Nilza MurakawaImagem criada por IA do Bing – 25 de janeiro de 2025, às 7:37 PM
Em lustres de cristais Cirandam urubus e um negro corvo Mastigam sempre qualquer estorvo Engolem pedras brutas E vomitam pobres mortais
Esguias garças Pernas nuas Eretos dorsos Com etiquetas até o pescoço Desfilam pelas ruas Com suas bolsas escassas À procura de tubarões e bons moços
Impassíveis predadores Exibem as peles esticadas de suas caças Cultuam alguns selecionados deuses Silenciam tambores Em plena praça Sequer ouvem o choro Em ocos troncos Do animal morto E já lhes assopram a fumaça
A céu aberto, as mariposas Costuram o ar e, então, pousam Limpam seus homens Recortam-lhes os bolsos Salgam-nos as entranhas Devoram-nos com calma Chupando-os até a alma
Sem constrangimento Raposas oportunistas Invadem marsúpios quentes Fazem de tetas alheias Seu próprio alimento
Grandes holofotes Aquecem marmitas para abutres Troféus, farelos e migalhas Almas, ossos e medalhas Cardápio que agrada estes tais ‘ilustres’
Uma senhorinha apressada Com um franjado xale preto Sapatos bem limpos, vestido discreto Lenço na mão que ela mesma bordou Corre atrás do seu guarda-chuva Que o vento lhe roubou
Sergio DinizVândalo é o Sistema Microsoft Bing. Imagem criada pelo Designer
Mais um dia amanhece, ensolarado, e cá estou eu, acompanhado por meu cãozinho (Tobby), no nosso passeio diário.
E hoje, em vez dos parques da cidade, as ruas do meu bairro.
Passando por um muro, uma pichação me chama a atenção. No lugar de apenas os costumeiros símbolos ininteligíveis para as pessoas em geral, ao lado destes, a frase: “Vândalo é o Sistema”.
Continuo a minha caminhada, arrancado bruscamente que fui pelo impaciente peludinho, premido por suas necessidades fisiológicas. Mas a frase segue comigo, produzindo comichões filosóficas.
“Vândalo é o Sistema”. A frase ficou martelando na minha cabeça, certamente à espera de uma conclusão, concordando com ela ou a rejeitando.
Num primeiro momento a rejeitei, porque, afinal de contas, a pichação, sim, é um ato de vandalismo, uma vez que o seu autor ─ geralmente, mais de um ─ não pede permissão ao proprietário dos imóveis ou dos bens públicos para tal manifestação; manifestação essa, aliás, muitas vezes insultuosa ou tão somente utilizada como forma de demarcação de territórios entre grupos ─ às vezes gangues rivais.
Realizada à noite e em locais proibidos e, basicamente, com uma única cor, apresenta um visual desagradável, não apresentando algum valor artístico ou mesmo mensagens que gerem qualquer reflexão útil.
Trata-se, portanto, de uma prática ilegal, considerada vandalismo, nos termos do artigo 65 da Lei 9.605/98, que trata dos Crimes Ambientais.
Curiosamente, porém, a prática da pichação é encontrada desde a Antiguidade. A erupção do vulcão Vesúvio preservou inscritos nos muros da cidade de Pompeia, que continham desde xingamentos até propaganda política e poesias. Na Idade Média, padres pichavam os muros de conventos rivais no intuito de expor sua ideologia, criticar doutrinas contrárias às suas ou mesmo difamar governantes.*
Visto sob este ângulo, definitivamente rejeitei a frase do muro.
Todavia, semelhante à Serpente do Paraíso, ela continuou me instigando a comer e digerir o fruto dos meus conhecimentos, conceitos e até mesmo dos meus preconceitos.
O ‘Sistema’ que, dentre inúmeras acepções, é definido como a qualidade econômica, moral, política de uma sociedade que condiciona, integra e/ou aliena um indivíduo.
Neste momento, senti uma vontade irresistível de conhecer o autor da pichação, agora não mais vista como rabiscos grotescos, porém, como um grito silencioso de um grupo ou de uma voz solitária clamando, talvez, por ética, solidariedade, paz e justiça social. E aquele muro era tão somente uma grande folha de papel em branco, onde esse apelo haveria de alcançar olhos míopes e mentes entorpecidas pelo Poder.
Este lampejo reflexivo ensombreceu meu passeio, mas, certamente, não o do meu cãozinho que, naquele instante, se detinha, curioso, fascinado diante de uma belíssima borboleta.
Também me detive para apreciar aquele inseto, delicadamente colorido. E não pude deixar de comparar esta visão à do muro. Esta, para a admiração de um ser irracional. Aquela, provavelmente, para a inércia de um ser humano.
Série 'Como eu sou e como eu era': Posto de gasolina da Quintino, em Itapetininga/SP
Série Como Eu Sou, Como Eu Era, Como Serei?
Reiniciando a série ‘Como eu sou e como eu era’ do nosso jornal, duas fotos de Geraldo Toledo (na foto com sua esposa Joana) publicadas por ele no Facebook, mostram como era em 1993 a esquina das ruas Barbosa Franco e Quintino Bocaiuva, no centro de Itapetininga e como ela é hoje.
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