Tempestade no rio

Jane Nash: ‘Tempestade no rio’ | Uma fábula tocante e mágica sobre o Rei dos Cisnes, o resgate de um menino perdido e o preço do dever e da redenção!

Jane Nash
Ilustração artística em realismo mágico mostrando um grande cisne branco ao lado de um menino sob um céu de tempestade, representando o conto Tempestade no Rio de Jane Nash.
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O alto macho do cisne olhou rio abaixo. O céu estava se fechando, negro, e sua fêmea e os filhotes de cisne estavam amontoados nos juncos.

— Leve-os rio acima — ordenou ele.

Ela se desenrolou e avançou, com os fofos filhotes cinzentos atrás dela, sua curiosidade ganhando peso. O rei dos cisnes se lembrava dessa tempestade do ano anterior e, desta vez, estava determinado a não deixá-la levar nenhuma criatura viva, seja da água ou das margens. Este ano seria uma batalha para a qual ele havia se preparado.

Enquanto voava sobre os canteiros de juncos e as águas agitadas, podia ver novamente a queda e o arrasto do rio, levando-o para mais fundo até que não houvesse ninguém para resgatar; apenas um espaço vazio na margem onde antes um menino havia se sentado brincando, jogando gravetos diante da margem para vê-los acelerar rio abaixo. O riacho agora era um rio, o cruel sangue vital de sua existência. O rei dos cisnes ficou feliz por estar no ar.

Ainda se desenrolando, mal flutuando como feixes de penas de anjo, os seis filhotes de cisne tinham a cor das nuvens que rolavam rapidamente pelo céu. Ele passou sobre eles nos canteiros de juncos, ouvindo sua fêmea estender o chamado:

— Volte para mim.

O som de seu apelo penetrou em seu senso de dever. Ele pousou na margem, estendendo as asas. A tempestade logo desabaria sobre eles.

Perto dali, Jono estava pescando. Tinha oito anos e meio, com cabelos dourados que ficavam presos na gola de sua camisa xadrez vermelha e azul. Suas botas de borracha tinham um padrão de camuflagem azul e seus joelhos nus estavam cobertos de casquinhas, por ter caído das árvores. Ao lado dele estava uma pequena caixa de ferramentas de plástico verde, aberta, com alguns anzóis, tesouras e um saco de larvas vivas como isca. Ele não percebeu a tempestade que se aproximava. Sua cabeça estava cheia dos filhotes de cisne que havia visto durante a tarde e da concentração necessária para pegar uma perca. Ele sabia identificar uma perca.

Jono não percebeu o relâmpago que rasgou o céu, mas, quando o vento chegou, Jono vestiu um suéter tricotado à mão por sua avó, com a cabeça de um cachorro na frente e o corpo continuando até as costas. Uma cauda tricotada pendia das costas como um bônus adicional.

Aos oito anos e meio, sua destreza ainda não estava desenvolvida e ele rapidamente se viu enredado na linha de sua vara de pesca. O anzol e a larva estavam incrustados em algum lugar daquele suéter. Ele o encontrou, mas fisgou a mão no anzol farpado. Começou a chorar.

O rei dos cisnes elevou-se ao céu ao ouvir a situação daquele coração delicado. Poderosamente equilibrado e voando pouco acima da superfície da água, chegou diante de Jono, que prontamente parou de chorar, chocado ao ver uma ave tão magnífica diante dele.

— Seja corajoso — falou o rei dos cisnes.

Não ocorre a uma criança de oito anos e meio que cisnes não falam e, naquele momento, o menino respondeu:

— Ele pegou minha mão — e ergueu a mão esquerda para ser examinada.

O anzol estava enterrado na pele entre o dedo médio e o primeiro dedo.

— Isso parece dolorido.

A voz profunda da ave acalmou o menino, como se ele tivesse podido acariciar os cabelos do menino. Lágrimas e manchas de sujeira do rio lavavam o rosto angelical do menino. Seus olhos, safiras profundas e reluzentes, acompanharam a ave enquanto ela caminhava desajeitadamente atrás dele. O cisne estava cabeça a cabeça, da mesma altura que o menino.

