Tia Gertrudes pouco conheci. Quer dizer, ainda guardo lembranças enevoadas daquela figura o quão taciturna pode ser alguém cuja magreza ultrapassasse as parcas carnes. Rabugenta que fosse, continuava da família.
Solteirona, vovó costumava dizer sobre a primogênita. Entretanto, a minha tia se recusava a carregar rótulos impostos pela sociedade, especialmente aqueles reverberados pelos lábios da própria mãe.
— Livre, mamãe. Livre!
— Você nasceu mulher, Gertrudes. Mulheres não são livres, jamais serão. É sina. Melhor que se aprume antes que seja tarde demais.
Minha avó tinha lá suas ideias, a maior parte reproduções do que aprendera, seja nos parcos anos nos bancos escolares, seja nas cacetadas que levou na lida com os homens. Não a culpo nem a eximo, coisas que não vivi por completo.
Talvez o hábito mais marcante de tia Gertrudes fosse a relutância em se deixar fotografar ao lado de quem quer que fosse, inclusive de parentes mais próximos e, em especial, de namorados de ocasião. Certa feita, fui eu o preterido.
— Mas, titia, sou eu, seu sobrinho favorito.
— A gente nunca sabe o dia de amanhã, Marquinhos.
É engraçado quando alguém me visita e eu, quando a prosa é boa, resolvo lhe mostrar alguns álbuns de família. Vez ou outra, um observador mais atento fica intrigado com aquela figura isolada em inúmeros retratos.
— É a tia Gertrudes, irmã de papai.
— E por que ela sempre aparece sozinha?
De vez em quando, sinto que algum espírito brincalhão me baixa e cisma em brincar com as verdades.
— Ah, é que a tia Gertrudes não gostava de ofuscar ninguém com a sua beleza estonteante.
Até hoje, ninguém ousou contrariar a minha resposta, que segue como veredito de um tempo que passou mais rápido do que eu esperava. Dizer que tia Gertrudes pudesse ofuscar alguém com a sua aparência pode parecer um absurdo, e não travo imbróglios desnecessários contestando tal hipótese. O que importa, o que importa de verdade é que ela, apesar de não estar há anos entre nós, continua sendo da família.
Arizona, uma noite entre o rock, o amor e a saudade
O hino elétrico de uma geração que acreditou que a vida, a estrada e o amor podiam durar para sempre. Texto baseado na canção Arizona do Scorpions, de 1982
Existem músicas que parecem ter sido gravadas não em um estúdio, mas dentro de uma lembrança que a gente ainda não viveu. “Arizona”, dos Scorpions, tem esse jeito de estrada aberta, de noite quente, de juventude sem relógio e de um amor que talvez não tenha durado mais do que algumas horas, mas que, por algum motivo, continuou existindo muito depois que o sol nasceu. Ao ouvi-la, é difícil não imaginar os Estados Unidos dos anos 1980, com seus carros grandes, suas estradas intermináveis, suas jaquetas de couro, os letreiros luminosos dos motéis e aquela promessa tipicamente americana de que a felicidade poderia estar logo depois da próxima curva.
Havia alguma coisa de ingênuo naquela maneira de sonhar. A América aparecia nos filmes e nas canções como um território onde qualquer rapaz podia pegar o carro, aumentar o volume do rádio e sair em busca de uma aventura que mudaria sua vida. O rock alimentava essa fantasia, e os Scorpions, com suas guitarras carregadas de energia, davam a ela uma espécie de coração elétrico.
Em “Arizona”, a noite parece pertencer aos jovens, aos encontros inesperados e àquela liberdade que não pede explicações. O protagonista encontra uma mulher, vive com ela uma aventura intensa e transforma algumas horas em uma história digna de ser lembrada por toda a vida.
Talvez o encanto esteja justamente nisso: ninguém precisa prometer eternidade para tornar um instante inesquecível. Há encontros que não sobrevivem à manhã seguinte, mas deixam uma marca que os anos não conseguem apagar. A garota de “Arizona” parece pertencer a esse tipo de lembrança, meio mulher, meio miragem, como alguém que aparece na estrada, sorri, muda o rumo da viagem e desaparece antes que tenhamos tempo de perguntar seu sobrenome.
E o rapaz, que talvez tenha acreditado estar vivendo apenas uma aventura, descobre depois que algumas noites não terminam quando a música acaba.
