Entre a ingenuidade e o fanatismo

Augusto Damas propõe uma reflexão profunda sobre o equilíbrio, o bom senso e o resgate das necessidades humanas essenciais

Augusto Damas
Augusto Damas
Ilustração conceitual de uma balança de madeira equilibrando um coração e um cérebro iluminado, com uma cidade moderna abstrata ao fundo.
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Os desafios da sociedade exigem equilíbrio, consciência e capacidade de distinguir convicções pessoais das necessidades coletivas

Atender às necessidades mais básicas da sociedade deveria ser uma preocupação permanente de todos aqueles que, de alguma maneira, participam da construção da vida coletiva. Alimentação, moradia, educação, saúde, segurança, trabalho, respeito , dignidade e direitos individual não podem ser tratados apenas como questões secundárias ou como temas circunstanciais, lembrados somente quando ganham espaço no debate público.

Uma sociedade verdadeiramente preocupada com o seu futuro precisa olhar para essas necessidades com seriedade. Não basta reconhecer os problemas; é necessário compreender suas causas, discutir soluções possíveis e, principalmente, transformar boas intenções em ações concretas.

É justamente nesse cenário que surge uma questão que merece reflexão: até que ponto conseguimos distinguir a realidade das nossas próprias convicções?

Entre a ingenuidade e o fanatismo existe um território muito amplo, ocupado pelo bom senso, pela experiência, pelo conhecimento e pela capacidade de ouvir. A ingenuidade pode levar uma pessoa a acreditar que problemas complexos possuem soluções simples. O fanatismo, por outro lado, pode fazer com que uma convicção seja colocada acima da própria realidade, dificultando o diálogo e impedindo que outras possibilidades sejam consideradas.

Não se trata de abandonar princípios ou convicções. Toda sociedade precisa de valores, referências e princípios éticos. O problema começa quando nossas certezas se tornam tão rígidas que já não visomos capazes de reconhecer aquilo que acontece diante dos nossos próprios olhos.

Até que ponto uma ideia permanece legítima quando deixa de admitir questionamentos? Essa é uma pergunta que merece ser feita com serenidade.

Vivemos em uma época marcada pela velocidade das informações. Todos os dias somos expostos a opiniões, interpretações, discursos, imagens e acontecimentos que disputam nossa atenção. Muitas vezes, recebemos uma informação e imediatamente formamos uma opinião, sem antes verificar sua origem, compreender o contexto ou ouvir diferentes versões.

Esse comportamento pode contribuir para a criação de uma sociedade dividida entre certezas absolutas.
De um lado, aqueles que acreditam possuir todas as respostas. Do outro, aqueles que recusam qualquer argumento que não esteja de acordo com aquilo em que já acreditam.

Entre esses dois extremos, porém, existe algo fundamental: a capacidade de pensar. Pensar não significa necessariamente concordar. Significa analisar, questionar, comparar, compreender e, quando necessário, mudar de opinião diante de novos fatos.

Uma sociedade madura não é aquela em que todos pensam da mesma maneira. É aquela em que pessoas diferentes conseguem conviver, conversar e buscar soluções para problemas comuns, mesmo quando possuem opiniões divergentes.

As necessidades da população, afinal, não desaparecem porque existem divergências políticas, ideológicas, culturais ou pessoais. A pessoa que precisa de atendimento médico continua precisando dele. O trabalhador que busca emprego continua enfrentando suas dificuldades. A família que necessita de segurança continua esperando respostas. O estudante precisa de educação de qualidade independentemente de suas convicções.

É por isso que as discussões sobre a sociedade precisam retornar, sempre que possível, ao essencial: o ser humano e suas necessidades.

Quando o debate se distancia completamente da realidade das pessoas, corre-se o risco de transformar questões importantes em simples disputas de ideias. E ideias, embora sejam fundamentais para qualquer transformação, precisam estar acompanhadas de responsabilidade e de compromisso com a realidade.

Talvez seja necessário recuperar uma palavra que parece simples, mas possui enorme importância: equilíbrio.
Equilíbrio não significa ficar em cima do muro. Significa ter coragem.

Augusto Damas

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África do Sul

Loide Afonso: Poema ‘África do Sul’

Loid Portugal
Loid Portugal
Fotografia artística de uma mãe africana expressando profunda tristeza e choro. Ao fundo desfocado, silhuetas de jovens em um cenário de conflito sob um céu cinzento de tempestade.
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Estamos em guerra fria, quente, e demente,

o corpo fica dormente quando ouve e sente,

Seus filhos lutam, correm e gritam, saltam, dão a volta,

sem piedade matam- se uns aos outros, o que não era suposto

Mãe, eles deixaram de viver suas vidas porque perderam o gosto,

seus paladares ficaram sem gosto, oh mãe

Nossa querida mãe África, é pra isto que nos pariste?

Loide Portugal

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O dia em que o silêncio venceu

Guilherme Machado

‘O dia em que o silêncio venceu’

Guilherme Cesar Machado de Araújo
Guilherme Machado
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“A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito
foi confiado, muito mais será pedido.” (Lucas 12:48)

Era uma vez um país que parecia ter sido desenhado à mão por Deus.

Sua terra era fértil e produzia quase tudo.

Seus rios pareciam mares.

Suas florestas respiravam vida e guardavam riquezas que poucos lugares do mundo conheciam.

O sol visitava sua terra durante quase o ano inteiro.

A chuva caía na medida certa.

Seus campos produziam alimento.

Seu subsolo escondia riquezas.

Era uma terra que lembrava a antiga promessa de leite e mel.