— Abaixe sua vara de pesca e, com a mão direita, você vai cortar a linha. Deixe o anzol em sua mão.

Diante disso, Jono soluçou.

— Faça o que eu digo. Faça isso, faça isso agora.

A chuva podia ser ouvida à distância. Jono estava tão concentrado em conseguir manejar a tesoura e cortar a linha que se esqueceu do telefone celular que sua mãe havia colocado no bolso externo de sua mochila para emergências.

— Meu nome é Jono — disse o menino enquanto colocava a tesoura no chão.

— Eu sou o Rei dos Cisnes — respondeu o macho.

— E este é o meu rio.

A pele das pernas do menino se arrepiou. Usar shorts já não parecia uma boa escolha e ele desejou estar usando sua calça jeans.

— É hora de voltar para casa.

O rei dos cisnes o afastou da margem do rio com uma cutucada.

— É hora de ir para casa. Agora.

Jono levantou-se e, na confusão e no drama do tempo tumultuado, não conseguia se lembrar do caminho para casa. O céu escureceu e a pequena trilha de grama pisoteada que levava ao seu local de pesca havia desaparecido na atenção do vento. Ansioso para não desobedecer ao rei dos cisnes, Jono caminhou para o interior, sua pequena caixa de ferramentas de plástico em uma das mãos, a outra mão estendida em um ângulo desajeitado ao seu lado, como uma asa quebrada.

Jono sentou-se sob uma árvore ancestral, seus galhos labirínticos oferecendo algum pequeno alívio da chuva que agora estava presente. Ele estava perdido. O cisne voou através do pasto e pousou diante dele.

— Suba nas minhas costas.

Jono olhou fixamente para ele.

— Deixe sua caixa e suba nas minhas costas. Deixe suas pernas penduradas atrás das minhas asas e cuidadosamente envolva seus braços ao redor do meu pescoço e do meu corpo.

A ave recuou em direção ao menino que, encantado, fez o que lhe fora dito.

Um relâmpago dividiu o céu negro e iluminou a imagem mágica de um menino segurando desajeitadamente um grande cisne. Os cachos de linho do menino estavam empurrados para trás, afastados de seu rosto. Ele percebeu um grupo de patos que se curvaram diante do assombro dos sinais da ave e do menino enquanto eles passavam sobre suas cabeças.

Pouco tempo depois, e agora completamente encharcado, o rei dos cisnes mergulhou para baixo atrás do velho celeiro junto à casa da família de Jono.

— Desça. Você está seguro aqui.

Mas Jono foi descuidado e, em sua pressa, prendeu o anzol de sua mão esquerda no peito do rei dos cisnes e rasgou carne e penas. O cisne afastou-se, sibilando para Jono, que rapidamente correu para sua casa, de repente assustado com aquela poderosa criatura.

Nos canteiros de juncos, uma orgulhosa fêmea protegia seus filhotes da tempestade, mantendo-os sobre suas costas, usando as asas como barreiras contra os elementos. Ela levantou a cabeça para ver seu amor, seu rei, chegar ao seu lado. Podia sentir o gosto do sangue dele no ar enquanto ele voava em sua direção.

— O menino.

Sua voz ressoou como o trovão, despertando algumas das bolas de penugem e penas.

— Você fez o que tinha de fazer. O menino não estava seguro.

A fêmea olhou para ele, seu próprio coração doendo, cheio de amor e proteção por aquelas seis bocas famintas.

— Você salvou este aqui — continuou ela suavemente.

O rei dos cisnes conseguia se lembrar da tempestade anterior. Lembrava-se de um menino um pouco mais velho, caindo nos juncos e sendo levado pela correnteza, assustado demais para estender a mão para o cisne que havia voado até ele para ajudá-lo a permanecer flutuando.

— Não foi culpa sua — disse ela, lendo sua mente.

— É o meu rio.

Ela bicou um pouco de musgo e o arrancou das pedras junto às pedras acima da linha da água. Colocou-o no pequeno buraco em seu peito, danificado pelo anzol de pesca.