O filósofo alemão Ernst Bloch escreveu sobre a esperança como uma força que nos faz enxergar possibilidades ainda não realizadas. A juventude talvez seja a forma mais impaciente dessa esperança: acreditamos que o mundo está à nossa espera, que o amor pode surgir em qualquer esquina e que a vida sempre nos concederá outra oportunidade. Nos anos 1980, essa expectativa encontrava no rock uma trilha sonora perfeita. A guitarra parecia anunciar que nada era definitivo, que ainda havia tempo para fugir, apaixonar-se, cometer erros e voltar para casa com histórias que os pais jamais compreenderiam completamente.
Mas o tempo, esse sujeito sem educação que nunca bate à porta, acaba modificando tudo. Os carros envelhecem, as estradas ganham outros nomes, os amigos se dispersam e as pessoas que um dia dançaram juntas passam a se reconhecer apenas em fotografias desbotadas. Aquela liberdade que parecia infinita ganha o peso das responsabilidades, das contas, das despedidas e dos amores que não encontraram lugar para continuar.
O que antes era aventura passa a ser saudade, e a saudade tem uma crueldade particular: devolve os sentimentos, mas não devolve as circunstâncias que os fizeram nascer.
É nesse ponto que “Arizona” deixa de ser apenas uma canção sobre diversão e conquista. Ela se transforma, para quem a escuta muitos anos depois, em uma espécie de máquina do tempo sentimental. A música continua a mesma, mas nós já não somos os mesmos. O riff de guitarra permanece vibrante, enquanto alguma coisa dentro de nós se recolhe silenciosamente. Lembramos de pessoas que talvez nem tenham ouvido Scorpions conosco, de festas em que o mundo parecia caber numa pista de dança, de olhares demorados e de promessas que nunca chegaram a ser pronunciadas. Às vezes, a memória inventa detalhes; outras vezes, é a própria realidade que parece ter sido inventada pela distância.
Existe uma ternura especial na cultura juvenil daquela época, mesmo quando ela se vestia de rebeldia. Por trás do cabelo comprido, das roupas extravagantes e do volume ensurdecedor, havia uma vontade muito humana de pertencer a algum lugar e ser amado por alguém. O romantismo dos anos 1980 não era necessariamente mais verdadeiro do que o de hoje, mas parecia encontrar mais espaço para o gesto, para a espera e para a expectativa.
Uma canção podia acompanhar uma viagem inteira, e uma fita gravada especialmente para alguém carregava uma declaração que muitas vezes a timidez não permitia fazer pessoalmente. Hoje, podemos enviar centenas de mensagens em poucos minutos; naquela época, às vezes era preciso esperar dias para descobrir se alguém ainda pensava em nós. E talvez essa demora, por mais angustiante que fosse, ensinasse alguma coisa sobre o valor de esperar.
A inocência, porém, não desaparece de uma vez. Ela vai se perdendo aos poucos, quando descobrimos que nem todo encontro se transforma em romance, que nem toda paixão suporta a vida cotidiana e que algumas pessoas chegam apenas para nos mostrar uma versão de nós mesmos que desconhecíamos. O rapaz de “Arizona” talvez tenha vivido uma noite extraordinária sem imaginar que, muitos anos depois, a lembrança de uma aventura poderia carregar também a melancolia de tudo aquilo que não voltou. Afinal, até a felicidade pode doer quando se torna passado.
É curioso pensar que o chamado modo americano de vida, tantas vezes associado ao consumo, à velocidade e à busca incessante pelo prazer, também tenha produzido imagens tão românticas de liberdade.
A estrada representa a possibilidade de partir; o carro, a intimidade de um pequeno mundo em movimento; o rock, a recusa em aceitar que a existência seja apenas uma sucessão de obrigações. Mas toda estrada pressupõe uma distância, e toda partida carrega a possibilidade de não haver retorno. A liberdade é sedutora justamente porque abre caminhos, embora não nos diga quais deles valerão a pena.
Talvez seja por isso que continuamos ouvindo essas músicas. Não porque desejamos voltar literalmente aos anos 1980, mas porque sentimos falta da pessoa que éramos quando ainda acreditávamos que o futuro guardava todas as respostas. Arizona, nesse sentido, não é apenas um lugar no mapa americano. É um território íntimo, construído com guitarras, noites quentes, beijos inesperados e despedidas que só compreendemos muito tempo depois. É o nome que damos àquela parte da juventude que permanece viva, mesmo quando já não sabemos exatamente onde deixamos suas chaves.
