da quinta, trémulas. Vieram os cães fardados. Vieram os informantes da bófia, os garimpeiros, os lavradores. Até a guardiã dos avisos ignorados se fez presente.

Menos a mãe e o miúdo.

A ausência despertou inquietação entre os ímpios.
Onde estão?

A resposta foi um silêncio ensurdecedor.

Assim, a festa que começara sob a exibição da luxúria e da comunhão dos ímpios terminou com uma bênção sem incensário. Afinal, o miúdo era a oferenda dos filhos da quinta aos convidados, e o incensário, apenas o pretexto.

Declarou-se, então, a caça.

Uma rusga foi lançada em direção ao resgate do miúdo e da mãe.

A quinta foi reforçada. Novos arames farpados foram erguidos. A altura dos muros aumentou. A eletrificação do portão foi intensificada.

Os filhos da quinta permaneceram sob custódia da nova guardiã dos avisos ignorados, uma figura oferecida pelos ímpios convidados, trazida numa sacola triste.

Aos lavradores foram atribuídas porções maiores de terra, para que o cansaço lhes roubasse o tempo e, com ele, qualquer tentativa de fisgar o coração de uma das filhas da quinta, como sucedera com a mãe refugiada.

Aos garimpeiros impôs-se uma dívida eterna: pagariam pela morte do pai do miúdo, morto por ambição desmedida após encontrar ouro de valor ímpar. A dívida seria saldada na mina do Diabo, nas profundezas da quinta, sob exploração incessante, sem remuneração e vigiados pelos informantes da bófia.

Recrutaram-se novos cães fardados, mais jovens e de faro apurado. Os antigos foram expulsos e condenados a vaguear pelo mundo, à procura da mãe e do miúdo, agora como cães vadios.

Nenhuma punição recaiu sobre os filhos da quinta. Afinal, eram peritos em não sujar as mãos.

A caça estava declarada.

Enquanto isso, longe dali, a mãe, agora prostituta ressuscitada, enfrentava os piores solavancos da sua vida.

Sem teto. Sem alimento. Sem água sequer para a pureza do corpo.

Naquele novo mundo, tudo escasseava, excepto o sexo. O sexo, esse, fora elevado à condição de negócio mais rentável.

Diante disso, decidiu reinventar-se.

Tomou emprestado de uma amiga, também desalojada após a morte do marido, uma calça de pernas apertadas, uma blusa curta que mal lhe cobria o umbigo, um par de sapatos de salto alto, alguns cosméticos e um relógio simples para controlar o tempo.

E seguiu em direção ao prostíbulo.

Pela primeira vez, deixou o miúdo entregue ao destino, o mesmo destino que fora cruel com o pai.

Nos primeiros dias, enfrentou a resistência das outras mulheres. Chamaram-lhe velha. Intrusa. Indesejada.

A tensão só cessou com a intervenção do dono do prostíbulo.

O dono, um dos ímpios que estivera presente na festa da quinta. O mesmo cuja ação precipitada na tenda provocara a queda do cálice e, por consequência, a fuga da mãe e do miúdo.

Agora, ali estava ele.

E não a reconheceu.

Ela, porém, reconheceu-o sem hesitação.

A sua presença ajustou-lhe as intenções.

O destino, caprichoso, quis que o seu primeiro cliente fosse um rosto familiar: o monge.

Já não parecia velho. Já não era cego. Já não era surdo.

Nada do que fingira ser na tenda permanecia.

Atraído pelos seios firmes da recém-chegada, o monge escolheu-a. Naquele espaço, a novidade era sempre um atractivo e ele apreciava medir territórios ainda não explorados.

Ignorava, porém, que diante dele não estava apenas mais um corpo à venda.

Estava a memória viva daquilo que fingira não ver.

Na casa onde tudo obedecia a regras invisíveis, a prostituta ainda não conhecia os seus limites. Quando o monge a procurou, não recusou. Não por desejo, mas por hábito antigo, feito de sobrevivência e resignação.

Depois do acto apressado, ele levantou-se com a leveza dos que nunca ficam. Disse que ia buscar cigarros, como se o fumo pudesse justificar a impotência. Saiu. E não voltou.

Ficou o quarto. Ficou o cheiro. Ficou a ausência, essa presença mais pesada do que qualquer corpo.

Ela percebeu, então, que não haveria pagamento pelo serviço prestado. Nem palavra, nem responsabilidade, nem vestígio de moral. O monge, homem de fé na aparência e de corrupção nos gestos, dissolvera-se na noite. E, como rumor ainda mais amargo, sabia-se que mantinha ligações com o dono do prostíbulo, alianças silenciosas entre homens que vestiam virtude como máscara.