— Esta não é nenhuma penalidade que você precise pagar — seus tons suaves lembraram-lhe que sua casa era ao lado dela.

— É o meu rio. Posso garantir que isso nunca mais aconteça — e ele afundou ao lado dela, grato por seus olhos, por suas atenções e por suas forças.

— O menino está seguro agora.

E ele descansou a cabeça entre os feixes de penas de anjo aninhados sobre as costas dela. A excitação causada pela cabeça daquele macho de cisne, aconchegando-se em meio ao que até então fora o berçário deles, despertou todos eles, e seus guinchos excitados trouxeram conforto a ele.

Jane Nash

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O sétimo sinal

Ramos António Amine: Conto ‘O sétimo sinal’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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Após a fuga da aldeia com a brigada provincial e por recomendação do vigário, o carro da brigada foi conduzido até o mosteiro da capital provincial, onde o jovem foi acolhido no orfanato, enquanto aguardava os trâmites legais para a sua ida à capital do país, para frequentar o curso de Geologia, como prometido pelo vigário e confirmado pela brigada provincial.

Do outro lado do santuário, o vigário procurava formas discretas que lhe permitissem sair sem cruzar a mesma aldeia que quisera queimar vivo o jovem, pois seria ele o próximo alvo da fúria dos aldeões, por ter precipitado a saída do jovem da aldeia, quando este ainda tinha muito para dar.

Por isso, aguardava a noite.

Quando a noite chegou, disfarçado de motorista comum, o vigário colocou-se na viatura e dirigiu-se pela estrada que dava acesso à aldeia. Para sua surpresa, a aldeia estava totalmente calma, quase resignada consigo mesma. Nenhum dos seus habitantes se encontrava na estrada a vigiar os movimentos habituais. Este facto deixou o vigário incrédulo, pois não esperava tal situação, o que lhe permitiu atravessar a aldeia sem dificuldade, embora permanecesse atento a cada canto. Desconfiava sempre de possíveis ciladas por parte dos populares.

Na manhã seguinte, a aldeia descobriu que o vigário havia passado durante a noite e lamentou não tê-lo interceptado de dia, pois queria pedir desculpas pelo que acontecera ao jovem. Ainda assim, prometeu fazê-lo oportunamente, sendo aquela a única estrada de acesso ao santuário, por onde o vigário sempre passava.

No orfanato, o jovem não encontrava espaço para conversar com os outros miúdos ali acolhidos, não por preconceito das responsáveis do mosteiro, mas pela própria urgência da sua estadia. Ali, quase não havia tempo para conversas, todos estavam ocupados nos seus afazeres.

Apesar disso, observava os outros órfãos, marcados pela ausência de identidade e pela sede de futuro. Não via neles diferença essencial em relação a si. Apenas notava nos seus olhos um certo otimismo em relação ao presente e um automatismo nas suas acções, o que o distinguia, pois ele acreditava que cada um devia cultivar o seu próprio jardim, convicção que guardava desde a leitura de Cândido, de Voltaire.

Por outro lado, agradecia interiormente o cuidado das responsáveis do orfanato. Sem a sua abnegação, a rua teria sido o destino inevitável daqueles órfãos. Quis expressar a sua gratidão, mas encontrou barreiras, pois não era permitida qualquer aproximação, sobretudo de pessoas sem identidade definida, como ele. Ainda assim, guardou esse gesto consigo e prometeu fazê-lo oportunamente.

O mês foi passando.

Até que, certo dia, um dos comissionários do amparo da província, juntamente com o vigário, se fez presente na instituição. Após explicarem a razão da visita, informaram as responsáveis de que o jovem não ficaria ali de forma definitiva, pois tinha obtido a oportunidade de seguir para a capital do país para cursar Geologia, cumprindo-se assim a promessa feita pelas entidades envolvidas.

As responsáveis não resistiram. Além disso, o jovem não representava uma ligação afectiva forte para aquele lugar, que dependia sobretudo de crianças de presença recente e identidade em formação. Assim, assinaram os documentos que autorizavam a sua partida.