Quando a música termina, a vida continua, como sempre continuou. O rádio silencia, a estrada fica para trás e a manhã revela as coisas que a noite preferia esconder. Ainda assim, alguma coisa permanece. Talvez seja a lembrança de uma mulher, o som de uma guitarra ou simplesmente a certeza de que, por algumas horas, estivemos inteiramente vivos.
E isso não é pouco. Porque envelhecer não significa apenas acumular anos; significa descobrir que os momentos mais preciosos quase nunca avisam quando estão acontecendo. Na juventude, queremos que a noite nunca termine. Mais tarde, tudo o que desejamos é poder escutar novamente aquela canção e, por três ou quatro minutos, sentir que ainda existe uma estrada aberta diante de nós, que o amor não chegou tarde demais e que, em algum lugar distante, Arizona continua esperando por quem um dia acreditou que a vida podia ser tão simples quanto um carro, uma guitarra e dois corações perdidos na mesma noite.
Havia domingos que pareciam ter sido inventados somente para lembrar aquilo que a gente jurou esquecer.
Os domingos de outubro eram assim para Rúbia.
Não todos. Alguns passavam como qualquer outro dia, com o barulho dos vizinhos, o almoço demorado, a televisão ligada sem ninguém prestar muita atenção, o cheiro de café requentado e aquela preguiça que parecia morar dentro das paredes.
Mas havia certos domingos de outubro em que a tarde adquiria uma espécie de melancolia própria, como se o tempo, por alguma razão que ela nunca conseguiu compreender, resolvesse abrir uma gaveta antiga da memória.
Era nesses domingos que Rúbia se lembrava de Renana.
Não se lembrava apenas dela. Lembrava-se de tudo.
Do cabelo de Renana preso de qualquer jeito. Do perfume barato que ficava no banco do carro depois que ela ia embora. Das mensagens enviadas pelo celular durante a madrugada. Das conversas no MSN que começavam depois das onze da noite e terminavam quando já era quase manhã. Dos scraps no Orkut que pareciam declarações públicas de sentimentos que nenhum das duas tinha coragem de dizer olhando nos olhos.
Lembrava-se das danceterias, das filas, das pulseiras de papel, das luzes coloridas, dos CDs riscados, dos amigos que hoje já não sabia onde estavam e das músicas românticas que, naquela época, pareciam falar exatamente sobre elas.
Era estranho pensar que uma pessoa pudesse desaparecer da vida cotidiana e, mesmo assim, continuar morando em algum lugar dentro da gente.
Rúbia havia aprendido isso depois dos trinta.
Na juventude, imaginava que esquecer alguém era apenas uma questão de tempo. Pensava que o coração obedecia à mesma lógica dos calendários. Passariam os meses, depois os anos, e aquilo simplesmente deixaria de doer.
Não deixou.
Mudou de lugar.
Talvez fosse isso que ninguém contasse quando se era jovem. A dor não desaparece necessariamente. Ela aprende a ficar quieta.
E foi assim que Renana permaneceu dentro de Rúbia.
Quietamente.
Naquele outubro, muitos anos depois, Rúbia estava sentada perto da janela, olhando a chuva fina cair sobre a rua. Não era uma chuva forte. Era quase uma garoa, dessas que deixam o mundo com aparência de fotografia antiga. Ela segurava uma xícara de café e observava os carros passando, as pessoas correndo para se proteger, os cachorros procurando abrigo debaixo das marquises.
Pensou que o mundo havia mudado demais.
Naquela época, ninguém tinha pressa de responder imediatamente porque ninguém podia responder imediatamente.
Um celular servia para ligar, mandar uma mensagem curta e, às vezes, tirar uma fotografia de qualidade duvidosa. Não existiam redes sociais ocupando cada minuto do dia. As pessoas ainda desapareciam durante algumas horas.
E talvez fosse justamente por isso que as saudades eram diferentes.
Havia tempo para sentir falta.
Rúbia fechou os olhos.
E voltou para 2004.
Naquele tempo, Renana ainda não sabia que seria uma lembrança.
Era apenas Renana.
E isso bastava.
Elas se conheceram numa sexta-feira de outubro, embora Rúbia tivesse a impressão de que tudo havia começado antes. Talvez tivesse começado numa troca de olhares durante uma festa. Talvez numa conversa casual.
Talvez naquela época em que a vida parecia cheia de acontecimentos insignificantes que, anos depois, se revelariam fundamentais.
Renana tinha um jeito de sorrir que incomodava Rúbia.
Não porque fosse desagradável.
Pelo contrário.
