Odisseia pernambucana

Eduardo Martínez: Conto ‘Odisseia pernambucana’

Eduardo Martínez. Foto por Irene Oliveira
Eduardo Martínez
Imagem criada por IA da Gemini – 13 de dezembro de 2025, às 9:08 PM

Orestes carregava um amontoado de medos. No entanto, não suportava a ideia de morrer em Recife. Não que tivesse medo da morte, bem como não desgostava da capital. Só que queria ser enterrado na sua Sirinhaém, a pouco mais de 70 quilômetros dali. 

           — O lugar mais lindo do mundo!

           — E por acaso você conhece o mundo todo, Orestes?

           — E por acaso preciso conhecer todas as mulheres do mundo pra saber que você é a mais linda, Marinalva?

           — Hum… Tá galanteador hoje, meu amor.

           A despeito desse romantismo todo, o coração do homem não andava bem das pernas. Vez ou outra, a dor no peito vinha sem avisar. Orestes era levado às pressas para o hospital e, após o susto, voltava para casa dois ou três dias depois. Tais episódios se tornaram mais frequentes, até que o sujeito não retornou.

           Antes mesmo do corpo do marido ser liberado pelo nosocômio, Marinalva foi assediada por quase cinco funerárias. Quase porque, assim que o funcionário da quinta apareceu, foi enxotado que nem cachorro. Que nem cachorro, não, pois a mulher era deveras zelosa em relação a essas adoráveis criaturas.

           — Marinalva, por favor, daqui a pouco você vai dizer que cães são que nem gente.

           — Óbvio que não, Orestes! Cães são confiáveis. 

           Após expulsar o último urubu que sombreava o cadáver do Orestes, a mulher começou a pensar num jeito de transportar o defunto para Sirinhaém. A distância nem era tanta, mas faltava dinheiro para fazer o trajeto, ainda mais porque Marinalva havia raspado o último níquel do cofre na compra do caixão.

            O ataúde era muito grande para caber no Fusca. Se bem que, ela pensou, poderia amarrá-lo na capota. Mas espaço não era o único problema, pois o motor do automóvel já não dava no couro há tempos. Era melhor não arriscar ficar pelo meio da estrada, ainda mais com o moribundo começando a feder. 

           Marinalva pensou em pedir ajuda para o Alexandre, o vizinho. Ele possuía uma Kombi, mas logo se atentou a um detalhe. É que os dois não se bicavam desde que haviam discutido por conta de futebol. Marinalva, torcedora doente do Santa Cruz, não suportou as provocações do vizinho fanático pelo Sport. Foi aquela saraivada de palavrões, enquanto Orestes, que era Náutico sem grandes paixões, preferiu não se meter. 

   Diante daquela sinuca de bico, eis que a viúva recebeu uma proposta inesperada. Júlio, que morava no final da rua, soube do problema da mulher e, não tardou, foi bater à sua porta.

           —  Mas isso não é loucura?

      — Não sei por que seria, Marinalva.

— É que o Orestes sempre teve medo do mar. 

     — Se esse é o problema, tenho certeza de que ele não vai morrer afogado.

       — Você tem razão.

   Júlio, afamado pescador, havia dito que levaria o caixão no seu barco. Como o sujeito não possuía automóvel, pediu ajuda a outro vizinho, o Laurentino. Este possuía uma carroça, que era puxada pela Filó, mula de maus bofes, mas de força descomunal. 

       Antes da meia-noite, Laurentino estacionou a carroça em frente à residência da Marinalva. Lá estava também o Júlio para ajudar a colocar o caixão sobre a carroça. Os dois homens, cujos músculos eram talhados diariamente nas respectivas profissões, ergueram o pesado féretro e o depositaram cuidadosamente sobre a caçamba. 

   Após amarrarem o ataúde, Júlio e Laurentino, acompanhados da Marinalva, subiram na carroça e seguiram para a praia, onde o barco do pescador estava amarrado na areia. O trajeto foi quase silencioso, caso não fosse pelo som provocado pelos cascos da Filó sobre o asfalto duro. 