Porém, uma das funcionárias, a mais velha de todas, decidiu aproximar-se para se despedir do jovem. Esse gesto reabriu nele uma ferida que nunca cicatrizara: a memória da mãe e de um filho perdido há anos. No entanto, nem o jovem nem a funcionária sabiam que estavam diante de memórias vivas um do outro.

A mãe reconheceu o filho. O filho, porém, não a reconheceu. Ela ficou em choque, quase perdendo os sentidos ao ver o seu único filho transformado pelo tempo. Ainda assim, resistiu.

Decidiu revelar-se.

Mas não houve tempo.

A rotina da instituição não permitia conversas longas, e para evitar conflitos com as responsáveis, a mãe limitou-se a despedir-se do jovem, entregando-lhe um colar em formato de 7 e um papel com rabiscos apressados, onde se lia:

“Para trás, nunca, sob nenhum pretexto, pois o mundo está cheio de gente que te quer desviar do teu caminho.”

Assinado: a tua mãe.

A hora da saída para a capital já estava definida há muito. O jovem recebeu o colar e a carta, mas a sua atenção ficou presa noutro lugar. Afinal, precisava de se concentrar nos últimos dizeres vindos do vigário e dos comissionários do amparo.

Todo aquele tempo de espera permitira aos comissionários do amparo tratar de toda a documentação do jovem. Tinham prometido na aldeia, quando ele recebeu a confirmação da atribuição da oportunidade de estudos na capital, após ter respondido correctamente ao enigma elaborado pelo vigário.

Para além dos últimos dizeres, aquele momento serviu também para a entrega dos seus documentos, incluindo certificados que haviam sido esquecidos na quinta, quando da fuga da mãe e do menino. O jovem admirou-se da astúcia que levou os comissionários do amparo até à quinta dos ímpios, a ponto de tratarem de toda a documentação, sabendo que se tratava de um lugar de protecção reforçada. Ainda assim, não quis saber mais da quinta, como se pressentisse a morte do pai no garimpo daquela quinta, após ter encontrado algo de valor ímpar.

Enquanto isso, a mãe não tirava os olhos do jovem, culpando-se em silêncio por o ter deixado nas mãos do destino alheio. No entanto, nunca se culpava de ter fugido da quinta dos ímpios, decisão que os empurrou para caminhos diferentes. Dizia para consigo mesma que daria tudo para poder contornar o destino do filho. Porém, esse destino já estava traçado: curso de Geologia, na capital do país. Consciente disso, restava-lhe apenas manter-se serena e torcer pelo seu sucesso.

O jovem foi acompanhado até à terminal de transportes rodoviários da cidade, onde foi deixado sozinho para pernoitar e partir no dia seguinte. Da sua cidade para a capital, percorreria distâncias possíveis apenas com a coragem. A estrada principal não estava totalmente transitável, agravada pelo período de inverno, marcado por chuvas torrenciais e granizo.

A primeira tentação que o jovem enfrentou surgiu logo na terminal, onde, em plena noite sonolenta, sentiu que algo lhe era retirado por gente de má-fé. Era a sua pasta que, aos poucos, deixava de repousar como sua cabeceira e parecia querer ficar naquela cidade, como se os certificados vindos da quinta dos ímpios quisessem inviabilizar o seu destino. Mesmo assim, o jovem despertou a tempo e enfrentou os sem-vergonha, como se escutasse, dentro de si, as palavras ainda não lidas da carta da mãe. Apresentou-os imediatamente às autoridades da guarita e permaneceu vigilante.

Na hora de embarque, já na confusão da entrada da viatura, o jovem passou o teste da segunda tentação. Desta vez, quase perdeu o seu bilhete de passageiro, pressionado pelo fluxo desordenado de pessoas. Havia ali gente dura, marcada por uma vida que parecia não ter sido suficientemente amada pelo mundo. Ainda assim, recuperou o bilhete e seguiu viagem, guardando essa experiência consigo.

A viagem prosseguiu. Desamparado, o jovem foi-se perdendo em reflexões sobre a sua vida. Pela primeira vez, ninguém o incomodava, a não ser os rostos absortos e os companheiros de viagem isolados por ecrãs e auriculares.