Era um sorriso que parecia saber alguma coisa que Rúbia desconhecia.
— Você sempre fica olhando para as pessoas desse jeito?
— Desse jeito como?
— Como se estivesse tentando descobrir quem elas são.
Rúbia riu.
— Talvez eu esteja.
— E já descobriu alguma coisa sobre mim?
— Ainda não.
— Então você está atrasada.
A frase ficou na cabeça de Rúbia durante dias.
Naquela época, elas tinham vinte e poucos anos e acreditavam que a vida era uma coisa que aconteceria depois.
Depois da faculdade.
Depois do emprego.
Depois de ganhar dinheiro.
Depois de sair da casa dos pais.
Depois de descobrir quem realmente eram.
O futuro parecia enorme.
O passado parecia pequeno.
E o presente, coitado, quase nunca recebia atenção.
Era assim que os jovens viviam: sempre esperando o próximo acontecimento, sem perceber que estavam fabricando as próprias lembranças.
Naquele fim de semana, Rúbia encontrou Renana novamente numa danceteria.
As danceterias dos anos 2000 tinham uma espécie de inocência que hoje parece quase impossível de explicar. Havia fumaça artificial, luzes giratórias, paredes escuras, caixas de som enormes, DJs que pareciam sacerdotes diante de uma mesa cheia de equipamentos e uma multidão tentando esquecer, por algumas horas, os problemas da segunda-feira.
As pessoas dançavam.
Algumas muito bem.
Outras nem tanto.
Mas ninguém parecia se importar.
Naquela noite, tocavam sucessos que vinham do rádio, músicas românticas, pop, dance, aquelas canções que hoje soam como cápsulas de uma época. Havia músicas de James Blunt, Coldplay, Avril Lavigne, Maroon 5, The Calling, Keane, além das canções nacionais que atravessavam as rádios e apareciam nos CDs gravados pelos amigos.
Rúbia lembrava especialmente de “The Reason”, do Hoobastank.
Não porque fosse a música favorita de Renana.
Era porque, naquela noite, Renana segurou sua mão quando a música começou.
Não disseram nada.
Talvez porque, naquela idade, algumas coisas fossem mais fáceis de fazer do que de dizer.
Elas ficaram ali.
Entre a música alta e as luzes coloridas.
Entre pessoas desconhecidas.
Entre uma juventude que ainda não sabia que estava acabando.
Renana aproximou o rosto e perguntou:
— Você acredita que algumas pessoas aparecem na nossa vida por acaso?
Rúbia respondeu:
— Não sei.
— Eu acho que não.
— Então por quê?
Renana deu de ombros.
— Porque algumas pessoas parecem que estavam atrasadas para nos encontrar.
Rúbia sorriu.
— Você fala umas coisas estranhas.
— E você gosta.
Ela gostava.
Talvez gostasse justamente porque Renana dizia aquilo que ela mesma não sabia dizer.
Depois daquela noite, começaram a se procurar.
Primeiro com desculpas.
Depois sem desculpas.
Uma mensagem:
“Você vai sair hoje?”
Outra:
“Tá fazendo o quê?”
Depois:
“Boa noite.”
E, finalmente:
“Saudade.”
Era impressionante como uma palavra tão pequena podia causar tanto estrago.
Naquela época, mandar uma mensagem pelo celular ainda tinha algo de ritual. Não se escrevia qualquer coisa. Era preciso pensar antes. Cada caractere importava. Algumas mensagens precisavam ser reduzidas porque o limite de caracteres obrigava a economizar sentimentos.
Rúbia ainda guardava um aparelho antigo numa caixa.
Não funcionava mais.
A bateria havia inchado.
A tela estava arranhada.
Mas, para ela, aquele objeto era quase um túmulo.
Ali estavam escondidos anos de uma vida que não existia mais.
Ela sabia que não havia mais mensagens.
Sabia que o aparelho estava morto.
Mesmo assim, algumas vezes o segurava nas mãos.
Era ridículo.
E profundamente humano.
Porque nós não guardamos objetos apenas pelo que eles são.
Guardamos aquilo que eles testemunharam.
O telefone tinha visto Renana entrar na vida de Rúbia.
Tinha visto as mensagens de madrugada.
Tinha ouvido conversas.
Tinha participado de esperas.
Tinha acompanhado silêncios.
Por isso continuava importante.
Talvez os objetos sejam apenas testemunhas mudas das nossas ilusões.
O relacionamento cresceu sem grandes promessas.
Não houve pedido de casamento.