Saiu à sua procura. Não por esperança, mas por necessidade de sentido.

As outras mulheres perceberam. Já conheciam aquele tipo de abandono. Ainda assim, riram-se. Não por crueldade consciente, mas por desgaste, como quem já não distingue a dor dos outros da própria indiferença.

Mas nela o riso não encontrou eco. Encontrou forma.

Algo se endureceu por dentro. A humilhação deixou de ser ferida e tornou-se direcção. Já não queria apenas o monge. Queria o colapso de tudo o que o sustentava: a quinta, os homens, a ordem invisível dos ímpios.

Quando regressou, trazia o peso de quem já procurou demais e encontrou apenas vazio. Sentou-se em silêncio. E deixou a pergunta que nasceu inevitável: por quê?

O filho aproximou-se e enxugou-lhe as lágrimas. E nesse gesto simples, quase imperceptível, aprendeu uma verdade sem nome: as lágrimas de uma mãe não são como as de crocodilo.

O filho cresceu sem nome, sem pai, sem escola e sem Deus. Cresceu a observar o mundo de fora. Um dia viu uma carrinha levar crianças da sua idade para a escola. Enquanto uns eram conduzidos ao futuro, outros nem sequer sabiam que ele existia.

Ainda assim, o mundo encontrou forma de chegar até ele. Fragmentos de línguas antigas e estrangeiras: latim, alemão, francês, inglês, tiveram lhe atravessado a vida lá na quinta como restos de uma ordem maior que nunca o incluiu.

Depois veio a rua.

A rua não o rejeitou. Absorveu-o. Tornou-se parte do que sobra. Aprendeu a viver entre restos, a abrir sacos como quem abre destinos. E havia nisso uma ironia cruel: os mesmos lixos que lhe garantiam sobrevivência eram admirados por altruístas performativos como paisagens curiosas da pobreza.

A mãe, por sua vez, afundava-se cada vez mais no prostíbulo, não por escolha, mas por perseguição. Havia nela uma obsessão: encontrar o monge, obrigá-lo a olhar com a lâmpada acesa para aquilo que tinha deixado para trás.

Na rua, o rapaz encontrou os que já não perguntavam “porquê”. Mas dentro dele ainda havia resistência.

Até que encontrou o limite.

Num contentor, entre restos sem nome, viu um recém-nascido morto, apertado num saco de plástico. Não disse nada. Guardou o silêncio, como se tivesse herdado o peso do mundo.

Noutro contentor, encontrou comida ainda boa. E pensou no absurdo: o que uns descartam como excesso, outros disputam como sobrevivência.

Começou então a questionar tudo. A mesma sociedade que ridiculariza os que falam sozinhos na rua celebra aqueles que decidem destinos com uma assinatura.

Um dia, cansado, deitou-se sob uma árvore cujas flores pareciam desistir antes de cair. Da sua sacola, retirou um livro: Cândido. Leu e encontrou Pangloss, com o seu otimismo insistente, quase ofensivo diante da realidade.

Mas ali compreendeu: não bastava aceitar o mundo como o melhor possível. Era preciso enfrentá-lo.

O sol desaparecia quando um padre se aproximou. Chamou-o sem pressa, sem julgamento.

O rapaz abriu os olhos.

Tinha o corpo cansado de restos, mas a consciência inquieta de quem já não cabe no lugar onde está.

Levantou-se.

E seguiu.

No santuário da Nossa Senhora, deram-lhe um novo nome, ou talvez apenas um novo lugar.

E assim, o quarto sinal cumpriu-se: não como resposta, mas como início de uma outra forma de dúvida.

Ramos António Amine

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O segundo sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O segundo sinal’

Ramos António Amine
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Aquele que nascera da mistura proibida entre uma das filhas da quinta e um lavrador de mãos encaladas conheceu, desde o primeiro sopro, o peso da rejeição. Para os filhos legítimos da quinta, não passava de um erro, um desvio na ordem preservada, um corpo estranho num lugar onde a pureza era lei.

Mas a mãe, contra todas as vozes e silêncios, acolheu-o. E jurou, com a firmeza de quem desafia o destino de Édipo, protegê-lo da comunhão dos ímpios e oferecer-lhe aquilo que a própria quinta tinha de mais paradoxal: um luxo nascido do lixo, uma dignidade construída sobre restos.