Pensou que tudo na sua vida se encaixava: cada tragédia vivida preparava-o para uma etapa maior, até chegar ao ponto de se encontrar na viatura rumo à capital. Porém, por outro lado, sentia que o mundo à sua volta não era o melhor possível, daí que era imperioso começar a cultivar o seu próprio jardim.

Estas reflexões fortaleciam a sua determinação em prosseguir, apesar das estradas esburacadas e lamacentas. Só não entendia por que razão iria cursar Geologia, em detrimento de Filosofia, com a qual tivera contacto por meio de Cândido de Voltaire na quinta dos ímpios e, de A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset no santuário.

Até que o transporte parou em plena viagem, à procura de estratégias para escapar a um charco que se formara ao longo da estrada principal. O cenário chamou-lhe a atenção. Pensou, então, que a palavra Geologia, formada por “geo” (terra) e “logia” (estudo), poderia dar-lhe uma forma de compreender e talvez propor vias alternativas para o tráfego de pessoas e bens.

Depois de uma semana e meia de viagem, o jovem chegou à capital do país. Logo na descida, quis o destino que enfrentasse mais uma constatação dura: a existência de contentores de lixo espalhados, crianças desamparadas e, do outro lado da via, automóveis de luxo que passavam indiferentes. Notou também que, pela primeira vez, respirava um ar poluído, marcado por emissões que afectavam a camada de ozono.

Pela segunda vez, o jovem sentiu a razão de levar o curso de Geologia a sério. Porém, esse ânimo foi abafado ao recordar que, após o desembarque, cabia-lhe procurar a sua própria moradia.

Ramos António Amine

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A prostituta ressuscitada

Ramos António Amine: ‘A prostituta ressuscitada’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
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A sociedade foi programada para dar respostas rápidas a problemas complexos. Rotular alguém de prostituta tornou-se, ao longo do tempo, uma dessas respostas fáceis, uma forma insípida de encerrar qualquer debate sobre injustiça, estupros precoces, desigualdade, pobreza, violência e exclusão social. O rótulo basta. O contexto histórico deixa de importar.

A prostituta ocupa um lugar tão trivial quanto contraditório na ordem social. É visível, mas não reconhecida; abusada, mas descartada; tolerada na prática, condenada no discurso. Ela denuncia aquilo que muitos preferem ignorar: a decadência de um sistema que cria fossos e depois pune quem cai neles.

Ninguém ousa questionar como ela chegou ali. A pergunta que vem à tona é sempre por que não sai. Como se sair fosse apenas uma questão de vontade e não de oportunidades. Como se as oportunidades fossem distribuídas de forma justa. Como se a pobreza não fosse o gatilho diário que empurra milhares de mulheres para decisões que nunca escolheram plenamente.

A prostituta é imediatamente concebida como símbolo de decadência moral. Entretanto, a verdadeira decadência revela-se na hipocrisia social que absolve o cliente e condena a prostituta; que beija em surdina a boca da prostituta, mas a julga em voz alta. Nesse cenário, a prostituição nunca é causa, mas corolário de um mundo que preferiu vender tudo, inclusive a dignidade humana.

É nesse ponto que se dá a ressurreição.

A prostituta ressuscita quando cansa de ser apenas produto e passa a ser voz. Quando reconhece que há um sistema que a empurrou para a quinta dos ímpios e deixa de ser mero objeto de excitação ou repulsa dos próprios ímpios. Ressuscita quando descobre que a vergonha que lhe cobre o rosto nunca foi criação sua, mas obra de uma sociedade incapaz de assumir as próprias incoerências.

Essa ressurreição nada tem a ver com religião, muito menos com mito. É social e política. É o renascer de uma consciência que, ao longo do tempo, foi mantida refém de uma estrutura que sobreviveu do silêncio cúmplice. É a recusa em carregar sozinha o peso da culpa de uma autoridade que aplaude a exclusão e, depois, condena os seus efeitos para deles se afastar.