Não houve juramento diante de testemunhas.
Não houve aquela cena perfeita que aparece nos filmes.
Houve coisas pequenas.
Café.
Passeios.
Cinema.
Danceterias.
Domingos.
Chuva.
Discussões bobas.
Ciúmes.
Risos.
Beijos roubados.
Mãos dadas dentro do carro.
Mensagens enviadas quando uma delas já deveria estar dormindo.
Havia uma felicidade quase doméstica naquilo.
E talvez justamente por isso tenha sido tão verdadeira.
Rúbia gostava de observar Renana quando ela não sabia que estava sendo observada.
Gostava de vê-la arrumar o cabelo diante do espelho.
Gostava de vê-la escolher uma música.
Gostava de ouvi-la falar sobre coisas que Rúbia considerava insignificantes.
Renana falava de roupas.
De filmes.
De amigos.
De músicas.
De viagens que talvez nunca fizessem.
Falava sobre ter uma casa com uma varanda.
Falava que queria morar em um lugar onde pudesse ouvir chuva.
Rúbia ria.
— Você quer morar dentro de uma música.
— Talvez.
— Isso não existe.
— Então eu invento.
Na juventude, tudo parecia possível porque ainda não conhecíamos suficientemente a palavra impossível.
O amor de Rúbia e Renana foi construído nessa ingenuidade.
Não era perfeito.
Nenhum amor é.
Mas havia sinceridade.
Elas acreditavam que o sentimento seria suficiente.
Essa foi talvez a primeira grande ilusão da vida adulta.
O amor é importante.
Mas o mundo não para, para que duas pessoas possam permanecer juntas.
O tempo não tem delicadeza.
As circunstâncias também não.
Vieram empregos.
Mudanças.
Família.
Responsabilidades.
Problemas financeiros.
Distâncias.
A vida começou a cobrar aquilo que a juventude havia deixado para depois.
E as duas começaram a perceber que amar alguém não significava necessariamente saber permanecer.
A primeira grande discussão aconteceu numa noite de domingo.
Renana havia recebido uma proposta de trabalho em outra cidade.
Era uma oportunidade.
Boa.
Talvez excelente.
Rúbia ficou feliz por ela.
Ou tentou ficar.
— Você vai aceitar?
— Não sei.
— Você quer?
— Quero.
Rúbia respirou fundo.
— Então aceite.
Renana ficou olhando para ela.
— É só isso?
— O que você quer que eu diga?
— Não sei.
— Renana, você sempre disse que queria crescer.
— E você?
Rúbia não respondeu.
Era aí que estava o problema.
Renana queria ir.
Rúbia queria ficar.
Nenhuma das duas estava errada.
E talvez essa seja uma das maiores tragédias do amor: às vezes não existe culpado.
Existem apenas direções diferentes.
Durante algumas semanas, tentaram fazer funcionar.
Telefonemas.
Mensagens.
E-mails.
Conversas pela internet.
O MSN aberto durante a noite.
O famoso aviso “fulano está digitando…” provocava uma ansiedade que hoje parece quase infantil.
Rúbia esperava.
Renana escrevia.
Às vezes demorava.
Às vezes desaparecia.
Às vezes uma delas estava online e a outra não dizia nada.
E aquele silêncio digital tinha um peso enorme.
A distância começou a transformar pequenas coisas em grandes problemas.
Um “oi” que demorava.
Uma ligação não atendida.
Uma festa.
Uma amizade.
Uma fotografia.
Uma frase mal interpretada.
Era como se a ausência produzisse fantasmas.
Quando estavam juntas, bastava um olhar para resolver.
Quando estavam longe, era preciso explicar tudo.
E o amor, quando precisa explicar demais a própria existência, começa a ficar cansado.
Ainda assim, elas tentaram.
Durante meses.
Talvez durante mais tempo do que deveriam.
Talvez durante menos tempo do que poderiam.
Ninguém sabe.
O fim não aconteceu de uma vez.
Foi acontecendo aos poucos.
Primeiro diminuíram as mensagens.
Depois os telefonemas.
Depois as visitas.
Depois as promessas.
Até que um dia perceberam que estavam sustentando mais a lembrança do que o relacionamento.
Foi numa tarde de outubro.
Sempre outubro.
Rúbia jamais conseguiu descobrir por que a vida escolheu outubro para lhe ensinar algumas das suas maiores tristezas.
Renana estava sentada diante dela.
As duas tinham ido a um café.
Havia pouco movimento.
A televisão estava ligada sem som.