       Assim que dobrou a esquina, já era possível avistar a enseada. Mais algumas centenas de metros, Filó sentiu a areia, que abafou o ruído das passadas, agora mais pesadas. Ao comando do Laurentino, a mula estacou ao lado do barco, cujo nome, estampado na sua lateral, era Refrega. Júlio saltou da carroça e, com uma das mãos, ajudou a mulher a descer.

         Meia hora após, o barco, já com o caixão no seu interior, foi arrastado até as águas, que estavam calmas. Marinalva e Júlio se despediram do Laurentino, que não aceitou qualquer pagamento. O morto havia sido seu amigo durante décadas. 

       Sem muitas ondas para serem vencidas, não tardou, o barulhento motor a diesel foi transpondo a distância. Júlio, olhos para frente, vez ou outra observava Marinalva com o rosto voltado para as luzes de Recife, que se afastavam cada vez mais. O pescador calculou que a viagem não duraria mais do que oito ou nove horas, dependendo da vontade da maré. Pobre infeliz, não contou com a chuva, que começou a cair forte quando ainda restavam mais de 40 quilômetros para serem vencidos pelo bravo Refrega. 

      Júlio, nervos à flor da pele, tentava aparentar calma, enquanto Marinalva, agarrada ao caixão, lamentava a maldita vontade do marido de ser enterrado na terra natal. Quanto transtorno apenas para cumprir o desejo do defunto. Perigava ela e Júlio serem arrestados para a morte. No entanto, foi justamente quando tudo parecia estar perdido, que a natureza resolveu, irônica como ela só, suspender a tormenta. 

       Abriu-se o céu, que deu passagem para os raios da manhã. Marinalva agora chorava de alívio, enquanto Júlio, apesar de uma furtiva lágrima no canto do olho esquerdo, se mantinha firme no timão. E, pouco mais de uma hora, os aventureiros avistaram as areias da praia de Barra de Sirinhaém. 

           Marinalva, eufórica, começou a conversar com o marido, mesmo que ele fosse incapaz de respondê-la, enquanto Júlio se sentiu aliviado por ter conseguido se manter firme diante do que ele imaginou ser o fim da linha. Sentiu-se Odisseu e, exausto, sentou-se ao lado da viúva. Por impulso, Marinalva beijou os lábios do herói, que, surpreso, recebeu o prêmio mais do que merecido. 

           A distância foi vencida e, há menos de duzentos metros da praia, eis que Refrega, ferido mortalmente pela tempestade que enfrentou, começou a afundar. Assustada, Marinalva gritava, enquanto Júlio, mais pragmático, puxou a mulher pela mão e, assim, os dois pularam no mar. 

           Nadaram e, de vez em quando, olhavam para trás e viam Refrega afundar até que o barco ficou totalmente submerso. Sem ter o que fazer, os dois continuaram nadando e, finalmente, chegaram à praia. Exausto, tombaram na areia e adormeceram.

          Marinalva foi a primeira a despertar. Virou-se para o lado e, por um instante, admirou o corpo de Júlio. Sentada, ela depositou o rosto sobre os joelhos e chorou. O pescador logo acordou.

           — Não chore, Marinalva. Estamos vivos.

           — Como fui tola! Fiz você perder o seu barco.

           — Quanto a isso, não se preocupe.

           — E como é que não vou me preocupar, homem?

           — Já faz tempo que quero largar essa vida de pescador.

           — Deixa de bobagem, Júlio. Você sempre foi apaixonado pelo mar.

           — É verdade. Mas, ultimamente, ele tem me deixado enjoado.

           Os dois se entreolharam e, então, sorriram. Depois, levantaram-se e, mãos dadas, foram procurar um jeito de retornarem para Recife. 

           Quase uma semana após, o caixão, intacto, encalhou na mesma praia. Orestes foi enterrado como indigente no Cemitério Municipal de Sirinhaém. Mesmo assim, o seu último desejo foi realizado.