Em essência, a prostituta nunca esteve morta. Morta estava a sensibilidade coletiva que escolheu condená-la sem compreender a sua história. Morta estava a ética que exige pureza e inocência de quem nunca teve escolhas, enquanto normaliza a corrupção moral de quem pode pagar para sugar as tetas da prostituta.

A prostituta ressuscitada não pede salvação. Solicita humanidade. E, ao fazê-lo, interpela-nos com uma pergunta desconfortável, mas necessária: quem, afinal, precisa de salvação: ela ou a sociedade que a forjou?

Ramos António Amine

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Poetizo, logo vivo – XII

Pietro Costa: Pensamento ‘Poetizo, logo vivo – XII

Pietro Costa
Pietro Costa
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A beleza pode ser transitória para sentidos, mas redentora para o coração.

Pietro Costa

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Parte de mim vai embora

Resenha do livro ‘Parte de mim vai embora’, de Alexandre Fonseca, pela Editora Suik

Capa do livro Parte de mim vai embora de Alexandre Fonseca, pela Editira Suilk
Parte de mim vai embora

RESENHA

Alexandre, ousadamente, começa este livro do fim.

Sim! ele começa com o fim do trabalho, do casamento e a morte do pai da protagonista Ota.

Mas, então, o que resta para nós leitores?

Uma narrativa excelente!

Este livro não veio nos falar de perdas e finais, e sim, de recomeço, redenção, autoestima, autoconhecimento e vida!!

A obra é avessa ao comum, mas traz muito mais do que imaginamos.

Um livro intenso, denso e dinâmico.

Assista à resenha do canal @oqueli no Youtube

SINOPSE

A vida de Luiz Otávio desabou em uma semana, perdendo o amor, o emprego e a família, mergulhando em um luto interior.

Em busca de reação, ele enfrenta os desafios de sua alma e questiona seu futuro.

Até que ponto podemos mudar nossa trajetória? O livre arbítrio se confronta com o
destino, enquanto ele busca respostas e descobre novos caminhos.

SOBRE A OBRA

Alexandre começou a publicar em 2012, aos 30 anos.

Este é o seu quinto livro solo.

Neste seu primeiro romance, o autor fala sobre luto, covid19 e resiliência.

Sua narrativa tem a intenção de subverter a ordem, pois a história começa do fim, e se desenrola com o objetivo de mostrar uma trajetória de resiliência e superação.

 Entre suas obras estão crônicas, poemas e poesias.

 Autodenomina-se inquieto, com gosto por experimentar o novo.

SOBRE O AUTOR

Imagem de Alexandre Fonseca
Alexanmdre Fonseca

Alexandre Pereira Fonseca tem 42 anos, é Assistente Social e PCD.

Marido de Helena, pai de Malu e um apaixonado por reflexões por meio da literatura.

Dentre todas as suas publicações há poesias e poemas, crônicas diversas e este, que é seu primeiro romance.

OBRAS DO AUTOR

Capa do livro 'Em queda livre' de Alexandre Fonseca
Em queda livre

Capa do livro 'A vida é mesmo agora' de Alexandre Fonseca
A vida é mesmo agora

Capa do livro 'Parte de mim vai embora', de Alexandre Fonseca
Parte de mim vai embora

ONDE ENCONTRAR


Página Inicial

Resenhas da colunista Lee Oliveira




Olhares Silenciosos

Resenha do livro ‘Olhares Silenciosos’, de Romilda Santos pela Amazon

 Duas mulheres que sempre viveram em mundos completamente diferentes, cada qual com suas dores e vivências, se conectam neste romance, onde uma terceira é o apio
Capa de Olhares Silenciosos, de Romilda Santos

RESENHA

Três mulheres completamente diferentes têm seus destinos entrelaçados.

Erika morava na cidade e, após sofrer uma grande decepção, foi procurar abrigo e apoio no colo de sua mãe, Joana, que mora numa vila no interior.

Joana é uma mulher talhada pelo tempo, com a calma e sabedoria ditada pela vida.

Nesta vila onde ela encontra sua mãe, ela também conhece Clara, uma mulher silenciosa que a fará descobrir e entender lições supervaliosas.

Uma história de redenção, fé e perseverança.