Do lado de fora, algumas folhas secas eram levadas pelo vento.
— Você ainda me ama? — perguntou Rúbia.
Renana demorou.
— Amo.
— Então por que está indo embora?
Renana abaixou os olhos.
— Porque às vezes amar não resolve.
A frase ficou entre elas.
Era cruel.
E verdadeira.
Rúbia queria odiá-la.
Não conseguiu.
Queria gritar.
Também não conseguiu.
Queria pedir que ficasse.
Mas alguma coisa dentro dela percebeu que certas pessoas não podem ser mantidas pela força de uma súplica.
Renana segurou sua mão.
— Eu não quero que você pense que foi mentira.
Rúbia respondeu:
— Eu sei que não foi.
— Então?
— Então é pior.
Renana chorou.
Rúbia também.
E ali terminou uma história que, para elas, ainda não tinha terminado.
Porque os relacionamentos acabam antes das lembranças.
Essa talvez seja uma das crueldades do tempo.
O corpo aprende a continuar.
A memória não.
Depois daquele dia, Rúbia voltou para casa sozinha.
Entrou no quarto.
Sentou na cama.
Pegou o celular.
Abriu as mensagens.
Leu tudo.
Não apagou nada.
Durante aquela noite, ouviu músicas antigas.
Uma atrás da outra.
Canções que tinham sido trilha sonora de uma juventude que agora parecia pertencer a outra pessoa.
“Apologize”, “Because of You”, “I’m Yours”, “Chasing Cars”, “She Will Be Loved”.
Cada música parecia carregar um pedaço de Renana.
Rúbia descobriu naquele momento que as músicas não guardam apenas sons.
Guardam versões de nós mesmos.
Quando uma música antiga volta a tocar depois de muitos anos, não ouvimos somente a canção.
Ouvimos quem éramos quando a escutamos pela primeira vez.
E isso pode ser devastador.
Anos passaram.
A década mudou.
Os celulares ficaram inteligentes.
As redes sociais se multiplicaram.
As fotografias deixaram de ser raras.
As pessoas passaram a fotografar tudo.
Comida.
Viagens.
Aniversários.
Tristezas.
Felicidades.
Até a solidão começou a ser publicada.
Rúbia observava tudo aquilo, com uma espécie de espanto.
Na época dela, uma fotografia podia ficar dentro de uma carteira durante anos.
Agora milhares delas desapareciam na velocidade de um toque.
O mundo havia ficado mais conectado.
Mas Rúbia não tinha certeza de que as pessoas estavam mais próximas.
Às vezes parecia exatamente o contrário.
Havia milhares de formas de encontrar alguém.
E cada vez menos maneiras de realmente permanecer.
Ela se casou.
Teve uma vida.
Trabalhou.
Mudou de casa.
Perdeu pessoas.
Ganhou outras.
Aprendeu a pagar contas.
A resolver problemas.
A fingir que estava tudo bem quando não estava.
Aprendeu que ser adulta é, em grande parte, aprender a continuar mesmo quando alguma coisa dentro da gente ficou parada em determinado lugar.
Renana também seguiu sua vida.
Rúbia soube disso por acaso.
Anos depois, encontrou seu nome em uma rede social.
Ficou alguns segundos olhando para a fotografia.
Renana havia mudado.
Ou talvez fosse apenas a, fotografia que mostrasse aquilo que o tempo havia feito.
Rúbia não enviou mensagem.
Fechou a página.
Passou a noite pensando nisso.
Na manhã seguinte, continuou a vida.
Mas a memória havia sido acordada.
E certas memórias, uma vez acordadas, nunca voltam completamente a dormir.
Foi em outro domingo de outubro que Rúbia decidiu visitar a antiga danceteria.
Ela ainda existia.
Mas estava diferente.
O letreiro havia mudado.
A fachada parecia menor.
Talvez porque Rúbia tivesse crescido.
Entrou.
O lugar já não tinha o mesmo movimento.
As luzes pareciam menos intensas.
As paredes pareciam menores.
O som era diferente.
As músicas eram outras.
Rúbia ficou parada durante alguns segundos.
Foi tomada por uma sensação estranha.
Não era exatamente tristeza.
Era algo mais complexo.
Era perceber que um lugar pode permanecer de pé depois que tudo aquilo que lhe dava significado desaparece.
Ela caminhou até o salão.
Ali havia dançado com Renana.
Ali haviam se beijado.
Ali tinham discutido.
Ali tinham prometido coisas que o tempo não permitiria cumprir.