Não conhecia terremotos capazes de engolir cidades.

Nem vulcões que escurecessem seus céus.

Nem furacões que apagassem sua história.

E naquela terra também vivia um povo tão abençoado quanto perseverante.

Trabalhava muito.

Inventava caminhos quando parecia não haver saída.

Ria com facilidade.

Cantava mesmo nos dias difíceis.

Caía.

Levantava.

Tinha o estranho dom de continuar acreditando depois de cada decepção.

Quando terminou sua criação, um anjo olhou para aquele lugar e perguntou:

— Senhor… não é privilégio demais para um só povo?

Deus sorriu.

— Espere até ver o que eles farão com tudo isso.

O anjo voltou os olhos para aquela terra.

Não compreendeu a resposta.

Compreenderia muitos anos depois.

O tempo passou.

O país cresceu.

Suas cidades se multiplicaram.

Como acontece com toda grande nação, também conheceu dias difíceis.

Vieram hospitais que já não conseguiam atender todos os que precisavam.

Escolas que esperavam por dias melhores.

Estradas que pareciam nunca terminar.

Promessas que se renovavam mais depressa do que eram cumpridas.

Escândalos que desapareciam da memória antes de desaparecerem da realidade.

Com o passar dos anos, aquele povo encontrou novas formas de dividir sua atenção.

Aprendeu a ouvir mais aqueles que confirmavam suas próprias certezas do que aqueles que apresentavam perguntas difíceis.

Passou a procurar culpados para todos os problemas e salvadores para todas as soluções.

Esqueceu que nenhuma nação é construída pelas mãos de uma única pessoa, nem destruída por apenas uma delas.

As mãos humanas podem conduzir caminhos, mas nunca constroem sozinhas o futuro de uma nação.

Criou muros entre pessoas que antes dividiam as mesmas ruas.

Enquanto discutiam quem estava certo, poucos percebiam que os mesmos problemas continuavam esperando.

Mas aquele povo também havia aprendido uma estranha forma de descansar.

A cada novo ciclo, acreditavam que agora as coisas mudariam.

E talvez essa fosse uma de suas maiores virtudes.

Ou uma de suas maiores fragilidades.

A cada quatro anos havia uma grande festa.

Durante noventa minutos, esqueciam os hospitais.

Esqueciam as escolas.

Esqueciam a violência.

Esqueciam os impostos.

Esqueciam as promessas.

Esqueciam até uns dos outros.

Enquanto a bola rolava, o país parava.

E parar era a única forma que conheciam de descansar.

Nas arquibancadas, abraçavam desconhecidos como irmãos.

Nos bares, erguiam copos em uníssono.

Dentro das casas, até as famílias desunidas sentavam-se lado a lado.

A grande festa não pedia nada.

Apenas que fechassem os olhos para todo o resto.

E eles fechavam.

Fechavam com tanta força que, por um instante, quase acreditavam que o país era aquilo:

Um campo verde.

Um hino cantado a plenos pulmões.

Um riso fácil diante da televisão.

Depois do apito final, o encanto se desfazia.

Mas durava o suficiente para aliviar o peso de mais quatro anos.

Com o tempo, a festa tornou-se tão importante que o próprio calendário aprendeu a respeitá-la.

Decisões esperavam.

Debates mudavam de data.

Promessas podiam aguardar.

Afinal, havia noventa minutos que ninguém ousava interromper.

Enquanto os olhos acompanhavam a bola…

Os problemas aprendiam a permanecer imóveis.

Não porque desaparecessem.

Mas porque quase ninguém os observava.

Um dia resolveram trazer a maior festa do mundo para dentro de casa.

Pintaram fachadas.

Ergueram monumentos.

Construíram arenas.

Prometeram que, quando tudo terminasse, o país seria diferente.

E talvez tenha sido.

Apenas não da maneira como imaginavam.

Descobriram que era mais fácil inaugurar arquibancadas do que esperança.

Mais fácil iluminar estádios do que bairros esquecidos.

Mais fácil preparar noventa minutos de espetáculo do que enfrentar décadas de abandono.

Naquele ano, porém, a festa ganhou o mundo.

Um povo escolheu abrir o espetáculo lembrando aqueles que atravessaram mares para construir sua história.

Cada remada era uma homenagem às raízes que ainda sustentavam a nação.

O outro escolheu celebrar o sucesso da estação.

Afinal, um povo sempre celebra aquilo que escolhe não esquecer.

Naquele ano, porém, a festa terminou cedo.

Pela primeira vez em muito tempo, não houve tempo suficiente para esquecer.

O apito final chegou antes que o encanto pudesse voltar.

E, quando a televisão foi desligada…

Os hospitais continuavam lotados.

As escolas continuavam esperando.

As ruas continuavam inseguras.

Os impostos continuavam altos.

As promessas permaneciam onde sempre estiveram: apenas nos discursos.

Foi naquele instante que a resposta dada ao anjo finalmente fez sentido.

Deus nunca havia perguntado apenas o que aquele povo faria com suas riquezas.

Perguntava o que faria com sua atenção.

Porque aquilo que um povo escolhe olhar todos os dias, pouco a pouco, também escolhe se tornar.

Um povo raramente perde seu futuro de uma só vez.

Primeiro, perde a capacidade de lembrar.

Depois, acostuma-se a esquecer.

E, quando já não consegue distinguir distração de esperança…

chama de descanso aquilo que apenas adiou.

Naquele dia…

o silêncio venceu.

“O meu povo foi destruído porque lhe
faltou conhecimento.” (Oséias 4:6)

Guilherme Machado

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