Um livro lindo que está concorrendo ao Prêmio Kindle.

Leiam, avaliem.

Eu amei!!!

Assista à resenha do canal @oqueli no Youtube

SINOPSE

Duas mulheres que sempre viveram em mundos completamente diferentes, cada qual com suas dores e vivências, se conectam neste romance.

Clara é uma mulher que se comunica apenas pelo olhar.

Erika, uma mulher bela, inteligente e bem-sucedida profissionalmente, enfrenta uma traição que abala sua vida.

Em busca de cura para suas feridas íntimas, ela volta para suas raízes e procura refúgio nos braços de Dona Joana, uma mulher que também carrega atravessamentos cruéis.

Confrontada com a figura de Clara, a ‘mulher silenciosa’, que desperta um misto de medo, curiosidade e fascínio, Erika começa a investigar a vida daquela mulher misteriosa e todos os acontecimentos que a levaram à introspecção e ao silêncio.

Descobrir mais sobre Clara torna-se o principal objetivo de Erika, e ela percebe que as duas estão mais próximas do que se imagina.

SOBRE A OBRA

Em seu primeiro romance, Olhares Silenciosos, Romilda traz mais de sua perspectiva sensível e introspectiva de olhar a vida, tocando a alma de seus leitores.

A narrativa explora momentos de decepção, busca, encontro e recomeço da protagonista. Uma busca às raízes, à essência, voltando para onde ela foi criada, se vê atraída pelo mistério daquela mulher, que nada fala.

Um romance escrito para mostrar a importância de um olhar, que muito pode dizer.

Suas obras, como Retratos (2006) e Avesso de Mim (2019), capturam a essência dos sentimentos humanos.
Avesso de mim terá sua segunda edição lançada em 2025.

Já os livros Entre Laços & Liberdade (2023) e A Menina da Roça trazem reflexões sobre experiências pessoais e a complexidade da busca pela liberdade interior.

A Menina da Roça são as lembranças da autora de uma época muito rica, mesmo com poucos recursos financeiros, mas de muitos momentos de felicidade, em um tempo sem a tecnologia de hoje.

SOBRE A AUTORA

Romilda Santos, nascida em 20 de maio de 1970, em Prata – Minas Gerais.

Imagme de Romilda Santos
Romilda Santos

Passou sua infância imersa na natureza e na vida rural, o que moldou sua visão e inspirou sua carreira literária.

Atualmente mora no interior de São Paulo.

Formada em Sistemas de Informação há mais de 20 anos. Um trabalho que a possibilita que ela trabalhe em muitos estados sem sair de casa.

Tem um amor incondicional pela filha e pelo neto.

Uma pessoa que ama o canto dos pássaros, o silêncio das montanhas e reza com o som da cachoeira, diz que escrever é sua melhor terapia.

Romilda é inquieta, curiosa, potente e com gosto pelo simples, pelo belo e do rústico.

OBRAS DA AUTORA

Avesso de mim de Romilda Santos
Avesso de mim

Entre laços & liberdade de Romilda Santos
Entre laços & liberdade

Olhares silênciosos, de Romilda Santos
Olhares Silênciosos

A memina da Roça de Romilda Santos
A menina da roça

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Resenhas da colunista Lee Oliveira




Mariposas e borboletas

Sergio Diniz da Costa: Crônica ‘Mariposas e borboletas’

Sergio Diniz
Sergio Diniz
Imagem gerada com IA do Bing ∙ 23 de setembro de 2024 às 4:30 PM

O centro das cidades, nos dias úteis e no horário comercial, concentra uma quantidade significativa da população que, em sua roda-viva diária, dirige-se ao trabalho, às compras, para realizar algum negócio específico ou, ainda, simplesmente, como alguns aposentados, sentar nos bancos da praça para prosear ou apreciar a movimentação das pessoas.

 Eu sempre gostei de andar pelas ruas do centro da minha Sorocaba. Principalmente após a aposentadoria e, com ela, me dedicar exclusivamente à carreira literária.