Rúbia sorriu.
Não porque estivesse feliz.
Mas porque finalmente conseguia lembrar sem querer voltar.
Talvez esse fosse o sinal de que havia amadurecido.
Durante muito tempo, pensou que superar fosse apagar.
Depois entendeu que superar talvez fosse conseguir lembrar sem desejar modificar o passado.
A vida não é uma máquina de escrever onde podemos voltar e corrigir uma frase.
Ela é mais parecida com uma fotografia antiga.
Podemos olhar.
Podemos ampliar.
Podemos lembrar.
Mas não podemos entrar novamente naquele instante.
Rúbia saiu da danceteria.
A noite estava começando.
Outubro tinha aquele cheiro de chuva que ela conhecia desde criança.
Andou pela rua sem pressa.
Pensou em Renana.
Pensou em si mesma.
Pensou naquela garota de vinte e poucos anos que acreditava que o amor poderia derrotar o tempo.
Hoje sabia que não.
O amor não derrota o tempo.
Talvez o amor seja justamente aquilo que o tempo não consegue destruir completamente.
Porque, se o amor pudesse vencer o tempo, ninguém precisaria sentir saudade.
E a saudade existe porque alguma coisa sobreviveu.
Talvez fosse isso que Renana havia deixado.
Não uma ferida.
Não exatamente.
Uma presença.
Uma espécie de sombra luminosa.
Algo que aparecia em determinadas músicas, em certos domingos, em algumas ruas, em outubro.
Rúbia voltou para casa.
Abriu uma caixa antiga.
Dentro havia fotografias.
Ingressos.
Papéis.
Um cartão.
Um CD gravado.
Ela encontrou uma fotografia das duas.
Estavam sorrindo.
Rúbia olhou durante muito tempo.
Depois colocou a fotografia sobre a mesa.
Não chorou.
Pela primeira vez, não chorou.
Pegou o celular moderno e procurou uma música antiga.
“The Reason”.
A canção começou.
Rúbia fechou os olhos.
E por alguns minutos voltou àquela danceteria.
Àquela noite.
Àquelas luzes.
Àquele cheiro de perfume.
Àquela mão segurando a sua.
Àquela mulher que ainda era jovem.
Àquele amor que ainda não sabia que teria fim.
E, por alguns segundos, o tempo pareceu não existir.
Foi então que Rúbia compreendeu uma coisa simples.
O passado não volta.
Mas também não desaparece.
Ele muda de forma.
Às vezes vira fotografia.
Às vezes vira música.
Às vezes vira uma rua.
Às vezes vira um cheiro.
Às vezes aparece num domingo de outubro, quando a chuva cai devagar e a casa parece grande demais.
E, às vezes, o passado vira uma pessoa que já não está mais ao nosso lado, mas que continua existindo em alguma região secreta daquilo que fomos.
Renana não fazia mais parte da vida de Rúbia.
Mas fazia parte da história dela.
E talvez essa fosse a única maneira verdadeira de permanecer.
Não como promessa.
Não como possibilidade.
Não como alguém esperando voltar.
Mas como lembrança.
Uma lembrança que não precisava mais pedir licença.
Rúbia terminou o café.
A música acabou.
Por alguns segundos, ficou apenas o silêncio.
Depois começou outra.
Ela sorriu.
Não sabia qual seria o próximo domingo.
Não sabia o que ainda aconteceria.
Não sabia quantos outubros teria pela frente.
Mas havia aprendido alguma coisa com o tempo.
A juventude acredita que precisa possuir o futuro.
A maturidade descobre que basta estar presente.
E talvez o amor seja isso também: não a promessa de ficar para sempre, mas a capacidade de fazer com que um instante seja tão verdadeiro que nem mesmo o tempo consiga apagá-lo.
Rúbia levantou-se.
Foi até a janela.
A chuva havia parado.
A rua estava molhada.
As luzes dos postes refletiam no asfalto como pequenas estrelas quebradas.
Ela pensou em Renana uma última vez naquela noite.
Não com tristeza.
Com ternura.
Porque algumas pessoas não permanecem na nossa vida.
Permanecem em nós.
E isso, por mais doloroso que seja, também é uma forma de eternidade.
Naquela noite, Rúbia guardou novamente a fotografia.
Fechou a caixa.
Apagou a luz.
E antes de dormir pensou que talvez os domingos de outubro nunca deixassem de trazer Renana de volta.
Talvez nem precisassem.
Há lembranças que não querem ser esquecidas.