Eduardo Martínez

Voltar

Facebook




Leila Alves: 'Sarau da Boa Vista: Cultura, poesia e inspiração no centro de Recife'

Criado em 2013, fruto da iniciativa provocativa do poeta Aldo Lins, o Sarau da Boa Vista acontece na Rua do Hospício, Centro do Recife

É na calçada de uma das esquinas mais simbólicas para o segmento cultural do Recife que poetas e artistas se reúnem, sempre no último sábado do mês, para expressarem sentimentos, insatisfações ou, simplesmente, contemplar as possíveis linguagens das artes.

Criado em 2013, fruto da iniciativa provocativa do poeta Aldo Lins, o Sarau da Boa Vista acontece na Rua do Hospício, centro de Recife, e é uma maneira de fomento cultural em um local tão representativo para a classe: em frente ao Teatro do Parque.

A cada edição um poeta ou poetisa recebe homenagem, o que acarreta em uma rotatividade de público e pensamentos que só vem a somar nesse encontro da música com poesia.

“O barato do Sarau da Boa Vista é que sempre se renova, seja por poetas novos, músicos ainda inéditos no Sarau e pelo público diversificado”, diz Aldo, criador do movimento.

Com 79 edições realizadas até agora, o Sarau da Boa Vista já recebeu dezenas de poetas, cantores e músicos da região ao longo dos 7 anos de existência.

Fonte de pesquisa: Internet

Leila Alves

Leila.alvesmlc@gmail.com Colunista Correspondente              




Fábio Ávila: 'Recife: Patrimônio Despedaçado'

Fabio Ávila

Recife: Patrimônio Despedaçado

Encontro-me na Boa Vista, bairro que guarda ainda os semblantes de casarões antigos cujas fachadas estão deterioradas e os janelões, como olhos atentos, as frondosas portas mudas e solitárias, parecem derramar lágrimas e engolir o soluço pelo descaso dos habitantes e dos péssimos gestores que esbanjam desprezo pelo passado glorioso de antanho, da outrora terra do grande abolicionista, ser culto e humano, o imortal Joaquim Nabuco.

Estou imerso no terceiro mundo latente e pulsante, latejante, onde as paredes seculares das edificações outrora nobres clamam por socorro. O cenário é tristemente esplendoroso. Encontro-me alojado em um pequeno quarto ”chambre de bonne” de um apartamento cuja área de serviço foi transformada em local para hóspedes de passagem que buscam hospedar-se a preços acessíveis e para pessoas que têm sensibilidade à flor da pele para mergulhar no Brasil profundo, no Brasilzão longe das lojas de grife, dos centros comerciais destinados a bestializar os incautos e ignorantes os quais não percebem a forma vil e violenta do desrespeito à história da cidade.

Recife sofre e perde a sua alma. Esvai-se a sua alma, seu passado e suas características histórico-culturais e arquitetônicas estão massacradas pelo desprezo que os pernambucanos têm por sua Capital que já foi a mais elegante das cidades do nordeste brasileiro.

Recife agoniza. O bairro Boa Vista perdeu de vista a sua beleza. Entretanto, o vento soprado acariciava meus cabelos e penetrava o meu cérebro. As nuvens volumosas prenunciavam a chegada momentânea de mangas de chuva cujas águas estariam repelidas pelo asfalto desconexo e pelas calçadas mal cimentadas, esburacadas, que não permitem a absorção das águas celestes e, desta forma, amaldiçoando a população recifense.

Sinto que meu cérebro, minhas energias e minhas percepções transbordam e levam-me à consciência da multiplicidade de minhas buscas. Como contribuir para frear a fúria destruidora dos incautos, incultos e incompetentes habitantes do Recife?

Isolado de todos e de tudo o que me rodeia no cotidiano, sem interferências externas, sinto novamente a emoção à flor da pele e a pele com seus pelos eriçados pela triste emoção de encontrar-me na descosturada Recife e seu patrimônio despedaçado.

Do pequeno bar Santa Cruz que ostenta em uma placa os seus 45 anos de existência, percebo o Largo da Cruz e a Igreja da Santa Cruz. Cruz credo, estão destruindo o nosso Recife.

Malditos sejam!!!