 Uma das vantagens de não precisar mais ‘matar um leão por dia’ ─ prática essa metaforicamente incorreta, aliás! ─ é, justamente, ter a liberdade de se fazer o que mais gostamos. No meu caso, observar as pessoas, tentando captar o que pensam ou sentem. Um verdadeiro trabalho de ‘investigador da alma humana’!

Há algum tempo, comecei a observar uma, em particular. Uma mulher! Postada sempre na mesma esquina, da mesma rua. Todavia, sem qualquer produto visível, supostamente sendo colocado à venda.

Idade imprecisa, nem jovem ou velha, demais.

O corpo, muito longe do que, hoje, parece ser ─ ou fazem-nos acreditar que o seja ─ o ‘ideal’, ditado pela Moda.

As roupas, aparentemente de grife nenhuma e um tanto quanto exíguas, deixando à mostra um pouco mais aquilo que pessoas mais recatadas e conservadoras considerariam ‘aceitável’.

O rosto, carregado com uma maquiagem feita sem arte, talvez por ter sido produzida com produtos baratos ou por pura falta de conhecimentos desse ofício.

O rosto, refletindo um brilho no olhar que me pareceu enigmático, e um sorriso que, num primeiro momento, me pareceu malicioso.

E ali, na mesma esquina, da mesma rua do centro, ela parece mais um detalhe da paisagem urbana. Um detalhe que, provavelmente, poucos notam ou se detêm nele.

O olhar brilhante e o sorriso, misteriosos, maliciosos, porém, aos poucos foram me mostrando que se detinham em algumas pessoas em especial: os homens!

Ao ter essa percepção, finalmente percebi a realidade de sua presença: ela era o próprio produto colocado à venda! E, imediatamente, lembrei-me da primeira vez que ouvi um adjetivo aplicável a esse tipo de mulher: ‘mariposa’!

Mariposa! Mariposa!… Uma mariposa ali, no centro da cidade.

E em plena luz do dia!

Passei, então, a refletir sobre a palavra e do inseto que a representa. E me lembrei de uma aula de Biologia, quando estudávamos os insetos.

As mariposas ─ as de maior tamanho, também conhecidas como ‘bruxas’ ─, fazem parte da ordem científica Lepidoptera, que significa ‘asas escamosas’. O nome deriva das escamas que caem das asas em forma de pó quando tocadas. A maioria delas tem hábitos noturnos.

Lembrei-me, também, que as mariposas têm muito em comum com as borboletas. Ambas fazem parte da mesma ordem científica e começam suas vidas como lagartas famintas antes de se transformarem em suas versões adultas, voadoras. E ambas se alimentam do néctar das flores.

As mariposas e as borboletas, todavia, têm algumas diferenças. Uma delas é o comportamento das mariposas de voar em círculo em torno das luzes (fototaxia), particularmente as artificiais, comportamento esse ainda não totalmente explicado pela ciência.

Ademais, há diferenças, entretanto, de natureza simbólica. A borboleta é considerada o símbolo da transformação, da felicidade, da beleza, da inconstância, da efemeridade da natureza e da renovação. E, para a psicanálise moderna, é o símbolo do renascimento. A mariposa, por sua vez, por ser um inseto geralmente de hábitos noturnos, simboliza a morte, bem como a força destruidora da paixão.

Voltando dessa ‘aula de reminiscências’, observei, mais uma vez, aquela mulher. Olhei mais atentamente para seu rosto. E, de repente, tive a impressão de que aquele olhar ainda detinha um brilho, mas era uma cintilação diferente, distante. E o sorriso já não mais me parecia malicioso, porém, ingênuo.

Nesse momento, parecia que não via mais uma mariposa, mas uma lagarta; uma lagarta que talvez um dia poderia ter escolhido se transformar numa borboleta. Uma borboleta leve, multicolorida, admirada!

E a única luz, em direção à qual voejaria, seria a do sol.

Aquela esquina, daquela rua, seria tão somente um lugar por onde ela passaria e, momentaneamente, pousaria, até que algum transeunte, um poeta a notasse.

E sobre ela escreveria ‘O Poema da Libertação’!

Sergio Diniz da Costa

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