Querem apenas ser compreendidas.
E, depois de tantos anos, Rúbia finalmente compreendia.
Renana não havia sido o amor que ficou.
Havia sido o amor que passou.
E justamente por ter passado, havia deixado atrás de si aquilo que o tempo jamais conseguiu levar completamente.
Uma música.
Uma fotografia.
Uma danceteria.
Alguns domingos.
E a certeza estranha, quase dolorosa, de que houve uma época em que duas pessoas acreditaram, com toda a inocência do mundo, que poderiam impedir o tempo de separá-las.
Não conseguiram.
Mas, durante algum tempo, foram felizes.
E talvez seja isso que realmente importa.
Porque a felicidade não precisa durar para sempre para ter sido verdadeira.
Às vezes, basta ter existido.
E Rúbia sabia que, quando outubro voltasse novamente, em algum domingo qualquer, talvez ela ouvisse uma música antiga e se lembrasse de Renana.
Talvez sorrisse.
Talvez sentisse saudade.
Talvez olhasse pela janela.
E deixasse a lembrança passar.
Como quem abre uma porta para alguém que já foi embora.
Sem pedir que volte.
Sem perguntar por quê.
Apenas reconhecendo, em silêncio, que um dia aquela pessoa esteve ali.
E que, durante algum tempo, o mundo foi mais bonito por causa disso.
O tempo é cruel Deus é soberano Me perdoe, pai Por nunca ter dito eu o amo
Eu queria que você tivesse visto O homem que me tornei. Talvez eu nunca possa saber, Mas acho que você teria orgulho de mim.
Eu queria ter jogado futebol com você. Já adulto, vi tantos pais jogando com seus filhos E, em silêncio, imaginava que éramos nós dois, Enquanto escondia a emoção para ninguém perceber.
Hoje entendo que nunca foi sobre o jogo. Era apenas um filho, mesmo depois de adulto, Desejando ter vivido com o pai Um momento que nunca aconteceu.
Eu evitava lhe contar meus problemas, Talvez para não lhe dar mais um para carregar. Mas bastava deixar alguma coisa nas entrelinhas E você percebia o que eu tentava esconder.
Às vezes, meses depois, o telefone tocava. Você ainda estava pensando naquilo que eu havia deixado escapar. Sempre aparecia com alguma solução. É um traço seu que hoje reconheço em mim. Talvez essa fosse a sua maneira de dizer que me amava.
Nas sextas-feiras, muitas vezes falei de você. Contei aos meus alunos sobre os seus erros, Não para que pensassem menos de você, Mas para que não precisassem cometer os mesmos erros.
Falei de um homem bom, de coração bom, Que algumas vezes tomou decisões ruins. E cada vez que sua história ensinou alguém, Eu tive a certeza de que honrei a sua memória.
Demorei muitos anos para entender Que algumas coisas não precisam ser ditas para serem verdade. Talvez tenha faltado um “eu o amo” entre nós, Mas nunca faltou amor.
Hoje encontro você em algumas partes de mim, Em gestos que repito sem perceber, Na vontade de cuidar de quem está ao meu lado, Nos exageros que também herdei de você, E até nessa mania de querer encontrar uma solução para tudo.
Mas se o tempo foi cruel, O amor não terminou no adeus O que eu não pude dizer em vida, Hoje entrego nas mãos de Deus.
E se existe um lugar Onde o amor alcança quem partiu, Que você saiba, pai Seu filho sempre o amou.
Uma homenagem a Clovis Cesar Machado de Araujo Sobrinho.
Laskiaf Amortegui: quando a saudade faz morada nas paredes do tempo
Laskiaf Amortegui
As casas guardam histórias que às vezes esquecemos. A casa está vazia. Acaso a casa se foi com a mamãe?
A mamãe não sorri mais; a mamãe era o diapasão do lar.
As panelas esfriaram, o seu aroma se esfumou e a sua sinfonia desapareceu. A cozinha emudeceu. A algazarra familiar deixou de ecoar nas paredes: as crianças cresceram e se foram.
O papai deixou o ninho há muito tempo e, atrás dele, a mamãe.
A casa viveu o seu zênite junto a ela; sua alma e sua essência deixaram histórias secretas em suas paredes estéreis. A casa está triste, a mamãe não voltou. Foi-se sem bagagem nem sua bengala.
A casa sorri quando meus irmãos e eu nos aproximamos; ela se acuartela no canto do ontem, talvez procurando a mamãe, a matriarca maior.