O miúdo cresceu, assim, como uma promessa cuidadosamente lascada. Educado segundo os mais elevados valores da Era das Luzes, inalava o mundo com uma sede que não era apenas de saber, mas de fuga. Para além das primeiras letras, mergulhou nas línguas antigas, grego, latim, e nas estruturas rígidas do alemão. A mãe acreditava, com uma fé quase ingénua, que o domínio das línguas para lá dos muros da quinta lhe daria asas suficientes para os ultrapassar.

Aos cinco anos, já lia clássicos vindos de terras distantes, como se cada palavra fosse um ensaio de liberdade.

Enquanto isso, o pai era arrancado da lavra e lançado ao garimpo, não por necessidade do tripalium, mas por vingança. Os irmãos da mãe não perdoavam o gesto que manchara o nome da quinta. E, pior ainda, não perdoavam o fruto desse gesto: um filho que desafiava a própria lógica da sua existência.

No garimpo, o homem encontrou um mundo ainda mais cruel do que aquele que deixara. Ali, descobriu que muitos dos considerados desaparecidos no outro lado da quinta não o estavam: haviam sido engolidos pela terra e pelo silêncio, mantidos como reféns de uma mina que alimentava, ironicamente, os próprios filhos da quinta, cultores da pureza e da ordem, à custa de silêncios cúmplices.

No primeiro dia, foi espancado. Chamaram-lhe intruso, ameaça, substituto. Cada golpe agravava-lhe a respiração curta, já marcada pela asma. Ainda assim, sobreviveu. E, como tantos outros no garimpo, aprendeu a sobreviver não pela força, mas pelo cansaço. Foi-se moldando à brutalidade, até que esta deixou de ser exceção e passou a ser regra.

Dias depois, encontrou ouro ensanguentado. Não um ouro qualquer, mas aquele que poderia reescrever destinos. Um brilho raro, quase impossível, como se a própria terra, por um instante, tivesse decidido recompensá-lo.

Mas a fortuna, para os condenados da terra, é sempre breve.

Um olhar trémulo seu gerou um gesto mal interpretado pelos outros. E vieram os golpes, desta vez mais pesados, mais decididos. Não resistiu. Caiu ali mesmo, entre a poeira e o silêncio cúmplice dos demais. O ouro mudou de mãos. O corpo, esse, foi descartado, lançado numa cova rasa, coberto à pressa, como se nunca tivesse acolhido algo valioso: uma alma.

Na quinta, o tempo seguia o seu curso, indiferente. O miúdo crescia. Os filhos da quinta arrastavam-se pelos corredores das decisões, alheios, ou fingindo sê-lo, ao que se passava no garimpo.

E, mesmo que soubessem, o silêncio seria sempre a sua primeira decisão.

Mas há verdades que recusam permanecer enterradas.

Um cão, guiado talvez pelo instinto, ou pela justiça que falta aos homens, desenterrou o que restava do corpo. E assim, o segredo começou a apodrecer à superfície. Espalhou-se em zum-zum, depois em olhares desviados, até alcançar os ouvidos daqueles que mais temiam a sua revelação.

Tentaram contê-lo. Falharam.

Porque há sempre quem escute onde não deve, quem veja o que lhe é interdito: a guardiã dos avisos ignorados. E assim, a notícia chegou até ela.

A mãe.

Recebeu-a como quem recebe uma sentença. Não chorou de imediato. Primeiro veio o niilismo: um esvaziamento moral, e depois um silêncio pesado, absoluto, como a pedra de Sísifo. Mais tarde, a certeza: ele estava morto. Espancado por ter encontrado, por um instante, aquilo que lhes poderia ter mudado a vida.

O medo instalou-se. Não o medo da morte dela ou do miúdo, mas o da permanência na quinta. Criar o filho ali, sozinha, dentro daqueles muros inumanos, isso, sim, parecia-lhe insuportável, e ao mesmo tempo uma contradição aos valores de igualdade, solidariedade e fraternidade sobre os quais fora educada.

E então decidiu.

Fugir.

Mas fugir implicava atravessar o impossível: muros altos, arames farpados, cães treinados para impedir a liberdade. Ainda assim, havia algo mais forte do que tudo isso, uma vontade crua, quase selvagem, de não pertencer mais àquele lugar.

Antes que o filho fosse estendido no altar da hipocrisia, como oferenda imolada pelos ímpios no seu próximo ritual, preferia a incerteza da liberdade à segurança contaminada. Preferia cair fora da quinta como uma prostituta ressuscitada a apodrecer dentro dela.

E foi assim, no silêncio de uma decisão sem retorno, que se anunciou o segundo sinal da queda da quinta.

Ramos António Amine

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